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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Up we go...


Estou de volta, ainda “de muletas” mas com uma que outra ideia para partilhar… ;)

Não sei se há quem passe pela vida sem crises, eu tenho-as ciclicamente, tendo esta provavelmente sido a mais difícil e violenta de todas.
Apesar do sofrimento que provocam, de cada uma saí a sentir-me fortalecida e mais serena. Se calhar precisamos delas para fazermos um ponto da situação com a vida, ajustar e rectificar o que já não está a funcionar.

Peço desculpa a quem preocupei com o meu estado de espírito dos últimos tempos mas, por uma questão de auto-preservação, a partir de certa altura pareceu-me fundamental divulga-lo.
Quando alguém está fisicamente mal, quando está doente ou sofreu um acidente, os outros têm-no em conta na interacção com essa pessoa. Os males da alma não são tão evidentes mas podem ser igualmente incapacitantes.
Ao po-lo a nu estava simplesmente a tentar evitar que esperassem ou pedissem de mim coisas que não me sentia de forma alguma com forças para fazer.

Pela mesma razão, tive durante uns tempos de por muita coisa em standby.
Quando a energia é escassa temos de a reservar para o que é vital, de a poupar para tudo aquilo que não podemos deixar de fazer.
O pouco que sobra servirá para nos voltarmos a por em pé e, se desperdiçarmos forças em coisas triviais, demoraremos muito mais tempo a conseguir fazê-lo.

Conforme ia escorregando lenta mas seguramente para o fundo do poço, cometi o grave erro de menosprezar a força maléfica da menopausa.
A realidade é que, destas 34 maleitas potencialmente relacionadas, eu já me deparei com 22… ah pois… :(
Manda abaixo, acreditem, manda abaixo e de que maneira.
No que diz respeito aos factores físicos, por muito incómodos e desagradáveis que possam ser, há que ter em conta que não passam exactamente disso, de maleitas. Se pensarmos no sofrimento extremo que espreita a cada esquina, só podemos concluir que “todos os males sejam estes”…

Infelizmente, o desequilíbrio hormonal que a desgraçada provoca, tende a bloquear qualquer tipo de pensamento positivo do género. Corrói a auto-estima e a auto-confiança e transforma o mundo num local soturno e aterrador aos nossos olhos.
Ter revisto recentemente “Uma mente brilhante” ajudou-me bastante a esse respeito. Pensei que se o John Nash conseguiu dar a volta á sua esquizofrenia raios me partam se eu não consigo controlar umas reles hormonazinhas aos pulos.
Decidi assim voltar a dar uso a um órgão adormecido durante algum tempo, o cérebro.

Dei-me conta, no meio da tempestade em que tenho vivido, que todos estamos definitivamente interligados, que os seres humanos não passam no fundo de uma gigantesca teia.
O que se passa com a vida dos outros, tudo aquilo que supostamente nem sequer tem nada a ver connosco, a forma como resolvem as suas questões, as decisões que tomam, as opções que fazem, acabam na realidade muitas vezes por nos afectar sim, directa ou indirectamente, com mais ou menos intensidade, de forma positiva ou negativa.
É no entanto importante que compreendamos que não deixa por isso de se tratar da sua vida, sendo eles livres de agir como bem entenderem. Quanto a nós, resta-nos apreciar o que de bom daí advier e protegermo-nos contra o que nos possa eventualmente fazer mal.

Consegui também interiorizar que cada um tem as suas prioridades na vida.
Podemos não compreender as dos outros, não as partilhar, não as subscrever mas, concordemos ou não, não nos cabe a nós valida-las mas simplesmente respeita-las e aceita-las.
Todos vamos evoluindo e eventualmente alterando essas prioridades, o que pode potencialmente gerar uma reciclagem de relações. Não faz qualquer sentido agarrarmo-nos com unhas e dentes ao que foi, há que se adaptar ao que é.

A maior parte de nós, nasceu e cresceu num mundo aparentemente muito mais cor-de-rosa do que o actual. Infelizmente não acredito que seja uma cor que se volte a ver tão cedo…
Bem jogadinho, se o bicho homem souber fazer bem as coisas, talvez os nossos netos ou bisnetos voltem a ter vidas simples e despreocupadas.
Mas para isso não podemos nós enfiar a cabeça na areia como a avestruz, só porque estes tempos são duros de viver. Antes pelo contrário, cabe-nos ir plantando as sementes de um mundo melhor, ir tratando do jardim, mesmo se neste momento não está bonito nem de vivência agradável.

A vida não está fácil para ninguém e facilmente se entra em desespero. Sentimo-nos esmagados pelo peso dos problemas e das dificuldades. Não vemos saídas, não encontramos soluções, o futuro é um gigantesco ponto de interrogação. Tudo isto é muito assustador.
Acredito no entanto que nada de bom nos aconteça enquanto tivermos um espírito negro e negativista.
Primeiro há que levantar o astral e depois arregaçar as mangas.
E sobretudo ter sempre presente que acima das nuvens o céu está azul e o sol brilha.


PS: A Sopa faz hoje 7 aninhos… ieye…
  

COM MÚSICA
Katy Perry (wapos.ru) - Firework

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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Reaprender a andar…



Nos últimos tempos, por circunstâncias da vida diversas, tenho perdido pessoas importantes para mim, mais do que possam imaginar, e sem as quais me custa viver.
Ei de conseguir resolver internamente a questão e ultrapassar a perda. Parece no entanto que o nosso cérebro já está formatado para libertar quem morre, por aceitarmos ser o destino final da vida, mas tem bastante mais dificuldade em deixar ir quem segue um caminho diferente.
Descobri também que relações que julgava serem uma coisa afinal eram outra. Que algumas que gostaria que fossem de certa maneira dificilmente alguma vez o serão. Estou rodeada de relações familiares extremamente complicadas. A minha própria relação esteve por um fio.
Nenhuma destas situações mata mas, sobretudo em conjunto, moem muito.

Há cerca de ano e meio que deixei de fumar (não há um dia em que não me apeteça um cigarrinho) e mais ou menos seis meses que entrei na pré-menopausa.
Esta última mói-me completamente o juízo. Sinto-me, por uma ou outra razão, em permanente mau estar físico. Põe-me também as hormonas aos pulos, descompensando-me emocionalmente.
Para além disso, está a transformar numa tarefa hercúlea perder os dez quilos que ganhei quando deixei de fumar, que me incomodam por demais.

A nossa situação financeira é alarmante. Tenho conseguido aguentar as pontas mas o futuro, o mês que vem, o dia de amanhã, é uma incógnita.
Esta constante luta pela sobrevivência, o estado de alerta permanente , o gigantesco ponto de interrogação que escurece o horizonte, tudo é extremamente angustiante. Tudo está em jogo, de um dia para o outro tudo pode mudar… previsivelmente para pior.
Por outro lado, dar-me sequer ao luxo de me queixar da situação quando, mal ou bem, continuo a conseguir assegurar todos os bens essenciais para a família, até me faz sentir mal. Quando sabemos das histórias de que todos sabemos, da miséria humana que mora em cada esquina, do desespero de certas pessoas, sentimos que não temos o direito de gemer.

Last, but not least, muito daquilo em que acreditava, está actualmente a ser posto em questão. As regras, se é que ainda existem regras, estão a mudar e não estou familiarizada com elas. Os princípios segundo os quais vivia parecem já não estar em vigor, quase ninguém já os pratica. 
Não posso ser prepotente ao ponto de achar que eu estou certa e o resto do mundo está errado, não teria essa arrogância.
Não consigo no entanto deixar de acreditar que determinadas coisas, posturas, atitudes, acções, são positivas e que, se todos as adoptássemos, o mundo seria um sítio melhor.

Tudo isto (e mais alguma coisa) me desgasta enormemente. A minha auto-estima anda pelas ruas da amargura. Já nem comento a auto-confiança, abalada até aos alicerces por tanta provação
Estão a ver aquele plano comum nos filmes… de alguém que está quase a perder os sentidos por alguma razão... do ponto de vista do próprio? Aquelas imagens que começam por ficar desfocadas… depois entre cortadas por piscadelas de olho… até que desaparecem de vez, num fade-out para preto?!
É como me tenho sentido.
Isto é um sentimento muitíssimo perigoso e falo com conhecimento de causa. É imprescindível resistir-lhe. A dormência e a exaustão causadas por um excesso de pressões externas leva à tentação pelo abismo.
A depressão vem quando menos se espera e esta faz o mesmo efeito no salto da vida que um pára-quedas enrolado sobre si próprio.

Tudo tem remédio, é a primeira coisa em que acredito mas que tive de me obrigar a relembrar. Everything will be ok at the end, if it’s not ok, it’s not the end…
Assim, levemos um dia de cada vez, enfrentemos cada dificuldade conforme se nos for apresentando, passo a passo, degrau a degrau, sem olhar para o todo para não nos assustarmos.

Depois… há que reaprender a viver, tal como após uma questão física temos de reaprender a andar.
Há que rever valores e princípios, relações e hábitos de vida.
Há que analisar o mundo em que vivemos e separar o trigo do joio. Aquilo que, apesar de nos custar a habituar, até poderá ser benéfico, daquilo que acreditamos do fundo do coração estar certo e de que nos recusamos terminantemente a abdicar.
Há que por coisas em questão, sem disso fazer um bicho-de-sete-cabeças ou entrar em parafuso.
Roma e Pavia não se fizeram num dia… há que dar tempo ao tempo, ir com calma, com perseverança, com paciência.
Há que nos permitirmos demorar, fraquejar, chorar… sem por isso desistir.
Mudam-se os tempos mudam-se as vontades… parar é morrer.

O mundo está cheio de estropiados.
Esta é a minha história, são as minhas questões, cada um terá as suas.
Acredito no entanto que, a maior parte de nós, esteja a precisar de uma boa dose de adaptação, de revisão de vida.
Temos de estar conscientes que esta está nas nossas mãos, que cada um dorme na cama que faz.

Dizem-me para deixar andar, para não pensar nisso, para não me preocupar que tudo passa… mas eu não quero que passe, não quero que a vida passe por mim.
Quero vivê-la intensamente a cada momento, mesmo os menos intensos, não quero zombificar.
Para isso não posso baixar os braços. Sem stress e dando tempo ao tempo, preciso de me ir moldando aos tempos e à realidade que vivemos.







COM MÚSICA

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Estranhos tempos…



Dias complicadinhos estes, hein?!
Farto-me de pensar na má sina das crianças de hoje, que desde cedo têm de enfrentar uma realidade tão mais pesada do que a que nós vivemos.
Este mundo está um caos!!!

Mais do que financeira ou política vivemos, na minha opinião, uma gravíssima crise humana, de princípios e valores.
Sinto actualmente, socialmente falando, um grande desconforto.
Por um lado, cada vez mais sinto que não domino as regras, se é que ainda existem algumas.
Por outro, sinto o calor humano a ficar cada vez mais ténue, que nem fogueira da qual já só restam brasas.
É uma questão de tal forma generalizada, abrangendo tantos indivíduos, de todas as áreas, que se torna impossível fazer cortes” em nome da “boa onda, que é como quem diz, para fugir a isto, teria de virar eremita.

O politicamente correcto, que não passa, na minha opinião, de um medo absurdo de chamar os bois pelos nomes, transforma os homens em seres sonsos e hipócritas.
Se dantes alguns não tinham o mínimo tento na língua, o mais pequeno respeito pelo próximo, dizendo tudo o que lhes passasse pela cabeça sem pensar duas vezes, temos  hoje em dia de pensar vinte vezes antes de abrir a boca para não nos arriscarmos a ser apedrejados.
O mesmo se passa relativamente aos actos. Se antigamente era o vale tudo, vigora agora o não se pode nada. Noutros tempos os pais davam tareias de cinto ás crianças, hoje, nalguns países, arriscam-se a ficar sem elas se lhes derem uma palmada no rabo.
Passou-se no fundo do oito ao oitenta, de um extremo para o outro, sem passar pelo bom senso.

Os extremismos fazem-se aliás sentir em todos os campos, a moderação não estando nitidamente na ordem do dia. Religião, política, ecologia, sexualidade, são estandartes que se empunham cegamente. As pessoas vestem-lhes as camisolas, de cores de tal forma berrantes, que se torna impossível ver para além delas.
Reinam a intolerância, a intransigência, o fundamentalismo, a ideia de que quem não está connosco está contra nós. Comer um bife ou fumar um cigarro ao ar livre podendo hoje em dia ser considerados actos de agressão.

Os novos canais de comunicação ajudam enormemente este abraçar de causas, de ideias, de ideologias, está ali tudo à mão, à distância de um clic. Tornam muito fácil e acessível a qualquer um a divulgação de tudo e mais alguma coisa. Pena é que haja sempre tanta distância entre a teoria e a prática, que tenhamos entrado nesta era do falar muito e não fazer nada, que no fundo de tão pouco serve. Vivemos tempos de extremo individualismo em que as boas intenções raramente passam disso mesmo.

Assistimos a uma total desresponsabilização do indivíduo. Se fez algum “mal” a culpa é dos pais, da escola, do sistema, dos traumas, do tempo… dele não será certamente. Todos os comportamentos aberrantes são etiquetados de algum nome pomposo e ai de quem lhes aponte o dedo pois são “doença”.
Desapareceram as normas de conduta sólidas e fiáveis para distinção do bem e do mal, do justo e do injusto, as pessoas andam baralhadas, confundidas, perturbadas.
Os pais desresponsabilizam-se do papel de educadores, de guias, de exemplo. Não querem fazer o inevitável papel de “maus da fita”, não querem que o pouco tempo que passam com os filhos seja a implicar com eles. Mais assustador ainda, muitos deles nem saberão provavelmente sequer como fazer, o que dizer, como os dirigir e em que sentido, sentindo-se eles próprios completamente perdidos.

O resultado de tudo isto são homens e mulheres cada vez mais virados para o seu próprio umbigo, que se estão cada vez mais a cagar para o próximo, senão na teoria pelo menos na prática.

Pessoalmente ressinto-me de tal forma deste estado das coisas que frequentemente considero “go with the flow”, desistir de lutar por tudo aquilo que considero correcto e/ou desejável.
É tão difícil e cansativo remar contra a maré…
Felizmente, de cada vez que isso acontece alguém, directa ou indirectamente, me põe na ordem, relembrando que se há coisa que não podemos fazer é baixar os braços e encolher os ombros.
Aqueles que acreditam que, por baixo de toda esta fuligem negra que nos envolve, há ainda esperança para o género humano, para a “humanidade”, têm a obrigação de lutar com todos os meios à sua disposição para que esta vingue.

Se deixarmos de tentar “ser a mudança que queremos ver no mundo” não podemos esperar que ela aconteça.




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The Doors - Strange days

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terça-feira, 2 de julho de 2013

Partir em paz.



Ao fim de cerca de um ano de luta, mais uma jovem perdeu a guerra contra o cancro…
É das tais notícias que não gostamos de receber.
Não a conhecia pessoalmente, só aos irmãos mais velhos, que quem me informou disse estarem destroçados, outra coisa não sendo de esperar.

Dirigi-me ao velório, como a tantos outros antes, com um grande aperto no coração, sobretudo tratando-se de uma família tão próxima do mesmo.
Preparei-me para enfrentar um ambiente pesado, angustiante.

Surpreendentemente não foi com o que me deparei.
Havia muita dor, muita tristeza, sim, mas acima de tudo senti no ar uma coisa de que não estava  de todo à espera: paz.
Estamos a falar de uma mulher com menos de quarenta anos, casada, com dois filhos pequenos, ao que tudo indica realizada e feliz. Estamos a falar, referindo-me só a quem conheço, de dois irmãos mais velhos, protectores e amigos da mana caçulinha.
Dramático é um adjectivo que me vem imediatamente à cabeça.

Ao falar com eles percebi o que se tinha passado e voltei para casa com um imenso sentimento de admiração por aquela família .
Aparentemente ela mostrou-se corajosa e lutadora durante todo o percurso. Enfrentou as provações com optimismo e força, esperando pelo melhor e preparando-se para o pior. Foi-se sem aparente mágoa ou revolta.
Ao fazê-lo, ao demonstrar que aceitava serenamente o seu destino, transmitia o mesmo sentimento a quem estava à sua volta. Ajudando-os assim, ainda em vida, a encetar o caminho que os levará a superar a sua perda.

Parece-me no entanto aqui bastante evidente a questão “ovo ou galinha”…
Ninguém, julgo eu, consegue atingir esta paz de espírito se não tiver uma estrutura de ferro à sua volta. A doença debilita e a ideia do que possa vir a acontecer só pode assustar, não são propriamente fontes de força e segurança. Sem apoio, tanto físico em termos de infra-estrutura e logística, como psicológico e emocional, tenho as minhas dúvidas que alguém se aguente.

Tive assim uma lição de vida, uma demonstração do poder do amor e bom senso conjugados.
Aqueles dois irmãos não me pareceram destroçados, não. Pareceram-me serenos e com força para enfrentar a vida que os espera sem ela. Pareceram-me felizes de a ter visto partir assim, em vez de gesticular e bater com os pés. Senti neles, em ambos, a sensação de terem feito tudo o que esteve ao seu alcance para lhe minimizar o sofrimento e ajudar a enfrentar a situação em todos os passos do caminho.
Senti sobretudo, relativamente a todas estas pessoas, que tinham pacificamente aceite a morte como parte integrante da vida.

Desejo-lhes que logo que possível a dor abrande o seu jugo para poderem mais levemente continuar os seus caminhos.


Carpe Diem

COM MÚSICA
Eric Clapton - Tears in Heaven

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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Um pedacinho de paraíso.



Apesar de o nosso pai já ter morrido há muitos anos, só agora distribuímos a herança.
Palavra que desperta o nosso imaginário infantil, fazendo-nos pensar em Ferraris, mansões, diamantes e Picassos.
A maior parte delas não são no entanto tão exuberantes… ;)
Por muito que não tenha sido propriamente um euromilhões, a minha permitiu-me no entanto fazer uma coisa que não fazia há muitos anos: respirar.

Comecei por reabilitar uma casa a dar já nítidos sinais de decadência, concertando ou substituindo tudo o que estava a “rebentar pelas costuras”, num que outro caso em sentido próprio.
Decidimos fazer uma viagem para lavar a alma pois há anos que não saíamos deste nosso jardim à beira mar plantado.
O que sobrou, ditava a prudência que o pusesse de lado para poder continuar a dormir com alguma tranquilidade.

Acontece que estamos a falar da matéria que o meu pai nos deixou aqui na terra… esbanja-la toda em coisas tão efémeras e no fundo insignificantes, confesso que me estava a fazer alguma confusão.
Decidi então criar algo de mais duradoiro, de mais sólido, algo que de certa forma o trouxesse mim quando me lembrasse que era graças a ele que o tinha.

Quando saímos de casa por algum tempo costumamos deixar fechados os estores, mergulhando-a em escuridão. Deixamos as plantas numa “marquise” que é praticamente o único sítio que fica com luz.
No verão passado tínhamos mais do que é habitual e quando as lá fui depositar fiquei maravilhada com o ambiente naquele mar de verde.
Nesse momento, que nem Andie MacDowell no Green Card, decidi que um dia haveria de ter uma estufa, nem que para isso tivesse de me casar com um francês narigudo…
A herança permitiu-me assim escapar a esse terrível destino. ;)

Entre a ideia e a sua concretização surgiram evidentemente muitas dúvidas. Não é propriamente como se o dinheiro não nos fizesse falta. Não é no entanto também como se nos fosse salvar o coiro.
Soubera eu o que estava a gerar que não teria tido um único segundo de hesitação, o nosso Jardim de Inverno tendo aumentado em mil por cento a minha qualidade de vida.

A nossa zona é extremamente ventosa, poucos são os dias que dão para realmente curtir o espaço exterior. Assim, o nosso pequeno jardim acabava por servir mais de papel de parede (ao qual é necessário cortar a relva e apanhar as ervas daninhas, ainda por cima) do que de real espaço de lazer.
Ao fazer uma estrutura em vidro à frente da sala, ficámos com uma antecâmara para o mesmo, passando assim a poder goza-lo sempre que há um raio de sol, verão ou inverno.

Este pequeno espaço paradisíaco é uma verdadeira ode aos sentidos. O ambiente feérico que proporciona a luz filtrada pelo verde das plantas, o cheiro a terra húmida e a jasmim de madrugada, o burburinho da água  no minúsculo lago ou os pássaros a cantar, tudo leva a um estado de paz e profundo bem-estar.

Quer seja durante o dia a ler um livro na rede ou a tricotar na espreguiçadeira, ou de noite, a beber um copo á luz das velas tremelicantes e aromáticas, sinto-me sempre bem. Almoçamos lá, jantamos lá, tomamos lá o pequeno almoço. Sempre que posso refugio-me lá, aproveitando cada minuto, cada segundo, cada intervalo.
Sozinha ou acompanhada, em família ou entre amigos, o ambiente é sempre mágico. Parece que aquele Oasis, como lhe chamaram, transmite boas vibrações.
Cinco minutos lá dentro (ou será que deveria dizer lá fora?!) e fico outra, regenerada, carregada de energia positiva, de serenidade, de paz de espírito.

Férias de sonho, destinos paradisíacos?!
Sim… mas passa tão rápido e sentimo-nos tão de passagem…
Este meu capricho (?!) fez com que o sítio onde me apetece mais estar de férias é mesmo em casa. Este sitio idílico tem o que nenhum resort de luxo em Bora Bora alguma vez terá, tem um pedaço de mim.

Podia ter este dinheirinho no banco para aconchegar os fins de mês?! Podia sim senhores. Era mais feliz se o tivesse lá? Duvido… duvido muito.

Carpe Diem


Obrigada, pai!!! :)

COM MUSICA
Enya - Amarantine

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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Kékeu le digo?!





Por muito defensora da “verdade acima de tudo” que seja, também eu evidentemente pratico pontualmente, como julgo que todos nós, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “white lies”.
Estas são geralmente pequenas mentiras piedosas, destinadas a poupar os sentimentos alheios.
Ás vezes nem chegam a ser tecnicamente mentiras mas mais uma ocultação de parte da verdade.

Este tipo de mentiras, ou de “meias verdades” se preferirem, pode inclusivamente provocar uma espécie de efeito placebo em certos casos.
Se uma amiga à dieta nos perguntar toda contente o que achamos da roupa que acabou de comprar, dizer-lhe que parece uma vaca, mesmo que seja o que nos passa pela cabeça, não me parece que vá propriamente estimular a sua auto-estima. Se quisermos realmente apoia-la, será muito mais eficaz ocultar a nossa opinião negativa, dizendo por exemplo que já se começa a notar o esforço. O mais provável é que uma que outra grama a mais já tenha efectivamente desaparecido de qualquer maneira. ;)

Reparo no entanto que as pequenas mentiras, na maior parte das vezes inconsequentes, são incrivelmente naturais para muita gente.
Frequentemente, quando me deparo com alguma situação embaraçosa, delicada, chata, difícil de lidar, alguém sugere “diz que”…
Uma amiga faz anos e escolheu um restaurante demasiado caro para o meu bolso: diz que já tinhas outra coisa marcada.
Esqueci-me de responder a um mail: diz que não o recebeste.
Não me apetece aderir a um programa qualquer: diz que não te estás a sentir bem.
Etc, etc, etc…

Uma mentira raramente vem só, na maior parte das vezes implica outra e mais outra para justificar as anteriores, ás tantas dificilmente se lhes conseguindo manter o rasto. Invariavelmente alguma incoerência acaba por surgir na história denunciando o aldrabão.
Se o aldrabado for um desconhecido poderemos simplesmente passar por desonestos. Se for alguém mais próximo, bem… como se costuma dizer “a confiança é como o papel, uma vez amachucado…”

Contas feitas, na esmagadora maioria das vezes a situação ficaria muito melhor resolvida enfrentando o touro pelos cornos.
Imaginemos, por exemplo, que inventámos uma qualquer desculpa para não comer algo que nos serviram e que não apreciamos. O mais provável é que, cedo ou tarde, a questão se apresente de novo. Não seria muito mais inteligente e proveitoso por logo as coisas em pratos limpos?! (salve seja)

O que tem mais piada é que, embora as pessoas com esse hábito normalmente não se dêem conta disso, as mentiras inventadas não são geralmente nem mais nobres, nem mais validas ou compreensíveis do que a realidade das coisas e, se expostas, não contribuem em nada para a nossa credibilidade e fiabilidade.

Posicionarmo-nos como seres humanos falíveis, com fraquezas, peculiaridades, manias, pode não ser evidente. 
Chego no entanto cada vez mais à conclusão de que  rectidão, transparência, e  humildade nos facilitam imensamente a vida e que estas não são compatíveis com aldrabices, sejam elas pequenas ou grandes.



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Fleetwood Mac - Tell Me Lies

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terça-feira, 28 de maio de 2013

Não me quites, pá…



Recentemente, ao navegar à deriva pela net, dei de caras com a clássica notícia do cão que se deixa morrer em cima da campa do dono e, claro está, os típicos comentários de uma série de gente a enaltecer a atitude.
Pessoalmente, sempre me fizeram muita confusão as posturas do tipo “se não te puder ter mato-te /morro”… ser dependente de alguém ao ponto da própria vida deixar de fazer sentido é uma coisa que me ultrapassa completamente.

Mas não precisando de ir tão longe, muitos parecem efectivamente confundir dependência com prova de amor.
Se consigo compreender e aceitar um romantismo exacerbado como movimento artístico este já não faz para mim qualquer sentido na vida real.

Exemplificando, há tempos fomos para fora uns dias e tive de arranjar quem ficasse com a nossa cãzinha.
Isto ainda não tinha acontecido, dado que raramente saímos de casa mais do que algumas  horas e que das poucas vezes em que o fizemos a pudemos sempre levar connosco.
Não sabendo como iria reagir, sendo uma criaturinha tão meiga e agarrada a nós, preveni a tia a quem a deixei relativamente à possibilidade de uma certa “neura”.
No meu regresso e para minha grande satisfação deparei-me com uma realidade bem diferente, basicamente esteve-se bem nas tintas para a minha partida.

E porque fiquei eu contente com isso, perguntar-me-ão vocês…
Ora bem, para começar, não a abandonei, não a deixei num canil duvidoso, como disse deixei-a com uma tia, pessoa da maior confiança, com anos de experiência e grande amor pelos animais. Sabia que iria simultaneamente ser bem tratada, com respeito pelas minhas instruções, e mimada até mais não.
Recebo por outro lado diariamente provas do seu afecto por mim, da sua devoção, da sua lealdade.
Que ganhava alguma de nós com a sua aflição, com a sua tristeza, com o seu desespero?!
Há cães que nestas situações deixam de comer, ficam deitados à porta à espera do regresso do dono, etc… era o que temia que acontecesse.
O facto de ter ficado como se em casa estivesse, encheu-me de alegria e paz de alma pois fiquei a saber que se alguma coisa me acontecer ela conseguirá ser feliz de outra forma.
Isso não me tira bocado, não faz com que goste menos de mim. Quando cheguei fez-me uma enorme “festa” não deixando qualquer dúvida de que estava radiante por me ver e voltar para casa.

Falo em cães mas com as pessoas passa-se o mesmo.
Pessoalmente não quero que ninguém precise de mim para viver. Quero que gostem de mim, que me dêem valor, que me queiram por perto mas que continuem a ser felizes se alguma vez lhes faltar. Quero ser uma escolha e não uma fatalidade.

Não me parece de todo saudável a exaltação do sofrimento, aquele espírito do fado que enobrece a dor, a desgraça, ninguém nasceu para sofrer. A ideia não é carpir as mágoas mas seguir em frente, continuando a fazer pela vida e pela felicidade. A ideia não é estar com alguém porque dela se depende mas porque é isso que queremos fazer.

Na canção que escolhi para este post, que por sinal adoro, a certa altura Brel diz:
Laisse-moi devenir / Deixa-me tornar-me
L´ombre de ton ombre / A sombra da tua sombra
L´ombre de ta main / A sombra da tua mão
L´ombre de ton chien / A sombra do teu cão


Eu cá não quero ser a sombra de ninguém, não gosto de sombras, gosto de luz, de muita luz, de sol, de calor… ;)


COM MÚSICA

sexta-feira, 17 de maio de 2013

No fundo, andam os submarinos…




Já todos ouvimos certamente dizer de alguém que “tem bom fundo”  ou que “ele/ela no fundo é boa pessoa” … vem geralmente antecedido por um “sim, mas…”.
O que isto quer dizer é que, embora a pessoa em questão se comporte geralmente como uma besta, tem na realidade bom âmago, bom coração.

A questão é que isso não chega, de todo.
Para se ser efectivamente boa pessoa não basta sê-lo “no fundo”, é preciso pô-lo cá para fora, pôr em pratica as boas acções que esse “fundo” nos sugere, agir em conforme, passar da teoria à prática.

Que importa que alguém divulgue boas causas se nelas não participar de alguma forma ele próprio? Que importa que se emocione com histórias comoventes se não se comover com os sentimentos daqueles a quem supostamente quer bem? Que importa que afirme amar do fundo do coração, se não tiver respeito ou consideração pelo ser amado? Que importa que apregoe ideias nobres se não as conseguir seguir?

Ser boa pessoa não se limita à capacidade de sentir, de sofrer, de amar, de se emocionar. Os fdp também têm sentimentos, são até capazes de sentir empatia ou compaixão. Não fazem é nada a esse respeito.
Não se limita também a compreender e transmitir teorias da vida, bons princípios, é preciso agir em conforme. Não chega ter discernimento para atingir o que é moralmente certo ou errado, é preciso escolher a opção correcta e viver em conforme. Não se pode ter uma bitola para os outros e outra para nós próprios.

Ninguém é sempre “bom”, nem sempre “mau”… somos humanos, logo falíveis.
Ninguém consegue ser totalmente coerente, embora seja uma coisa a almejar, é sem dúvida uma utopia.
Mas, os “bons fundos” só servem para baralhar, para confundir, para iludir, para que os outros ajam como se estivessem efectivamente a lidar com “boas pessoas”. No entanto, entre a teoria e a prática, entre as intenções e a concretização, vai um mundo, e sensibilidade não é de todo sinónimo de bondade.

Uma coisa é certa, o que fica no fundo, o que não sobe à superfície, não nos serve de nada.
De boas intenções está o inferno cheio.


COM MÚSICA

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Ensinemo-los a pescar…



Ser mãe (ou pai) é uma responsabilidade tremenda, uma tarefa que não deveria de forma alguma, na minha opinião (lol), ser encarada de ânimo leve.
Criar um filho, prepara-lo para a vida, requer muito mais do que alimenta-lo, mantê-lo saudável e manda-lo para a escola, educa-los é imprescindível.

Educar não é fácil e ser educado também não, é no entanto extremamente importante para que consigamos viver em sociedade, as regras aprendem-se. Infelizmente parece que muitos lhe atribuem cada vez menos importância descartando-se, por razões várias, dessa “obrigação” parental.

Li uma vez algures que, se não nos odiarem um pouco de vez em quando, não estaremos a fazer as coisas como deve de ser e parece-me bem verdade.
Muitos pais tentam ser amiguinhos dos filhos, buddy buddys, mas não é esse o nosso papel e, se for o que desempenhamos, outro faltará na vida deles.

Costuma-se referir às crianças como sendo “anjinhos” mas  a realidade é que, na sua maioria, parecem antes estafermos cruéis e impiedosos que, se lhes for dada rédea solta, se transformarão rapidamente em monstrinhos insuportáveis.

Cabe-nos ensiná-los, desde pequeninos, a gerir e controlar as suas emoções, conhecer limites, enfrentar as contrariedades, lidar com a frustração, assumir responsabilidades, esforçarem-se pelo que desejam, adquirir noções de justiça, etc, etc, etc…

Assim, temos de ser porto seguro, pilares da sua segurança e estabilidade emocional mas também juízes e carrascos quando necessário. Têm de compreender que o amor pode ser incondicional mas os benefícios não o são. Têm de aprender a assumir as consequências dos seus actos e fazer por merecer o que de bom recebem da vida.

Amor é uma coisa, passividade e permissividade são outra, que garantidamente não os ajudam.
Muitas vezes somos tentados a deixar passar certas coisas em prol de um bem estar imediato mas iremos quase sempre paga-lo bem caro mais tarde e o pior é que eles também.

Não há receitas milagrosas, não há livros de instruções, educar não é de forma alguma uma ciência exacta e todos sem excepção cometem erros. Cada caso é um caso e cada criança é única, felizmente muitos caminhos vão dar a Roma… Grave não é meter a pata na poça de vez em quando, grave é ficar de braços cruzados.

Finalmente ter filhos é, sem sombra de dúvida, uma grande aventura.
No entanto, se compreendermos que não é possível ensinar sem dar o exemplo, acaba por ser também uma grande ajuda pessoal, obrigando-nos a rectificar aquilo que não nos agrada em nós próprios. ;) 






COM MÚSICA


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Cuidar




No outro dia, quando estava a tratar do micro-laguinho que construí para poder ter nenúfares, peixes e barulhinho de água corrente, dei por mim a pensar que passo a vida a arranjar sarna para me coçar.

A partir do momento em que tive a minha própria casa, “vinguei-me” do facto da minha mãe não ser grande apreciadora de bichos, povoando-a dos mesmos de tal forma que, ao fim de uns tempos, demorava mais de uma hora por dia a tratar deles. Ia dando em doida… lol
Com a experiência fui aprendendo a gerir melhor o equilíbrio entre trabalheira e gozo e a evitar as relações de alta manutenção e retorno dúbio.

Quando se fala em animais, plantas, ás vezes até em crianças, muita gente refere que “dão muito trabalho”. É verdade que dão…
Cada vez mais me convenço no entanto que esse “trabalho” é não só o que nos liga intimamente a eles, como um requisito essencial para os conseguirmos verdadeiramente apreciar.
Quem cuida envolve-se.

Há quem não goste de se envolver, quem seja desprendido, independente, quem não tolere amarras, preferindo a liberdade de movimentos, a leveza de não ter responsabilidades deste tipo.
É verdade que o hábito, o gosto de cuidar, nos sujeita frequentemente a uma que outra dor de cabeça ou preocupação. É verdade que às vezes nos prende, pesa e limita. Para além disso nem sempre implica tarefas fáceis ou especialmente agradáveis.

Cuidar é no entanto oferecer parte de nós, partilhar o nosso ser e como tal usufruir do que nos rodeia de uma forma muito mais completa, mais rica, mais intensa. Cuidar é estar atento, criar laços, alimentar relações, envolver-se profundamente com o mundo à nossa volta. Cuidar é preocupar-se, no bom sentido da palavra, com aquilo ou aqueles que nos rodeiam e fazer o que estiver ao nosso alcance pelo seu bem-estar.

Julgo que dificilmente uma mãe conseguirá ter uma relação muito forte ou próxima com o filho se este for criado por uma ama, sendo com esta que ele tenderá a criar a sua relação afectiva privilegiada. Para gerar afecto, amor, envolvimento emocional, é preciso que haja partilha, contacto, entrega, não bastam laços de sangue e tomadas de decisão.
Da mesma forma, apesar de não haver retorno activo da parte das plantas (lol) não acredito, por exemplo, que quem tem jardineiro consiga dar tanto valor ao seu jardim como quem trate dele com as suas próprias mãos. Quem rega, aduba, corta, poda, planta, acaba por senti-lo, tanto quanto o vê, é uma relação que ultrapassa de longe o aspecto estético.  

Passo, gasto, sem dúvida, muito do meu tempo a cuidar de pessoas, animais e plantas… acredito no entanto que sem isso não seria garantidamente a mesma, nem apreciaria a vida de forma tão profunda e intensa.


COM MÚSICA

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

E se um desconhecido lhe oferecer flores…


COM MÚSICA



Li recentemente o livro do Salvador Mendes de Almeida, Ser feliz Assim.
Dizer que este homem não teve (tem) uma vida fácil será no mínimo um understatement.
No entanto olhem para ele, para a sua atitude perante a vida, a sua postura, os seus feitos, o seu sorriso…
E mencionar este último fez-me pensar noutro grande homem, de sorriso encantador, que muitos devem também já conhecer, Nick Vujicic.
Se eles, com todas as suas dificuldades e limitações, podem ser felizes, porque não o conseguiríamos nós?!

A mim, pessoalmente, as suas histórias inspiram-me de forma inacreditável. Quando descubro um destes seres de energia positiva superior, investigo-o até à medula. Leio/vejo/oiço tudo o que têm para nos dizer, para nos transmitir, devoro as suas palavras, delicio-me com o brilho dos seus olhares. Vão-se acumulando as suas experiências no meu subconsciente, para ressurgirem quando menos espero, para me dar força para alguma coisa que me está a custar.

Para vos dar um exemplo de uma forma curiosa destas coisas me ajudarem:
Não há nada a fazer, vou alegremente a caminho do meio século, já experimentei um pouco de tudo, do mergulho á escalada, do motocross à vela, do ski aos patins em linha, da yoga ao paraquedismo, não é portanto por falta de tentar, e não há nenhum tipo de exercício físico que me proporcione verdadeiro prazer…
( ...isso não conta, you perverts!!! )
A realidade é que, para mim, o desporto favorito é espojar-me no sofá e duvido que alguma vez isso vá mudar. Cada um é como cada qual, prefiro exercitar as células cinzentas, prontes…
Infelizmente, estas últimas obrigam-me a “mexer o rabo” porque é importante para a saúde e consequentemente para a nossa felicidade. 
Como gostaria de ter vivido numa época em que os seres humanos ainda não tinham consciência deste facto [suspiro].
Recomecei portanto recentemente, depois de um intervalo de uns anos, a fazer ginástica. E como estou também a precisar de me livrar de oito quilos de “já não fumo”, fui para uma ginástica da pesada (a turma deve ter uma idade média de 65 anos… a maioria já deve ter direito a redução no preço). Ok, falando sério, custa-me para caramba…
Li então o livro do Salvador. E, desde então, deixei de me atribuir o direito de me queixar por poder mexer-me como mexo e ter o privilégio de me conseguir exercitar sem precisar de ajuda externa. Acabou, sou um homenzinho agora, fico ali de bofes de fora mas agora já sem lamentações.
É uma coisa pequenina?! 
Pois é… mas a vida é feita de mais coisas pequeninas do que grandes, e grão a grão enche a galinha o papo.

Dito isto, os dois homens que mencionei, para além de uma força e alegria de viver extraordinárias, têm em comum a vontade, ousaria quase dizer necessidade, de usar a sua experiência pessoal para ajudar os outros. E muitos outros haverá por aí, felizmente, a fazer o mesmo trabalho, cada um(a) com a sua história de vida, com as suas questões pessoais, partilhando a sua força de viver com os que dela precisam.
Fazem missão da sua vida melhorar a de perfeitos desconhecidos.
Perante as suas histórias podemos concluir que com o mal dos outros posso eu bem ou aceitar as flores que nos oferecem.

E aceita-las, conseguir aprecia-las, quer dizer compreender e aceitar com serenidade que sozinhos não vamos a lado nenhum, que temos de nos amparar mutuamente, quer física quer emocionalmente, para conseguirmos ser felizes. 
O Nick Vujicic (raios que este homem tem um apelido impronunciável!!! Irra) tem um texto muito giro sobre esta ideia. Nós, os comuns dos mortais, que enfrentamos o dia a dia sem dificuldades de maior, olhamos para estes “monstros sagrados” como nossa inspiração. A realidade é que também eles têm os seus exemplos inspiradores, todos temos, perto ou longe.

Isto é um círculo vicioso, o que “custa” é começar a olhar para os outros com olhos de ver. Separar o trigo do joio e perceber quais é que se nos apresentam como efectivamente felizes, realizados, seja qual fôr a sua condição. A partir daí começamos a sorver a sua experiência para nos ajudar com a nossa. E se esta nos chegar oferecida com todo o prazer, amor e carinho, mais eficaz será ainda.

Se todos partilharmos esta atitude, então meus amigos, the sky is the limit, não há nada que o ser humano não consiga. ;)






terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Borboletas e calhaus

COM MÚSICA




Cada um de nós tem a sua sensibilidade, a vários níveis.
Tenho-me no entanto dado conta que, tanto física como emocionalmente, quase que dava para encaixar a generalidade dos seres humanos (e não só) nas categorias de borboleta ou calhau.

Eu, por exemplo, sou definitivamente um calhau… lol

Fisicamente, não suporto que me aflorem… aquelas festinhas ao de leve nas costas ou um beijo de raspão, fazem-me amarinhar pelas paredes acima, tipo choque eléctrico e fico (em sentido próprio) cheia de comichões.
Comigo, se é para tocar, é para tocar á séria, com força e determinação. E não estou só a referir-me àquilo em que as mentes porcas já estão a pensar… ;)
Tenho um tio que no lugar das mãozinhas tem tenazes, sem noção da força que tem… quando estamos juntos até tremo de o ir cumprimentar pois já sei que vou ficar com o braço a latejar, de tal forma mo costuma apertar. Prefiro no entanto mil vezes isso àquelas pessoas que dão apertos de mão como se se estivessem a derreter, por exemplo…

A certa altura vieram cá para casa duas gatas, duas irmãs da mesma ninhada. Desde o dia em que chegaram ficou muito claro que eram totalmente diferentes.
Uma era calhau, como eu, gostava que lhe arranhasse literalmente o lombo, punha-se de costas ao meu colo para que lhe massajasse a barriga, roçava os cantos da boca com força nas minhas mãos.
A outra, mal se lhe podia tocar. Apesar de afectuosa, odiava que se lhe pegasse ao colo, os carinhos tinham de ser feitos ao de leve, de mão aberta, no sentido do pelo, senão ia-se logo embora.
Com as pessoas passa-se o mesmo.

Emocionalmente sou igualzinha, se é para mexer é “à homem”… lol
Já aqui mencionei mais do que uma vez, julgo eu, que quando o meu pai morreu foi o melhor amigo dele que mo anunciou. Ligou-me e, sem papas na língua, disse-me: “o teu velho apagou-se.” A alguns soará provavelmente brutal, insensível, esta forma de apresentar a questão. Para mim valeu ouro. Ninguém quer ouvir uma coisa destas, seja lá de que forma for, mas tinha sido para mim muito mais penoso com floreados.

O que foi aliás o caso com o meu irmão, que nos costuma fazer pet-sitting nas férias e tem sempre o galo de acontecer alguma coisa.
Estávamos nós a passar a ponte para seguir para Porto Covo quando me ligou:
- Olhaaa, não tenho boas notícias…
- Então?!
- Foi a Kitty…
- Então, o que aconteceu?
- Não está bem…
- Conta.
- Cheguei a casa e estava à porta…
- Mas está ferida?
- Sim.
- Mas está viva?!
- Não
&;%$###%##!!!!!
Já se passaram largos anos e ainda hoje gozamos com o assunto… Só me fez pensar na anedota do subiu ao telhado… 

Cada um tende a tratar os outros da forma como gosta que o tratem…
No entanto, quer pertençamos a um tipo ou ao outro, com todos os graus de cinzento possíveis, há que ter a noção de que nem todos somos iguais.
Só assim poderemos adaptar a nossa atitude à sensibilidade alheia. 
Vai sem dizer que esta postura tem de funcionar nos dois sentidos.

Todos teremos, mais ou menos conscientemente, uma linha para além da qual, em cada um dos extremos, não achamos as coisas “normais”. Nesses casos ás vezes não há grande coisa a fazer, grande adaptação possível.
Diz-se que todos os homens têm um lado feminino e vice-versa. Neste caso todos os calhaus têm o seu lado borboleta e todas as borboletas um lado calhau, é o limite até onde estamos dispostos a ir.

Eu, por exemplo, não consigo ver  atractivos no sadomasoquismo e não considero qualquer hipótese de compromisso nesse sentido. Por outro lado, não tenho grande tolerância para malta “não me toques que me desafinas” a quem não se pode dizer nada que não magoe ou ofenda.

Assim, as relações humanas passam por compreendermos o que podemos/devemos, dizer/fazer, como, a quem.
Curiosamente, ou talvez não, observo que as pessoas com o mesmo tipo de sensibilidade tendem a entender-se muito melhor.




PS: Este vai dedicado aos meus amigos que, agora por ocasião dos meus anos, provaram conseguir aturar com muito amor e paciência a minha calhausice… ;)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Para os mais novos…

COM MÚSICA




Contrariamente ás expectativas, fui-me dando conta aos poucos de que não eram só cotas como eu que por cá passavam de vez em quando… esta sopa tem um que outro “cliente” (lol) francamente mais novo, muitooo mais novo…
É bom de saber.
Obrigada a eles por me darem a honra de me ler. ;)

É um clássico aquela sensação que a malta mais velha tem de não ser ouvida pelos mais novos… Gostaríamos de lhes poder transmitir a nossa experiência, para que pudessem atalhar caminho para a felicidade.
Infelizmente não há atalhos na vida, temos de passar pessoalmente pelas coisas para conseguirmos tirar as nossas próprias conclusões.

Pus-me no entanto a pensar que por alguma razão estes meninos cá vêm. Não sendo este um blog de piadinhas ou de tecnologia, de moda ou de seja lá o que for que está neste momento IN no seio da juventud, só pode ser porque até gramam de pensar um bocadinho de vez em quando.
Então tomem lá, para irem reflectindo sobre o assunto… ;)

Não levem á letra a frase do cabeçalho… esqueçam, não se safam sem a tralha que vos obrigam a engolir na escola e afins. Sem matéria prima, a mente não se consegue desenvolver, não desprezem a tal aprendizagem dos factos.
Mas… sem a mínima sombra de dúvida que, mais importante que qualquer outra coisa, é treinarem as vossas mentes para pensar.

Já me perguntaram mais do que uma vez, em tom de crítica e desafio, claro está, como é que eu podia ter tanta certeza de estar certa.
Ora bem, não tenho… não há certezas de coisa nenhuma, começa logo por aí.
Balde de água fria, eu sei… sorry, sei que estão numa idade em que sabem tudo, são detentores da verdade absoluta… mas esqueçam, não há certezas na vida, não deve haver, não é producente que haja…
Assim, abram sempre o vosso espírito, a vossa mente, para a possibilidade de poderem estar errados e aceitem que vos lo provem. 

E o que é certo ou errado, perguntam vocês…
Depende.

Em termos de caminhos, de escolhas, de opções de vida, é uma coisa que na minha opinião não existe. Não há caminhos certos, nem errados, há o caminho de cada um. Podemos viver de variadíssimas formas e nenhuma é mais válida do que outra, desde que gere felicidade e não faça mal a ninguém.

O que nos leva ao outro tipo de certo e errado…
Todos aceitamos que matar, roubar, violar, etc… é errado, certo?! (ou errado?! lol)
Mas estes são comportamentos extremos, com a possibilidade dos quais não nos deparamos geralmente no nosso dia a dia.
Acontece que há muitoooo mais comportamentos, alguns mais insignificantes, menos óbvios, que também podem estar certos ou errados e fazem parte da nossa vida de todos os dias.

E quanto a estes, ninguém vos vai dar um livro de instruções, lamento.
Os chamados educadores podem dar-vos bases de referência (alguns nem isso fazem) mas vão ter de se desembrulhar sozinhos. Vão ter de chegar às vossas próprias conclusões, através da vossa experiência pessoal e, lá está, da vossa capacidade de pensar.

Há quem pape o que lhe enfiam pela goela abaixo. Quem se conforme com o que lhe vendem ao longo da vida como estando correcto.
Não vão nessa conversa, por favor, a cabeça é para ser usada, não é para usar chapéu.
Não papem o que vos quiserem impingir sem o porem em questão se vos cheirar a esturro.

Lembrem-se que até as próprias sociedades estão sempre a evoluir e a questionar coisas que eram no passado dados adquiridos. Já foi OK, escravizar outros seres humanos. Já foi OK, as mulheres não poderem votar. Já foram OK muitas coisas que hoje em dia nem nos passaria pela cabeça fazer ou apoiar.

Sejam verdadeiros com vocês próprios e com os outros.
Ajam coerentemente, segundo as vossas próprias convicções, mantendo a porta aberta para outras ideias.
Mas não desistam para agradar, não desistam para evitar conflitos, não abram mão daquilo em que realmente acreditam por nada deste mundo… a não ser, evidentemente, que tenham efectivamente mudado de opinião.
A isso chama-se evoluir e não ceder.

Construam um futuro melhor, mais genuíno, mais verdadeiro, mais justo, mais estruturado para a vossa geração, que o mundo neste momento, mês riques filhes, está uma bela trampa em termos humanos.

Vá, força e coragem, malta!!! ;)




PS: Dedico este post ao “jovem adulto” ( gramasteis do "jovem adulto", J.?! ) que mo inspirou, ao ter transformado noutra coisa a suástica que tinha desenhado nos jeans, por me provar que os gajos afinal ás vezes até nos ouvem e tudo. ;)
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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Xô, bajaaa!

COM MÚSICA




("Xô, bajaaa!" era o que o meu filho nos ouvia dizer aos gatos e passou assim a adoptar quando o chateavam…)

Há algum tempo acusaram-me de ser intolerante, o que muito me inquietou na altura…
Para mim, a intolerância, a intolerância do dicionário, é uma coisa muito negativa e que eu não queria de forma alguma ser.
Descobri no entanto que sou intolerante sim… mas mais no sentido alimentar da coisa… sou intolerante à má onda!!!

As alergias são uma coisa diferente…
Sou alérgica por exemplo a gente cretina, provoca-me reacções imediatas e viscerais. Sou alérgica a variadíssimos comportamentos aos quais reajo imediatamente, por vezes de forma violenta, talvez até violentamente demais, confesso.
Eu e o meu mau feitio

As intolerâncias são “[...]desenvolvidas por um organismo saturado pelo consumo frequente e excessivo de determinados alimentos [...]”, que é como quem diz, vão-nos envenenando devagarinho sem sequer darmos por ela.
Assim, tal como algumas pessoas cortam determinados alimentos da sua dieta, por chegarem à conclusão que lhes fazem mal, eu tenho cortado pessoas.

Ai que radical e coiso e tal e que ainda acabas sozinha e não sei que mais…
Pois que não me parece que acabe.
A questão aqui tem mais uma vez a ver com o tempo… com o tempo útil de cada um de nós… com a gestão de qualidade desse tempo.
Ora expliquem-me lá, se este já escasseia, se já me vejo aflita para lá encaixar tudo o que quero e gosto de fazer, para estar com as pessoas que me são queridas, com quem quero partilha-lo, por que raio é que haveria de o fazer com malta que só me deixa mal disposta, hein?!

Claro que antes de chegar à conclusão de que esta postura era, para mim, absolutamente ok, pensei muito sobre o assunto e analisei os casos de solidão que conheço, percorrendo mentalmente o percurso humano que fizeram.
E sabem a que conclusão cheguei?!
Que a maior parte dessas pessoas talvez seja efectivamente intolerante, sim, mas no primeiro sentido que mencionei. Cada vez foram tendo menos pachorra para mais coisas. Não têm skills sociais, indo reduzindo aos poucos o seu leque de relações.
Eu não faço nada disso, não me isolo, simplesmente discrimino... lol
Continuo a adorar conhecer gente, introduzi-la na minha vida, acarinhar aqueles que me tratam bem, com quem me sinto bem.

Dir-me-ão que nem tudo são rosas, senhor
Pois com certeza que não.
Com quem mantemos por perto, temos pegas, temos zangas, amuos, mal entendidos.
Algumas das pessoas que me rodeiam têm características que muito me irritam ou vão contra os meus princípios, assim como será certamente o caso em sentido contrário.
A questão, como sempre, é o equilíbrio…

Os confrontos, os problemas, não me assustam, não me afastam…
A forma como se lida com eles já o poderá fazer.
Há  pessoas que parecem só viver bem em conflito, arranjando questões e casos. Alguns esperam tudo dos outros mas não estão nem aí para dar. Há malta que quando lhes damos a mão para tentar puxa-la para cima fazem rabo pesado e puxam-nos para baixo.
Enfim, podia estar aqui a noite toda a tentar descrever aquilo que pessoalmente considero má onda mas não me parece valer a pena, todos compreenderão certamente o conceito.
Basicamente são pessoas com quem os relacionamentos trazem muita dor de cabeça e terrivelmente pouco, quando nenhum, prazer.

Com esses, neste momento, não me interessa se são família ou amigos,  não alimento qualquer tipo de relacionamento voluntário.
Atenção, também não assumo posturas de “é ele/a ou eu”, não acho correcto colocar os outros nesse tipo de situação. Cada um atura o que bem entender.
Como sou uma pessoa educada, cumprimento-os, serei até capaz de manter uma eventual conversa trivial.
Mas não contem comigo para fazer qualquer tipo de esforço, antes pelo contrário, no sentido de manter um convívio minimamente regular.

Acredito, cada vez mais, do fundo do meu ser, que o fel de certos indivíduos é venenoso e nos pode fazer muito mal. A felicidade dá muito trabalhinho, não é coisa fácil de gerir, não é preciso arranjarmos sarna para nos coçarmos.

Assim, neste momento, já só invisto mesmo naqueles a quem de vez em quando me apetece dizer “gosto mesmo de ti, que bem que me sinto contigo”. ;)









terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As moscas do tempo gostam de uma seta

COM MÚSICA





 “Time flies like an arrow”, na versão original. ;)

O tempo não se consegue parar, não se consegue amealhar, não se consegue multiplicar… é um bem escasso e valioso, que convém gerir com o máximo cuidado.

Ouvimos com cada vez mais frequência a afirmação “não tenho tempo”… a realidade é que o dia sempre teve 24h e a semana 7 dias, nós é que cada vez mais tentamos meter o Rossio na Rua da Betesga. Ás vezes, ao ouvir os planos de alguém  para o dia ou para a semana, pergunto-me se não terão mesmo a noção de que, ainda que tudo corresse sobre rodinhas, sem imprevistos nem atrasos, seria impossível encaixar tudo naquela porção de tempo. 
Dei-me assim conta que, curiosamente, muita gente não tem realmente consciência de que se fizer A não poderá fazer B e de que é na pratica uma escolha totalmente sua. O tempo não sendo elástico há portanto que, como em tantas outras coisas na vida, de fazer opções.

Podemos e devemos gerir o nosso tempo exactamente como o fazemos com o nosso dinheiro, por exemplo.  Parte dele teremos normalmente de “gastar” em obrigações, tarefas, responsabilidades e compromissos que vamos assumindo. Do que sobrar, muito ou pouco, poderemos dispor.
Só que, se em relação ao dinheiro as pessoas têm geralmente a consciência de que é finito, de que se o gastarem num lado não terão para gastar noutro, etc… relativamente ao tempo alguns parecem julgar que é um saco sem fundo e admirar-se depois por afinal não conseguirem fazer tudo o que queriam.

“Gosto imenso de ler mas não tenho tempo” costumava eu dizer… no entanto, depois de ver a primeira época da série, entusiasmei-me com a Guerra dos Tronos e li tudo de enfiada (cerca de quatro mil e tal páginas) em poucos meses.
Como?! Vi menos filmes e series, passei menos tempo na net, joguei menos, sei lá eu…
Já noutra escala, “nem para os meus filhos tenho tempo”, ouvi eu recentemente… Como é que alguém pode achar que não tem tempo para os filhos é uma coisa que me ultrapassa, mas se calhar sou eu, que sou uma mãe galinha. Facto é que, se o tempo que lhes poderiam efectivamente dedicar for aplicado noutra coisa qualquer, não sobra efectivamente para eles.
É tudo uma questão de prioridades.

Consciente ou inconscientemente, acabamos por arranjar tempo para aquilo a que damos realmente valor e o resto é conversa. Claro que também se pode dar o caso de sermos péssimos gestores e não termos noção do que é realmente importante para nós na vida… ;)
Assim, muitíssimo mais do que nos damos conta, aquilo em que utilizamos o nosso tempo acaba não só por nos definir como por ditar o rumo da nossa existência.

O problema é que, vá-se lá saber porquê, não temos normalmente esta visão sobre o assunto. Não temos a noção de que estamos de facto a fazer escolhas de vida, a definir caminhos.
E às vezes acordamos um dia e damo-nos conta de que, sem saber como nem porquê, perdemos coisas que realizamos fazerem-nos realmente falta.
Na maior parte das vezes essas “coisas” são na realidade pessoas, relações.

Tal como o dinheiro o tempo também pode ser desperdiçado, a questão é o que isto quer dizer para cada um de nós…
Assim, tal como relativamente a tantas outras coisas, chegamos a outra questão importante; a partilha. Podemos partilhar o nosso tempo com terceiros, gasta-lo directa ou indirectamente com os outros ou usa-lo para nosso exclusivo proveito.

Actualmente muitas pessoas dedicam alguns minutos (quando não são horas) do seu dia a passear pelo facebook mas não perdem uns segundos para responder a uma mensagem. São extremamente insistentes e persistentes quando querem alguma coisa dos outros mas não têm tempo para responder se forem estes a tentar contacta-los. Há quem tenha tempo para ver a telenovela mas não para ler uma história ao filho à hora de dormir. Quem vá regularmente ao cabeleireiro mas não arranje disponibilidade para ir visitar a avó ao lar. Enfim...


“Diz-me o que fazes com o teu tempo, dir-te-ei quem és”  - Seria também um bom ditado.
E se não tivermos tempo a perder com as relações humanas, se não o investirmos nelas, se não o passarmos com, disponibilizarmos para, de alguma forma, aqueles que são importantes para nós, um dia poderemos não o receber de volta.

What goes around, comes around