Quem semeia ventos, colhe tempestades.
A vida não sendo propriamente um mar de rosas, temos de
contar com uma certa dose de coisas “más” ao longo do caminho, é utópico pensar
que lhes podemos escapar.
Por muito cuidadosos que sejamos, algumas caem-nos em cima, vindas
sabe-se lá de onde, não adiantando tentar criar uma redoma à nossa volta pois
quando são para acontecer, acontecem.
Outras pelo contrário são, de uma forma ou de outra, da
nossa responsabilidade, devendo-se algumas àquilo a que poderemos chamar “comportamentos
de risco”.
A adolescência costuma ser o período em que somos campeões
da modalidade, reinando um certo “je m’en foutisme” rebelde. De qualquer forma,
seja lá quando e como for, poucos serão certamente aqueles que se podem gabar
de sempre ter agido conscienciosamente e tendo em conta as potenciais
consequências nefastas dos seus actos.
Quem não guiou já com um copito a mais ou não mandou uma
pinocada desprotegida?!
Na esmagadora maioria das vezes, felizmente, safamos-nos com uma consciência pesada e a sensação de que fomos estupidamente inconscientes.
Há no entanto pessoas que parecem sentir uma atracção
irresistível por este tipo de comportamentos, adoptando-os como modo de vida,
numa de “o perigo é a minha profissão”.
Uns vivem nitidamente acima das suas possibilidades
financeiras, outros envolvem-se com pessoas casadas, alguns
praticam actividades perigosas sem tomarem as devidas precauções, outros conduzem
numa base regular num estado perto do coma etílico, etc, etc, etc...
Os que os rodeiam bem podem tentar alerta-los, chama-los à
razão, abrir-lhes os olhos para os riscos que estão a correr... que geralmente
não serve para nada. Acabam inclusivamente ás vezes por, de alguma forma, compactuar
com eles, aparando-lhes os golpes ou ajudando a “limpar” a porcaria que fazem.
Este tipo de postura pode perpetuar-se por anos e anos sem
que nada demais aconteça, criando a ilusão de que não tem qualquer problema.
Até que um dia a coisa corre mal e alguém se “magoa” à
séria...
Se há coisa importante é o factor probabilidade e, como se
costuma dizer, “tanto vai o cântaro à
fonte”...
É óbvio que alguém que, num momento de loucura, mande uma
cambalhota sem camisinha, terá muito menos hipóteses de engravidar, apanhar
Sida ou qualquer outra doença menos simpática, do que aquele que passa a vida
em one-night-stands com desconhecidos.
Outro factor de peso é a competência e empenho do anjo da
guarda que paira por cima da cabeça de cada um.
Conheci uma pessoa que guiava, numa base regular, em avançado
estado de embriaguez. Apesar de ter evidentemente espatifado um que outro
carro, nunca aconteceu nada de grave, nunca se magoou, nem magoou ninguém. Isto
durou muitos anos, não sei se continuará ainda, e o tal anjinho sempre se
mostrou absolutamente incansável. Acredito no entanto que, a certo ponto, até
eles se sintam tentados a desistir.
Quem vive na corda bamba parece ter muitas vezes a ilusão de
que as coisas são a preto e branco, de que está conscientemente a arriscar o “tudo
ou nada”.
Só para dar um exemplo, é recorrente ao falar-se com um
motard sobre os perigos de andar de moto, este afirmar que não tem medo de
morrer. Acontece que, em caso de acidente, muitos não morrem, não... ficam sem
perninhas, sem bracinhos, tetraplégicos ou transformados em couve. Ou seja, a
coisa não acaba num ponto final, em que vão desta para melhor, mas potencialmente em muitos anos de sofrimento, para si e para
os outros.
E a propósito dos outros, os comportamentos de risco não implicam
geralmente exclusivamente os próprios. Ao tentar o destino, estão muitas vezes
também a pôr em cheque os que os rodeiam, quer sejam família, amigos ou até
mesmo perfeitos desconhecidos, que podem ser levados por arrasto.
Muitas vezes não pensam nisso, acham que só eles estão em
questão e quando se dão conta de que terceiros foram lesados o peso torna-se
ainda mais difícil de suportar.
Asneiras, todos fazemos, quem nunca errou que atire a
primeira pedra.
A diferença entre o pontual pé na argola e a atitude
recorrente é que, tanto para nós próprios como para os outros, a reacção passa
do “ganda galo” para o “tava mesmo a pedi-las”... e com isso é muito mais
difícil de lidar.
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