Mostrar mensagens com a etiqueta Descobrindo a polvora. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Descobrindo a polvora. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Botão de Onofre

Pouquíssimas são as coisas que suscitam em mim sentimentos de inveja, uma delas sendo a natureza completamente cool de certas pessoas.
O meu filhote, por exemplo, é assim. Leva a vida saltando levemente de nenúfar em nenúfar, calmamente, descontraidamente, nada parecendo afecta-lo de sobremaneira.

Já eu, sou um caso completamente diferente. Não faço ideia se estas características já virão com o ADN ou se serão fruto das experiências de cada um mas a realidade é que sempre vivi em sobressalto.
Ansiedade is my midle name.

Tenho naturalmente oscilações de intensidade mas, desde que me lembro, que vivo em constante luta contra a desgraçada.
Exceptuando ali à roda dos meus vinte anos, em que passei por um período de ataques de pânico (experiência que não desejo ao pior inimigo), nunca me impediu de levar uma vida  normal.
Viver regularmente com um nó no estômago não é no entanto propriamente agradável.

A dependência, de seja o que for, sendo uma ideia que sempre me assustou, nunca me deu para me virar para fármacos e afins.
A minha luta tem portanto sido essencialmente cerebral e, confesso, até à data bastante inglória.
Não é no entanto o facto de andar a perder batalhas há cinquenta anos que me esmorece os ânimos e não tenho intenções de baixar os braços e dar-me por vencida.

Recentemente e pela primeira vez, parece que estou a levar a melhor. É ainda cedo para o afirmar categoricamente mas julgo ter arranjado forma de calar a desgraçada, quanto mais não seja em grande parte dos casos.
Tenho esperanças de, com o tempo e a prática, conseguir finalmente ganhar esta malfadada guerra.

O meu cérebro é, simultaneamente, a minha melhor ferramenta e o meu maior handicap.
É ele que uso para manter as emoções à rédea curta, para aprender, para alinhavar estratégias, para controlar e dirigir a minha vida.
Só que o desgraçado parece ter vida própria e atazana-me mesmo quando não lhe peço nada, às vezes até durante o sono. É um bocado como um smartphone com montes de Apps a correr em background, permanentemente a gastar energia e recursos.

Pessoalmente, não são tanto as preocupações que me atormentam, embora pontualmente as tenha, como qualquer pessoa. Consigo já no entanto dar-lhes relativamente bem a volta com alguma facilidade.
O estar permanentemente a tentar “resolver” situações é que me provoca nitidamente essa tal sensação de ansiedade.

Resolvi assim, tal como o faço com o telefone, ir fechando as aplicações que não estou a usar. Ou seja, não me permito divagar, ocupar a minha mente com questões que não tenha efectivamente pela frente.
Quando é para lidar com alguma coisa, arregaço as mangas e vamos a isso. Situações hipotéticas ou relativamente às quais não há nada que possa fazer no momento, ponho-as de lado até eventualmente serem efectivamente uma realidade.

Se vos dissesse que é fácil ou que sempre o consigo fazer, estaria a mentir. São muitos anos de cérebro a funcionar em permanência, a varrer hipóteses, a jogar xadrez, a fazer filmes… a verdade é que cada vez vai custando menos.






COM MÚSICA

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Don’t worry, be happy



Há pessoas que são naturalmente “cool”, que parecem saltar levemente de nenúfar em nenúfar, sem aparentemente se preocuparem com grande coisa. Confesso que tenho uma certa inveja, a maior parte de nós tende a preocupar-se com alguma regularidade.
Preocupamo-nos connosco e com os outros, com o mundo que nos rodeia e com o estado do mundo em geral, com questões de dinheiro, de trabalho, de saúde, de relacionamentos… motivos para preocupação geralmente não faltam.

Esta não passa no fundo de uma espécie de medo, preocuparmo-nos com algo é temer um potencial desfecho negativo da questão.
Consome-nos, gera angústia, ansiedade, mau estar, sofremos por antecipação, frequentemente com coisas que nem sequer chegam a acontecer. Como se costuma dizer “até ao lavar dos cestos é vindima” e quantas vezes as situações não têm desfechos bem diferentes dos previstos.

Por outro lado, dá ideia que as pessoas acham que preocuparem-se é sinónimo de gostar,  demonstrar empatia, interesse pelos outros ou pelas situações. Como se o facto de sofrermos, só por si, mudasse alguma coisa, como se fosse de alguma forma ajudar.
A realidade é que, relativamente a grande parte das coisas que normalmente nos preocupam, não há geralmente grande coisa que possamos fazer.

Não deveríamos deixar que as preocupações passassem de sinais de alerta, sendo rapidamente descartadas.
Das duas uma, ou está ao nosso alcance fazer alguma coisa, em cujo caso devemos arregaçar as mangas cruzando os dedos para que corra tudo bem, ou foge completamente ao nosso controle e a nossa preocupação não servirá absolutamente para nada.
Basta pensarmos para concluirmos que preocuparmo-nos é das ocupações da mente mais inúteis e contraproducentes.

Tal como tantas outras coisas na vida, é sem dúvida muito mais fácil dizer do que fazer.
Não só consideramos as preocupações naturais, estando completamente habituados a tê-las e a que os outros as tenham à nossa volta como, se não a demonstrarmos perante determinadas situações, seremos considerados insensíveis, inconscientes, etc…

Sou pessoalmente uma pessoa tendencialmente preocupada sofrendo imenso com isso.
Sou, felizmente, por outro lado, extremamente aberta à lógica e à razão, acreditando que está nas nossas mãos mudar, até o que “sempre foi assim”, e que o devemos fazer ao longo de toda a vida, por forma a ir ganhando cada vez mais serenidade e paz de espírito.

Quando me apercebi que as preocupações nos tiram qualidade de vida, em troca de absolutamente nada, comecei uma árdua campanha. A luta não tem sido fácil mas tenho ganho várias batalhas e tenho fé de poder ganhar a guerra.
Que nem testemunhas de Jeová, continuam a bater-me à porta, como sempre fizeram, mas agora já aprendi que é ok dizer não, que não preciso de as ouvir, de lhes prestar atenção, de gastar com elas o meu precioso tempo.

Comecei por tentar banir a palavra do meu vocabulário, é um truque que uso frequentemente como guia para aquilo em que acredito. Fiz o mesmo com as palavras “sempre” e “nunca”, por exemplo, ou com a afirmação “tens que…”. Se modelarmos o nosso discurso estaremos simultaneamente a moldar a nossa mente.

Funciona igualmente bem substituir “preocupação” por “miúfa” ou equivalente... lol ... é muito mais nobre, muito mais digno, estar-se preocupado do que completamente acagaçado, ninguém gosta de se assumir como mariquinhas, para além de que põe logo as coisas em perspectiva.

Depois, quando alguma preocupação me assalta, tento sempre compreender se está nas minhas mãos fazer alguma coisa.
Como em tudo, o grande desafio está na “sabedoria para perceber a diferença”.
Se chego à conclusão que não, compenetro-me de que  o meu sofrimento não servindo qualquer propósito o melhor mesmo é po-lo para trás das costas.
Senão, meto mãos à obra, “esperando o melhor e preparando-me para o pior”.

A questão do tempo é também essencial, a maior parte das coisas não se resolvendo do pé para a mão, estando sujeitas a timings e compassos de espera.
Há assim que viver o aqui e agora, tirar folga do que nos preocupa e respirar fundo. Mudar a cabeça para outro lado, naqueles momentos em que não há nada a fazer, por forma a poupar forças.

Preocuparmo-nos com dinheiro não nos torna ricos, preocuparmo-nos com a saúde não nos torna saudáveis… só infelizes.
Don’t worry, be happy! ;)

COM MÚSICA

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Brasas e sardinhas


Teoricamente, quando há mal-entendidos, desentendimentos, atritos, entre as pessoas e estas falam entre si sobre o assunto, o objectivo é tentar resolver as questões.
Não só nem sempre é o caso como inclusivamente, às vezes, ainda acaba por piorar as situações.

Pormo-nos à defesa é um instinto natural. Se nos sentimos atacados, agredidos, a tendência é sempre de puxarmos a brasa à nossa sardinha.
Ao fazê-lo, dificilmente teremos no entanto em consideração o ponto de vista do outro, transformando-se frequentemente um diálogo em dois monólogos.

Por outro lado, muitos achando que a melhor defesa é o ataque, não é invulgar que respondam a críticas ou acusações com outras de volta, transformando assim a conversa num concurso para averiguar quem tem mais defeitos ou culpas no cartório.

Um dos erros crassos que cometemos é assumir coisas.
Estamos habituados a fazer deduções no seguimento da análise dos factos. Raramente nos perguntamos no entanto se estaremos efectivamente em posse de todos os dados.

Para podermos compreender uma atitude precisamos de saber o que a motivou, sendo de uma enorme presunção partirmos do princípio que, somando dois e dois, lá conseguimos sempre chegar sozinhos.

Por outro lado, o hábito de auto-análise não sendo propriamente comum, as pessoas muito mais facilmente apontam o dedo ao próximo do que se perguntam se elas próprias terão agido correctamente.

Se em vez de cada um puxar a brasa à sua sardinha as pusermos todas na mesma grelha e as assarmos em conjunto, teremos garantidamente resultados muito mais gratificantes.

Tenho assim vindo a chegar à conclusão que, bastante mais importante do que afirmar, é perguntar, o que cumpre mais do que um propósito.
Primeiro, demonstra que estamos interessados em compreender o outro lado, o que já de si denota de pré-disposição para a concórdia. Depois, ajuda ambas as partes a compreender melhor as situações.

Ao pedirmos a alguém que nos explique alguma coisa, ou inclusivamente que sugira soluções, estamos simultaneamente a obriga-lo a realmente pensar sobre o assunto.
Para que consiga fazê-lo, terá de ganhar algum recuo, de se desprender um pouco de eventuais factores emocionais.
Isto irá permitir que ele próprio clarifique a sua postura e até eventualmente a passe a ver com outros olhos.

Se for caso de assumir ou partilhar “culpas”, estará assim muito mais inclinado a fazê-lo do que se tiver sido “encostado à parede”.
Se, por outro lado, chegar à conclusão que continua a achar que tem razão, mais fácilmente nos conseguirá transmitir porquê.

It’s a win, win, situation… ;)



COM MÚSICA

segunda-feira, 30 de março de 2015

O passado não existe



As circunstâncias da vida fazem com que as pessoas que nos rodeiam vão variando. Aproximamo-nos de umas, afastamo-nos de outras, o núcleo duro vai mudando. Sejam amores, familiares ou amigos, as caras que aparecem nas fotos, ao longo dos anos, vão sendo diferentes.
Presenças constantes em determinados períodos transformam-se, por razões diversas, em ausências absolutas e, tal como relativamente a tantas outras coisas na vida, frequentemente só à posteriori realmente compreendemos a sua importância aos nossos olhos. Assim, tanto nos podemos dar conta que na realidade não nos fazem grande falta, como sentirmos uma enorme dificuldade em "let go".

Quando retiram alguma coisa de dentro de nós, os orgãos reorganisam-se, ocupando o lugar agora vazio. Seria a meu ver expectável que o mesmo acontecesse com as pessoas. 
Relativamente a algumas perdura no entanto a presença da sua ausência. Como dizia o Brassens "... jamais au grand jamais, son trou dans l'eau ne se refermait..." 
Perdi, há uns anos, uma destas pessoas. 

Há amigos e Amigos e este pertencia, no meu coração, à segunda categoria, mantendo até hoje uma sensação de amputação emocional.
Tantas vezes me tenho perguntado como será possível que aquilo que tínhamos tenha desaparecido, até que recentemente me assaltou a ideia de que tudo pudesse não ter acontecido a não ser na minha cabeça. 
Não os factos propriamente ditos, que ainda não estou louca, mas os laços que julgava unirem-nos.

Não sei se será efectivamente o caso mas, a empatia que nos ligava, a percepção e aceitação do outro tal como era, a cumplicidade e o companheirismo, o apoio mútuo, etc, podem na realidade não ter passado de frutos da minha imaginação.
Tenho-me perguntado repetidamente como é que alguém muda tanto em tão pouco tempo, calhando não estou a fazer a pergunta certa. 
E se não tiver mudado, se sempre tiver sido como é hoje?! 

As relações humanas são fruto das circunstâncias e feitas de acções e reacções, todas elas sujeitas a interpretação. E se a minha estivesse errada?!
É, sem dúvida,  muito mais fácil pensar que as coisas tenham mudado, do que considerar a hipótese de nunca terem na realidade existido, pelo menos tal como as encarávamos na altura.
Cada um acredita naquilo em que quer acreditar e vive em conforme. Não existe uma realidade, existem várias, uma para cada um de nós.

O Jack Nicholson descobriu, já perto dos quarenta anos, que aquela que julgava ser sua mãe era na realidade a sua avó, sendo mãe aquela que julgava ser sua irmã. Apesar de ser esta a sua relação parental com estas duas senhoras, durante mais de metade da sua vida, para ele foi outra.
A ideia aqui não é discutir o impacto que este facto possa ter tido ou deixado de ter na sua vida mas aperceber-mo-nos de que o presente alterou o passado. Quando pensar "mãe" já não vai ver a mesma cara.

Todos teremos certamente a experiência de partilhar memórias com outra(s) pessoa(s) e chegarmos à conclusão que não são as mesmas, apesar de terem sido vividas em conjunto. 
A percepção do passado é diferente de indivíduo para indivíduo. Isto não se deve  exclusivamente á distância temporal e dissipar da memória, cada um de nós vive as coisas à sua maneira.

Chego assim à conclusão que o passado não existe.
Julgamos ser ponto assente porque ficou para trás, porque efectivamente já é "passado", como se por isso não pudesse ser re-escrito. 
Existem sem dúvida cronologias, acontecimentos e factos, mas a sua percepção sob outra luz pode ser diferente,  alterando-se assim o passado no futuro.

Não vem mais vinho para esta mesa... lol

 COM MÚSICA

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O primeiro a sair


Em tempos que já lá vão, numas férias em grupo, como o são geralmente as nossas, deu-nos para irmos sempre todos ao estacionamento, despedir-nos de lencinho branco de quem estava de partida…
Numa das vezes, estávamos ali todos alinhadinhos abanando os lenços, a ver a miúda de abalada meter consecutivamente a primeira e a marcha atrás, a marcha atrás e a primeira, só me fazendo lembrar a anedocta “Ó Benardooo, o menino ou entra ou sai, mas pare com esse vaivém ridículooo…”
Deixei assim escapar entre dentes um “Chiça, como a gaja guia mal…” ao que sugeriram que esperasse que chegasse pelo menos lá acima ao portão, antes de lhe começar a cortar na casaca…

Isto, no nosso grupo, é o pão nosso de cada dia de cada vez que alguém vira costas, por isso é que ninguém quer ser o primeiro a sair. lol

Lembro-me de outra ocasião, numa passagem de ano bem condimentada, em que uma amiga já acelerada se virou para outro comentando “Ai João Nunooo, a tua camisola… a tua camisolaaa…” – “Oquê que tem a minha camisola?!” – “É horríííveeel!!!”

A diferença entre estas duas situações é que uma das coisas foi dita “na cara” enquanto que a outra foi dita “pelas costas”… nenhuma delas tem obviamente qualquer importância.

Nós fartamo-nos de falar uns dos outros, de criticar, de cagar sentenças sobre o que nos parece bem e o que nos parece mal, de gozar com as idiossincrasias de cada um, etc …
E você, que me está a ler, a não ser que seja marciano, também o faz.
Uns mais, outros menos, mas todos o fazemos, é natural.

Fazê-lo sem a presença do próprio parece no entanto, á primeira vista, um bocado traiçoeiro, desleal… mas será realmente assim?!
Na minha opinião, não obrigatoriamente.

Deixando de parte a fofoca , a maledicência nua e crua ou mesmo nalguns casos mais extremos a calúnia… que mal tem falarmos dos outros?!
A realidade é que, ninguém sendo perfeito, todos temos alguma coisa a “apontar” a terceiros e não vejo qualquer razão para que o tenhamos de fazer “para dentro”.
Partilha-lo tão facilmente nos trás algum gozo trocista, como eventualmente outro ponto de vista sobre a questão.

Pessoalmente, não só sei perfeitamente que falam de mim “nas minhas costas” como até imagino muito bem o que possam dizer… que tenho a mania que sou boa, que tenho um feitio de merda, que fervo em pouca água, que às vezes sou bruta como o raio, que sou maníaca com a organização… etc.
A questão é que é mesmo assim, têm toda a razão, estou bem consciente da maior parte dos meus defeitos, das minhas fraquezas, e todos os dias tento melhorar. Isto não quer dizer que me fosse agradável passar a vida a ouvir dizê-lo.

Na minha opinião, podemos pensar o que bem entendermos sobre os outros, sobre a sua vida, as suas escolhas, as suas atitudes… podemos partilha-lo com terceiros, discuti-lo, critica-lo… no entanto, perante os próprios, só devemos abrir a boca com diplomacia e se acharmos que isso possa ajudar.

Todos temos bugs, fragilidades, incapacidades, defeitos… assim como pontos fortes e qualidades. Acabamos no fundo por ser a soma das nossas características positivas e negativas, o importante sendo o balanço.  
Quanto mais não seja intuitivamente, os outros compreendem e aceitam isso. Por isso falam nas nossas costas, cada vez mais chego à conclusão que, na maior parte dos casos, não é desleal coisa nenhuma, antes pelo contrário, é para nos pouparem.

Ás vezes, temos vontade de dizer umas “verdades”. De vez em quando, o que fazem, o que dizem, o que são, dói-nos de tal forma que nos sentimos impelidos a abrir a boca e deixar sair o que nos vai na alma.
Quanto a mim, sobretudo se gostarmos realmente do indivíduo em questão, devemos tentar resistir ao impulso. Há coisas que as pessoas simplesmente não podem, não conseguem mudar e atira-las à sua cara servirá exclusivamente para as magoar, não para as corrigir.

Nem todas as “verdades” são para ser ditas… pelo menos ao próprio, claro está. lol






COM MÚSICA

terça-feira, 18 de março de 2014

Aceitar a mudança



Aspiro a ter serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso e sabedoria para perceber a diferença...

A parte frequentemente mais difícil de concretizar na afirmação acima é sem dúvida a última. Sendo, no meu entender, por causa dela que muitos têm dificuldade em compreender o significado da primeira.
Dado que considero esta máxima uma das descobertas mais importantes da minha vida, que mudou radicalmente desde que comecei a tentar pô-la em prática, recorrentemente a menciono.

É comum haver quem comenta que há coisas que simplesmente não se podem aceitar.
Fazem-no como quem diz que não podemos concordar com elas, apoia-las ou conformar-nos. Como se a sua revolta, o seu desgosto, a sua raiva fossem mudar alguma coisa.
Em teoria, todos sabemos que há coisas relativamente ás quais não há nada que possamos fazer. Na pratica continuamos muitas vezes na ilusão de que, se não as aceitarmos, isso irá fazer alguma diferença.
É no entanto tão ridículo como dizer que não podemos aceitar a morte de alguém.

Ultimamente, para conseguir dar a volta por cima à minha vida, tenho matutado muito. Tenho-me trabalhado para conseguir adaptar-me  a várias realidades que me estavam a empecilhar a felicidade. 
Há alturas em que sentimos necessidade de fazer pontos da situação, é natural.
Não sendo eremita, parte desse trabalho diz respeito à minha relação com os outros, evidentemente.

Mais uma vez, em teoria, todos sabemos que cada um de nós está em permanente evolução e mudança. Mudamos porque queremos, porque decidimos que é melhor para nós, por sermos influenciados pelos outros, pela experiência de vida.
Na pratica temos no entanto ás vezes dificuldade em aceitar as mudanças dos outros, sobretudo quando não vão ao encontro das nossas.

As mudanças são geralmente progressivas mas muitas vezes bastante radicais. Se estivermos próximos da pessoa em questão podemos não dar realmente por elas, da mesma forma que não damos pelo crescimento dos nossos filhos. Depois, um dia, as calças já não servem, têm uma mão travessa a menos e perguntamo-nos como puderam crescer tanto de um dia para o outro.

Muitos são aqueles que, ao longo da vida, se transformam em pessoas totalmente diferentes. 
Se essas mudanças são para melhor ou para pior, é subjectivo e cada um julgará por si. Importante mesmo sendo, no fundo, como se sente o indivíduo em questão.
O mesmo irá acontecer com a sua relação com os outros que se irá inevitavelmente alterar.

Quando um casal se separa poderá ou não continuar a manter uma relação. Ou seja, o tipo de relacionamento entre essas duas pessoas ou se transforma ou acaba.
Acaba quando não se consegue aceitar, lidar, conviver, com a nova situação. Quando não acaba, aquilo em que se torna não tem nada a ver com aquilo que era.
Curiosamente, parecemos ter mais dificuldade em primeiro compreender e depois lidar com transformações noutro tipo de relações, nomeadamente de amizade. O apego a momentos, partilhas, cumplicidades aparentemente perdidos para sempre, fazendo com que surja uma sensação de perda irreversível.

Quando as relações são decididamente incomportáveis para nós o melhor é sem dúvida, na minha opinião, o corte radical. No momento em que compreendemos que uma situação não trás nada de positivo, insistir ou é cobardia ou teimosia.
Mas desistir, com mágoa, de algo que pode ainda dar sumo é sem dúvida desperdício.

Quando deixamos de lutar contra o que não está nas nossas mãos mudar e conseguirmos aceitar o possível em vez de ambicionarmos pelo desejável, temos mais disponibilidade mental e energia para aproveitar tudo o que estiver efectivamente ao nosso alcance.
As pessoas mudam, os sentimentos mudam, as coisas mudam... mas se dermos valor ao que temos, em vez de chorarmos pelo que tivemos ou poderíamos ter, poderão até surgir agradáveis surpresas na descoberta de novas formas de relacionamento.



COM MUSICA
Keane - Everybody's Changing

Powered by mp3soup.net

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Quanto mais conheço os homens...


“Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais.”
Por muito que adore os últimos, não consigo subscrever esta afirmação.
A relação com os bichos é sem dúvida mais simples, mais fácil de compreender, mais fácil de gerir. A relação com os homens é no entanto, a meu ver, muito mais rica e vale a pena o esforço.

Uma das coisas de que me apercebi nos últimos tempos, foi da sua real importância na minha vida.
Na fase “da caverna”, por que passei recentemente, senti necessidade de me afastar um pouco de tudo e de todos, de me virar mais para mim própria, de forma a recuperar coesão interior.
Quando comecei a sair dela dei-me conta da enorme falta que me tinha feito o calor humano.

Em tempos “acusaram-me” de ter medo de “ficar sozinha”. É bem verdade, não fora a parte do medo, não quero de forma alguma sentir-me só. Quero manter à minha volta uma rede de amor e carinho, de companheirismo, de partilha de vida, pois é uma enorme fonte de energia positiva.
Não tenho no entanto qualquer medo, pois se há coisa que podemos controlar na vida é a nossa relação com os outros.
Não quer isto dizer que esteja exclusivamente nas nossas mãos manter esta ou aquela pessoa ao nosso lado, há sempre quem nos escape por entre os dedos. É no entanto a nós que cabe gerir as relações humanas em geral e compreender o que delas esperamos.

Dei-me conta, ao fim de quase meio século, de que tinha uma ideia romântica e utópica sobre este assunto. Compreendi que acreditava que as coisas funcionavam só por querermos muito que assim fosse, que julgava que as relações se mantinham só por as pessoas gostarem umas das outras.

Descobri agora, num daqueles clics que se dão de vez em quando, que há muitíssimas mais “gradações de cor” nos seres humanos do que parece à primeira vista.
Há diferenças físicas que saltam à vista, é baixo, é magro, é ruivo, é preto… já outras poderão ser menos evidentes, é daltónico, é canhoto, é diabético.
O mesmo se passa com o “ser interior” de cada um, suspeito que com maior diversidade ainda, dado que intelecto e emotividade são mundos vastíssimos.

Retomando brevemente a ideia com a qual iniciei este post, chego hoje em dia tristemente à conclusão de que há, efectivamente, gente que “não presta”.
Não presta, no sentido em que passa por este mundo e, quando o abandona, faz falta a muito pouca gente. São pessoas com quem o contacto raramente traz algo de positivo, de construtivo, de significativo. É uma pena, mas ninguém pode nada por elas, cada um faz a cama em que se deita.

Dito isto, as relações humanas sendo tão preciosas, não são no entanto fáceis, não senhores, e a tal diversidade não ajuda. Sendo que, curiosamente, parecemos ter mais facilidade não só em identificar, como em aceitar e respeitar as diferenças físicas.
Se na juventude, sendo uma fase de experimentação, “tudo o que vem à rede, é peixe”, a partir de certa altura, tendemos a procurar desenvolver relacionamentos com quem tenha minimamente a ver connosco, o mesmo tipo de postura na vida, de forma a facilitar a harmonia, evitar conflitos e trocar energias positivas.

A questão é que cada ser humano é a soma de uma multitude de pequenas e grandes características em permanente mutação. Assim, as diferenças acabam frequentemente, mais cedo ou mais tarde, por gerar dificuldades de relacionamento.
Ou seja, antiguidade, proximidade, intimidade, não são de forma alguma garantia de sucesso numa relação.

Para conseguirmos manter relacionamentos saudáveis temos de começar por justamente aceitar e respeitar as diferenças.
Por ter a humildade de compreender que a “nossa maneira” não é “a única maneira” de ver e viver a vida.
Temos tendência a julgar os outros pela nossa bitola mas, se pensarmos bem, isso é de uma prepotência incrível, como se nos considerássemos um instrumento de medida infalível.
Na realidade talvez não devamos sequer julgar, mas simplesmente compreender se nos interessa confraternizar com essas diferenças.

Gostos em comum, ideias partilhadas, hábitos semelhantes, capacidades equivalentes, não fazem seres humanos iguais. Há uma quantidade infinita de diferenças entre nós, e ainda bem porque é preciso gente para tudo.
O que me parece realmente importante, aquilo que faz com que valha a pena investirmos numa relação, é que as pessoas se sintam bem umas com as outras, ao perto ou à distância, durante mais ou menos tempo, com maior ou menor frequência.

Pouca coisa chega aos calcanhares de uma boa relação com um bom ser humano.



COM MÚSICA

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Quanto mais sei mais sei que nada sou



Quando somos pequeninos julgamo-nos o centro do universo.
Bem, alguns continuam a julga-lo ao longo da vida, mas esses vá lá alguém desengana-los. ; )
Enfim… conforme vamos crescendo vamos levando umas porradas da vida, que é para nos por no nosso lugar. Lugar esse que ambicionamos no entanto que seja de relevo. Quem não gostaria de se poder gabar de ter acabado com a escravatura, inventado a vacina contra a raiva ou desenvolvido a teoria da relatividade?! Quem não gostaria de deixar a sua marca na história da humanidade? Aspiramos a fazer de alguma forma a diferença, para que a nossa vida tenha sentido.

Quando estamos em casa somos bairristas, conforme nos vamos afastando sentimos que pertencemos a uma cidade, um país, um continente, um planeta… ainda ninguém se afastou o suficiente para sentir que pertence a uma galáxia mas talvez se lá chegue um dia, quem sabe.
E conforme vamos fazendo zoom out, em sentido próprio ou figurado, vamo-nos reduzindo à nossa insignificância.

Por muito que isso possa custar ao nosso ego engolir, ninguém tem na realidade importância nenhuma, se olharmos para o “big picture”.  As personagens da história vão-se sucedendo e o mundo continua. Vendo com o devido recuo, no espaço e no tempo, ninguém o mudou, ninguém o alterou significativamente, ninguém fez realmente a diferença.
Somos como pequenos grãos de areia numa praia, á distância todos iguais.

O primeiro contacto com esta ideia, com esta noção, é um bocado deprimente e desmoralizante.
Acontece que, da mesma forma que um grão de fina areia branca numa praia de calhaus não a vai tornar mais confortável, um calhau numa praia de fina areia branca não vai incomodar.
Ou seja, o que interessa é o conjunto e o que é realmente importante não é sobressair mas integrar-se.

E aqui entra uma das minhas máximas preferidas; “You must be the change you want to see in the world.
Peço desde já desculpa pela assumida cagonice mas ainda não encontrei (nem consegui fazer) uma tradução que me soasse bem, se alguém tiver dificuldades em perceber pode sempre usar o Google Translate.
Não é na realidade com grandes feitos, que entenda-se não estou de todo a menosprezar, que o mundo vai mudando mas sim com a soma de todos os actos e posturas individuais.

Cada um de nós é responsável pelo destino do mundo através do exemplo que dá, das atitudes que toma, dos princípios que transmite. Não são só aqueles que “ficam para a história” que são importantes, importantes somos todos nós, pequenos grãos de areia. Todos sem excepção contribuímos para o tipo de praia que formamos. Mais importante do que eventuais grandes feitos é esforçarmo-nos por ser aquilo que gostaríamos de ter à nossa volta.

Se vivermos com integridade e coerência, não fazendo aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem a nós, agindo o mais possível da forma que consideramos correcta, mesmo que nem sempre seja a mais fácil ou agradável, se transmitirmos estas noções aos nossos filhos, aos nossos amigos, a todos aqueles com quem interagimos, iremos garantidamente mudar o mundo, mesmo não sendo ninguém.





COM MÚSICA
America - A horse with no name

Powered by mp3soup.net

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Que seja feliz…


No Sábado passado, empoleirei-me para cortar uns ramos altos da nossa árvore e, pela terceira vez na vida que me lembre, vi-me frente a frente com a morte, ou pior…
O escadote partiu-se e vim por ali abaixo, de tesoura de podar na mão, estatelando-me no chão com a cabeça a poucos centímetros de dois pedregulhos.

Aos doze anos, por altura das marés vivas, ignorei o sinal de “não passar” no pontão do Tamariz e fui arrastada para o mar por uma onda que o varreu. Engoli água e areia e respirei quando as ondas fizeram o favor de me trazer á tona e depois finalmente de me atirarem para a praia.

Já perto dos trinta estive num acidente de automóvel. Partiu-se subitamente a suspensão, fizemos uns quantos peões, capotámos por uma ribanceira abaixo e, quando o carro finalmente parou, percebemos que estávamos dentro de água a afundarmo-nos.

Qualquer uma destas situações poderia ter sido fatal. Consigo, com imensa facilidade, imaginar várias coisas que poderiam ter corrido muitíssimo mal em qualquer uma delas. Entre a morte e as eventuais terríveis consequências que qualquer um destes acidentes poderia ter tido, venha o diabo e escolha.
Mas nada aconteceu, safei-me incólume de todos eles, nitidamente não era a minha hora.

Estas coisas fazem-nos no entanto pensar, pensar naquilo de que nos safámos e nas pessoas que não tiveram a mesma sorte.
Pensar na efemeridade da vida e consequente importância de viver o aqui e agora.
Pensar, desta vez, no meu filho, que não existia ainda das anteriores…

No meio do chuto de adrenalina do cagaço á posteriori, dei por mim a perguntar-me o que gostaria de lhe transmitir, que mensagem gostaria de lhe deixar se de repente lhe faltasse, no que lhe poderia dizer que o pudesse ajudar na vida.
E o que me ocorreu de imediato foi “sê feliz, sê realmente e genuinamente feliz”…

Eu sei que parece uma lapalissade sem grande sentido, é evidente que todas as mães desejam a felicidade para os seus filhos. A realidade é que nem toda a gente tem a noção de que está nas suas mãos sê-lo e que, ao fazer por isso, tudo o que de resto é importante vem naturalmente.

Acredito, do fundo do coração, que não se consiga ser verdadeiramente feliz sozinho. Assim, a conquista da felicidade passa pelo domínio dos skills sociais.
Não conheço nenhum filho da mãe que pareça viver em paz consigo próprio e com os outros. Assim, ser boa pessoa parece-me ser condição sine qua non para se ser feliz.
A felicidade não cai do céu, tem de ser desejada, conquistada, conservada. Assim, aprende-se a fazer pela vida, a trabalhar pelo que é realmente importante.
Um grande desequilíbrio entre a emoção e a razão, a incoherência, não nos permite viver em paz de espírito. Assim, a harmonia entre as duas coisas torna-se essencial para podermos ter serenidade.
And so on…

Dei por mim a compreender que ao “mandar” alguém ser feliz, ao desejar que o consiga, está-se simultaneamente a desejar que consiga resolver todas as questões que o irão permitir. Que o “objectivo” de ser feliz resolve todas as outras coisas que irão surgir pelo caminho. Que não é possível atingir a felicidade sem que uma série de condições sejam cumpridas e que aqueles que lá chegam as compreendam e resolvam.
Logo, desejar que alguém seja feliz, pedir-lhe, aconselha-lo a sê-lo, é dar-lhe ao mesmo tempo todos os conselhos realmente importantes que se podem dar na vida, mesmo que essa pessoa tenha de lá chegar sozinha.
Se conseguir ser feliz é porque, mal ou bem, conseguiu tudo o resto.



COM MÚSICA

sexta-feira, 15 de março de 2013

Querido CV



(Auto-retrato... lol)


Faz hoje nove anos (!!!) que o meu pai nos deixou…
Desde então tenho sido muito mais feliz.
Ahhh, mas suponho que não tenha nada a ver uma coisa com a outra?! - perguntar-me-ão vocês, num misto de espanto e choque.
Tem, tem! ;)

Então?! Que raio de afirmação é essa?!
Odiava o meu pai? Tínhamos uma relação péssima? Estou bem melhor sem ele?
Nada disso, antes pelo contrário, tive o “melhor pai do mundo”.
Dificilmente consigo imaginar uma relação que pudesse ter sido mais forte, com mais amor, companheirismo, cumplicidade. Sempre adorei o meu pai.
Estava longe de ser perfeito mas era, sem qualquer sombra de dúvida, um excelente ser humano.
Talvez justamente por tudo isto a sua morte me tenha permitido aprender tanto.

Através dela descobri que a mais profunda dor, não só não mata, como acaba eventualmente por passar. Nos primeiros tempos é-nos difícil acreditar nisto, ficamos de tal forma destroçados, que não conseguimos sequer vislumbrar uma hipótese de alívio. Sentimo-nos condenados a continuar a viver com um coração que não pára de sangrar.
No entanto, um dia, damo-nos conta que na realidade já não dói, que já só resta uma imensa saudade e que até é possível viver bem com ela.

Por outro lado, essa mesma dor que nos corrói, permite-nos relativizar tudo e dar valor ao que realmente importa. Uma vez passada, basta que não larguemos mão dessa noção para que passemos a realmente apreciar o que de bom temos na vida. Se, quando nos sentirmos a descarrilar, a permitir que questões acessórias nos perturbem por aí além, nos relembrarmos disso, todas as dificuldades do caminho nos pesarão menos.

Grande parte da minha vida, julgo que da de todos nós, se rege por aquilo em que acredito, que não preciso de forma alguma de ver provado.
Quando me confrontei com aquele corpo inerte, tive a certeza absoluta de que não passava de um invólucro, que ele já não estava lá.
Não tendo qualquer tipo de crença religiosa, não tenho nenhuma teoria sobre para onde possa ter ido, só sei que aquilo que ali estava não era garantidamente o meu pai.
Por outro lado, apesar de já não poder comunicar com ele, continuo a senti-lo como se estivesse ao meu lado, acredito portanto que continue a existir algures.

Só sonhei com ele uma única vez desde que se foi, sonhei que me telefonava. Eu perguntava-lhe se afinal não tinha morrido e ele respondia que sim, mas que tinha decidido ligar só para me dizer que estava tudo bem.
Todos os dias passo por ele, pela fotografia que tenho no meu quarto, de onde sorri para mim e me “diz” que a morte não tem importância nenhuma.

Se me faz falta? Se a sua ausência me custa? Se preferia tê-lo comigo?
Sem sombra de dúvida.
No entanto, através da sua partida, interiorizei o ciclo da vida e aceitei, do fundo do meu ser, o fim da mesma tal como a conhecemos.
Tomando, por outro lado, real consciência da sua efemeridade, passei a gozar cada segundo que por cá andamos e a dar realmente valor ao tempo que partilhamos com os outros. 
Ao  aceitar a morte ganhei uma imensa paz e serenidade e passei garantidamente a apreciar muito mais a vida.


COM MÚSICA

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Trocas e baldrocas…

COM MÚSICA



Parece reinar a ideia de que sem o vil metal nada se faz neste mundo…
Tenho no entanto vindo a descobrir, com muito agrado devo dizer, que não é bem assim.
A noção de comércio começou com trocas.
Pois bem, ás trocas podemos (e estamos a) voltar, fazendo um belo de um manguito à maldita da crise… Tomaaa!!!  ;)

De há uns anos para cá que tenho vindo a organizar, com uma certa regularidade, “Cházinhos das Trocas”.
Começaram com o site do Liceu Francês e a coisa foi-se alargando ao povo em geral.
Hoje em dia são já eventos extremamente concorridos, aos quais comparece todo o tipo de gente.
Para além de se “trocar”, ainda se bebem os tais chazinhos e se comem uns bolos, enquanto se vai convivendo alegremente.

Começámos com trocas de roupa, toda a gente tem em casa roupa em bom estado que não usa.
Acreditem ou não, há quem tenha nos armários roupa que nunca chega a vestir… ou porque não a provou e, descobrindo posteriormente que não servia, teve preguiça de ir trocar… ou porque chegou á conclusão de que afinal não gostava… ou porque lhe ofereceram mas não é do seu agrado...
Da mesma forma e por variadíssimas razões, há quem guarde roupa usada mas em perfeito estado, para a qual olha ano após ano, sem nunca saltar lá para dentro.
A coisa foi-se alargando e hoje em dia já inclui calçado, malas, acessórios, bijutaria, maquilhagem, cremes, perfumes, roupa de casa, objectos de decoração, brinquedos, livros, etc…
Têm tido um sucesso tal que já estamos a começar a especializar e o próximo vai ser só de livros.

Os nossos “chazinhos” funcionam nos seguintes moldes:
Alguém fornece a casa e o chá e organiza a coisa (ou “manda” a escrava de serviço tratar do assunto… lol). Os outros levam os bolinhos. Para além disso, cada um leva aquilo de que se quer desfazer.
Todos vasculham (tipo feira de Carcavelos), experimentam, comentam, botam no saco. 
Alguns levam mas não trazem nada de volta, outros levam pouco e voltam com muito, não interessa.
Em qualquer dos casos sobram sempre montanhas de coisas, que são no fim empacotadas e entregues a uma qualquer causa de solidariedade.
É tudo bom!!!
Calor humano, compras à borla, ajuda a quem precisa, reciclagem… ;)

Mas a coisa não se ficou por aí, uma vez descoberto este maravilhoso conceito, comecei também a trocar serviços…
Há sempre coisas que gostávamos/precisávamos de ter/fazer, sem que tenhamos meios de as pagar…
Porque não trocar a criação de um site por uma consulta de astrologia, aulas por massagens, babysitting por explicações, costura por cozinhados, etc, etc, etc…?
Porque não utilizar aquela riqueza, muito maior do que qualquer euromilhões, que é o nosso precioso tempo?!
Não é imperativa a troca de moeda… troca-se simplesmente uma coisa que podemos fornecer por outra que queremos.
Elementar, meu caro Watson… ;)
Não tendo eu, evidentemente, inventado a pólvora, o Facebook e restante Internet também já se aperceberam deste ovo de Colombo, pululando páginas e sites com base no mesmo princípio.

Se tiverem uma casa de férias, uma casa devoluta que estejam a tentar vender, a vossa própria casa, se tiverem estômago para isso… podem trocar.
Uns amigos meus fizeram isso recentemente, trocaram um apartamento que têm em regime de arrendamento temporário, com outro em Veneza.
Eles fizeram a troca directamente mas, boas notícias, já há sites que tratam exactamente disso. Pessoalmente conheço este, mas deve haver muitos mais…

Minha gente, o céu é o limite, tudo se pode trocar…
Se pensam que, lá porque o mundo está a atravessar uma fase difícil, têm de a passar a pão e água, pensem outra vez!
As trocas são a saída obvia, uma postura contra a merda da sociedade de consumo (pardon my french…), uma reciclagem de bens, uma ajuda a quem precisa e, se bem organizadas, uma ocasião de encontrar pessoas que nos são agradáveis. ;)












terça-feira, 15 de novembro de 2011

Uma iluminação da tempestade

COM MÚSICA


No domingo, aquela tempestade que mais parecia o dilúvio, rebentou-nos com a electricidade.
Tinha praticamente acabado de deixar na cama, onde tinha ficado a ler, o meu filhote que veio então  informar que estava “com medo”.
Aos apalpões pelas escadas, voltei para cima e deitei-me com ele na cama.

Comecei por lhe falar um bocadinho das tempestades. Disse-lhe que não fazia sentido nenhum ter medo delas quando se está em casa, numa cama quentinha. Expliquei-lhe que não corria grandes riscos.
Contei-lhe depois como acho bonita a luz de um raio que de repente ilumina uma divisão, como o disparar de um flash na escuridão. Disse-lhe como achava impressionante o barulho do trovão, demonstração imponente da natureza em toda a sua força. Como me fazia sentir o bater da água com força nas janelas, privilegiada e agradecida por ter uma casa confortável e protegida.
Sugeri-lhe que tentasse sentir tudo isto, que sentisse no corpo o ribombar da tempestade, que a apreciasse em vez de temer.

Dois dedos de conversa e um abraço e já estava tudo bem, se é que não tinha sido desculpa para me sacar mais um bocadinho com ele.
Fosse como fosse, dado que de qualquer forma hoje em dia não se consegue fazer nada sem electricidade (quer dizer... lol... quase nada... ) decidi ficar ali mais um tempinho, aconchegada na sua proximidade enquanto adormecia.

Então, enroscada nele, em silêncio, a curtir a tempestade, dei por mim a sofrer de um assustador ataque de saudades...
De saudades dos tempos irresponsáveis em que achávamos que os pais resolviam tudo. Dos tempos em que acreditávamos inocentemente que estávamos protegidos de tudo e de todos. 
Quis, desesperadamente, voltar a ser "filho" e não "pai", o que pondera, o que decide, põe em pratica, gere, consola, protege.
Dei por mim com “inveja” da criança que estava ao meu lado. 
Pensei que não há tempos mais felizes do que aqueles e que eles nem sequer têm consciência disso.

Iiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
(isto é efeito sonoro: agulha de gramofone a guinchar através do prato...)

Péráíiiiiiiiii...
Que raio quer dizer “eles nem sequer têm consciência disso”?!
Estão no Nirvana e não sabem?!
Lá se foi o EU “Bref, je suis comme tout le monde” e desembarcou o EU “ser ou não ser, eis a questão”...
Ora bem... por que raio não têm eles consciência de que são extremamente felizes?!

Trrrrrrrtrrrrrrrrrtrrrrrrrrrtrrrrrrrrrr
(outro efeito sonoro: rufo de tambores)

Porque não são, meus amigos, porque não são... 
Até podem saltar levemente de nenúfar em nenúfar... mas as crianças estão constantemente insatisfeitas com alguma coisa. Coisas essas que sentem a ensombrar a sua felicidade.

Por exemplo, no meu caso, grande parte da infância passou-se a “odiar” padrasto e madrasta. A pensar que só queria crescer para poder decidir com quem me dava e não dava. A ansiar por poder mandar à merda quem ousasse tratar-me de forma que achasse que não merecia.
Não julguem, por isto, que tive uma infância “traumática”. Os “respectivos” dos meus pais eram “gente como eu e você”, não torturadores de criancinhas... simplesmente, cada um à sua maneira, conseguiu fazer-nos um bocado a vida num inferno.

Hoje em dia, quase que tenho de fazer um esforço para descrever em quê exactamente. Ficou aquele amargo de boca, a lembrar que não eram lá muito boas rezes, mas foi-se a importância dos factos, no big deal.
Pusessem-me hoje nas mesmas situações, que eu vos dizia como tratava do assunto... lol
Pois...mas hoje tenho quarenta e seis anos.

Dito isto, não conheço nenhuma criança que não tenha, com maior ou menor intensidade, espírito de “António Variações”.
E isto, meus amigos, gera ansiedade, quer esta seja crónica, em alguns casos ou, mais frequentemente, pontual. A antítese da paz de espírito. ;)
Notem que não estou a sugerir que todas as crianças são infelizes, nada disso, simplesmente que a vida nesses anos não é de todo tão côr de rosa como tendemos a  pinta-la mais tarde.

A realidade é que a felicidade é uma escolha, a escolha de sermos felizes “apesar de”.
Não há épocas das nossas vidas em que nada nos apoquente. Numas alturas são umas coisas, noutras outras. As proporções vão sendo diferentes mas todos os períodos são sobrevoados por nuvens negras.
Não sei se haverá alguém que consiga olhar para a sua infância e sinceramente afirmar que foi um total mar de rosas sem espinhos.

Portanto, meus amigos, toca a viver o aqui e agora, aproveitando o momento, com os seus prós e contras...
Carpe Diem! ;)


terça-feira, 8 de novembro de 2011

Falar para dentro

COM MÚSICA





A tendência natural (pelo menos de alguns...lol),  quando sentimos alguém aflito, é de tentar ajudar. Pomos água na fervura, tentamos desdramatizar as situações, racionalizar os problemas e arranjar soluções.

Tudo isto se faz geralmente através de conversa. 
Se o outro está alterado fazemos primeiro por acalma-lo. Depois, tentamos compreender o que o aflige. Analisamos interiormente a situação e transmitimos, da forma mais clara que conseguimos, as conclusões a que chegámos. Então, com base no diálogo, vamos tentando em conjunto arranjar soluções.

Todos teremos certamente experiência de momentos em que a nossa mente fica transtornada, tornando-se difícil pensar com clareza.
A ansiedade, o medo, a angústia, as preocupações... alteram negativamente a nossa visão e percepção das coisas, tornando-as ainda mais negras aos nossos olhos, fazendo-nos sentir pessimistas, derrotistas.

Nem sempre temos, no entanto, à mão alguém com quem possamos/queiramos falar...
Falamos então, muitas vezes, sozinhos.

Cheguei no entanto recentemente à conclusão de que somos umas bestas... ou pelo menos eu era. lol
Falava comigo como se falasse com uma criança de dois anos. Como se eu (o outro “eu”, o eu aflito) não tivesse capacidade de entender um raciocínio mais elaborado, como se não fosse sensível a argumentos.
Por outro lado, tratava-me sem grande consideração. Dava-me ordens, assumia uma postura de “sê um homenzinho”, ordenando-me (que nem o arquitecto): “Aguenta!!!”

Dei-me conta de que nunca trataria outra pessoa, na mesma situação, como me tratava a mim própria. Que isso seria extremamente insensível e estúpido da minha parte. Que para ajudarmos efectivamente alguém, temos de lhe “demonstrar”, de alguma forma, que há efectivamente luz ao fundo do túnel. Que pedir-lhe simplesmente para ser forte, não chega, não alivia, não aconchega, não convence.

Passando-me para o outro lado, perguntei-me como me sentiria se outra pessoa (que não eu) me tentasse “consolar” dessa forma e acho que não me iria sentir muito confortada. Sobretudo, não seria grande ajuda... ajudar não é menosprezar as dificuldades do outro.

Comecei então a tentar mudar de atitude.
Em momentos de crise, divido-me imediatamente em duas.
A primeira está à brocha... não se está a conseguir controlar... não se sente capaz de analisar ou racionalizar as questões... não consegue já encontrar pensamentos positivos e menos ainda soluções.
Mas “a outra” não emigrou para o espaço...
A outra, aquela com quem os amigos falam quando disso sentem necessidade. Aquela que acredita, sem qualquer sombra de dúvida, que “acima das nuvens o céu está azul e o sol brilha”. A que consegue efectivamente, muitas vezes, acalmar os outros, descansá-los, ajudá-los a alcançar alguma paz de espírito e vislumbrar a tal luzinha ao fundo do túnel.

Ponho então uma a falar com a outra.
Funciona maravilhosamente bem, grande truque, garanto-vos. ;)

Todos temos dentro de nós esta duplicidade.
Todos temos dois lados, um mais fraco e outro mais forte.
Normalmente, quando o mais fraco vem ao de cima, o mais forte despreza-o. Retira-se, pura e simplesmente, até que o outro recupere a compostura. Só então volta a tomar rédeas à situação.

Erro!!! Não é virando costas que se resolve nada...
Se ficar e for à luta, se se empenhar em levantar-lhe o moral. Se falar com ele como falaria com qualquer outra pessoa. Se tiver consideração por ele em vez de vergonha...
Juntos conseguirão certamente manter o astral e arranjar soluções. ;)


PS: Acho que depois deste post me vão mandar internar... lol

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

De bestial a besta

COM MÚSICA



Era bom que todos os seres humanos conseguissem viver em paz e harmonia uns com os outros. Infelizmente, por mil e duas razões, esta não é uma realidade no nosso mundo.
As pessoas desentendem-se, chateiam-se, zangam-se, desiludem-se...
Quanto mais alto tiver sido colocado aos nossos olhos aquele com quem nos incompatibilizamos, maior será obviamente a queda.
Qualquer rotura provoca dor, mágoa, ressentimento...

Tenho vindo a reparar, não só por observação dos que me rodeiam, como inclusivamente por auto-análise que, nessas situações, temos tendência a tornar-nos extremistas.
A imagem do outro vai-se rapidamente denegrindo aos nossos olhos, assomando-se-nos o seu lado menos agradativo. Vamos-lhe progressivamente retirando valor... até que um dia damos por nós a considera-lo uma perfeita besta.

Não tenho conhecimentos de psicologia que me permitam fazer interpretações sobre a razão de ser deste fenómeno. Arrisco-me talvez a sugerir que possa ter alguma coisa a ver com o instinto de auto-protecção, com o facto de serem mais fáceis de suportar os sentimentos nefastos que a situação envolve, se o outro fôr efectivamente uma cavalgadura. 
Não sei...

Salta no entanto à vista que dar redea solta a este impulso, aparentemente natural no bicho homem é, por razões várias, muito indesejável, tornando-se imprescindível controla-lo.
Senão vejamos...

Se com a pessoa em questão nos relacionámos anteriormente com algum prazer, por alguma razão há de ter sido.
Podem entretanto ter acontecido variadíssimas coisas que tenham gerado sentimentos negativos e até se podem inclusivamente ter descoberto facetas que não se suspeitavam, mas algo de positivo há de ter.
Parece-me importante que o consigamos continuar a ver.

Notem que não estou de todo a sugerir que viremos Madres Teresas... parecem-me perfeitamente legítimos sentimentos de raiva, de traição, de injustiça, de revolta, de desilusão, de desprezo, etc, relativamente a certas situações.
São aliás, na minha opinião, tão importantes nas nossas vidas como os outros, os que nos dão prazer. Mas isto é conversa para outro post...
Parece-me simplesmente fundamental que, em qualquer processo, mantenhamos a capacidade de ver a cores.

Se não o fizermos, isso irá afectar o nosso passado (*), presente e futuro...

PASSADO:
Se encararmos o outro, no presente, como sendo uma perfeita besta, isso irá reflectir-se na nossa noção de passado.
Chuta-lo do pedestal para a sarjeta, sem passar pela casa partida e sem receber os dois contos, começa por não abonar grande coisa a favor do nosso discernimento.

Por outro lado, de repente passamos a atribuir-lhe atitudes, posturas, pensamentos e intenções com retro-activos, que possivelmente não existiram. 
Vamos aos poucos apagando da mente os bons momentos, até só quase restarem os desagradáveis. Interiorizamos o que significou para nós, à luz da forma como o vemos hoje, o passado perdendo qualquer peso.

Assim, passamos a encarar um caso de amor como um erro crasso, uma proposta de emprego como uma oferta envenenada, uma amizade como uma ilusão.
Há coisas que acabam e ás vezes, infelizmente, acabam mal.
Não devemos no entanto deixar que o fel do presente envenene a memória do passado.

PRESENTE:
Encarar o outro como se fosse o pai de todos os males, também não traz bem nenhum ao presente, pois deixamos de conseguir ver com clareza.

É um clássico, por exemplo, atribuirmos todos os “males” à persona non grata, isentando à partida quem a rodeia.
Ora se alguém tomar o seu partido, se assinar por baixo das suas ideias, se subscrever a sua postura, se apoiar a sua atitude, não será uma falta de consideração pelo mesmo, partir do princípio que está, de alguma forma, a ser manipulado? Não será uma visão demasiado simplista?! Onde colocar então o livre arbítrio?

Outra coisa recorrente é a mania da perseguição. O outro pode não estar nem aí mas, como é mau como as cobras, uiiiii, o mais certo é que tudo o que faça seja para lixar alguém em geral e provavelmente nós, em particular.
É a visão que os filmes nos dão do “mau da fita”, das Glenn Closes, que se imiscuem nas nossas vidas.  
No mundo real, há muito menos gente a congeminar para f... o próximo do que possa parecer. Não é, que não possa acontecer, mas a maior parte das coisas, na realidade, acontece por acaso e não por premeditação.

FUTURO:
Ás vezes temos a sorte de nos incompatibilizarmos com pessoas que podemos descartar das nossas vidas. Pomos um ponto final, damos um passo em frente e seguimos caminhos separados.
Infelizmente nem sempre é assim. A pessoa em questão pode, por exemplo, trabalhar no mesmo sítio que nós ou, pior ainda, ser o/a pai/mãe dos nossos filhos.

Se não conseguirmos ver neles nada de positivo, como irão ser as relações que obrigatoriamente iremos continuar a ter? O que iremos transmitir ás pessoas que convivem com ambos? Que ambiente iremos gerar, se reinar a desconfiança, a falta de crédito, a constante presunção de más intenções? 
Ninguém é completamente bom, nem completamente mau. É importante que consigamos ver alguma coisa em cada prato da balança.
Senão, citando o Capitão Blight (private joke, sorry) "a nossa vida é um inferno".

Concluindo, o outro, seja lá ele quem fôr, mesmo que a nossos olhos se tenha portado mal, mesmo que tenhamos descoberto a seu respeito traços de carácter que não se coadunam connosco, mesmo que nos tenha de alguma forma magoado, merece o benefício da dúvida.
Talvez não o mereça por ele, mas merece-o garantidamente por nós, pela nossa paz de espírito. ;)



(*) O post de hoje era para ter sido escrito na semana passada, mas esta história do passado pareceu-me demasiado “grande” para caber dentro de outro post. Decidi assim escrever o outro primeiro. ;)