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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Um pedacinho de paraíso.



Apesar de o nosso pai já ter morrido há muitos anos, só agora distribuímos a herança.
Palavra que desperta o nosso imaginário infantil, fazendo-nos pensar em Ferraris, mansões, diamantes e Picassos.
A maior parte delas não são no entanto tão exuberantes… ;)
Por muito que não tenha sido propriamente um euromilhões, a minha permitiu-me no entanto fazer uma coisa que não fazia há muitos anos: respirar.

Comecei por reabilitar uma casa a dar já nítidos sinais de decadência, concertando ou substituindo tudo o que estava a “rebentar pelas costuras”, num que outro caso em sentido próprio.
Decidimos fazer uma viagem para lavar a alma pois há anos que não saíamos deste nosso jardim à beira mar plantado.
O que sobrou, ditava a prudência que o pusesse de lado para poder continuar a dormir com alguma tranquilidade.

Acontece que estamos a falar da matéria que o meu pai nos deixou aqui na terra… esbanja-la toda em coisas tão efémeras e no fundo insignificantes, confesso que me estava a fazer alguma confusão.
Decidi então criar algo de mais duradoiro, de mais sólido, algo que de certa forma o trouxesse mim quando me lembrasse que era graças a ele que o tinha.

Quando saímos de casa por algum tempo costumamos deixar fechados os estores, mergulhando-a em escuridão. Deixamos as plantas numa “marquise” que é praticamente o único sítio que fica com luz.
No verão passado tínhamos mais do que é habitual e quando as lá fui depositar fiquei maravilhada com o ambiente naquele mar de verde.
Nesse momento, que nem Andie MacDowell no Green Card, decidi que um dia haveria de ter uma estufa, nem que para isso tivesse de me casar com um francês narigudo…
A herança permitiu-me assim escapar a esse terrível destino. ;)

Entre a ideia e a sua concretização surgiram evidentemente muitas dúvidas. Não é propriamente como se o dinheiro não nos fizesse falta. Não é no entanto também como se nos fosse salvar o coiro.
Soubera eu o que estava a gerar que não teria tido um único segundo de hesitação, o nosso Jardim de Inverno tendo aumentado em mil por cento a minha qualidade de vida.

A nossa zona é extremamente ventosa, poucos são os dias que dão para realmente curtir o espaço exterior. Assim, o nosso pequeno jardim acabava por servir mais de papel de parede (ao qual é necessário cortar a relva e apanhar as ervas daninhas, ainda por cima) do que de real espaço de lazer.
Ao fazer uma estrutura em vidro à frente da sala, ficámos com uma antecâmara para o mesmo, passando assim a poder goza-lo sempre que há um raio de sol, verão ou inverno.

Este pequeno espaço paradisíaco é uma verdadeira ode aos sentidos. O ambiente feérico que proporciona a luz filtrada pelo verde das plantas, o cheiro a terra húmida e a jasmim de madrugada, o burburinho da água  no minúsculo lago ou os pássaros a cantar, tudo leva a um estado de paz e profundo bem-estar.

Quer seja durante o dia a ler um livro na rede ou a tricotar na espreguiçadeira, ou de noite, a beber um copo á luz das velas tremelicantes e aromáticas, sinto-me sempre bem. Almoçamos lá, jantamos lá, tomamos lá o pequeno almoço. Sempre que posso refugio-me lá, aproveitando cada minuto, cada segundo, cada intervalo.
Sozinha ou acompanhada, em família ou entre amigos, o ambiente é sempre mágico. Parece que aquele Oasis, como lhe chamaram, transmite boas vibrações.
Cinco minutos lá dentro (ou será que deveria dizer lá fora?!) e fico outra, regenerada, carregada de energia positiva, de serenidade, de paz de espírito.

Férias de sonho, destinos paradisíacos?!
Sim… mas passa tão rápido e sentimo-nos tão de passagem…
Este meu capricho (?!) fez com que o sítio onde me apetece mais estar de férias é mesmo em casa. Este sitio idílico tem o que nenhum resort de luxo em Bora Bora alguma vez terá, tem um pedaço de mim.

Podia ter este dinheirinho no banco para aconchegar os fins de mês?! Podia sim senhores. Era mais feliz se o tivesse lá? Duvido… duvido muito.

Carpe Diem


Obrigada, pai!!! :)

COM MUSICA
Enya - Amarantine

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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Ó Leonilde, its love!



Apesar de quem o é saber muito bem o que quer dizer, não é fácil definir a felicidade por palavras.
Para mim passa no entanto obrigatoriamente pelo facto de me sentir amada.
Há quem afirme que não precisa dos outros para nada, eu dependo completamente deles para me conseguir sentir feliz.

Isto não se aplica a ninguém em concreto, preciso simplesmente, como do ar que respiro, de amor na minha vida.
Este divide-se em muitos tipos, de características diferentes e em vários graus.
Os amantes, os amigos, os pais, os filhos, a família, os colegas, o cão, o gato… cada um á sua maneira fornece algo vital para a minha sobrevivência emocional.

Um deles costumava afirmar que eu tinha medo de “ficar sozinha”…
Medo poderemos eventualmente ter do que não se pode controlar, não do que está nas nossas mãos. Acredito, do fundo do coração, que quem realmente se entrega ao amor dificilmente ficará sem ele.

Neste ponto do campeonato a minha própria conversa já me está a soar tão enjoativa,  que estou prestes a aconselhar-me a mim própria a abraçar alguma seita e parar de nausear os desgraçados dos leitores.
A merda é que não conheço outra forma de apresentar a questão senão chamar os bois pelos nomes e o tema da porcaria do post é justamente o amor.
Assim, se precisarem tomem um Vomidrine e aguentem-se, como sugeria o arquitecto, ou opcionalmente desistam e voltem para o Facebook. ;)

Notem que não estou de forma alguma a dizer que gosto de toda a gente e menos ainda que toda a gente goste de mim. A sério, há malta que não me papa (salve seja) nem à lei da bala… e outros (ou ás vezes os mesmos) que pagava para não lhes voltar a pôr a vista em cima.
A vida é mesmo assim, nem os animais gostam todos uns dos outros quanto mais o bicho homem, com a sua infinidade de idiossincrasias.

É no entanto o amor que conseguimos inspirar que valida, na minha opinião, aquilo que somos.
Ser amável é no fundo ser digno de ser amado.
Não acredito que alguém goste de ser odiado ou, pior ainda, de ser indiferente o que implica uma ausência de sentimento a seu respeito.
Pessoalmente gosto de existir, gosto de viver, gosto de provocar reacção, de preferência positiva, e faço por isso.

Há pessoas que até têm bom coração mas por alguma razão não o conseguem pôr a nu. Não conseguem transformar-se em seres merecedores dos corações alheios.
Ohhhh, terão geralmente quem goste deles, os chamados amores incondicionais, da mãe, do filho, de um que outro individuo com quem eventualmente consigam entrar em comunhão.
Mas se não fizerem por isso nunca conhecerão o prazer, a satisfação, de se sentirem amados, no geral, por aquilo que são.

Não há  maior prazer do que sentirmo-nos amados.
Não só nas relações românticas ou de família como em todas as outras.
Sentirmos que somos realmente apreciados pela empregada ou pelo cliente, com quem não mantemos uma relação íntima ou profunda, mas que nos dão a sensação de gostar de nós.
Sentir o carinho de alguns quase estranhos, como é o caso de tantos membros do site do Liceu Francês, cujas vidas de certa forma abracei.
Apreciarmos o calor daqueles com quem, ao longo do tempo, vamos desenvolvendo e aprofundando relações.

Tudo isto, meus amigos, não tem outro nome (tomem lá outro Vomidrine), é AMOR… e não há nada que proporcione maior quentinho cá dentro.

Está nas nossas mãos tanto dá-lo como recebê-lo.
What goes around, comes around. ;)


COM MÚSICA
The Beatles - All You Need is Love

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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Que seja feliz…


No Sábado passado, empoleirei-me para cortar uns ramos altos da nossa árvore e, pela terceira vez na vida que me lembre, vi-me frente a frente com a morte, ou pior…
O escadote partiu-se e vim por ali abaixo, de tesoura de podar na mão, estatelando-me no chão com a cabeça a poucos centímetros de dois pedregulhos.

Aos doze anos, por altura das marés vivas, ignorei o sinal de “não passar” no pontão do Tamariz e fui arrastada para o mar por uma onda que o varreu. Engoli água e areia e respirei quando as ondas fizeram o favor de me trazer á tona e depois finalmente de me atirarem para a praia.

Já perto dos trinta estive num acidente de automóvel. Partiu-se subitamente a suspensão, fizemos uns quantos peões, capotámos por uma ribanceira abaixo e, quando o carro finalmente parou, percebemos que estávamos dentro de água a afundarmo-nos.

Qualquer uma destas situações poderia ter sido fatal. Consigo, com imensa facilidade, imaginar várias coisas que poderiam ter corrido muitíssimo mal em qualquer uma delas. Entre a morte e as eventuais terríveis consequências que qualquer um destes acidentes poderia ter tido, venha o diabo e escolha.
Mas nada aconteceu, safei-me incólume de todos eles, nitidamente não era a minha hora.

Estas coisas fazem-nos no entanto pensar, pensar naquilo de que nos safámos e nas pessoas que não tiveram a mesma sorte.
Pensar na efemeridade da vida e consequente importância de viver o aqui e agora.
Pensar, desta vez, no meu filho, que não existia ainda das anteriores…

No meio do chuto de adrenalina do cagaço á posteriori, dei por mim a perguntar-me o que gostaria de lhe transmitir, que mensagem gostaria de lhe deixar se de repente lhe faltasse, no que lhe poderia dizer que o pudesse ajudar na vida.
E o que me ocorreu de imediato foi “sê feliz, sê realmente e genuinamente feliz”…

Eu sei que parece uma lapalissade sem grande sentido, é evidente que todas as mães desejam a felicidade para os seus filhos. A realidade é que nem toda a gente tem a noção de que está nas suas mãos sê-lo e que, ao fazer por isso, tudo o que de resto é importante vem naturalmente.

Acredito, do fundo do coração, que não se consiga ser verdadeiramente feliz sozinho. Assim, a conquista da felicidade passa pelo domínio dos skills sociais.
Não conheço nenhum filho da mãe que pareça viver em paz consigo próprio e com os outros. Assim, ser boa pessoa parece-me ser condição sine qua non para se ser feliz.
A felicidade não cai do céu, tem de ser desejada, conquistada, conservada. Assim, aprende-se a fazer pela vida, a trabalhar pelo que é realmente importante.
Um grande desequilíbrio entre a emoção e a razão, a incoherência, não nos permite viver em paz de espírito. Assim, a harmonia entre as duas coisas torna-se essencial para podermos ter serenidade.
And so on…

Dei por mim a compreender que ao “mandar” alguém ser feliz, ao desejar que o consiga, está-se simultaneamente a desejar que consiga resolver todas as questões que o irão permitir. Que o “objectivo” de ser feliz resolve todas as outras coisas que irão surgir pelo caminho. Que não é possível atingir a felicidade sem que uma série de condições sejam cumpridas e que aqueles que lá chegam as compreendam e resolvam.
Logo, desejar que alguém seja feliz, pedir-lhe, aconselha-lo a sê-lo, é dar-lhe ao mesmo tempo todos os conselhos realmente importantes que se podem dar na vida, mesmo que essa pessoa tenha de lá chegar sozinha.
Se conseguir ser feliz é porque, mal ou bem, conseguiu tudo o resto.



COM MÚSICA

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Cuidar




No outro dia, quando estava a tratar do micro-laguinho que construí para poder ter nenúfares, peixes e barulhinho de água corrente, dei por mim a pensar que passo a vida a arranjar sarna para me coçar.

A partir do momento em que tive a minha própria casa, “vinguei-me” do facto da minha mãe não ser grande apreciadora de bichos, povoando-a dos mesmos de tal forma que, ao fim de uns tempos, demorava mais de uma hora por dia a tratar deles. Ia dando em doida… lol
Com a experiência fui aprendendo a gerir melhor o equilíbrio entre trabalheira e gozo e a evitar as relações de alta manutenção e retorno dúbio.

Quando se fala em animais, plantas, ás vezes até em crianças, muita gente refere que “dão muito trabalho”. É verdade que dão…
Cada vez mais me convenço no entanto que esse “trabalho” é não só o que nos liga intimamente a eles, como um requisito essencial para os conseguirmos verdadeiramente apreciar.
Quem cuida envolve-se.

Há quem não goste de se envolver, quem seja desprendido, independente, quem não tolere amarras, preferindo a liberdade de movimentos, a leveza de não ter responsabilidades deste tipo.
É verdade que o hábito, o gosto de cuidar, nos sujeita frequentemente a uma que outra dor de cabeça ou preocupação. É verdade que às vezes nos prende, pesa e limita. Para além disso nem sempre implica tarefas fáceis ou especialmente agradáveis.

Cuidar é no entanto oferecer parte de nós, partilhar o nosso ser e como tal usufruir do que nos rodeia de uma forma muito mais completa, mais rica, mais intensa. Cuidar é estar atento, criar laços, alimentar relações, envolver-se profundamente com o mundo à nossa volta. Cuidar é preocupar-se, no bom sentido da palavra, com aquilo ou aqueles que nos rodeiam e fazer o que estiver ao nosso alcance pelo seu bem-estar.

Julgo que dificilmente uma mãe conseguirá ter uma relação muito forte ou próxima com o filho se este for criado por uma ama, sendo com esta que ele tenderá a criar a sua relação afectiva privilegiada. Para gerar afecto, amor, envolvimento emocional, é preciso que haja partilha, contacto, entrega, não bastam laços de sangue e tomadas de decisão.
Da mesma forma, apesar de não haver retorno activo da parte das plantas (lol) não acredito, por exemplo, que quem tem jardineiro consiga dar tanto valor ao seu jardim como quem trate dele com as suas próprias mãos. Quem rega, aduba, corta, poda, planta, acaba por senti-lo, tanto quanto o vê, é uma relação que ultrapassa de longe o aspecto estético.  

Passo, gasto, sem dúvida, muito do meu tempo a cuidar de pessoas, animais e plantas… acredito no entanto que sem isso não seria garantidamente a mesma, nem apreciaria a vida de forma tão profunda e intensa.


COM MÚSICA

sexta-feira, 15 de março de 2013

Querido CV



(Auto-retrato... lol)


Faz hoje nove anos (!!!) que o meu pai nos deixou…
Desde então tenho sido muito mais feliz.
Ahhh, mas suponho que não tenha nada a ver uma coisa com a outra?! - perguntar-me-ão vocês, num misto de espanto e choque.
Tem, tem! ;)

Então?! Que raio de afirmação é essa?!
Odiava o meu pai? Tínhamos uma relação péssima? Estou bem melhor sem ele?
Nada disso, antes pelo contrário, tive o “melhor pai do mundo”.
Dificilmente consigo imaginar uma relação que pudesse ter sido mais forte, com mais amor, companheirismo, cumplicidade. Sempre adorei o meu pai.
Estava longe de ser perfeito mas era, sem qualquer sombra de dúvida, um excelente ser humano.
Talvez justamente por tudo isto a sua morte me tenha permitido aprender tanto.

Através dela descobri que a mais profunda dor, não só não mata, como acaba eventualmente por passar. Nos primeiros tempos é-nos difícil acreditar nisto, ficamos de tal forma destroçados, que não conseguimos sequer vislumbrar uma hipótese de alívio. Sentimo-nos condenados a continuar a viver com um coração que não pára de sangrar.
No entanto, um dia, damo-nos conta que na realidade já não dói, que já só resta uma imensa saudade e que até é possível viver bem com ela.

Por outro lado, essa mesma dor que nos corrói, permite-nos relativizar tudo e dar valor ao que realmente importa. Uma vez passada, basta que não larguemos mão dessa noção para que passemos a realmente apreciar o que de bom temos na vida. Se, quando nos sentirmos a descarrilar, a permitir que questões acessórias nos perturbem por aí além, nos relembrarmos disso, todas as dificuldades do caminho nos pesarão menos.

Grande parte da minha vida, julgo que da de todos nós, se rege por aquilo em que acredito, que não preciso de forma alguma de ver provado.
Quando me confrontei com aquele corpo inerte, tive a certeza absoluta de que não passava de um invólucro, que ele já não estava lá.
Não tendo qualquer tipo de crença religiosa, não tenho nenhuma teoria sobre para onde possa ter ido, só sei que aquilo que ali estava não era garantidamente o meu pai.
Por outro lado, apesar de já não poder comunicar com ele, continuo a senti-lo como se estivesse ao meu lado, acredito portanto que continue a existir algures.

Só sonhei com ele uma única vez desde que se foi, sonhei que me telefonava. Eu perguntava-lhe se afinal não tinha morrido e ele respondia que sim, mas que tinha decidido ligar só para me dizer que estava tudo bem.
Todos os dias passo por ele, pela fotografia que tenho no meu quarto, de onde sorri para mim e me “diz” que a morte não tem importância nenhuma.

Se me faz falta? Se a sua ausência me custa? Se preferia tê-lo comigo?
Sem sombra de dúvida.
No entanto, através da sua partida, interiorizei o ciclo da vida e aceitei, do fundo do meu ser, o fim da mesma tal como a conhecemos.
Tomando, por outro lado, real consciência da sua efemeridade, passei a gozar cada segundo que por cá andamos e a dar realmente valor ao tempo que partilhamos com os outros. 
Ao  aceitar a morte ganhei uma imensa paz e serenidade e passei garantidamente a apreciar muito mais a vida.


COM MÚSICA

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Les uns et les autres…

COM MÚSICA



A palavra “amigo” é frequentemente utilizada de forma demasiado abrangente.
É natural… ás vezes não sabemos o que chamar ás pessoas… não é fácil arranjar palavras que definam certo tipo de relações.
Eu, por exemplo, mais do que uma vez me referi à minha cara metade como “o meu marido".
Que lhe ei de eu chamar?! O pai do meu filho, o meu companheiro, o gajo com quem partilho a cama? Nada parece ás vezes apropriado e também não há razão para preciosismos.
Da mesma forma, que havemos nós de chamar a certas pessoas com quem lidamos numa base regular, com quem partilhamos parte da nossa vida social?!
Não são família, não são colegas… vamos apresenta-los como?
 “Já conheces a Asdrubalina? É uma conhecida minha…” Foleirote, não?

Ser-se verdadeiramente Amigo, com A grande, é uma coisa muito restrita, rara e preciosa. Qualquer desconhecido pode no entanto, potencialmente, vir a ser um Amigo.
As pessoas conhecem-se através de outras pessoas, amigos, namorados, família, relações de trabalho.
Muitos daqueles com quem nos cruzamos na vida não passarão nunca de “conhecidos”. Volta não volta, no entanto, sentimos algum tipo de empatia por alguém, o que nos leva a querer aprofundar a relação. Às tantas damo-nos conta que já nos damos sem intermédio de quem nos apresentou, que já temos um relacionamento autónomo e independente.

É nesta fase que os adjectivos se costumam frequentemente baralhar, não só na sua verbalização mas também nas nossas cabeças.
Há pessoas que, não tendo ainda direito ao título de amigo, fazem parte das nossas vidas, em termos presenciais, em termos de regularidade e até de intimidade relacional.
Se assim não fosse, nenhum de nós chegaria a ter amigos, pois a amizade não é como a pescada, que antes de o ser já o era… lol

Nas "amizades", tal como no amor, há que distinguir as que são “póquéquié” das que são para casar. Ás vezes, cegos pela atracção, pela novidade, baralhamos um bocado as coisas, mas geralmente tudo acaba por entrar nos eixos, mais tarde ou mais cedo.

A realidade é que há testes para a amizade, há sempre testes.
São eles que nos irão permitir separar o trigo do joio.
A parte chata é que não são exames, testes americanos de cruz, não temos controle sobre o como e quando, caem-nos em cima quando menos esperamos.
Ás vezes poderíamos poupar muito tempo e dissabores se inventassem um método de análise, tipo faça xixi para este frasquinho… e depois dava um resultado positivo ou negativo. Mas não…

Passar bons momentos com alguém… espectáculos, jantaradas, fins de semana, férias e jogatinas… nunca serviu de teste para nada. Infelizmente são necessários momentos menos agradáveis para podermos realmente perceber do que a casa gasta.
Há muitas formas de percebermos se existe uma verdadeira amizade. Pela forma como se resolvem os problemas e/ou atritos que vão inevitavelmente surgindo entre seres humanos. Pelas acções mútuas de apoio e/ou ajuda. Pelas demonstrações, mais ou menos abertas, mais ou menos directas, de carinho e afecto. Pelo respeito e consideração pelo outro. Enfim…
E às vezes, ao fim de um tempo, que pode ser mais ou menos longo, mais ou menos intenso, chegamos à conclusão de que aquela pessoa não passará nunca de uma “conhecida”.
Se um dia nos faltarem, deixarem de fazer parte das nossas vidas é-nos um bocado indiferente, pela pouca importância que têm para nós.

Mas depois há os outros, aqueles que fazem com que compensem todas as esfoladelas do caminho, as provas vivas de que vale a pena investir de corpo e alma em todas as potenciais amizades porque estas, sendo autênticas, valem ouro, são das coisas mais preciosas que podemos ter na vida.
Estes, temo-los, erradamente, muitas vezes por garantidos. Também eles nos podem faltar, em todos os sentidos da palavra. Seja por terem partido para pastagens mais verdes ou simplesmente por terem deixado de viver a vida à nossa maneira, de partilhar os nossos princípios, os nossos valores, os nossos interesses.
As pessoas evoluem, são moldadas pela vida, pelo que fazem e querem dela, e nem sempre os caminhos são paralelos.

As pessoas mudam às vezes de tal forma que já não as reconhecemos. Tentamos procurar dentro do novo ser o que costumávamos conhecer e já não encontramos lá nada. Em termos emocionais, é assim como os zombies do “The walking dead”, aquele de quem gostamos já não existe, já não está lá, por muito que queiramos revê-lo.
Por outro lado, começam a chumbar a todos os testes da amizade. Sim, porque estes são para sempre, ninguém tem direito a diploma, é um curso prá vida, aprender e provar que se assimilou, e cada amizade é uma faculdade.

Este fenómeno, pelo qual já todos possivelmente passámos, se calhar até mais do que uma vez, é das coisas mais dilacerantes que já me aconteceram na vida. Aceito-o com a “serenidade de aceitar o que não posso mudar”, de compreender que há coisas que são para ser como são e não há nada a fazer, mas não consigo deixar de sentir uma enorme dor e saudade.
Este último fim de semana, em modo “Amigos de Alex”, reavivou uma ferida que deixou um sabor amargo doce, mas provou também mais uma vez o valor do calor das verdadeiras amizades.

Para todos os meus amigos, passados, presentes e futuros...























quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

E se um desconhecido lhe oferecer flores…


COM MÚSICA



Li recentemente o livro do Salvador Mendes de Almeida, Ser feliz Assim.
Dizer que este homem não teve (tem) uma vida fácil será no mínimo um understatement.
No entanto olhem para ele, para a sua atitude perante a vida, a sua postura, os seus feitos, o seu sorriso…
E mencionar este último fez-me pensar noutro grande homem, de sorriso encantador, que muitos devem também já conhecer, Nick Vujicic.
Se eles, com todas as suas dificuldades e limitações, podem ser felizes, porque não o conseguiríamos nós?!

A mim, pessoalmente, as suas histórias inspiram-me de forma inacreditável. Quando descubro um destes seres de energia positiva superior, investigo-o até à medula. Leio/vejo/oiço tudo o que têm para nos dizer, para nos transmitir, devoro as suas palavras, delicio-me com o brilho dos seus olhares. Vão-se acumulando as suas experiências no meu subconsciente, para ressurgirem quando menos espero, para me dar força para alguma coisa que me está a custar.

Para vos dar um exemplo de uma forma curiosa destas coisas me ajudarem:
Não há nada a fazer, vou alegremente a caminho do meio século, já experimentei um pouco de tudo, do mergulho á escalada, do motocross à vela, do ski aos patins em linha, da yoga ao paraquedismo, não é portanto por falta de tentar, e não há nenhum tipo de exercício físico que me proporcione verdadeiro prazer…
( ...isso não conta, you perverts!!! )
A realidade é que, para mim, o desporto favorito é espojar-me no sofá e duvido que alguma vez isso vá mudar. Cada um é como cada qual, prefiro exercitar as células cinzentas, prontes…
Infelizmente, estas últimas obrigam-me a “mexer o rabo” porque é importante para a saúde e consequentemente para a nossa felicidade. 
Como gostaria de ter vivido numa época em que os seres humanos ainda não tinham consciência deste facto [suspiro].
Recomecei portanto recentemente, depois de um intervalo de uns anos, a fazer ginástica. E como estou também a precisar de me livrar de oito quilos de “já não fumo”, fui para uma ginástica da pesada (a turma deve ter uma idade média de 65 anos… a maioria já deve ter direito a redução no preço). Ok, falando sério, custa-me para caramba…
Li então o livro do Salvador. E, desde então, deixei de me atribuir o direito de me queixar por poder mexer-me como mexo e ter o privilégio de me conseguir exercitar sem precisar de ajuda externa. Acabou, sou um homenzinho agora, fico ali de bofes de fora mas agora já sem lamentações.
É uma coisa pequenina?! 
Pois é… mas a vida é feita de mais coisas pequeninas do que grandes, e grão a grão enche a galinha o papo.

Dito isto, os dois homens que mencionei, para além de uma força e alegria de viver extraordinárias, têm em comum a vontade, ousaria quase dizer necessidade, de usar a sua experiência pessoal para ajudar os outros. E muitos outros haverá por aí, felizmente, a fazer o mesmo trabalho, cada um(a) com a sua história de vida, com as suas questões pessoais, partilhando a sua força de viver com os que dela precisam.
Fazem missão da sua vida melhorar a de perfeitos desconhecidos.
Perante as suas histórias podemos concluir que com o mal dos outros posso eu bem ou aceitar as flores que nos oferecem.

E aceita-las, conseguir aprecia-las, quer dizer compreender e aceitar com serenidade que sozinhos não vamos a lado nenhum, que temos de nos amparar mutuamente, quer física quer emocionalmente, para conseguirmos ser felizes. 
O Nick Vujicic (raios que este homem tem um apelido impronunciável!!! Irra) tem um texto muito giro sobre esta ideia. Nós, os comuns dos mortais, que enfrentamos o dia a dia sem dificuldades de maior, olhamos para estes “monstros sagrados” como nossa inspiração. A realidade é que também eles têm os seus exemplos inspiradores, todos temos, perto ou longe.

Isto é um círculo vicioso, o que “custa” é começar a olhar para os outros com olhos de ver. Separar o trigo do joio e perceber quais é que se nos apresentam como efectivamente felizes, realizados, seja qual fôr a sua condição. A partir daí começamos a sorver a sua experiência para nos ajudar com a nossa. E se esta nos chegar oferecida com todo o prazer, amor e carinho, mais eficaz será ainda.

Se todos partilharmos esta atitude, então meus amigos, the sky is the limit, não há nada que o ser humano não consiga. ;)






terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Borboletas e calhaus

COM MÚSICA




Cada um de nós tem a sua sensibilidade, a vários níveis.
Tenho-me no entanto dado conta que, tanto física como emocionalmente, quase que dava para encaixar a generalidade dos seres humanos (e não só) nas categorias de borboleta ou calhau.

Eu, por exemplo, sou definitivamente um calhau… lol

Fisicamente, não suporto que me aflorem… aquelas festinhas ao de leve nas costas ou um beijo de raspão, fazem-me amarinhar pelas paredes acima, tipo choque eléctrico e fico (em sentido próprio) cheia de comichões.
Comigo, se é para tocar, é para tocar á séria, com força e determinação. E não estou só a referir-me àquilo em que as mentes porcas já estão a pensar… ;)
Tenho um tio que no lugar das mãozinhas tem tenazes, sem noção da força que tem… quando estamos juntos até tremo de o ir cumprimentar pois já sei que vou ficar com o braço a latejar, de tal forma mo costuma apertar. Prefiro no entanto mil vezes isso àquelas pessoas que dão apertos de mão como se se estivessem a derreter, por exemplo…

A certa altura vieram cá para casa duas gatas, duas irmãs da mesma ninhada. Desde o dia em que chegaram ficou muito claro que eram totalmente diferentes.
Uma era calhau, como eu, gostava que lhe arranhasse literalmente o lombo, punha-se de costas ao meu colo para que lhe massajasse a barriga, roçava os cantos da boca com força nas minhas mãos.
A outra, mal se lhe podia tocar. Apesar de afectuosa, odiava que se lhe pegasse ao colo, os carinhos tinham de ser feitos ao de leve, de mão aberta, no sentido do pelo, senão ia-se logo embora.
Com as pessoas passa-se o mesmo.

Emocionalmente sou igualzinha, se é para mexer é “à homem”… lol
Já aqui mencionei mais do que uma vez, julgo eu, que quando o meu pai morreu foi o melhor amigo dele que mo anunciou. Ligou-me e, sem papas na língua, disse-me: “o teu velho apagou-se.” A alguns soará provavelmente brutal, insensível, esta forma de apresentar a questão. Para mim valeu ouro. Ninguém quer ouvir uma coisa destas, seja lá de que forma for, mas tinha sido para mim muito mais penoso com floreados.

O que foi aliás o caso com o meu irmão, que nos costuma fazer pet-sitting nas férias e tem sempre o galo de acontecer alguma coisa.
Estávamos nós a passar a ponte para seguir para Porto Covo quando me ligou:
- Olhaaa, não tenho boas notícias…
- Então?!
- Foi a Kitty…
- Então, o que aconteceu?
- Não está bem…
- Conta.
- Cheguei a casa e estava à porta…
- Mas está ferida?
- Sim.
- Mas está viva?!
- Não
&;%$###%##!!!!!
Já se passaram largos anos e ainda hoje gozamos com o assunto… Só me fez pensar na anedota do subiu ao telhado… 

Cada um tende a tratar os outros da forma como gosta que o tratem…
No entanto, quer pertençamos a um tipo ou ao outro, com todos os graus de cinzento possíveis, há que ter a noção de que nem todos somos iguais.
Só assim poderemos adaptar a nossa atitude à sensibilidade alheia. 
Vai sem dizer que esta postura tem de funcionar nos dois sentidos.

Todos teremos, mais ou menos conscientemente, uma linha para além da qual, em cada um dos extremos, não achamos as coisas “normais”. Nesses casos ás vezes não há grande coisa a fazer, grande adaptação possível.
Diz-se que todos os homens têm um lado feminino e vice-versa. Neste caso todos os calhaus têm o seu lado borboleta e todas as borboletas um lado calhau, é o limite até onde estamos dispostos a ir.

Eu, por exemplo, não consigo ver  atractivos no sadomasoquismo e não considero qualquer hipótese de compromisso nesse sentido. Por outro lado, não tenho grande tolerância para malta “não me toques que me desafinas” a quem não se pode dizer nada que não magoe ou ofenda.

Assim, as relações humanas passam por compreendermos o que podemos/devemos, dizer/fazer, como, a quem.
Curiosamente, ou talvez não, observo que as pessoas com o mesmo tipo de sensibilidade tendem a entender-se muito melhor.




PS: Este vai dedicado aos meus amigos que, agora por ocasião dos meus anos, provaram conseguir aturar com muito amor e paciência a minha calhausice… ;)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Xô, bajaaa!

COM MÚSICA




("Xô, bajaaa!" era o que o meu filho nos ouvia dizer aos gatos e passou assim a adoptar quando o chateavam…)

Há algum tempo acusaram-me de ser intolerante, o que muito me inquietou na altura…
Para mim, a intolerância, a intolerância do dicionário, é uma coisa muito negativa e que eu não queria de forma alguma ser.
Descobri no entanto que sou intolerante sim… mas mais no sentido alimentar da coisa… sou intolerante à má onda!!!

As alergias são uma coisa diferente…
Sou alérgica por exemplo a gente cretina, provoca-me reacções imediatas e viscerais. Sou alérgica a variadíssimos comportamentos aos quais reajo imediatamente, por vezes de forma violenta, talvez até violentamente demais, confesso.
Eu e o meu mau feitio

As intolerâncias são “[...]desenvolvidas por um organismo saturado pelo consumo frequente e excessivo de determinados alimentos [...]”, que é como quem diz, vão-nos envenenando devagarinho sem sequer darmos por ela.
Assim, tal como algumas pessoas cortam determinados alimentos da sua dieta, por chegarem à conclusão que lhes fazem mal, eu tenho cortado pessoas.

Ai que radical e coiso e tal e que ainda acabas sozinha e não sei que mais…
Pois que não me parece que acabe.
A questão aqui tem mais uma vez a ver com o tempo… com o tempo útil de cada um de nós… com a gestão de qualidade desse tempo.
Ora expliquem-me lá, se este já escasseia, se já me vejo aflita para lá encaixar tudo o que quero e gosto de fazer, para estar com as pessoas que me são queridas, com quem quero partilha-lo, por que raio é que haveria de o fazer com malta que só me deixa mal disposta, hein?!

Claro que antes de chegar à conclusão de que esta postura era, para mim, absolutamente ok, pensei muito sobre o assunto e analisei os casos de solidão que conheço, percorrendo mentalmente o percurso humano que fizeram.
E sabem a que conclusão cheguei?!
Que a maior parte dessas pessoas talvez seja efectivamente intolerante, sim, mas no primeiro sentido que mencionei. Cada vez foram tendo menos pachorra para mais coisas. Não têm skills sociais, indo reduzindo aos poucos o seu leque de relações.
Eu não faço nada disso, não me isolo, simplesmente discrimino... lol
Continuo a adorar conhecer gente, introduzi-la na minha vida, acarinhar aqueles que me tratam bem, com quem me sinto bem.

Dir-me-ão que nem tudo são rosas, senhor
Pois com certeza que não.
Com quem mantemos por perto, temos pegas, temos zangas, amuos, mal entendidos.
Algumas das pessoas que me rodeiam têm características que muito me irritam ou vão contra os meus princípios, assim como será certamente o caso em sentido contrário.
A questão, como sempre, é o equilíbrio…

Os confrontos, os problemas, não me assustam, não me afastam…
A forma como se lida com eles já o poderá fazer.
Há  pessoas que parecem só viver bem em conflito, arranjando questões e casos. Alguns esperam tudo dos outros mas não estão nem aí para dar. Há malta que quando lhes damos a mão para tentar puxa-la para cima fazem rabo pesado e puxam-nos para baixo.
Enfim, podia estar aqui a noite toda a tentar descrever aquilo que pessoalmente considero má onda mas não me parece valer a pena, todos compreenderão certamente o conceito.
Basicamente são pessoas com quem os relacionamentos trazem muita dor de cabeça e terrivelmente pouco, quando nenhum, prazer.

Com esses, neste momento, não me interessa se são família ou amigos,  não alimento qualquer tipo de relacionamento voluntário.
Atenção, também não assumo posturas de “é ele/a ou eu”, não acho correcto colocar os outros nesse tipo de situação. Cada um atura o que bem entender.
Como sou uma pessoa educada, cumprimento-os, serei até capaz de manter uma eventual conversa trivial.
Mas não contem comigo para fazer qualquer tipo de esforço, antes pelo contrário, no sentido de manter um convívio minimamente regular.

Acredito, cada vez mais, do fundo do meu ser, que o fel de certos indivíduos é venenoso e nos pode fazer muito mal. A felicidade dá muito trabalhinho, não é coisa fácil de gerir, não é preciso arranjarmos sarna para nos coçarmos.

Assim, neste momento, já só invisto mesmo naqueles a quem de vez em quando me apetece dizer “gosto mesmo de ti, que bem que me sinto contigo”. ;)









terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As moscas do tempo gostam de uma seta

COM MÚSICA





 “Time flies like an arrow”, na versão original. ;)

O tempo não se consegue parar, não se consegue amealhar, não se consegue multiplicar… é um bem escasso e valioso, que convém gerir com o máximo cuidado.

Ouvimos com cada vez mais frequência a afirmação “não tenho tempo”… a realidade é que o dia sempre teve 24h e a semana 7 dias, nós é que cada vez mais tentamos meter o Rossio na Rua da Betesga. Ás vezes, ao ouvir os planos de alguém  para o dia ou para a semana, pergunto-me se não terão mesmo a noção de que, ainda que tudo corresse sobre rodinhas, sem imprevistos nem atrasos, seria impossível encaixar tudo naquela porção de tempo. 
Dei-me assim conta que, curiosamente, muita gente não tem realmente consciência de que se fizer A não poderá fazer B e de que é na pratica uma escolha totalmente sua. O tempo não sendo elástico há portanto que, como em tantas outras coisas na vida, de fazer opções.

Podemos e devemos gerir o nosso tempo exactamente como o fazemos com o nosso dinheiro, por exemplo.  Parte dele teremos normalmente de “gastar” em obrigações, tarefas, responsabilidades e compromissos que vamos assumindo. Do que sobrar, muito ou pouco, poderemos dispor.
Só que, se em relação ao dinheiro as pessoas têm geralmente a consciência de que é finito, de que se o gastarem num lado não terão para gastar noutro, etc… relativamente ao tempo alguns parecem julgar que é um saco sem fundo e admirar-se depois por afinal não conseguirem fazer tudo o que queriam.

“Gosto imenso de ler mas não tenho tempo” costumava eu dizer… no entanto, depois de ver a primeira época da série, entusiasmei-me com a Guerra dos Tronos e li tudo de enfiada (cerca de quatro mil e tal páginas) em poucos meses.
Como?! Vi menos filmes e series, passei menos tempo na net, joguei menos, sei lá eu…
Já noutra escala, “nem para os meus filhos tenho tempo”, ouvi eu recentemente… Como é que alguém pode achar que não tem tempo para os filhos é uma coisa que me ultrapassa, mas se calhar sou eu, que sou uma mãe galinha. Facto é que, se o tempo que lhes poderiam efectivamente dedicar for aplicado noutra coisa qualquer, não sobra efectivamente para eles.
É tudo uma questão de prioridades.

Consciente ou inconscientemente, acabamos por arranjar tempo para aquilo a que damos realmente valor e o resto é conversa. Claro que também se pode dar o caso de sermos péssimos gestores e não termos noção do que é realmente importante para nós na vida… ;)
Assim, muitíssimo mais do que nos damos conta, aquilo em que utilizamos o nosso tempo acaba não só por nos definir como por ditar o rumo da nossa existência.

O problema é que, vá-se lá saber porquê, não temos normalmente esta visão sobre o assunto. Não temos a noção de que estamos de facto a fazer escolhas de vida, a definir caminhos.
E às vezes acordamos um dia e damo-nos conta de que, sem saber como nem porquê, perdemos coisas que realizamos fazerem-nos realmente falta.
Na maior parte das vezes essas “coisas” são na realidade pessoas, relações.

Tal como o dinheiro o tempo também pode ser desperdiçado, a questão é o que isto quer dizer para cada um de nós…
Assim, tal como relativamente a tantas outras coisas, chegamos a outra questão importante; a partilha. Podemos partilhar o nosso tempo com terceiros, gasta-lo directa ou indirectamente com os outros ou usa-lo para nosso exclusivo proveito.

Actualmente muitas pessoas dedicam alguns minutos (quando não são horas) do seu dia a passear pelo facebook mas não perdem uns segundos para responder a uma mensagem. São extremamente insistentes e persistentes quando querem alguma coisa dos outros mas não têm tempo para responder se forem estes a tentar contacta-los. Há quem tenha tempo para ver a telenovela mas não para ler uma história ao filho à hora de dormir. Quem vá regularmente ao cabeleireiro mas não arranje disponibilidade para ir visitar a avó ao lar. Enfim...


“Diz-me o que fazes com o teu tempo, dir-te-ei quem és”  - Seria também um bom ditado.
E se não tivermos tempo a perder com as relações humanas, se não o investirmos nelas, se não o passarmos com, disponibilizarmos para, de alguma forma, aqueles que são importantes para nós, um dia poderemos não o receber de volta.

What goes around, comes around




quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Meia dúzia...

COM MÚSICA






E lá passou mais um anito... faz hoje seis que nasceu este blog.
Este último não foi tão produtivo como os anteriores, devo estar a ficar velha e cansada... ou já não tenho grande coisa para dizer... lol
Porque continuo a escrever?!
Porque vocês me continuam a ler... ;)
Obrigada!
Bjs
C


sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Happy New Year

COM MÚSICA



Não tenho por hábito fazer resoluções de Ano Novo, gosto sim, não que faça nem mais nem menos sentido, de fazer o balanço do anterior.
Comecei2012 cheia de força, coragem e determinação ou não fosse ele o meu ano, o ano do Dragão… lol
Ainda bem, porque precisei de tudo isso e muito mais. ;)

O ano que passou pôs à prova, em vários sentidos e de forma implacável, muito daquilo que por aqui vou apregoando.
A vida tem uma forma curiosa de nos apanhar nas curvas e a minha agarrou-me pelo colarinho, encostou-me à parede, aproximou o nariz e, olho no olho, perguntou desafiadoramente “Quem é que gosta muito de dizer coisas, quem é?! Agora quero ver como é que te desembrulhas, vá…”

Dei assim de caras com desafios inéditos na minha vida e que estava longe de ter de enfrentar neste ponto do campeonato, situações que geraram titânicas lutas entre a emoção e a razão.
Desembrulhei algumas questões, o tempo e o recuo julgarão a limpeza do serviço, relativamente a outras o mais difícil poderá ainda estar para vir...
Olhar para trás, para o que já foi ultrapassado, provoca-me no entanto a sensação reconfortante de estar a seguir um bom caminho, enfrentar o touro pelos cornos continua a parecer-me uma boa escolha.

No calor do(s) momento(s) senti-me completamente perdida, insegura, amedrontada... quando os nossos alicerces abanam parece que, pelo menos durante uns tempos, deixamos de saber onde poisar os pés.
Acreditando no entanto que nós é que comandamos a vida, optei pela coerência e tomei-a outra vez em mãos.

Ser verdadeiros, com os outros claro mas sobretudo e acima de tudo com nós próprios, parece-me cada vez mais importante para que o consigamos fazer. Acho francamente muito difícil que os "marrecos" deste mundo consigam ser realmente felizes... A felicidade dá um trabalho do caraças, como é que o podemos fazer se não conseguirmos perceber o que precisa de ser trabalhado?!

Por outro lado, quando as coisas ficam pretas, o medo da dor, tanto da nossa como da que poderemos eventualmente causar a terceiros, é um sentimento perfeitamente natural. Se não o conseguirmos controlar leva-nos no entanto frequentemente a acobardarmo-nos. Tapamos o sol com a peneira, adiamos decisões, adoptamos posturas que podem sem dúvida minimizar o sofrimento presente mas seriamente comprometer o resultado futuro.
Muitas vezes, a atitude que mais jogará a nosso favor não é de todo a que nos apetece ter no momento.

Se em vez de carpirmos sobre as adversidades as encararmos como desafios a ultrapassar, se considerarmos que  tudo serve algum propósito, que tudo acontece por alguma razão  embora possamos não estar a ver qual, conseguiremos enfrentar a vida com muito mais coragem e serenidade.

Costuma dizer-se que “o que não nos mata torna-nos mais fortes”…
Dantes interpretava a frase como se de um “enrijecimento” se tratasse,  tal como as cicatrizes ás vezes endurecem a pele tornando-a mais difícil de penetrar.
Hoje em dia encaro-a de forma totalmente diferente. Acho de facto que, se “sobrevivermos” a situações complicadas,  digo isto no sentido de as ultrapassarmos de forma que consideremos satisfatória, que nos faça sentir que demos conta do recado, ganharemos uma experiência que nos poderá ser extremamente útil no futuro.

Resumindo, em 2012 enfrentei questões difíceis, dolorosas, complicadas… chorei muito, passei muitos dias afundada em profunda tristeza, mas nem por um segundo deixei de sentir que sou uma pessoa realmente feliz.
Isto provocou em mim uma sensação de victória e dá-me força para enfrentar o que der e vier em 2013.

Bom ano a todos!!! ;)

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nenhuma situação é tão má que não a consigamos ainda piorar.

COM MÚSICA


Não vivemos tempos fáceis, não senhores… este mundo está virado do avesso, em mais do que um sentido. Reinam as dificuldades, a angústia, a insegurança, o descontentamento. Estamos, sem a mínima sombra de dúvida, a viver um período muito negro da história da humanidade. Dificilmente alguém conseguirá passar ao lado de uma situação destas despreocupadamente e de ânimo leve, sendo perfeitamente legítima a sensação de extrema gravidade do estado das coisas.

Nos últimos tempos têm-me vindo frequentemente à cabeça filmes pós-apocalípticos.
Valores e princípios parecem diluir-se nos ácidos da crise. É o vale tudo, o sai da frente, o salve-se quem puder. Os momentos de aflição sendo quando melhor se vê de que barro cada um é feito, demonstrando que não passam de bichos falantes, alguns transformam-se agora em animais irracionais e agressivos.
Enfim… o karma certamente se encarregará de equilibrar todas essas situações.

Mas o que certamente não ajuda e, por muito que tente, não consigo mesmo, mesmo, compreender, é a postura geral relativamente ao estado das coisas. Por que raio as pessoas continuam a puxar-se umas às outras para baixo em vez de contribuírem para levantar o moral. Não consigo entender em quê que esta propagação do desespero possa ajudar seja quem for.

Para vos dar um pequeno exemplo concreto; um amigo meu mudou recentemente a foto de perfil do facebook… colocou uma imagem de sobrolho franzido, com cara de caso, que grita “estou muito preocupado e nada optimista”. Esta expressão perturba-me ainda mais do que o facto de há já algum tempo não postar sobre qualquer outro assunto.

Muitos estão neste momento em real sofrimento, num estado emocional debilitado e, em vez de lhes ser transmitida energia positiva, não param de ouvir como as coisas estão más, como vão provavelmente piorar ainda.
Estejam onde estiverem, não conseguem deixar de ouvir estas vozes, de ver estes semblantes carregados, que sufocam qualquer sopro de esperança. Que vez de procurarem os pontos positivos que existem em qualquer situação, as potenciais boas notícias, as pequenas melhorias que possa haver, só falam dos aspectos negativos. Que em vez de citarem exemplos de situações semelhantes que foram ultrapassadas, apresentam cenários dantescos e premonições do que de mau pode ainda estar para vir.

É o que se sente neste momento por todo o lado.
Uns, em vez de tentar levantar o moral geral, não param de agoirar e de por achas na fogueira. Os outros partilham maleitas que nem velhas no posto médico, fazendo concursos de miséria.
Todos parecem esquecer ou desprezar as coisas boas que ainda têm.

Não há vida para além da crise? Nunca vamos sair do buraco? O nosso destino é continuar a ir de mal para pior?
Então e a esperança de um futuro melhor, morreu?!
Que tal começarmos a falar disso também?!
E, se possível, com um sorrisinho na cara... meio sorriso, vá… ;)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Os maus da fita

COM MÚSICA





Os contos infantis, os filmes, os desenhos animados, as BDs, apresentam-nos geralmente um mundo que se divide entre bons e maus. Depois, conforme vamos crescendo, vamos descobrindo tons de cinzento e abandonando esta noção tão radical das coisas.
Pergunto-me no entanto seriamente hoje em dia se não será mesmo essa a visão correcta…

É sabido que infelizmente existem seres humanos (?!) que mais parecem ser a própria maldade encarnada, pedófilos, torturadores, serial killers… não é evidentemente desses que trata este post mas de gente com quem potencialmente todos convivemos no dia-a-dia.

A verdade é que há realmente pessoas relativamente às quais a avaliação é quase sempre negativa. Que, ao longo das suas vidas, pouco ou nada contribuem para que haja paz e harmonia entre seres humanos, antes pelo contrário. Que vivem em função dos seus próprios umbigos, sem qualquer noção de empatia ou compaixão. Para quem há sempre duas bitolas, uma para si e outra para os outros. Que magoam, humilham, agridem, espezinham, sem hesitar, sem pensar duas vezes, sem se questionarem, sem se arrependerem.

No entanto, contrariamente à ficção, em que se topam à légua, na vida real não costumam ter feições diabólicas nem pontuar os seus actos com um“muhahaha” maléfico, tornando-se assim mais difíceis de identificar.

O contacto continuado com estes indivíduos comporta dois grandes perigos; o risco latente de a qualquer momento nos podermos transformar em alvo e o de, por mimetismo, nos virmos a portar da mesma forma que eles.
Quanto ao primeiro ponto, não há grande coisa a dizer, relativamente ao segundo precisamos de ter muito cuidado.

Como me disse certa vez uma pessoa, no seguimento de uma separação: “Ele fazia vir ao de cima o que de pior há em mim”.
O ditado popular afirma que quem anda com um coxo, fica coxo. E notem que o “andar” não implica uma relação amorosa, bastando qualquer tipo de proximidade.
Nem todos tendo os genes da madre Teresa, portarmo-nos “bem” não sai naturalmente, requer trabalho, esforço, empenho e como toda a gente (sobretudo os que são pais) sabe, os maus hábitos adquirem-se com muito mais facilidade. A questão é que estas pessoas adoptam más atitudes com tanta naturalidade que estas às tantas já quase que nos parecem “ok”.

Não acredito que consigam ser realmente felizes, pois a felicidade passa, na minha opinião e entre outras coisas, por uma boa integração social. Concebo que tenham momentos, picos de felicidade, mas não que consigam atingi-la de forma estável e duradoira.
Problema deles, não fora minarem também a nossa.

Assim, uma vez identificados, o afastamento, tão rápido e tão grande quanto possível, destas criaturas das trevas e tudo o que lhes diga respeito, contribui enormemente para o nosso bem-estar. Uma “dieta” livre destes seres que nos fazem mal à alma sendo tão importante como deixar de consumir alimentos aos quais sejamos alérgicos.





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cada coisa a seu tempo...

COM MÚSICA


No fim-de-semana passado houve a festa anual da escolinha do mê filhote…pré-primária e primeiro ciclo no Sábado, Sarau dos mais crescidos na Sexta à noite.
Da mesma forma que não acho graça a bebés (sim, sou um monstro…), confesso que nunca achei grande piada a este tipo de espectáculos, que acabo por suportar mais do que apreciar. Maternidade a quanto obrigas… lol

O Pedro ainda só estando no 4º ano, não tinha nenhuma “obrigação” de presença nesse dia, decidi no entanto também ir na Sexta-feira, pois o meu sobrinho querido do meu coração, já “mais grande”, ia tocar.
Preparei-me portanto para uma seca com putos com uns centímetros a mais do que os outros.

Pois que fui agradavelmente surpreendida e adorei! ;)
Foi, na realidade, um espectáculo de “variedades” bastante bem apresentado, em que os miúdos tocaram, cantaram, dançaram, tudo isto com um guarda-roupa e umas coreografias giros e música à maneira.
Não foi comparável àquelas apresentações fantásticas que estamos habituados a ver nas séries e filmes americanos, mas também não envergonhou ninguém.

Mas o que mais me empolgou, para dizer a verdade, foi o ambiente que por ali reinava. Não sei se terei olhado mais para o palco ou, feita mirone, para aquela fauna que me rodeava.
De repente senti-me transportada para o passado, como que numa maquina do tempo. Tal como o Pierre de “Les choses de la vie”  revivi mentalmente a minha própria adolescência, voltando-me à memória pessoas e situações, há muito abandonadas no sótão das recordações.

Aquela ilusão de que já sabemos/percebemos tudo, a rebeldia e irreverência naturais da idade, os primeiros passos a caminho da independência. A quase absoluta falta de responsabilidades, de reais preocupações, de encargos. As festas “de garagem”, os primeiros copos, as primeiras bebedeiras. Os grupos, a “melhor amiga”, os flirts, as paixões. O despontar da sexualidade, o primeiro beijo, a curiosidade, a intensidade, a experimentação, a consumação. A firmeza das carnes, a lisura da pele, a inesgotável energia. Aquela fantástica sensação de estarmos ainda a começar o resto da nossa vida…
Tudo isto voltei a sentir na pele naquela noite.
E tive saudades, muitas saudades…

Mas depois, alguma coisa me chamou de volta à terra e senti também o reverso da medalha.
Os ups and downs de emoções, com picos fantásticos mas também terríveis buracos negros. A sensação de que tudo é a preto e branco, as pessoas ou são boas ou más, as situações maravilhosas ou absolutamente terríveis, os sentimentos extremos, em que tão depressa adoramos como odiamos. Os medos, as inseguranças, as depressões. A noção de que não temos a vida nas mãos, de que muitas das decisões que nos dizem respeito não são tomadas por nós. Aquele mal estar de nos sentirmos desadaptados, de já não sermos crianças mas também ainda não sermos adultos, sem que saibamos bem onde nos enquadramos.

Tive então a nítida noção de que, se pudesse, não voltaria atrás.
Como dizia o José Mário Branco, “eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar…” ;)
Sim, tenho cabelos brancos, rugas e as peles flácidas e volta não volta começo a parecer-me com o Condor… com dor aqui, com dor ali… A idade não perdoa. lol
Sim, já tenho muito provavelmente menos tempo de vida pela frente do que pelas costas e, fisicamente, a sua qualidade só tenderá a decair.
Mas céus, como me sinto melhor do que naquela altura!!!

Não consigo sequer imaginar-me a passar outra vez por tudo aquilo por que tive de passar para conseguir chegar onde estou. Não é de todo fácil, ou pelo menos para mim não foi, atingir a paz de espírito que sinto hoje em dia. Bati muito com a cabeça nas paredes, cai e levantei-me várias vezes, sofri, fiz sofrer, e foi tudo isto, sentido na pele, que me permitiu aprender.
Repetir?! Não, obrigada.
Já dei para as montanhas russas, agora quero é sossego… lol









quarta-feira, 21 de março de 2012

Querer e poder…



A generalidade das pessoas tem uma noção bastante clara do que pode ou não, legalmente, fazer. A maioria delas tenderá a cumprir a lei.
Muitas das coisas consideradas ilegais estão ao alcance de qualquer um, só não as fazemos porque, apesar de na prática podermos, sabemos que não devemos fazê-las…

No que diz respeito às questões morais, o caso muda completamente de figura, muitas pessoas se dando ao luxo de ter atitudes de bradar aos céus.
Passo a exemplificar.

No painel de controlo da rede do LF, há um assustador botãozinho que diz “delete network”. Só eu tenho acesso ao mesmo, fui eu que criei o site, sou eu que o giro.
Posso então, se me der na real gana, clicar-lhe em cima, certo?!
Posso, a Ning  diz que sim…
Ou será que não é bem assim?
Criei aquele site na brincadeira, sem a mínima noção daquilo em que se viria a transformar. Fui ultrapassada pelos acontecimentos, a coisa tendo tomado proporções completamente desmesuradas.
Poderia ter (descansem amiguinhos, que não tenho…lol) mil e duas razões, perfeitamente válidas, para querer vê-lo pelas costas, livrar-me dele.
No entanto, apaga-lo é a última coisa que me sinto no direito de fazer.
Apesar de o ter “gerado” ele não é meu, ganhou vida própria, é de todos e de cada um dos seus membros. Cada um lá depositou, pouco ou muito de si, ninguém podendo deitar isso para o lixo, como se não tivesse qualquer importância.

Todos somos regularmente confrontados com casos de maus tratos ou abandono animal. Chegam ao nosso conhecimento actos atrozes, de revolver o estômago, que nos fazem duvidar da humanidade de certos indivíduos e perguntar quem será efectivamente o animal.
Podem fazer essas coisas?
Podem.
Têm pés para dar chutos, punhos para esmurrar, facas para cortar, fogo para queimar, carros para os ir largar bem longe de casa, para garantir que não voltem. Tanto quanto sei, nada disto é punível por lei.
Os bichos não têm defesa contra as monstruosidades das bestas humanas, a sua única safa é não cruzar o seu caminho. Nem todos têm essa sorte.

Recentemente, vi no Facebook, um apelo relativamente a uma pessoa desaparecida. O texto tocou-me e a fotografia também, fiz portanto share do post.
Recebi posteriormente um aviso para não continuar a partilhar, pois tinha sido encontrada… morta.
Era muito bonita, jovem e… tinha dois filhos pequeninos. Suicidou-se.
Não irei certamente atirar a primeira pedra, não só porque não tenho conhecimento do que se passava na vida e na cabeça daquela pessoa como porque, como os meus leitores mais assíduos sabem, não tenho autoridade moral para o fazer.
Mas, podia?
Dois filhos, dificilmente se tem dois filhos por acidente, foram provavelmente desejados, amados, queridos e tragicamente atirados para a orfandade. Dois filhos por criar e desiste-se, decide-se que não valem o esforço de lutar por eles, seja lá contra o que for? É preciso não ter qualquer noção da gigantesca cicatriz que se lhes deixa em herança, da devastadora sensação de abandono que os irá perseguir por toda a vida.

Julgo que estes três exemplos sejam suficientes to make my point
Em qualquer uma destas situações, como em tantas outras, as pessoas têm a faca e o queijo na mão, podem efectivamente fazer estas coisas.
Podem, se se dispensarem de auto-crítica, autocensura, auto-controle, auto-estima, às vezes. Podem se não tiverem os outros, humanos ou animais, em consideração, se não se puserem no seu lugar, se não tiverem princípios morais sólidos.
Infelizmente, muitos só se inibem se também for ilegal…


COM MÚSICA