Esta vida não é nada fácil… também ninguém nos prometeu que seria… no entanto, se nos apoiássemos uns nos outros nos momentos de crise, as coisas tornar-se-iam garantidamente muito mais suportáveis.
Descubro no entanto, com uma certa tristeza confesso, que não só não há muita gente disposta a “servir de apoio”, como muita gente simplesmente não aceita “apoiar-se”.
Assim as coisas tornam-se mesmo muito complicadas, não é fácil enfrentar o mundo sozinho.
Começando pelos primeiros…
Grande parte das pessoas que conheço dará uma moedinha ao arrumador ou fará uma contribuição para um peditório de rua. São coisas imediatas, que não requerem qualquer esforço da sua parte. No primeiro caso será inclusivamente talvez ás vezes uma atitude egoísta por não quererem arriscar-se a voltar e descobrir um risco na biatura…
Mas quando se trata de realmente estender a mão ao próximo, existe uma inércia por vezes desesperante.
Tomemos mais uma vez como exemplo o site do Liceu Francês…
Os encontros e reencontros de pessoas que frequentaram uma mesma escola são o seu objectivo principal. Mas as Social Networks são ferramentas potentíssimas, podendo servir variadíssimos propósitos.
Achei que um deles poderia ser a solidariedade, porque não?
Já proporcionámos um natal aconchegadinho a uma senhora que vendia castanhas à porta, ajudámos uma ex-aluna a ganhar um telhado, divulgámos a causa da Marta, votámos num arquitecto com projecto a concurso em Nova Iorque…
Apesar de muitos estarem para aí virados, não o estaremos garantidamente todos e, não sendo o objectivo principal da rede, sempre me recusei a enviar este tipo de apelos como comunicação para todos os membros, ferramenta que tenho ao meu dispor.
Decidi então criar um grupo, “Os Anjos da Guarda”, por forma a poder contactar com o núcleo interessado sem incomodar os outros. Enviei um único mail a avisar da existência e propósito do mesmo.
Recebi uma série de respostas “simpáticas”, como uma que rezava assim: “Para uma acção isolada desculpará que me escuse mas se pensar em algo que combata o subdesenvolvimento endémico, conte comigo.”
Yá... quando descobrir a solução para a fome no mundo eu apito, tá?!
Destes nem vale a pena falar…
A realidade é que somos 3.569 membros e estão neste momento 206 inscritos… não chega a 6% !!!
Será que se está tudo a cagar para o próximo? Duvido…
Alguns não terão recebido o mail, outros não o terão lido, uns não devem ter percebido do que se tratava dado que lêem tudo na diagonal e outros estarão para se inscrever logo que “tenham tempo”… e mais desculpas haverá. Desculpas, justificações, razões… o que lhe queiram chamar.
Sei no entanto que entre eles há muito boa gente. Sei-o, quanto mais não seja porque alguns são meus amigos, conheço-os bem, sei do que são capazes… mas não estão inscritos.
Acredito que a tal inércia de que falei de início seja a razão… A não ser que o umbigo alheio lhes entre pela vista a dentro, como se de uma lap-dance se tratasse, simplesmente não se mexem.
Descuram, a meu ver, o potencial deste tipo de atitudes para nos fazer sentir bem. Ajudar altruisticamente não traz benefícios só aos outros, gera um quentinho cá dentro.
Outros sentem-se demasiado miseráveis e eles próprios carentes de ajuda, para poder ajudar terceiros. Consideram que uma ajuda ou é “de peso” ou não vale a pena, esquecendo-se talvez de que a intenção também conta muito, de que “quem dá o que tem, a mais não é obrigado”.
A ajuda não é obrigatoriamente financeira, podemos ajudar de variadíssimas maneiras… ouvindo, confortando, doando o nosso tempo, bens que possamos dispensar… há tantas formas de ajudar. Mas mesmo no que diz respeito a guito, carcanhol, ponhé, “grão a grão enche a galinha o papo” e se muitos contribuírem com pouco rende mais do que se poucos contribuírem com muito.
Imaginem que cada membro do nosso sitezinho contribuísse com um euro… impressionante não é?!
Passando agora aos segundos…
Muitos sentem vergonha, embaraço, pelo facto de aceitar ajuda, preferem ir orgulhosamente para o buraco, “de cabeça erguida”, do que agarrar uma mão amiga. Como se dela ter necessidade fosse sinal de fraqueza. Ou talvez por não conseguirem suportar a ideia de ter uma “dívida” de gratidão.
Mais uma vez, se for uma coisa obvia, uma aflição imediata, se calhar fazem-no… durante o naufrágio o Titanic fartou-se de mandar SOS… e quem não ouviu já na rua um grito de “agarra que é ladrão…”?
Mas se se tratar de uma situação prolongada, de uma questão social, vêm ao de cima uma série de questões castradoras. As pessoas simplesmente não gostam de assumir que sozinhas será muito difícil safarem-se.
Usando mais uma vez o exemplo do nosso sitezinho, propus este ano o “Projecto Pai Natal 2009”. A ideia era ajudar alguém do site que que estivesse numa situação complicada.
Durante semanas não apareceu nenhuma causa.
Finalmente uma rapariga (uma pessoa mais ou menos da minha idade ainda é rapariga, não é?...lol) “chegou-se à frente” e apresentou-me a sua situação.
Este verão a casa dela ardeu completamente. É viúva, tem quatro filhos e ficaram todos com a roupa que tinham no corpo. Ganha cerca de mil euros por mês e não há qualquer garantia de que o seguro vá pagar seja o que for.
Mas estava com vergonha de falar, não queria dar a cara, segundo as suas próprias palavras não queria ser “a pobre desgraçada”…
Mas será que o que lhe aconteceu não foi efectivamente uma desgraça? Será que não é digna de compaixão? Alguém se julgará imune a acidentes ? É alguma vergonha?
“Pecado” seria, na minha opinião, ter uma série de gente a estender a mão e não a agarrar, virar costas ao pouco de bom que lhe apareceu pela frente nos últimos tempos. Isso sim seria uma vergonha.
Quem faz pela vida não tem de ter complexos desses. Muita gente se vê aflita devido a circunstâncias que não são da sua responsabilidade. Aceitar ou mesmo pedir ajuda é um acto de sobrevivência, demonstra força e não fraqueza. Mostra que estamos dispostos a lutar pela nossa felicidade em vez de enfiarmos a cabeça na areia como a avestruz e ficarmos a remoer com pena de nós próprios. Possibilita-nos de futuro virmos a fazer o mesmo por outros, com dignidade e conhecimento de causa.