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quarta-feira, 15 de abril de 2020

VIDAS

Candidatura à CONTEXTILE 2020- Lugares da memória
VIDAS (100x150 cms)
   “No mapa do nosso cérebro, apenas fica impresso o que provoca impacto emocional, positivo ou negativo. Pessoas, lugares e experiências, que nos deixem indiferentes, deslizam para o esquecimento no longo prazo. São assim as emoções, de todos os tipos e intensidades, que definem os lugares da memória que nos é possível revisitar.
   Nesta escultura mural, entrego-me a uma divagação estética, numa matriz de várias vidas, sobre este conceito de sistema binário, aqui representado pela utilização do preto (tristeza, dor, sofrimento...) e do branco (alegria, prazer, bem-estar...).
   O observador pode assim dar asas à sua imaginação e, com base neste diagrama de emoções, criar histórias de vida para cada cordão.

   Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma... Assumindo uma postura reativa contra o chocante desperdício da sociedade atual, vou guardando todas as sobras aproveitáveis dos meus trabalhos. Delas é maioritariamente composta esta peça, formada por cerca de 20 000 pedaços de lã feltrada, enrijecida, cortados manualmente, um a um.


   Passei perto de três meses a trabalhar nesta peça dedicando-lhe, em média, 10/12 horas por dia, sete dias por semana, para me candidatar à bienal internacional de arte têxtil de Guimarães. Depois de uma longa espera saiu, finalmente, na semana passada, a lista dos 50 artistas selecionados, da qual não consta o meu nome.
   Já tinha concorrido anteriormente mas, desta vez, estava com uma grande fezada de que seria aceite. Foi um enorme balde de água fria. Há uns anos atrás, uma coisa destas teria tido em mim um efeito devastador, do qual teria demorado algum tempo a recuperar… Felizmente, aquela que sou hoje nada tem a ver com a pessoa que fui.
   A idade concede-nos alguma serenidade e sabedoria mas, sobretudo, fiz, faço e tenciono continuar a fazer, até ao meu último folego, um esforço consciente por viver cada vez melhor, por ser cada vez melhor. Dedico-me muito ao meu jardim, lutando contra as ervas daninhas e cuidando das outras plantas. É um trabalho sem fim, que não se pode nunca descurar.
   Assim, uma das coisas que decidi erradicar foi a autocomiseração, que não tem qualquer função positiva. É um sentimento que surge naturalmente em determinadas situações mas que não tem a mais pequena utilidade pelo que mais vale não o alimentar. A nossa vida está nas nossas mãos, o nosso caminho é aquele que escolhemos e, quando pelo meio encontramos obstáculos, temos de arranjar forma de os ultrapassar.
   Porque é que ser incluída nesta mostra de arte têxtil era importante?! Porque era uma forma de ganhar visibilidade e credibilidade. Se é verdade que, actualmente, graças à internet, os artistas já não precisam de andar com as suas obras debaixo do braço a bater às portas, a realidade é que somos sete cães a um osso e continua a não ser nada fácil ganhar reconhecimento público. Assim, qualquer validação de entidades oficiais que possamos incluir no nosso curriculum, é valiosa.
   Apesar do caminho me ter sido apontado com setas de néon e de ter feito um percurso académico ligado às artes, só recentemente vi a luz. Mais vale tarde do que nunca, é certo, mas não tenho o tempo a meu favor. Olho para os meus primeiros trabalhos e para aquilo que faço hoje e custa-me a acreditar que ainda nem três anos passaram desde que comecei. Ainda estou, no entanto, longe de conseguir viver da minha arte e voltar para a frente de um computador não é para mim opção. Descobri que isto não é aquilo que FAÇO, é aquilo que SOU e lutarei, de unhas e dentes, pelo meu lugarzinho ao sol.
   Sim, a Contextile era importante, era uma ajuda… mas imaginem lá que uma mascara que fiz, por graça, para um pequeno concurso de arte têxtil, anda a correr a internet, está por todo o lado com, literalmente, milhares de visualizações, likes, comentários, partilhas. Dizem que quando Deus fecha uma porta, abre uma janela… quem sabe se esta brincadeira não irá propulsionar, de alguma forma, o meu trabalho mais sério…


   Uma coisa é certa, não tenho intenções de baixar os braços e continuarei caminho alegremente, que tristezas não pagam dívidas. ;)




COM MÚSICA

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Trinta anos...

Foto da esquerda de Pedro Ferreira - Foto da direita de Miguel Gago

   Não sou uma pessoa fotogénica, sou demasiado expressiva, nos instantâneos costumo geralmente ficar com um olho meio fechado ou a boca à banda, raramente gosto de me ver. No entanto, nos meus tempos do ARCO, costumávamos fotografar-nos uns aos outros e fiz muitas sessões, tanto atrás como à frente da câmara, tendo aprendido a não me deixar intimidar por ela.
   Recebi, recentemente, uma série de fotos minhas de há trinta anos, algumas das quais não conhecia, ou pelo menos não me lembro de ter visto. Inútil será dizer que foi um prazer reencontrar aquela que fui há tanto tempo atrás, ainda para mais captada pela lente de um fotografo fantástico. Estão todas muito giras e tecnicamente boas, mas a que aqui publico tocou-me profundamente, pois nela o Pedro conseguiu retratar-me a alma. Ao olhar para ela revejo, com uma nitidez incrível, a miúda que era aos vinte e dois anos.
   Esta foto parece retirada de um film noir. A primeira coisa que me saltou à vista foi a melancolia do olhar, não retrata nitidamente uma pessoa feliz. Por esta altura tinha já uma boa dose de vida complicada pelas costas. Aos dezanove anos, num acto de rebeldia, saí de casa e fui viver com o meu professor de filosofia e encenador do grupo de teatro do liceu, que me fez a vida num inferno durante três anos e tal, tendo, já no fim da relação, acabado por enviuvar. Juro que não fui eu que o matei.  Nela vejo uma miúda sofrida, mas não quebrada, cansada, mas não derreada. Naquele olhar sinto uma estranha mistura de dureza e doçura. A postura é quase desafiadora, como se perguntasse à vida com o que me iria presentear a seguir. Estava no auge da minha sexualidade, da minha sensualidade o que transpirou evidentemente para a foto, no entanto, na minha opinião, de forma discreta e pouco agressiva. Numa imagem em que me apresento num body de renda preta é, curiosamente, a cara que mais me chama a atenção.
   Há muitos anos que não fazia uma sessão fotográfica e dei por mim a pensar no que apareceria agora no papel. Lembrei-me daquelas fotos, muito em voga hoje em dia no Facebook, que recriam imagens antigas, e decidi desafiar o Miguel para esta brincadeira, para captar a pessoa que sou com trinta anos de vida em cima. O Miguel não me conhece como o Pedro conhecia, mas escolhi-o porque é, sem qualquer sombra de dúvida, um excelente caçador de almas. Nos últimos tempos tem fotografado muitos eventos, muitos encontros, e quase sempre consegue magnificamente captar a essência de cada um.  
   Foi uma tarde muito divertida, em que tirámos, evidentemente, muitíssimas mais fotos do que a que aqui apresento. Ambos considerámos que esta era a que mais ia ao encontro do objectivo, a que melhor transmitia aquilo que sou hoje. Tal como esperava, acho que também o Miguel me conseguiu aqui capturar a essência.
   Ao ver estas novas fotos veio-me imediatamente à cabeça a musica que escolhi para este post; La femme qui est dans mon lit, na plus vingt ans depuis longtemps…” O tempo passou, gastou, deixou marcas. Gosto, no entanto, sem a mínima sombra de dúvida, muito mais do ser agora retratado. Encaro a outra com alguma saudade da juventude, como é natural, mas sem nostalgia e dou graças por aquela pessoa ter ficado para trás.
   Através das fotos antigas, que agora recebi, descobri que afinal, em tempos, até tinha sido uma gaja boa, embora na altura não me apercebesse disso. Um clássico, tendemos a nunca estar satisfeitos com o que temos, só lhe dando valor quando o perdemos, vá-se lá saber porquê. No entanto, hoje em dia, estou perfeitamente contente com o meu corpo, com os seus refegos, rugas e flacidezes, consciente de que são absolutamente normais para a idade. Já dizia a Elle Macpherson, quando lhe perguntaram se não a incomodava estar a envelhecer; não, já pensou na alternativa?! Esta mulher madura (eu, não a Elle lol) não é, decididamente, uma pessoa atormentada nem amargurada. É, bem pelo contrário, bastante mais leve e descontraída do que a anterior, alguém que se sente bem consigo e com os outros. O caminho pode nem sempre ter sido fácil, mas fui apanhando todas as pedras para contruir um castelo. A serenidade e paz de espírito que transparecem desta última foto enchem-me de orgulho, não azedei, não quebrei, cresci e continuo a crescer, com prazer e alegria.

Venham mais trinta ;)

COM MÚSICA

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Homem não chora

Homem não chora…
Mentira!
Apesar de muitos animais terem formas várias de exprimir as suas emoções, ao que apurei, o bicho homem é o único que efectivamente chora.
Se bem que há quem defenda que elefantes, cães e primatas também têm capacidade de o fazer…

A nossa sociedade não é no entanto grande apreciadora do choro, que encara geralmente como um embaraçoso sinal de fraqueza, que desde a infância tenta reprimir.
Do carinhoso “sê corajoso meu querido, não chores” ao mais violento chavão “um homem não chora, pá!”, tenta-se incutir nas crianças a ideia que devem tentar evitar chorar, noção essa que nos vai acompanhando ao longo da vida.

Choramos pelas mais variadas razões.
A dor, física ou psicológica, será talvez a mais comum. No entanto, muitas outras emoções nos podem fazer chorar; a aflição, a tensão, a revolta, a frustração, a vergonha e até mesmo algumas positivas como a sensação de alívio, por exemplo.

Tanta gente fica genuinamente perturbada com o choro alheio, que há quem disso se aproveite, usando-o para tentar levar a água ao seu moinho.
É um estratagema comum das crianças e um clássico muito usado por algumas fêmeas manhosas. 

É sabido que o choro é uma ferramenta de comunicação, um sinal de aflição que transmite uma necessidade de apoio, de ajuda.
É no entanto também uma valiosíssima válvula de escape, na minha opinião de má fama e terrivelmente subvalorizada.

Quantas vezes não nos sentimos francamente melhor depois de uma boa crise de choro?! Como se as lágrimas e os soluços expelissem cá para fora algo que nos estava a sufocar…
Aliás, parece que estudos sugerem que chorar limpa realmente químicos negativos do nosso sistema.
Para além disso parece que nos clarifica a visão. Depois de nos acalmarmos, ganhamos frequentemente nova perspectiva sobre as questões, como se a tensão nos estivesse a turvar o pensamento.

Por outro lado, chorar à frente de terceiros não é vergonha nenhuma.
É frequentemente o que despoleta desabafos que retínhamos dentro de nós, nos permite largar lastro e às vezes até conseguir a ajuda que, no nosso estado “controlado”, não queríamos pedir.
Quanto mais não seja, gera empatia, estimula o contacto físico, a oferta daquele ombro, quantas vezes mais do que suficiente para nos sentirmos logo melhor.

Ninguém consegue ser forte o tempo todo, todos temos momentos de fraqueza, de desalento.
Às vezes são pontuais mas outras vezes são fases. Há travessias do deserto muito longas, muito cansativas, muito duras.
Por muito optimistas que sejamos, por muito que mantenhamos, no geral, um espírito positivo, não é espectável que nos sintamos sempre bem, é normal vacilarmos de vez em quando.

Alturas há, inclusivamente, em que tudo nos põe de lagriminha ao canto do olho. Parece que tudo o que nos acontece, tudo o que nos fazem, nos dizem, bate com mais força.
Há mil razões pelas quais isto pode acontecer, desde alterações hormonais (na gravidez ou na menopausa, por exemplo) a problemas de saúde, cansaço, períodos da vida mais conturbados, etc…
Isto não é no entanto um sinal de fraqueza mas de fragilidade. É um sinal de alerta, mas não obrigatoriamente de alarme, que nos diz que estamos a passar por um período mais sensível e como tal nos devemos proteger, não nos expor desnecessariamente.

Há que desdramatizar os picos negativos dos electrocardiogramas, eles fazem parte da vida, tanto como os altos.
Há que interiorizar e aceitar que, quer queiremos quer não, temos de passar por eles.
Há que continuar a ser felizes por detrás das lágrimas, mesmo que no momento não consigamos sentir o calor dessa felicidade. Todos sabemos que por cima das nuvens o céu está azul e o sol brilha.

O que não é saudável, é perigoso mesmo, é abandonarmo-nos a estados de espírito negativos, acomodarmo-nos neles, por risco de cairmos em depressão ou de entrarmos em desespero, estados dos quais o retorno é muitíssimo difícil.
Há que saber não só aceitar os downs como parte integrante da vida como também reagir-lhes, tal como o cavaleiro que cai do cavalo deve voltar o mais rapidamente possível para a sela.





A capacidade de chorar pode aliás salvar-nos a vida… quem não se lembra do fabuloso Breakdown do Alfred Hitchcock?! ;)



COM MÚSICA

sábado, 23 de janeiro de 2016

A distância, o tempo e o coração




Ao longo da vida vai havendo uma rotatividade de gente à nossa volta. Pelas mais diversas razões, surgem uns, desaparecem outros.
A real importância de cada um, a marca que deixam em nós, só o tempo no lo mostra.

Quem não passou  já pela experiência desconcertante de se lembrar subitamente de ter estado “apaixonado,” na infância ou adolescência, por alguém que já nem se lembrava que existia?! Ou quem não reencontrou alguém que conheceu tempos antes e sentiu  genuína pena de não ter desenvolvido na altura uma relação mais profunda..
No momento, as situações e por arrasto as pessoas, têm um peso que não irão obrigatoriamente manter no futuro.
É um bocado como as feridas. Algumas são muito impressionantes na altura, são grandes, dolorosas e sangram muito, julgamos que irão deixar uma terrível cicatriz e no entanto, anos depois, vemo-nos aflitos para lhes  encontrar sequer o sítio. Pelo contrário, ás vezes damo-nos conta que a nossa pele reteve a marca de pequenos arranhões aparentemente insignificantes.

Quando fiz cinquenta anos, a minha irmã ofereceu-me uma prenda fabulosa, uma ideia genial; uma composição em que, por cima de uma fotografia minha,  montou a cara de mais de trezentas pessoas com as quais me cruzei.
Devo dizer que não me poupou, felizmente, a nada e não é de forma alguma um prazer, antes pelo contrário, lá encontrar algumas. É no entanto, sem dúvida,  um excelente  apanhado das minhas relações, da minha vida.
Sinto-me extremamente  aliviada por alguns deles já não fazerem parte dela. Outros são-me um bocado indiferentes, olhar para eles não provoca qualquer tipo de emoção. A maior parte, encaro com uma enorme ternura e saudade dos que já não tenho por perto.

Costuma dizer-se que conhecidos temos muitos mas que poucos são os amigos verdadeiros... afirmação com a qual só concordo parcialmente. 
As amizades requerem, sem qualquer sombra de dúvida, um enorme investimento, tanto de tempo como de energia, que não é fisicamente possível despender com uma grande quantidade de gente.
Tenho no entanto um sentimento de sincera e recíproca amizade relativamente a uma série de pessoas, com quem não partilho o meu dia a dia, e a sensação que muito facilmente a relação se poderia transformar noutra muito mais profunda.
A realidade é que, efectivamente, relações de estreita amizade não desenvolvemos muitas ao longo da vida. Estas são de uma extrema importância para mim.

Não acredito que quando as relações, sejam elas de que tipo forem, não são saudáveis, se deva insistir nelas.
Não acho que os casais devam continuar juntos por causa das crianças, que a família tenha de se manter por perto por partilhar o mesmo sangue ou que os amigos se devam continuar a dar em nome de um passado em comum.
Qualquer relacionamento passa  por episódios ou até mesmo períodos complicados. Há no entanto a meu ver que apurar se se trata de uma intoxicação pontual que, por muito violenta que possa eventualmente ser, há de passar ou de uma intolerância alimentar que, se insistirmos, nos irá envenenando aos poucos.

Nessa óptica, afastei-me, há já vários anos, de alguém que considerava um grande amigo.
Andei muito tempo a tentar evitar a ruptura,  pois a ideia punha-me doente. A realidade é que de amizade o nosso relacionamento cada vez tinha menos.
O que despoletou tudo,  um clássico; apaixonou-se, arranjou uma namorada.
Nestas alturas, um recolhimento no ninho de amor, com consequente afastamento do resto da malta, é a coisa mais natural do mundo. Não foi no entanto (só) o que aconteceu.

De repente, tudo o que eu era, tudo o que fazia ou dizia “magoava” ou “ofendia”. Parecia que se sentia agredido pela minha simples presença. Às tantas entrei num martírio de contenção, em que perdi toda e qualquer espontaneidade, pensando vinte vezes antes de fazer ou dizer alguma coisa.
Julgo que a gota de água tenha sido uma conversa na qual afirmou, com chispas de ódio a sair-lhe dos olhos, o quanto gostava de mim. Daí ao meu “chega” final, foram dois passos.
Não discutimos, não nos zangámos, simplesmente me pareceu aconselhável ir cada um para o seu lado, enquanto ainda não havia estragos de maior.

Mandar as culpas para cima da sua amada seria fácil, parece ser a conclusão mais obvia; “ela afastou-o de mim”. A realidade é que acredito no livre arbítrio e cada um faz as suas próprias escolhas.
Estou consciente de que há quem considere incompatíveis um grande amor e uma forte relação de amizade com o sexo oposto mas suspeito que possa não ter sido “só” isso.
Este era  um lobo solitário, que às tantas adoptou a nossa alcateia.... pergunto-me até que ponto não terá recalcado uma série de coisas, a bem do convívio, que terão saído nessa altura, por ter encontrado uma companheira com a mesma onda.
A realidade é que, apesar de felizmente não ter pessoalmente nada a apontar-lhe, comecei também eu a não gostar da pessoa em que se foi lenta mas seguramente transformando. Posturas que adoptou, atitudes que tomou,  opiniões que partilhou, transformaram-no num estranho aos meus olhos, que me é desagradável e nada tem a ver com o amigo que guardo no meu coração.

Mas voltando a este último e simultaneamente ao tema deste post... há pessoas que sairam da minha vida em quem penso com alguma frequência, noutras esporadicamentemente, nalgumas praticamente nunca. 
Ao fim deste tempo todo, não passa uma semana sem que ele me venha à cabeça.
Recordo-o constantemente, sem tristeza, porque não morreu; pelo menos parte dele está a viver o amor da sua vida, é pai de família, tem finalmente tudo aquilo com que sempre sonhou. :)
Penso nele com muita ternura, um imenso carinho, uma grande saudade e a perfeita consciência  de ter perdido uma amizade como há poucas.

Não importa o que é agora, o coração não pára de me relembrar inequivocamente o que foi. É isto que o tempo faz, dá-nos a noção da importância das coisas na nossa vida.
Pelo que fomos, pelo que tivemos... tchin, tchin... LuvU PW, estejas lá onde estiveres!

COM MÚSICA

terça-feira, 26 de maio de 2015

Marcas d’água



As relações humanas são provavelmente, para mim pelo menos, a coisa mais importante na vida.
Não me imagino a viver sem amor e carinho, sem humor, sem apoio e entreajuda, sem troca de ideias ou partilha de experiências…
Tenho, talvez por isso, uma memória emocional de elefante.
As datas e os factos, os porquês e os detalhes, esfumam-se-me na mente mas dificilmente me esqueço de como alguém me fez sentir.
O instinto de sobrevivência e o absoluto prazer em ser feliz, levam-me a afastar de tudo o que me faz mal, atirando para trás das costas aqueles que me fizeram essencialmente sofrer.
Os outros, independentemente de eventuais quezílias que possa ter havido pelo caminho, transporto-os para sempre no coração, quer tenham sido namorados ou amigos, colegas ou professores, colaboradores ou vizinhos…

Assim, quando reencontro alguém que, de alguma forma, fez parte da minha vida, sinto-me como se o tempo não tivesse passado.
Se de um “mau” se tratar, afasto-me prudente e discretamente, reduzindo a interacção ao inevitável.
Se, pelo contrário, se tratar de alguém que tenha deixado uma marca positiva na minha vida, continuo a sentir a mesma empatia, a mesma cumplicidade, a mesma intimidade.
É aqui que a porca torce o rabo, pois raramente sou correspondida.
Neste tipo de situações sinto-me como um cachorrito acolhendo o dono depois de uma longa ausência, salto, gano e dou ao rabo, numa excitação, à espera de festas, à cata de reconhecimento e afecto, recebendo no entanto geralmente em troca um distanciamento reservado, uma indiferença polida. 

O expoente máximo desta sensação foram os meus 50 anos, durante uns tempos hesitei entre não fazer absolutamente nada, deixando passar a ocasião em branco ou celebra-los, de alguma forma diferente do habitual.
Cinquenta anos, meio século, bodas de ouro da vida… se há data gira para se festejar, na minha opinião, é mesmo essa e achei que se não o fizesse me iria arrepender.
Decidi assim seleccionar as 50 pessoas que, de alguma forma, em algum momento, cruzaram a minha vida, com quem me apetecia realmente partilhar esse marco.
Foi um exercício engraçado, mais difícil do que estava à espera… 50 pessoas é muito e é pouco, são demasiadas para o núcleo duro mas é extremamente limitativo quando alargamos o horizonte da escolha...
Adivinhem então quem esteve presente?! Grosso modo, aqueles com quem partilho actualmente a minha vida, os que são, hoje em dia, convidados para qualquer evento de relevo.
Os que tentei ir buscar ao passado baldaram-se ou, pior ainda, nem sequer se deram ao trabalho de responder ao convite.
Apesar da postura “cool” que tentei ostentar para o exterior, se vos dissesse que não doeu, estaria a mentir. As inúmeras ausências fizeram-me sentir pequenina, insignificante. Fizeram-me acima de tudo pensar que não tinha tido qualquer peso, qualquer importância, qualquer relevância, nas suas vidas.

Acredito que a auto comiseração seja uma tendência natural do ser humano, somos todos instintivamente Calimeros, se não lutarmos contra isso. Assim, de cada vez que me deparo com uma destas situações de afastamento emocional, penso que o “problema” é meu. Sinto que não deixo senão marcas d’água no coração dos outros, marcas que desaparecem com o tempo, não ficando senão uma muito ténue lembrança do que existiu entre nós.
A realidade é que a própria vida não passa de uma marca d'água, tudo é efémero,  a vida é hoje, é aqui, é agora e consciente ou inconscientemente é no que as pessoas investem, é ao presente e a tudo o que dele faz parte que se entregam.
Qualquer um de nós tem muito menos importância do que gosta de acreditar e as marcas que eventualmente deixamos nos outros têm muito mais a ver com eles próprios do que connosco. 





COM MÚSICA

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Don’t worry, be happy



Há pessoas que são naturalmente “cool”, que parecem saltar levemente de nenúfar em nenúfar, sem aparentemente se preocuparem com grande coisa. Confesso que tenho uma certa inveja, a maior parte de nós tende a preocupar-se com alguma regularidade.
Preocupamo-nos connosco e com os outros, com o mundo que nos rodeia e com o estado do mundo em geral, com questões de dinheiro, de trabalho, de saúde, de relacionamentos… motivos para preocupação geralmente não faltam.

Esta não passa no fundo de uma espécie de medo, preocuparmo-nos com algo é temer um potencial desfecho negativo da questão.
Consome-nos, gera angústia, ansiedade, mau estar, sofremos por antecipação, frequentemente com coisas que nem sequer chegam a acontecer. Como se costuma dizer “até ao lavar dos cestos é vindima” e quantas vezes as situações não têm desfechos bem diferentes dos previstos.

Por outro lado, dá ideia que as pessoas acham que preocuparem-se é sinónimo de gostar,  demonstrar empatia, interesse pelos outros ou pelas situações. Como se o facto de sofrermos, só por si, mudasse alguma coisa, como se fosse de alguma forma ajudar.
A realidade é que, relativamente a grande parte das coisas que normalmente nos preocupam, não há geralmente grande coisa que possamos fazer.

Não deveríamos deixar que as preocupações passassem de sinais de alerta, sendo rapidamente descartadas.
Das duas uma, ou está ao nosso alcance fazer alguma coisa, em cujo caso devemos arregaçar as mangas cruzando os dedos para que corra tudo bem, ou foge completamente ao nosso controle e a nossa preocupação não servirá absolutamente para nada.
Basta pensarmos para concluirmos que preocuparmo-nos é das ocupações da mente mais inúteis e contraproducentes.

Tal como tantas outras coisas na vida, é sem dúvida muito mais fácil dizer do que fazer.
Não só consideramos as preocupações naturais, estando completamente habituados a tê-las e a que os outros as tenham à nossa volta como, se não a demonstrarmos perante determinadas situações, seremos considerados insensíveis, inconscientes, etc…

Sou pessoalmente uma pessoa tendencialmente preocupada sofrendo imenso com isso.
Sou, felizmente, por outro lado, extremamente aberta à lógica e à razão, acreditando que está nas nossas mãos mudar, até o que “sempre foi assim”, e que o devemos fazer ao longo de toda a vida, por forma a ir ganhando cada vez mais serenidade e paz de espírito.

Quando me apercebi que as preocupações nos tiram qualidade de vida, em troca de absolutamente nada, comecei uma árdua campanha. A luta não tem sido fácil mas tenho ganho várias batalhas e tenho fé de poder ganhar a guerra.
Que nem testemunhas de Jeová, continuam a bater-me à porta, como sempre fizeram, mas agora já aprendi que é ok dizer não, que não preciso de as ouvir, de lhes prestar atenção, de gastar com elas o meu precioso tempo.

Comecei por tentar banir a palavra do meu vocabulário, é um truque que uso frequentemente como guia para aquilo em que acredito. Fiz o mesmo com as palavras “sempre” e “nunca”, por exemplo, ou com a afirmação “tens que…”. Se modelarmos o nosso discurso estaremos simultaneamente a moldar a nossa mente.

Funciona igualmente bem substituir “preocupação” por “miúfa” ou equivalente... lol ... é muito mais nobre, muito mais digno, estar-se preocupado do que completamente acagaçado, ninguém gosta de se assumir como mariquinhas, para além de que põe logo as coisas em perspectiva.

Depois, quando alguma preocupação me assalta, tento sempre compreender se está nas minhas mãos fazer alguma coisa.
Como em tudo, o grande desafio está na “sabedoria para perceber a diferença”.
Se chego à conclusão que não, compenetro-me de que  o meu sofrimento não servindo qualquer propósito o melhor mesmo é po-lo para trás das costas.
Senão, meto mãos à obra, “esperando o melhor e preparando-me para o pior”.

A questão do tempo é também essencial, a maior parte das coisas não se resolvendo do pé para a mão, estando sujeitas a timings e compassos de espera.
Há assim que viver o aqui e agora, tirar folga do que nos preocupa e respirar fundo. Mudar a cabeça para outro lado, naqueles momentos em que não há nada a fazer, por forma a poupar forças.

Preocuparmo-nos com dinheiro não nos torna ricos, preocuparmo-nos com a saúde não nos torna saudáveis… só infelizes.
Don’t worry, be happy! ;)

COM MÚSICA

segunda-feira, 30 de março de 2015

O passado não existe



As circunstâncias da vida fazem com que as pessoas que nos rodeiam vão variando. Aproximamo-nos de umas, afastamo-nos de outras, o núcleo duro vai mudando. Sejam amores, familiares ou amigos, as caras que aparecem nas fotos, ao longo dos anos, vão sendo diferentes.
Presenças constantes em determinados períodos transformam-se, por razões diversas, em ausências absolutas e, tal como relativamente a tantas outras coisas na vida, frequentemente só à posteriori realmente compreendemos a sua importância aos nossos olhos. Assim, tanto nos podemos dar conta que na realidade não nos fazem grande falta, como sentirmos uma enorme dificuldade em "let go".

Quando retiram alguma coisa de dentro de nós, os orgãos reorganisam-se, ocupando o lugar agora vazio. Seria a meu ver expectável que o mesmo acontecesse com as pessoas. 
Relativamente a algumas perdura no entanto a presença da sua ausência. Como dizia o Brassens "... jamais au grand jamais, son trou dans l'eau ne se refermait..." 
Perdi, há uns anos, uma destas pessoas. 

Há amigos e Amigos e este pertencia, no meu coração, à segunda categoria, mantendo até hoje uma sensação de amputação emocional.
Tantas vezes me tenho perguntado como será possível que aquilo que tínhamos tenha desaparecido, até que recentemente me assaltou a ideia de que tudo pudesse não ter acontecido a não ser na minha cabeça. 
Não os factos propriamente ditos, que ainda não estou louca, mas os laços que julgava unirem-nos.

Não sei se será efectivamente o caso mas, a empatia que nos ligava, a percepção e aceitação do outro tal como era, a cumplicidade e o companheirismo, o apoio mútuo, etc, podem na realidade não ter passado de frutos da minha imaginação.
Tenho-me perguntado repetidamente como é que alguém muda tanto em tão pouco tempo, calhando não estou a fazer a pergunta certa. 
E se não tiver mudado, se sempre tiver sido como é hoje?! 

As relações humanas são fruto das circunstâncias e feitas de acções e reacções, todas elas sujeitas a interpretação. E se a minha estivesse errada?!
É, sem dúvida,  muito mais fácil pensar que as coisas tenham mudado, do que considerar a hipótese de nunca terem na realidade existido, pelo menos tal como as encarávamos na altura.
Cada um acredita naquilo em que quer acreditar e vive em conforme. Não existe uma realidade, existem várias, uma para cada um de nós.

O Jack Nicholson descobriu, já perto dos quarenta anos, que aquela que julgava ser sua mãe era na realidade a sua avó, sendo mãe aquela que julgava ser sua irmã. Apesar de ser esta a sua relação parental com estas duas senhoras, durante mais de metade da sua vida, para ele foi outra.
A ideia aqui não é discutir o impacto que este facto possa ter tido ou deixado de ter na sua vida mas aperceber-mo-nos de que o presente alterou o passado. Quando pensar "mãe" já não vai ver a mesma cara.

Todos teremos certamente a experiência de partilhar memórias com outra(s) pessoa(s) e chegarmos à conclusão que não são as mesmas, apesar de terem sido vividas em conjunto. 
A percepção do passado é diferente de indivíduo para indivíduo. Isto não se deve  exclusivamente á distância temporal e dissipar da memória, cada um de nós vive as coisas à sua maneira.

Chego assim à conclusão que o passado não existe.
Julgamos ser ponto assente porque ficou para trás, porque efectivamente já é "passado", como se por isso não pudesse ser re-escrito. 
Existem sem dúvida cronologias, acontecimentos e factos, mas a sua percepção sob outra luz pode ser diferente,  alterando-se assim o passado no futuro.

Não vem mais vinho para esta mesa... lol

 COM MÚSICA

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Meio Século





No Sábado passado fiz cinquenta anos!
Qual é a diferença entre fazer 49, 50 ou 51, perguntar-me-ão vocês… teoricamente muito pouca, evidentemente. No entanto, talvez por vivermos num mundo “decimal”, a realidade é que a passagem de uma década para outra mexe sempre connosco. Tipicamente nestas alturas fazemos pontos da situação, analisamos o que foi, imaginamos e planeamos o que pode vir a ser.

Quando estamos à espera de bebé, parece que de repente vemos grávidas por todo o lado. Reparamos muito mais nas crianças que nos rodeiam. Pomo-nos a galar os carrinhos que passam por nós. Tornamo-nos muito mais atentas às conversas sobre o tema.
Se pensamos comprar determinado carro, reparamos de repente que há montes deles em circulação. Se alguém que conhecemos tem um igual, observamos todos os detalhes com muito mais atenção, fazemos perguntas, lemos avaliações, fazemos comparações.

Quando caminhamos para velhos, é igual.
Parece que subitamente o mundo está cheio deles e passamos a vê-los com outros olhos. Interessamo-nos por questões que dantes considerávamos não nos dizer respeito. Artigos sobre temas relacionados, pelos quais anteriormente passávamos como cão por vinha vindimada, despertam-nos agora curiosidade. A análise da forma como os outros enfrentam a idade torna-se um exercício interessante.

Cinquenta anos é ser-se “velho”?!
Claro que não, de forma alguma, só mesmo aos olhos dos putos. lol
Pelo que consegui averiguar, actualmente a esperança de vida das mulheres, em Portugal, é de cerca de 82 anos. Isto quer dizer que aos cinquenta ainda têm potencialmente pela frente quase outros tantos. Se forem da laia do Manuel de Oliveira poderão mesmo duplica-los e ainda continuar por aí fora alegremente… ;) Sendo que a ciência e a medicina evoluíram de tal forma que tudo isto se passa com cada vez mais qualidade de vida.

Agora, novos já não somos, não… isso, só os muito mais velhos é que afirmam. lol
É mais ou menos por esta altura que a máquina começa a dar sinais de desgaste. Corpo e mente começam a baixar a performance, a perder a fiabilidade. De repente precisávamos de braços mais compridos, temos mais cerâmica na boca do que marfim e se nos sentarmos no chão mais de dez minutos é preciso chamar uma grua. Não vivemos sem agendas e lembretes. A máquina fotográfica deixa de ser amiguinha. O tema da morte passa a ser assunto de reflexão.

Há quem se deprima muito com tudo isto, quem tente desesperadamente remar contra a maré, agarrar-se com unhas e dentes a uma aparência e um estilo de vida que já não são nitidamente os seus.
O sentimento de perda é uma coisa complicada.
Encarar a idade como tal parece-me no entanto muito redutor, é ver o copo meio vazio.
Sempre acreditei que quando se fecha uma porta se abre uma janela. Como dizia a minha professora de história da arte, quando mudávamos de período, “não é melhor, nem pior… é diferente”.
A maior parte das pessoas só aprecia o que gostaria de ter ou eventualmente perdeu, não dá realmente valor àquilo que tem. Compara-se constantemente com os outros, mas sobretudo com os que, na sua opinião, estão melhor, em melhor forma, mais bonitos, mais elegantes, mais saudáveis, mais novos. Vê-se através dos olhos alheios, dá uma importância disparatada ao que os outros pensam…

Assim é de facto complicado não stressar com a idade.
Por um lado, cada vez mais aqueles que nos rodeiam irão ser mais novos que nós. Haverá cada vez mais gente a achar que estamos velhos e por velhos entenda-se muito pior do que estamos na realidade. lol
Por outro, se nos agarrarmos ao que ficou para trás, dificilmente conseguiremos realmente curtir o que temos pela frente. Se nos considerarmos no início do fim, para muitos de nós, irá ser um fim terrivelmente longo, uma verdadeira chatice. ;)

O convívio com gente de várias idades, géneros, opiniões, etc, é, na minha opinião, do mais salutar que há. Abre horizontes, fornece matéria para reflexão, mantém-nos actualizados e ligados à realidade.
O convívio regular com malta da nossa faixa etária é, na minha opinião, fundamental. É o que faz com que não sintamos tanto o peso da idade, darmo-nos conta que é realmente o curso natural da vida, que é quase igual para todos e sobretudo que ainda temos imenso para dar e receber.

O nosso grupinho do Tarot já perfaz uma idade somada próxima dos trezentos anos… hehe… as nossas quintas-feiras são uma galhofa, estamos todos sensivelmente no mesmo estado e não nos coibimos de gozar com o assunto. Não há melhor remédio do que o sentido de humor e não nos levarmos demasiado a sério. Estamos no entanto todos no mesmo barco e compreendemos bem como os outros se sentem, pelo que estão a passar, o que é muito reconfortante.
Não consigo sequer imaginar como se possam sentir os velhos jarretas e as barbies enrrugadas, pela “night” fora, a tentar “enturmar” com putos que quase poderiam ser seus netos.

Acreditem se quiserem mas não trocava os meus cinquenta anos pelos vinte de ninguém. :)


COM MÚSICA

domingo, 4 de janeiro de 2015

Just don't let the music die...



Ontem estive a ver o filme do meu casamento, com os filhotes de dois amigos que se conheceram nesse dia. Ficaram entusiasmados com a ideia de conhecer uns pais 22 anos mais novos e ainda sem qualquer laço entre eles...

Não tenho por hábito rever filmes. Alguns nem sequer os vejo, acreditem ou não. Tenho cerca de uma dúzia de cassetes com filmagens dos primeiros anos do meu filho e algumas delas nunca sequer as liguei à televisão.
Há, no entanto, regularmente alguém que pega num dos nos álbuns que tenho espalhados pela casa e revemos imagens do passado. De vez em quando, por alguma razão, remexo nas fotos que tenho no computador e perco-me em visões de outros tempos, de outras vidas, de outras caras.
Todos estamos habituados a ver fotografias antigas, nossas e dos outros... Todos conhecemos a sensação de nos confrontarmos com um "céus, como o tempo passou"...
Nada tem no entanto o impacto da imagem animada e sonorizada...

Em termos de filmes comerciais, sou daquelas espectadoras que se entregam totalmente àquilo a que estão a assistir. Há quem dê atenção ao detalhe, à música, à fotografia, aos erros de racord... eu vivo o que estou a ver, entro no filme e sinto o que estão a sentir.
Talvez seja por isso que, instintivamente, não procuro visionamentos de outros tempos. Acredito que a vida é hoje, aqui e agora, o passado serve-me para ir moldando o futuro. Não me interessa lá voltar...

Ontem revi muita gente. Alguns não via há muito tempo pois já não andam por cá, foi bom voltar a passar uns momentos na sua companhia. Outros, tais como os amigos que referi, eram pessoas, em variadíssimos aspectos, muito diferentes das que são agora. E eu... bem, não sei bem quem era... revivi aqueles momentos como se lá estivesse outra vez, mas não me consigo rever naquela pele. A realidade é que nenhuma das pessoas que aparecem naquele filme ainda existe.

Muita água correu desde então...  Todos aqueles jovens já são hoje em dias pais. Nós, os mais crescidinhos, só não estamos em vias de ser avós porque cada vez se tem filhos mais tarde, temos no entanto a idade dos "velhos" da altura. Tenho agora a idade que tinha a minha mãe quando me casei.

Olhando para eles compreendemos que, expectavelmente, nos anos a vir, já não vai haver muito mais mudanças significativas. A maior parte dos grandes marcos da vida já ficaram para trás, para nós. Uniões e separações, filhos, mudanças de casa, de emprego, de objectivos, são coisas essencialmente da juventude. Não quer dizer que não venha a acontecer, uma que outra, a cada um de nós, mas não mais viveremos o turbilhão das primeiras décadas.

Acredito assim que, apesar de passar a correr sem que compreendamos onde foi parar o tempo, o último troço das nossas vidas, sem grandes estímulos externos, possa não parecer muito empolgante.
Os actores principais dos grandes filmes começam a pertencer às gerações abaixo. Deixa de ser tanto "eu isto", "nós aquilo", para ser mais "o meu filho isto", "a minha sobrinha aquilo".
A certa altura temos de nos compenetrar que já somos "clássicos" (lol), que o que nos espera daqui para a frente são sobretudo papeis secundários.

Esta é uma ideia que põe muita gente fora de si, que deprime ou revolta, consoante os feitios. Que a faz desistir de continuar sempre a tentar evoluir e melhorar. Que a impele a tentar levar um estilo de vida que já não é nitidamente para "a sua idade". Que agarra de tal forma alguns ao passado que se tornam seres de aparência alienígena.

A viagem, cá mais para o fim, é mais calma, menos tumultuosa, mas nem por isso menos fascinante.
Os desafios vêm cada vez menos de fora e mais de dentro. Se tudo tiver corrido bem, teremos reunido matéria-prima da qual retirar agora muito sumo. Passámos anos a "fazer" uma vida, é agora altura de a vivermos.

Pois os mais novos olham para nós como se estivéssemos a ficar fora de prazo, como nós olhávamos para os nossos pais e tios…
Mal sabem eles, jovens tontos, que ainda agora estamos a começar, que a grande aventura, o maior dos desafios, é mesmo envelhecer em beleza, em paz, serenidade e sensatez...

De nós depende não deixar morrer a música...





COM MÚSICA

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Hey Ho Let Go


As emoções que nos provocam pessoas e “coisas”, quer sejam elas positivas ou negativas, afectam-nos sempre. Os sentimentos regulam a nossa vida, a forma como nos “sentimos”,  lá está, como a palavra o indica.
Sentimentos como o amor, a amizade, a compaixão, fazem-nos sentir bem, como o ódio, o ciúme, a inveja, fazem-nos sentir mal.
Ou seja, os sentimentos têm poder sobre nós, sobre as nossas vidas. Influenciam o nosso estado de espírito, puxam-nos para cima ou para baixo consoante as circunstâncias, impelem-nos inclusivamente a tomar esta ou aquela atitude.
Resumindo, só não nos toca o que nos é indiferente.

A vida encarrega-se constantemente de por e tirar coisas do nosso caminho.
As boas, as que nos são agradáveis, temos sempre receio de as perder. As más, as que de alguma forma nos fazem sofrer, queremos mais è vê-las pelas costas.
Aquilo de que não nos damos geralmente conta, é que somos muitas vezes nós próprios que as retemos, que lhes damos o poder de nos afectar.

Alimentar sentimentos relativamente a determinada situação liga-nos a ela, faz com que continue a ter presença emocional. Amar alguém que não quer saber de nós, odiar, desprezar, guardar rancor, são tudo sentimentos e como tal mexem connosco. A ideia, em prol do bem estar e da paz de espírito, é deixa-los ir, não nos agarrarmos a eles.

Ahhh, pois, e tal e coiso, muito mais fácil de dizer do que de fazer, dirão os do costume.
Ora alguém disse que era canja?! Se fosse uma coisa evidente nem valeria a pena dissertar sobre o assunto…
A realidade é que é possível controlar  sim, tal como na história do Velho Índio e dos dois lobos, nós é que escolhemos o que alimentamos. E se não houver cães não é preciso alimentar nenhum, a questão não se põe, é uma não-questão, um não problema.
Isto é válido relativamente a tudo, só a emoção nos prende, a indiferença é absolutamente libertadora.

Não, não estou a sugerir que descartemos toda e qualquer emoção transformando-nos em flat-liners, nem pouco mais ou menos, somente aquelas que não servem absolutamente para nada, que não cumprem qualquer propósito a não ser fazer-nos sofrer.

Quando eu era miúda tinha pânico de osgas, detestava-as, achava-as nojentas (e ainda acho um bocado, confesso), tinha imenso medo de ter algum "encontro" e tornava-me totalmente irracional na sua presença.
Uma noite, há muitos anos, os meus amigos sabendo desta fobia, fecharam-me num quarto com uma. A desgraçada estava na parede, lá bem perto do tecto, quietinha, sem fazer mal a ninguém, enquanto eu berrava insultos, guinchava e dava murros e pontapés na porta implorando que a abrissem para eu sair.
Nesse dia dei-me conta do ridículo que era nutrir “sentimentos” por um bicho sem qualquer importância na minha vida, com o qual o mais que podia acontecer era ter de partilhar pontualmente uma divisão. As osgas passaram a ser-me completamente indiferentes,

As relações humanas, familiares, amorosas, amigáveis, não funcionam sem emoções mas pode haver emoção sem haver relação. Mantemos laços emocionais com pessoas com quem já não temos qualquer relacionamento, tentamos, por alguma razão, manter o passado no presente, o que não é nada saudável.

Se não nos agarrarmos às emoções, se não ficarmos a remoer as questões, se deixarmos a coisa fluir, se nos deixarmos de mesquinhices e trivialidades, frequentemente nos daremos conta que determinada pessoa já não tem lugar na nossa vida, que tudo o que lhe diga respeito nos passou a ser perfeitamente indiferente.

Apesar disto poder parecer insensível é no entanto uma excelente bitola, uma forma de separar o trigo do joio, pois há também aqueles que, passe o tempo que passar, seja qual for a distância que nos separa ou a razão do afastamento, não conseguimos “esquecer”, não conseguimos ganhar distância emocional. Esses são os que realmente importam.

Alimentar sentimentos, só os que nos fazem sentir cheios por dentro, nunca os que nos corroem as entranhas. Esses é deixa-los ir, larga-los e usufruir do fabuloso poder libertador da indiferença.






COM MÚSICA

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A luz ao fundo do túnel



Todos passamos por fases na vida em que não conseguimos ver a luz ao fundo do túnel.
Por isto entenda-se visualizar solução para os problemas, antever como é que as situações se vão resolver, interiorizar que o sofrimento por que estamos a passar não passa disso mesmo, de uma fase má, que vai passar.
Isto aplica-se a tudo, desde questões sentimentais, como de saúde, financeiras ou qualquer outra coisa.

Há momentos em que a noção da realidade que nos rodeia tende a fazer-nos esquecer que por cima das nuvens o céu está azul e o sol brilha. Há alturas em que a vida assusta, por não conseguirmos ver saída para as situações. Há situações em que as estatísticas e as probabilidades estão nitidamente contra nós.

Aquilo que estou sempre a apregoar, que devemos dar valor àquilo que temos, em vez de almejarmos o que não temos, pode virar-se contra nós. Quando realmente vivemos a vida com esta postura, aquilo a que damos realmente valor, aquilo de que gostamos, gostamos imensamente, apreciarmo-lo de tal forma que a ideia de o perder é aterrorizadora.

Nestas alturas, para além do calor humano, do apoio e carinho dos que nos rodeiam, aquilo que mais nos pode ajudar, pessoalmente não tenho qualquer dúvida disto, é a FÉ.
Qualquer fé, não interessa… tem é de se acreditar, acreditar em alguma coisa.
Pessoalmente não sigo nenhuma religião, nenhuma doutrina, acredito no entanto, do fundo da minha alma, que se formos boas pessoas a vida é boa para nós.

Acredito que não seja possível amadurecer, irmo-nos tornando pessoas cada vez melhores, se não passarmos por situações difíceis, pois são elas que nos fazem crescer.
Acredito que as perdas, qualquer tipo de perda, daquelas que realmente doem, são tão inevitáveis como a própria morte e que temos de aprender a viver com essa consciência e aceitá-la pacífica e serenamente.
Acredito que a auto-compaixão só serve para nos deitar abaixo, para vermos o copo meio cheio, que se é para ter pena, que seja de quem está pior do que nós.
Acredito que nos momentos difíceis, não devemos olhar só para o nosso umbigo, que temos de interiorizar que se estamos a sofrer os outros também o podem estar, muitos estarão certamente pois os tempos não andam fáceis.
Acredito que não é lá porque se portam mal connosco que devemos retribuir. Que as más acções não são validadas por serem consequência de uma má acção sofrida anteriormente. Que assim o círculo vicioso nunca mais acaba.
Acredito que nos ajuda mais ajudar os outros com os seus próprios problemas, do que exigir compaixão e bater com a cabeça nas paredes. Que nos momentos em que sentimos que pouco ou nada podemos fazer por nós próprios, estender a mão a alguém nos faz sentir que não estamos de braços cruzados, que continuamos a fazer pela vida, mesmo que seja pela vida “em geral”.
Acredito que tudo aquilo que fazemos, de bom ou de mau, que nem boomerang, acaba por voltar a nós. Não obrigatoriamente pela mesma via, através das mesmas pessoas, mas garantidamente na mesma moeda.
Acredito que só com integridade, transparência, honestidade, franqueza e sobretudo muito amor, podemos realmente mudar o mundo. Que todos os males da humanidade se devem ao carácter egoísta e mesquinho da, infelizmente, maior parte dos homens.


Esta FÉ, é a única luz ao fundo do túnel em que realmente confio, é a força que que me permite afirmar, de lágrimas nos olhos e pesar no coração, que sou uma pessoa profundamente feliz.




COM MÚSICA