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domingo, 31 de julho de 2016

Para o infinito e mais além




Podemos, grosso modo, assumir dois tipos de postura na vida; aceitar-nos como somos ou tentar mudar para melhor.
A primeira é indiscutivelmente mais fácil e, mal ou bem, nitidamente a mais adoptada. A segunda faz para mim bastante mais sentido e dá sobretudo, na minha opinião, muitíssimo mais gozo.

O facto de todos estarmos perfeitamente conscientes de que ninguém é perfeito, parece ser desmotivante para alguns. Como se, assim sendo, não valesse a pena o esforço.
A própria noção de perfeição não podia no entanto ser mais subjectiva. Cada um de nós tem o seu ideal relativamente a tudo e há-os para todos os gostos.

Assim, muitos parecem considerar que, já que têm de aturar as imperfeições alheias, os outros que aturem também as suas.
Por outro lado, o “toda a gente faz” parece ser justificação para muita gente agir de uma forma que até poderá eventualmente não considerar correcta, mas que adopta na mesma por ser prática corrente.

Moldar, ou não, a nossa personalidade, a nossa postura perante a vida, os nossos hábitos parece, de qualquer forma, estar geralmente muito centrado nos outros.
Ora parece-me a mim que os principais interessados numa eventual melhoria somos antes do mais nós próprios e que tudo o resto vem por acréscimo.
A realidade é que, mudar não sendo nada fácil, todas as desculpas são boas para nos baldarmos a fazê-lo.
É um pouco como fazer exercício, ter uma alimentação saudável, etc… sabemos que devíamos, mas arregaçarmos efectivamente as mangas é outra história.

Mas então o que podemos, e na minha opinião devemos, nós tentar mudar?!
A vida é composta por acções e reacções, causas e consequências, e quantas vezes não se deve a nós próprios um mau resultado?!
Talvez não sempre, mas muitas vezes, nos damos conta de que metemos o pé na argola, a pata na poça, de que a responsabilidade de algum desfecho indesejado nos pode ser atribuída.
Apesar de geralmente não gostarmos de o reconhecer, nem para nós próprios, há um grilinho na nossa cabeça que nos diz que se tivéssemos agido de outra forma a coisa talvez tivesse corrido melhor.

Quantas vezes o que ele nos critica não é o que criticamos nós aos outros?!
Quantas vezes, ao olharmos para o espelho, não nos espantamos de reconhecer pessoas a quem apontamos o dedo. Quem não pensou já; céus, estou-me a transformar neste ou naquele.
É sem dúvida mais fácil identificar os defeitos alheios, por termos o necessário recuo para os conseguirmos ver com mais clareza, quem sabe até senti-los na pele.

Fisicamente, ao longo da vida, vamos aprendendo a lidar com o mundo que nos rodeia de forma cada vez mais controlada e eficiente. Vamos ganhando competências, dominando e aperfeiçoando técnicas. Vamos tomando consciência dos nossos pontos fracos e das nossas habilidades e trabalhando aquilo que mais precisa de ser trabalhado.
Porque não havíamos de fazer o mesmo com a nossa mente?!

O problema é que, mesmo quando fazemos um esforço genuíno para levar a vida de outra forma, não vamos com certeza conseguir mudar hábitos, muitas vezes enraizados, do dia para a noite.
Para além de difíceis, as mudanças são geralmente lentas, muito lentas, e parece-me a mim que se perdeu um bocadinho a paciência para a lentidão, quer-se tudo “aqui e agora”.

Lá vamos nós então falhar, e voltar a falhar, e falhar outra vez, e obter repetidamente os mesmos (maus) resultados, e voltar a ouvir a tal vozinha irritante… tão irritante que muitos preferem fazer ouvidos de mercador.
Quem quer mudar, tem de ter muita paciência, muita insistência, muita perseverança.
E quando alguma coisa se consegue, há sempre outra a trabalhar, mais arestas a limar, melhorias a fazer, é um trabalho que nunca está concluido.

A parte inglória é que raramente o nosso esforço é reconhecido pelos outros. Os que nos rodeiam têm geralmente uma ideia feita de nós e não se dão conta, quem não nos conhecia antes não tem termo de comparação.
O sentimento de injustiça poderá levar a algumas desistências. Fazer um grande esforço e continuar a ser tratado da mesma forma, como se nada tivesse mudado, não é grande incentivo e pode até gerar alguma revolta.

Não nos esqueçamos no entanto que não é pelos outros que mudamos.
Fazemo-lo para nos sentirmos melhor com nós próprios, para calar a tal critica interior, para tentar atingir melhores resultados na vida e, no que respeita a terceiros, a bem do entendimento e da harmonia, que em caso de sucesso existirão, quer sejam reconhecidos quer não.






COM MÚSICA

quinta-feira, 9 de junho de 2016

De cavalo para burro



Não vivemos tempos nada fáceis, raios os partam…

Pessoalmente não me lembro de nenhum período em que tanta gente, de todas as camadas sociais, tivesse de fazer downgrade ao seu estilo de vida.
Passar de cavalo para burro, como se costuma dizer, é terrivelmente penoso.

Há tempos falavam-me de alguém que, coitadinho, tinha descido de tal forma na vida, que hoje em dia já só tinha X€ por mês para viver.
Afluíram-me imediatamente à cabeça palavras começadas por F… bips de censura e ###s... pois com essa “miséria” nós cá em casa aguentávamo-nos mais de seis meses!!!

No entanto, depois de recuperada do meu ataquezinho de inveja polvilhado de self-pitty, conhecendo a pessoa em questão e aquilo a que estava habituada, dei-me conta que deve de facto ser lixado.
De onde partimos, neste caso, não altera em nada a situação, é o sentimento de perda que custa. A morte de um filho tanto dói a quem tenha dez, como a quem tenha um…

O que nos agrada, nos atrai, e não temos; encanta-nos, faz-nos sonhar, motiva-nos até. Aquilo que apreciamos e sem o qual ficamos; dói.
Estou absolutamente convencida que seja muito mais duro perder a visão do que nascer cego, perder um grande amor do que nunca o ter vivido, viver debaixo da ponte quando já se teve uma casa… o termo de comparação é que dá cabo de nós.

Dito isto, a vida são dois dias, pelo que é bom que os aproveitemos (ambos…lol) da melhor forma possível. Para além disso, não há dúvida que estas situações são excelentes oportunidades de crescimento interior.
Não sendo de forma alguma fáceis, não precisam também, a menos de casos extremos, de se transformar em dramas. O sofrimento não vai melhorar a nossa situação, antes pelo contrário, há portanto que tentar atenua-lo na medida do que nos for possível.
Para além disso, realidade é que se consegue viver, e bem, com muito menos do que aquilo que julgamos.

O truque começa por nos habituarmos a olhar tendencialmente para baixo e não para cima. Se é verdade que há quem tenha muito mais do que nós, há também quem tenha francamente menos e é preciso ter essa noção para conseguirmos pôr as coisas em perspectiva.
Matutar sobre o que nos faz falta, provoca sentimentos de frustração, de revolta, azeda-nos a alma. Dar valor às coisas boas que  temos, gera uma sensação de reconfortante gratidão.
Se para além disso interiorizarmos que há coisas muito mais graves do que as questões materiais, que há quem se debata com problemas de saúde, quem tenha de lidar com a morte de entes queridos, etc… ver o copo meio cheio tornar-se-há mais fácil ainda.

Assumir a nossa situação, a meu ver, também ajuda bastante. Não estou a sugerir que ponhamos um anúncio no jornal mas passar por dificuldades, ainda para mais numa altura em que isso é o pão nosso de cada dia para tanta gente, não é vergonha nenhuma.
Parece-me importante sobretudo para que não esperem de nós aquilo que não podemos dar.

Estou a rever o Friends com o meu filhote. Nem a propósito, o episódio de ontem era justamente sobre o tema das dificuldades financeiras.  Três deles ganham bem, enquanto que os outros três contam tostões, não conseguindo acompanhar o estilo de vida dos primeiros, criando-se assim um fosso que divide o grupo.
Inútil será dizer, spoilerrr, que tudo acaba por se resolver.

Nesse sentido, estas alturas até são fixes para separar o trigo do joio; um verdadeiro amigo não se chateia por não conseguirmos acompanha-lo ao restaurante da berra, aparece-nos em casa e traz o jantar… ;)
Meter o orgulho no saco (para não dizer noutro sítio) e aprender a aceitar a ajuda alheia e a apreciar genuinamente os miminhos que nos queiram fazer, ajuda muito a aguentar o barco.
Tudo custa sempre mais quando nos sentimos sozinhos, desamparados. Se nos isolarmos sentiremos muito mais o peso da nossa condição.

Mudam-se os tempos, há que  mudar de vida.
Tentar manter os padrões aos quais estávamos habituados só nos levará ainda mais ao buraco.
Há que encarar o facto que quando não há guito, não há palhaço mas, se nos deixarmos de vergonhas, podemos perfeitamente manter uma vida socialmente activa e gratificante.
Não podemos ir ao restaurante? Jantemos em casa, cada um traz qualquer coisa.
Não dá para ir ao cinema? Combinemos uma noite de jogo.
Não temos dinheiro para oferecer uma prenda decente? Organizemos uma vaquinha.
Há sempre soluções alternativas.

Se vos dissesse que estou satisfeitíssima com a minha condição actual, estaria a mentir, custa-me, custa-me para caramba, sobretudo porque já conheci outro tipo de vida, lá está.
Agora não posso negar que, a necessidade fazendo o engenho, muitas coisas positivas nasceram deste apertar de cinto.

Organizo regularmente aquilo a que chamamos “Chás das trocas”, simpáticos convívios em que cada um trás coisas que já não quer e leva para casa o que lhe apetecer. Fazemo-los temáticos; de roupas e acessórios, de livros, de coisas para a casa. São sempre muito concorridos e animados, com a enorme vantagem de o que sobra ser entregue a causas de solidariedade.

Passei a fazer eu montes de coisas em vez de as comprar; roupas, bijutaria, sacos, malas, almofadas, candeeiros, objectos vários, prendas para os amigos… na maior parte dos casos reutilizando materiais que já tinha em casa ou que me dão. Não imaginam o gozo supremo que me proporcionam estas manualidades.

Desenvolvi jeito e gosto pela jardinagem. Trago pés e rebentos de casa dos amigos, apanho-os na rua, no “lixo” da jardinagem da zona e planto-os em casa. Reproduzo as plantas, seco folhas e flores, aproveito-as para decoração, ofereço-as.

Isto só para dar os exemplos mais flagrantes do lado positivo da coisa.


Não consigo olhar com rancor ou azedume para belos corcéis, sinto-me feliz por eu própria já ter montado uma pileca e dou graças pelo meu burrito, que há quem ande toda a vida a pé. ;)



COM MÚSICA


segunda-feira, 4 de abril de 2016

Botão de Onofre

Pouquíssimas são as coisas que suscitam em mim sentimentos de inveja, uma delas sendo a natureza completamente cool de certas pessoas.
O meu filhote, por exemplo, é assim. Leva a vida saltando levemente de nenúfar em nenúfar, calmamente, descontraidamente, nada parecendo afecta-lo de sobremaneira.

Já eu, sou um caso completamente diferente. Não faço ideia se estas características já virão com o ADN ou se serão fruto das experiências de cada um mas a realidade é que sempre vivi em sobressalto.
Ansiedade is my midle name.

Tenho naturalmente oscilações de intensidade mas, desde que me lembro, que vivo em constante luta contra a desgraçada.
Exceptuando ali à roda dos meus vinte anos, em que passei por um período de ataques de pânico (experiência que não desejo ao pior inimigo), nunca me impediu de levar uma vida  normal.
Viver regularmente com um nó no estômago não é no entanto propriamente agradável.

A dependência, de seja o que for, sendo uma ideia que sempre me assustou, nunca me deu para me virar para fármacos e afins.
A minha luta tem portanto sido essencialmente cerebral e, confesso, até à data bastante inglória.
Não é no entanto o facto de andar a perder batalhas há cinquenta anos que me esmorece os ânimos e não tenho intenções de baixar os braços e dar-me por vencida.

Recentemente e pela primeira vez, parece que estou a levar a melhor. É ainda cedo para o afirmar categoricamente mas julgo ter arranjado forma de calar a desgraçada, quanto mais não seja em grande parte dos casos.
Tenho esperanças de, com o tempo e a prática, conseguir finalmente ganhar esta malfadada guerra.

O meu cérebro é, simultaneamente, a minha melhor ferramenta e o meu maior handicap.
É ele que uso para manter as emoções à rédea curta, para aprender, para alinhavar estratégias, para controlar e dirigir a minha vida.
Só que o desgraçado parece ter vida própria e atazana-me mesmo quando não lhe peço nada, às vezes até durante o sono. É um bocado como um smartphone com montes de Apps a correr em background, permanentemente a gastar energia e recursos.

Pessoalmente, não são tanto as preocupações que me atormentam, embora pontualmente as tenha, como qualquer pessoa. Consigo já no entanto dar-lhes relativamente bem a volta com alguma facilidade.
O estar permanentemente a tentar “resolver” situações é que me provoca nitidamente essa tal sensação de ansiedade.

Resolvi assim, tal como o faço com o telefone, ir fechando as aplicações que não estou a usar. Ou seja, não me permito divagar, ocupar a minha mente com questões que não tenha efectivamente pela frente.
Quando é para lidar com alguma coisa, arregaço as mangas e vamos a isso. Situações hipotéticas ou relativamente às quais não há nada que possa fazer no momento, ponho-as de lado até eventualmente serem efectivamente uma realidade.

Se vos dissesse que é fácil ou que sempre o consigo fazer, estaria a mentir. São muitos anos de cérebro a funcionar em permanência, a varrer hipóteses, a jogar xadrez, a fazer filmes… a verdade é que cada vez vai custando menos.






COM MÚSICA

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cá se fazem, lá se pagam...


Qualquer um se sente pontualmente ao rubro com alguma situação. Nessas alturas, a emoção tende a sobrepor-se à razão e frequentemente dizemos e/ou fazemos coisas de que nos arrependemos mais tarde.

Quando nos sentimos agredidos, atraiçoados, injustiçados, o primeiro impulso é ripostar tentando infligir a mesma dor  ao outro.
É comummente aceite, tolerado, que nos “portemos mal” nestes casos, que tenhamos atitudes meio disparatadas, que não teríamos em situações normais. À nossa volta, uns instigam-nas, outros compreendem-nas, a maioria desculpa-no-las. 

Enquanto o sangue nos ferve nas veias, partimos a loiça toda, agimos por impulso, sem pensar que mais tarde, quando arrefecerem os ânimos, teremos de viver com as respectivas consequências.
Qualquer situação acaba por se resolver, de uma maneira ou de outra, quanto mais não seja com o tempo. Tal como as tempestades, todas as crises passam. Os momentos difíceis dão, cedo ou tarde, lugar a outros mais calmos, mais pacíficos, mais serenos.

A forma como os iremos viver dependerá de como nos comportarmos durante a tormenta. Aquilo que formos, aquilo que fizermos, irá definir-nos, marcar-nos, ditar a postura dos outros no futuro.
Não interessa se a situação era obviamente complicada, difícil, se tínhamos “razão” para estarmos transtornados ou se muitos no nosso lugar fariam o mesmo; os actos ficam com quem os pratica.

As pessoas gostam de apurar responsabilidades, de atribuir culpas, de encarnar papeis... aos olhos de cada um há geralmente o bom e o mau da fita.
A vida real não é no entanto um filme de índios e cowboys, de polícias e ladrões, as coisas não funcionam assim, não são a preto e branco, ninguém é completamente culpado ou inocente, todos temos alguma culpa no cartório, alguma coisa a apontar.

As más acções dos outros não justificam as nossas. Como dizia o Gandhi; “olho  por olho e o mundo ficará cego”.  Portarem-se mal connosco não valida fazermos o mesmo.
A meu ver, a melhor forma de conseguirmos ultrapassar as situações de forma positiva, saudável, efectiva, é com consciência e integridade. Agindo relativamente aos outros como gostaríamos e esperamos que o façam connosco. Tentando sempre compreender e ter em consideração o outro lado.

O nosso primeiro grande crítico sendo nós próprios, não há nada que traga mais paz do que uma consciência tranquila.
A noção de que “apesar de” fomos correctos, não nos descontrolámos, não fizemos nenhuma baixaria, é muito reconfortante mais tarde, mesmo que no momento nos saia do pelo, nos obrigue a fazer das tripas coração.
Por muito que consigamos encontrar justificações e atenuantes para a merda que fazemos, não há como não a fazermos de todo. ;)

Por outro lado, deixar que o facto de estarmos de cabeça perdida dite as nossas acções, tantas vezes com “colateral damage” para quem nos rodeia, para aqueles que afirmamos amar é, no mínimo, extremamente egoísta.
Manter as atitudes correctas e assumir uma postura sensata e inteligente, não é muitas vezes fácil e menos ainda o que nos apetece fazer. No entanto, quem partilha a nossa vida merece pelo menos o esforço e o nosso eu de amanhã irá garantidamente agradecê-lo. 

Se se derem ao luxo 
de agir como animais irracionais, 
acreditem, provavelmente:


COM MÚSICA

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Don’t worry, be happy



Há pessoas que são naturalmente “cool”, que parecem saltar levemente de nenúfar em nenúfar, sem aparentemente se preocuparem com grande coisa. Confesso que tenho uma certa inveja, a maior parte de nós tende a preocupar-se com alguma regularidade.
Preocupamo-nos connosco e com os outros, com o mundo que nos rodeia e com o estado do mundo em geral, com questões de dinheiro, de trabalho, de saúde, de relacionamentos… motivos para preocupação geralmente não faltam.

Esta não passa no fundo de uma espécie de medo, preocuparmo-nos com algo é temer um potencial desfecho negativo da questão.
Consome-nos, gera angústia, ansiedade, mau estar, sofremos por antecipação, frequentemente com coisas que nem sequer chegam a acontecer. Como se costuma dizer “até ao lavar dos cestos é vindima” e quantas vezes as situações não têm desfechos bem diferentes dos previstos.

Por outro lado, dá ideia que as pessoas acham que preocuparem-se é sinónimo de gostar,  demonstrar empatia, interesse pelos outros ou pelas situações. Como se o facto de sofrermos, só por si, mudasse alguma coisa, como se fosse de alguma forma ajudar.
A realidade é que, relativamente a grande parte das coisas que normalmente nos preocupam, não há geralmente grande coisa que possamos fazer.

Não deveríamos deixar que as preocupações passassem de sinais de alerta, sendo rapidamente descartadas.
Das duas uma, ou está ao nosso alcance fazer alguma coisa, em cujo caso devemos arregaçar as mangas cruzando os dedos para que corra tudo bem, ou foge completamente ao nosso controle e a nossa preocupação não servirá absolutamente para nada.
Basta pensarmos para concluirmos que preocuparmo-nos é das ocupações da mente mais inúteis e contraproducentes.

Tal como tantas outras coisas na vida, é sem dúvida muito mais fácil dizer do que fazer.
Não só consideramos as preocupações naturais, estando completamente habituados a tê-las e a que os outros as tenham à nossa volta como, se não a demonstrarmos perante determinadas situações, seremos considerados insensíveis, inconscientes, etc…

Sou pessoalmente uma pessoa tendencialmente preocupada sofrendo imenso com isso.
Sou, felizmente, por outro lado, extremamente aberta à lógica e à razão, acreditando que está nas nossas mãos mudar, até o que “sempre foi assim”, e que o devemos fazer ao longo de toda a vida, por forma a ir ganhando cada vez mais serenidade e paz de espírito.

Quando me apercebi que as preocupações nos tiram qualidade de vida, em troca de absolutamente nada, comecei uma árdua campanha. A luta não tem sido fácil mas tenho ganho várias batalhas e tenho fé de poder ganhar a guerra.
Que nem testemunhas de Jeová, continuam a bater-me à porta, como sempre fizeram, mas agora já aprendi que é ok dizer não, que não preciso de as ouvir, de lhes prestar atenção, de gastar com elas o meu precioso tempo.

Comecei por tentar banir a palavra do meu vocabulário, é um truque que uso frequentemente como guia para aquilo em que acredito. Fiz o mesmo com as palavras “sempre” e “nunca”, por exemplo, ou com a afirmação “tens que…”. Se modelarmos o nosso discurso estaremos simultaneamente a moldar a nossa mente.

Funciona igualmente bem substituir “preocupação” por “miúfa” ou equivalente... lol ... é muito mais nobre, muito mais digno, estar-se preocupado do que completamente acagaçado, ninguém gosta de se assumir como mariquinhas, para além de que põe logo as coisas em perspectiva.

Depois, quando alguma preocupação me assalta, tento sempre compreender se está nas minhas mãos fazer alguma coisa.
Como em tudo, o grande desafio está na “sabedoria para perceber a diferença”.
Se chego à conclusão que não, compenetro-me de que  o meu sofrimento não servindo qualquer propósito o melhor mesmo é po-lo para trás das costas.
Senão, meto mãos à obra, “esperando o melhor e preparando-me para o pior”.

A questão do tempo é também essencial, a maior parte das coisas não se resolvendo do pé para a mão, estando sujeitas a timings e compassos de espera.
Há assim que viver o aqui e agora, tirar folga do que nos preocupa e respirar fundo. Mudar a cabeça para outro lado, naqueles momentos em que não há nada a fazer, por forma a poupar forças.

Preocuparmo-nos com dinheiro não nos torna ricos, preocuparmo-nos com a saúde não nos torna saudáveis… só infelizes.
Don’t worry, be happy! ;)

COM MÚSICA

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Brasas e sardinhas


Teoricamente, quando há mal-entendidos, desentendimentos, atritos, entre as pessoas e estas falam entre si sobre o assunto, o objectivo é tentar resolver as questões.
Não só nem sempre é o caso como inclusivamente, às vezes, ainda acaba por piorar as situações.

Pormo-nos à defesa é um instinto natural. Se nos sentimos atacados, agredidos, a tendência é sempre de puxarmos a brasa à nossa sardinha.
Ao fazê-lo, dificilmente teremos no entanto em consideração o ponto de vista do outro, transformando-se frequentemente um diálogo em dois monólogos.

Por outro lado, muitos achando que a melhor defesa é o ataque, não é invulgar que respondam a críticas ou acusações com outras de volta, transformando assim a conversa num concurso para averiguar quem tem mais defeitos ou culpas no cartório.

Um dos erros crassos que cometemos é assumir coisas.
Estamos habituados a fazer deduções no seguimento da análise dos factos. Raramente nos perguntamos no entanto se estaremos efectivamente em posse de todos os dados.

Para podermos compreender uma atitude precisamos de saber o que a motivou, sendo de uma enorme presunção partirmos do princípio que, somando dois e dois, lá conseguimos sempre chegar sozinhos.

Por outro lado, o hábito de auto-análise não sendo propriamente comum, as pessoas muito mais facilmente apontam o dedo ao próximo do que se perguntam se elas próprias terão agido correctamente.

Se em vez de cada um puxar a brasa à sua sardinha as pusermos todas na mesma grelha e as assarmos em conjunto, teremos garantidamente resultados muito mais gratificantes.

Tenho assim vindo a chegar à conclusão que, bastante mais importante do que afirmar, é perguntar, o que cumpre mais do que um propósito.
Primeiro, demonstra que estamos interessados em compreender o outro lado, o que já de si denota de pré-disposição para a concórdia. Depois, ajuda ambas as partes a compreender melhor as situações.

Ao pedirmos a alguém que nos explique alguma coisa, ou inclusivamente que sugira soluções, estamos simultaneamente a obriga-lo a realmente pensar sobre o assunto.
Para que consiga fazê-lo, terá de ganhar algum recuo, de se desprender um pouco de eventuais factores emocionais.
Isto irá permitir que ele próprio clarifique a sua postura e até eventualmente a passe a ver com outros olhos.

Se for caso de assumir ou partilhar “culpas”, estará assim muito mais inclinado a fazê-lo do que se tiver sido “encostado à parede”.
Se, por outro lado, chegar à conclusão que continua a achar que tem razão, mais fácilmente nos conseguirá transmitir porquê.

It’s a win, win, situation… ;)



COM MÚSICA

domingo, 8 de março de 2015

A mudança que queremos ver no mundo...

Tivemos recentemente cá em casa um mini-drama, em que o meu filho me disse que não estava feliz.
Nunca, até á data, tinham desta forma soado os sinais de alarme a seu respeito...
Estou convencida que, consciente ou inconscientemente, ele tinha noção da bomba que iria ser a sua afirmação, dado que estou sempre com conversas sobre a felicidade.

Cá em casa, todos temos de ser felizes, incluindo a cadela, os gatos e a cobra... lol... é o nosso lema, o nosso credo, a nossa missão, a nossa razão de ser... abraçar a felicidade e distribui-la à nossa volta.
Se a de algum dos membros da família estiver por alguma razão vacilante, todos contribuímos para que regresse ao bom caminho.

Depois de pensar um bocadinho sobre o assunto e o discutir com a cara metade, chegámos à conclusão de que não havia na realidade razão para preocupações.
Uma pessoa que canta no duche, está sempre a dizer piadas e leva a vida com energia e boa disposição, não é uma pessoa infeliz.
Sabendo muito bem a mãe que tem, utilizou no entanto a palavrinha mágica, que sabia ir mexer comigo, para me alertar para uma situação que não lhe agradava.

Apesar de tudo o que para aqui debito e da minha "filosofia de vida" baseada na felicidade, eu não sou uma pessoa fácil, tenho perfeita consciência disso.
Tento repetida e persistentemente por em pratica tudo o que apregoo, perdoo-me quando falho, penso que para a próxima farei melhor e não desisto.
Isto não impede que tenha um feitio desgraçado, que volta não volta foge das catacumbas onde o tento manter prisioneiro, que nem dragão da Daenerys, criando um tornado à minha volta, que leva tudo à frente.
Todos temos características que não nos ajudam nada na vida, esta é uma das minhas, o que não implica que encolha os ombros e diga "eu sou assim".

Neste caso, a suposta infelicidade do meu rebento, tinha a ver com a forma leonina como tenho andado em cima dele, nos últimos tempos, relativamente à escola.
Nos primeiros anos do liceu eu era excelente aluna. Tenho dois dedos de testa, tive bons professores, a coisa corria muito bem. Até que foi preciso começar a estudar a sério, a empinar, a gerir e organizar o estudo e trabalhos das várias disciplinas.
Era tarde demais, não tinha o habito, não sabia como, não me senti capaz... e desisti por isso de abraçar uma que outra profissão que, estou hoje em dia convencida, me poderia ter assentado que nem uma luva.

Raios me partam se vou deixar que aconteça o mesmo ao meu filho!
Não lhe peço nunca mais do que aquilo que sei que pode dar, só o seu máximo em tudo.
Não espero que ganhe o corta mato da escola ou que venha a falar fluentemente francês (snif) pois são capacidades ou apetências que não tem.
Não há no entanto absolutamente nenhuma razão para que alguém que gosta de matemática, que tem facilidade em domina-la e que tem (pelo menos neste ponto do campeonato) intenções de seguir uma via em que esta é fundamental, tenha negativa nessa cadeira, por exemplo.

Dito isto, há formas e formas de fazer as coisas e calhando virar ogre não é de facto das melhores... ;)
A palavrinha mágica, a declaração de infelicidade foi, no fundo, uma forma de gritar "estás a fazer tudo mal, minha... por aí não vamos lá. A única coisa que estás de facto a conseguir è stressar-me pa caraças... "
Ele lá sabe, nem que seja intuitivamente, que ás vezes as pessoas precisam de levar um estaladão na cara para abrir os olhos.

Parar para pensar, por as coisas em questão, em perspectiva, dar a mão à palmatória, compreender que já é mais do que tempo de arrepiar caminho e optar por outro menos tortuoso, é pontualmente fundamental na vida.
Passei os últimos doze anos a validar os berros que damos aos putos, por ser o que a maior parte de nós faz. Olhamos para o lado, pensamos "não sou a única, é ok..."
Mas não é... não é porque os outros agem mal, que devemos fazer o mesmo.
E não é porque sempre agimos de determinada maneira que temos de continuar fazê-lo, se chegarmos à conclusão que está errada.

"Sê a diferença que queres ver no mundo"...
Pessoalmente não quero de todo um mundo de filme neo-realista italiano, em que tudo berra, tudo grita.
As mensagens passam muito melhor pacificamente, num ambiente em que as pessoas não se sintam agredidas.

Apesar de tudo isto, sou uma mãe especialmente fixe em muitas outras coisas e dei-me conta, na longa conversa que tivemos, que ele me conseguia apontar umas quantas de que não gostava nada mas era incapaz de me dizer uma em que achasse que eu era boa, apesar de reconhecer que existiam várias.

Já se perguntava a Julia Roberts, no Pretty Woman "porquê que as coisas más a nosso respeito são sempre tão mais fáceis de acreditar!?"
Da mesma forma, mais facilmente recordamos os erros dos outros, aquilo em que nos magoaram, nos agrediram, nos lesaram, do que as coisas que fizeram connosco ou por nós, que tenham gerado sentimentos positivos.

Propus-lhe assim que tomasse nota num livrinho, de tudo o que eu fizesse nos próximos temos, que o chateasse ou lhe agradasse, e que o discutíssemos regularmente, para em conjunto analisarmos a esperada evolução da metamorfose da minha pessoa, de Gollum  para Smigel... lol

Qual não é o meu espanto quando, ao  fazê-lo ao fim de uns tempos,  verificamos que só lá tem coisas agradáveis escritas...

Ele há dias bons... :)))

COM MÚSICA











domingo, 11 de janeiro de 2015

Merci Charlie





Tendo passado as primeiras décadas da minha vida num meio essencialmente francófono, mantenho até hoje uma forte ligação com os velhos franco-belgas através da música, por um lado, e da BD por outro.
Ainda há poucos dias nos estivemos a rir com minha velha camisa de noite com desenhos do Wolinsky... Qual não foi o choque quando soube que era uma das vítimas do ataque em Paris.
Talvez por isto tenha dedicado mais tempo do que o que seria para mim natural a ler o que vai "saindo" sobre o assunto. Matéria não falta, está por todo o lado, parece que toda a gente tem alguma coisa a dizer.
Também eu tenho evidentemente a minha opinião mas que não interessa agora para nada, pois não foi ela que me inspirou este post. Li várias criticas ao facto de se estar a dar bastante mais importância a esta tragédia do que a outras que aconteceram pela mesma altura, algumas delas com muitíssimas mais vítimas.
É no entanto efectivamente do Charlie que todos mais falam. Falam chefes de estado e representantes de organizações várias, falam jornalistas e bloggers, fanáticos religiosos e hackers, católicos, judeus e muçulmanos, falam vocês e falo eu...
Subscrevo que a vida de um cartoonista famoso não valha mais do que a do empregado da redacção, da mesma forma que a da menina de cinco anos, atirada da ponte pelo seu próprio pai, não vale mais do que a de qualquer uma das vitimas dos ataques na Nigéria... Tenho lido discursos bem elaborados e claros e outros em que metem completamente os pés pelas mãos. Tenho lido opiniões inteligentes e sensatas e outras completamente imbecis. Tenho lido artigos de jornais e comentários no Facebook.
Não acho que as notícias sobre o Charlie eclipsem nenhuma das outras, antes pelo contrario, talvez lhes dêem mais peso ainda. Todas elas nos fazem gritantemente ver como tudo está podre, como tanta coisa tem realmente de mudar se quisermos manter a humanidade.
Começo no entanto a achar que o importante não é tanto que todos sejamos (ou sigamos) Charlie ou que alguns sejam Charlie e outros não ou se somos Charlies ou Ahmeds... não, o que me parece realmente importante é haver tanta, mas tanta, gente a pensar, a perguntar-se genuinamente qual é a sua opinião, a sua postura relativamente ao assunto. Sinto que este ataque abanou muita gente, acordou muita gente. Que foi uma espécie de gota de água relativamente a uma situação mundial, um estado das coisas, que não é aceitável, que não é mais comportável. Posso estar enganada (espero que não) mas tenho a sensação que o mundo, de alguma forma, mudou, depois do ataque ao Charlie Hebdo...

COM MÚSICA

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A diabólica menopausa.


Nos últimos tempos dei por mim a ter crises de angústia absolutamente terríveis, ao ponto de acabarem por despertar a minha Úrsula Adormecida.
Não as conseguia atribuir a nada de concreto. Se vos dissesse que tudo está fantástico para estes lados, estaria a mentir. A verdade, no entanto, é que já esteve bem pior. Não, a minha vida actual não parecia de forma alguma justificar este descontrolo.
Assim, tendo perfeita consciência do poder da mente sobre o corpo e vice-versa, antes que a coisa descambasse, tentei perceber o que se poderia estar a passar.

Não foi muito difícil, bastou parar para pensar um bocadinho, aperceber-me de todos os outros sintomas; a filha do demo estava de volta!
A menopausa não vem logo para ficar. Não, começa a rondar discretamente, afasta-se, volta subitamente, dá umas dentadinhas, torna a soltar… parece um gato a brincar com a presa.

Há cerca de um ano estive no fundo do poço, há muito tempo que não me sentia tão mal. Enfim, como dizia o outro, estive à beira do abismo mas dei um passo em frente… ;)
Estou hoje em dia profundamente convencida que foi a cadela que me pôs naquele estado e determinadíssima a não a deixar repetir a proeza.

Entrei na pré-menopausa há sensivelmente ano e meio e logo comecei a investigar o assunto, pois gosto sempre de saber com o que contar.
Cada uma de nós tem direito às suas maleitas, embora haja algumas mais comuns, que nos afligem com maior ou menor intensidade. Descobri no entanto que há uma série de sintomas potencialmente associados que nunca me passaria pela cabeça relacionar.

Se não controlarmos a coisa de alguma maneira, sentimo-nos literalmente a enlouquecer.
Pelo que consegui averiguar, parece ser hoje bastante consensual que as compensações hormonais sejam de evitar, devido ao risco de cancro. Pessoalmente não estou minimamente inclinada para assumir esse risco.

Os pais e/ou a escola preparam-nos para as primeiras fases da nossa vida, ninguém o faz para as últimas, temos portanto de aprender sozinhos ou deixar-nos ir com a maré.
Pessoalmente prefiro sempre tomar os assuntos em mãos.

Uma coisa que reparei foi que, não havendo propriamente um tabu, há pelo menos um certo pudor em falar sobre o tema. Confesso que me faz alguma confusão, dado que a troca de informações e de experiências sempre ajuda a que consigamos compreender o que se passa.
Não sei se terão visto um filme canadiano, de 86, chamado “O declínio do império americano”?!
Trata, grosso modo, de um grupo de amigos que, ao longo de um fim-de-semana, vai discutindo abertamente a sua sexualidade. Na altura gostei imenso do filme que me marcou bastante. Teria então cerca de vinte e poucos anos e lembro-me de ter citado, mais do que uma vez, em concordância claro está, a seguinte afirmação de um dos personagens masculinos:
[...] A única certeza que nos resta é a capacidade de agir dos nossos corpos. Se gosto, tenho ponta. Se não tenho, não gosto. Esta é a única maneira de testar. Como as mulheres que nos dizem "Amo-te como no primeiro dia" e que estão secas como lixa, quando dantes ficavam completamente molhadas só com um beijo no pescoço. [...]
Pois, a falta de informação é no que dá… leiam lá a listinha de sintomas, vá.

Outra coisa, é a convicção de que a menopausa é um assunto nosso, das mulheres…
Meus amigos, se vivem connosco aguentem-se, também é problema vosso, sim, exactamente da mesma forma que são problema nosso todas as vossas indisposições e doenças, estamos juntos neste barco, não sacudam a água do capote.
A maioria dos homens fica às portas da morte à mínima constipação mas espera que enfrentemos as nossas maleitas como se fossemos tanques de combate…
Pois esta merda não é pêra doce meninos e não é coisa para durar dois dias, é bom que se façam à ideia. Sem a vossa compreensão, a vossa ajuda, o vosso apoio, não vai ser nada fácil de ultrapassar e se correr mal vai sobrar para todos, garanto-vos.

Já ouvi falar de menopausas que decorrem “sem espinhas”, tal como de partos feitos com uma perna às costas (não sei se em sentido próprio…lol), são no entanto excepções.
São coisas por que temos de passar, façamo-lo portanto da melhor forma possível, começando por usar o cérebro, não faz sentido transforma-las em bichos de sete cabeças.

Há sintomas físicos e sintomas psicológicos mas estão de tal forma interligados que mais parecem uma pescadinha de rabo na boca.
Se, logo para começar, encararmos a menopausa como o princípio do fim, se começarmos a achar que, por causa dela, estamos velhas, é meio caminho andado para termos o caldo entornado no que diz respeito à parte psicológica.
Para além disso, convém evitar os macaquinhos no sótão pois, sendo o cérebro o maior órgão sexual feminino, estes vão garantidamente acabar por dar cabo dessa parte da nossa vida, o que convenhamos era uma pena. ;)

Na minha opinião a primeira coisa a fazer é encarar o facto que estamos a passar por um mau bocado e termos isso em consideração no nosso dia a dia.
Se é verdade que a ela associamos imediatamente alguns sintomas, como sejam os malfadados “calores”, outros há que são menos óbvios. Convém assim que saibamos o que esperar desta travessia do deserto, termos a noção que não vamos ter só os dois ou três incómodos de que sempre ouvimos falar mas potencialmente muitíssimos mais. Estarmos preparadas para lidar com cada um deles da forma mais eficiente.

Tudo aquilo por que passamos deita abaixo, não mata mas moí terrivelmente. Temos assim de poupar forças para o conseguir suportar, não armar em super-mulheres, pedir apoio, aceitar ajuda, exigir a compreensão de quem nos rodeia.
Se estivermos derreadas, a porta estará aberta para todos os males psicológicos. Mesmo tendo todos os cuidados eles estão sempre à espreita, as #”$%&## das hormonas encarregam-se de os invocar. O melhor é não lhes darmos muita importância, não alimentarmos a coisa.

Dito isto, não há fórmulas mágicas, cada uma terá de encontrar a melhor forma de viver com os seus sintomas. Há pequenos truques que podem ajudar, o artigo para o qual pus o link é dos melhores que encontrei na net e dá-nos dicas para cada “aflição”.
Para além disso é uma fase em que precisamos de muitas muletas… pois então usemo-las.
Temos falta de memória?! É para isso que servem agendas e lembretes… A porcaria da angústia não nos larga o osso?! Xanax pá carola… Tá seco?! Passáí o KY Jelly…

E sobretudo não esquecer que nisto, como aliás em tudo na vida, o nosso melhor amigo é sempre o sentido de humor… ;)


COM MÚSICA

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não sou tua amiga, sou tua mãe...



Educar
[...] Oferecer a alguém o necessário para que consiga desenvolver plenamente a sua personalidade. Propagar ou transmitir conhecimento (instrução) a; oferecer ensino (educação) a; instruir..[...]

De cada vez que vou a uma reunião de pais, pergunto-me qual será o futuro da humanidade nas mãos das crianças de hoje.
Partindo do princípio que as escolas não mencionam as coisas só porque sim mas porque chegaram à conclusão que não são óbvias para toda a gente, bradam aos céus alguns dos conselhos que se ouvem.

Os filhos não vêm com manual de instruções, cada caso é um caso e não tenho qualquer dúvida que vários caminhos levem a Roma. Convém é que exista, para que não reine a lei da selva, pois as crianças não se auto-educam.
Não sou sumidade na matéria, só uma mãe que retira genuíno gozo do papel e se aplica na tarefa. Haverá quem não concorde comigo, quem abrace outras teorias e práticas, o que compreendo e respeito.

Na minha opinião, há duas coisas fundamentais para o sucesso de uma educação; amor infinito e um pulso de ferro.
Não há formulas mágicas nem truques infalíveis e por muito que se possa estudar sobre o assunto, para educar temos de usar o bom senso e tocar de ouvido.
Se funcionarmos por experimentação e formos rectificando os erros, a coisa deverá correr mais ou menos bem. 
Convém no entanto que tenhamos noção que, muitas vezes, educar custa-nos bastante mais a nós do que a eles e que, façamos o que fizermos, iremos inevitavelmente falhar algures, não há pais perfeitos.

Nada me convence que as crianças não se começam a educar desde o dia em que nascem e faz-me alguma confusão o precioso tempo que perdem os pais que acham que só o podem fazer a partir de determinada idade.
A partir do momento em que começa a haver reciprocidade na comunicação verbal, então, passamos a ter mais uma preciosa ferramenta ao nosso serviço.

Uma das coisas que considero importante para que se gere uma sensação de estabilidade, são os horários e as rotinas. As crianças precisam de comer com calma e sem stress, de estudar, de tempo para a brincadeira, das suas horas de sono, etc. Se tudo isto não for devidamente organizado, facilmente as coisas descambam e não acho que as crianças digiram bem o caos.

Outra, são as regras. As sociedades em que vivemos, sejam elas quais forem, estão sempre repletas de regras. É bom que os miúdos percebam desde cedo o que isso quer dizer e aprendam a cumpri-las, a respeita-las, ou até mesmo eventualmente a quebra-las, desde que com a noção de que o estão a fazer.
Só assim se conseguirão integrar.
Haverá alguém melhor do que nós, que temos por eles um amor incondicional, com quem testarem tudo isto?!

Acredito numa educação cuidadosa e firme mas não austera e rígida.
Pessoalmente sou uma mãe brincalhona e informal e considero a cumplicidade e o companheirismo muito importantes e valiosos. Não tolero no entanto qualquer tipo de abusos, sendo bastante implacável relativamente a respostas tortas, insultos ou faltas de respeito. Quanto a este último, não só pelos mais velhos mas por qualquer ser vivo.

Se formos déspotas e prepotentes, só estaremos a mandar, não a educar. Se formos manipuláveis e permissivos, perderemos a autoridade necessária para o fazer. Como em tudo o resto, no meio é que está a virtude.
Não sou assim apologista de porque sins e porque nãos
Na minha opinião, as nossas decisões podem ser contestadas e postas em causa, sim, desde que civilizadamente e não através de birra. 
Caso seja possível devem-lhes ser explicadas e, no caso de contra-argumentarem convincentemente, revistas e eventualmente alteradas. Não tenhamos a presunção de achar que estamos sempre certos.
Da mesma forma, somos humanos, falhamos, metemos a pata na poça, somos injustos, etc… nesses casos não há nada como pedir desculpa, sinceras e humildes desculpas.

Não acredito em tabus e, as crianças tendo uma enorme curiosidade natural, acho óptimo que se sintam à vontade para nos perguntarem tudo que quiserem e que lhes respondamos sem embaraço ou preconceito.
Nem sempre é fácil adaptar as respostas à sua idade e às vezes nem sequer conseguimos arranjar uma que possam efectivamente compreender. Não vejo qualquer inconveniente em explicar-lhes isso mesmo, que são novas demais, que voltaremos eventualmente a falar sobre o assunto mais tarde.
Da mesma forma, acontece nós próprios não as sabermos, em cujo caso reconhecê-lo me parece a melhor solução, ninguém é suposto saber tudo. Todos conhecemos pessoas que, quando não sabem, inventam. Se for alguém em quem confiamos, acreditaremos, assumiremos o embuste como conhecimento. Caso o tema nos interesse e esteja ao alcance da nossa própria compreensão, é até uma excelente oportunidade para aprendermos e de seguida o transmitirmos. 

Quando são bebés temos de fazer absolutamente tudo por eles. Conforme vão crescendo, à medida das suas capacidades e respeitando o seu tempo de ser criança, acho que lhes devemos ir exigindo cada vez mais independência e colaboração.
É bom que se vão habituando lenta e suavemente a que a vida não é um mar de rosas e que nos sai do pelo. Sair tudo do nosso quando já podem participar com a sua quota-parte não me parece, nem justo, nem formativo.

Acho muito importante que estejamos disponíveis, para os ajudar sempre que possível. Ás vezes era sem dúvida mais fácil fazermos nós as coisas por eles, dava-nos menos trabalho, mexia-nos menos com os nervos. No entanto, quem precisa de aprender, de praticar, não somos nós, não devemos assim dar-lhes o peixe mas ensina-los a pescar.

Transmitir-lhes a noção de que, apesar de serem a coisa mais importante da nossa vida, não são a única, também me parece essencial. O ser humano è naturalmente egoísta e, se o deixarmos, tende a ver-se como o centro do universo. Convém cortar esse mal pela raiz desde cedo. Sacrifícios sim senhor, mas os que fazem sentido, os que cumprem algum propósito para além do “querer” da criancinha.

O que nos leva à questão das “liberdades individuais” de que tanto se fala hoje em dia. Sempre ouvi dizer que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Seres humanos em fase de formação, que ainda vêem a vida a preto e branco devem, na minha opinião, ter as escolhas reguladas pelo bom senso paternal. Quando forem adultos e independentes, logo poderão fazer o que bem entenderem, até lá, no que me diz respeito, estarão sempre em “liberdade condicional”. lol

Em tudo o que fazem acho que lhes devemos sempre exigir o máximo, não que sejam os melhores mas que dêem o seu melhor. Pouco ou nada se faz sem esforço, sem empenho, sem força de vontade. Na minha opinião todos devemos ser tão bons, em tudo o que fazemos, quanto aquilo que conseguimos ser, nem mais, nem menos.

Acho perfeitamente possível passar-lhes noções que nós próprios só descobrimos tarde na vida e tanto jeito nos teria dado interiorizar precocemente. Não são necessárias palestras, não fazem sentido grandes dissertações, eles compreendem bem melhor os exemplos práticos, as demonstrações com base em exemplos concretos do dia a dia.

Finalmente, como não podia deixar de ser, dar o exemplo é essencial. Haja coerência, se não praticarmos o que apregoamos, como iremos convence-los que lhes possa trazer algum benefício na vida?!




COM MÚSICA

sábado, 4 de outubro de 2014

Sapos




 
Pessoalmente sou acérrima defensora da sinceridade, frontalidade, transparência. Acho a vida muito mais fácil quando percebemos exactamente o que temos à frente, com o que estamos a lidar, sem necessidade de interpretação ou, nalguns casos, de capacidades divinatórias mesmo.
Sou no entanto também grande apologista da utilização do cérebro e consequente controlo dos impulsos.

Todos passamos pontualmente  por situações em que nos sentimos compelidos a "espingardar" quando na realidade, por uma razão ou por outra, o melhor que  temos a fazer é mesmo meter a viola no saco e ficar caladinhos. Passo a exemplificar...

Trato dos pedidos de informação e reservas de uma casa de férias da família, que tem vindo a ser pontualmente arrendada para ajudar a suportar os custos.
Frequentemente as pessoas pedem "favores", que se abram excepções às regras, que se facilite isto ou aquilo. Vai do clássico pedido de desconto, à flexibilidade nos horários de entrada e saída ou à autorização para levarem o cãozinho. 
De cada vez, oiço os seu argumentos, tento pôr-me no seu lugar, compreender as suas razões e, sempre que possível e dentro dos limites do razoável, acedo aos seus pedidos.
Já mais do que uma vez, devido a algum problema ou imprevisto, teria sido agradável ter a mesma simpatia do outro lado. Aquilo com que me tenho deparado nessas alturas é no entanto bem diferente. A compreensão e as cedências parecem ser vias de sentido único.
Sobretudo relativamente àqueles para quem tive alguma atenção especial, esta postura provoca-me um enorme sentimento de revolta.
De que me adiantaria no entanto puxar a brasa à nossa sardinha?! A empatia, ou se sente ou não se sente e a triste realidade è que a maioria  das pessoas só tem em consideração o seu próprio umbigo. 

Outro exemplo, fiz uma vez um trabalho para um amigo, digamos que de feitio um pouco intempestivo... 
Desde o início que não foram propriamente fáceis o diálogo e a comunicação mas houve uma reunião que ultrapassou todos os limites do razoável. A virulência e agressividade foram escalando de tal forma que, de cada vez que precisava de falar, tinha antes de contar até dez, para garantir que não dizia nada de que me fosse arrepender mais tarde. 
Quando se foi embora, chorei de raiva e de seguida mudei de registo e obriguei-me a pensar noutra coisa. Era isso ou partir a loiça toda da nossa relação, o que não estava disposta a fazer, pois na minha forma de estar na vida não se trata ninguém daquela forma.

Finalmente, há tempos, fui injustamente acusada de ter tido uma atitude que, não só não tive, como antes pelo contrário. Fui por isso apelidada de ingénua, de totó, e ainda hoje sou gozada e achincalhada. 
O sentimento de injustiça é, sem dúvida, dos que mais me afectam, pelo que me senti obviamente impelida a repor a verdade dos factos. 
Ao preparar a resposta dei-me no entanto conta de que este era mais um sapo que teria de engolir. Para poder "limpar" o meu nome teria de apontar o dedo a terceiros, "gabar-me" de atitudes louváveis que tinha tido e apontar umas "verdades" inconvenientes... e tudo isto com a convicção de que não iam acreditar de qualquer das formas. 
Mais valeu estar calada. 

Muitas são as situações em que é mesmo a melhor coisa a fazer, calar e engolir em seco.
Temos enraizadas em nós noções de honra, de justiça, de reposição de verdades mas, no fundo, o que realmente interessa é o resultado final das nossas atitudes, das nossas reacções. 
Quando penso em tudo isto vêm-me sempre à cabeça os, na minha opinião ridículos, duelos, a quantidade de gente que limpou a honra perdendo a vida, e pergunto-me como é que alguém pode achar que vale a pena.


COM MÚSICA

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ó vizinha, dá-me salsa?!




Um destes dias os nossos convidados para o almoço entraram-nos em casa a perguntar; “Como é que vocês se dão com os vossos vizinhos tal tal? É que estamos a pensar fazer uma queixa…”
Depois de lhes assegurarmos que dávamos muito bem obrigados e sugerirmos que estivessem quietinhos, continuaram a refilar. Que não podia ser, que as pessoas não podiam fazer o que lhes dava na real gana, que eles faziam queixa de tudo, eram odiados por todos os vizinhos mas funcionava muito bem.

Primeiro chocou-me a ideia daqueles dois serem odiados por fosse quem fosse. Não conheço sinceramente melhores pessoas, mais atenciosas, disponíveis, prestáveis, sempre dispostos a estender a mão ao próximo. Pessoalmente não conheço ninguém que não os adore.
Depois pus-me no lugar dos vizinhos deles e, se de facto é a postura que adoptam, compreendi que possa haver quem não tenha propriamente a mesma opinião… lol

A conversa transitou entretanto para outro tema qualquer e não voltámos a discutir o assunto. Fiquei no entanto a remoê-lo durante algum tempo, ao ponto de me inspirar este post…

Vivemos num pequeno caracol com trinta casas, das quais dois terços são praticamente iguais, só diferindo em tamanho. Chamo-lhe caracol porque é o que parece visto de cima, tendo de se sair por onde se entrou, o que faz com que seja uma rua muito calma e recatada praticamente só por cá circulando moradores e respectivos colaboradores e visitas.

Se me perguntarem se aquilo que os irritou a eles não me incomoda a mim, tenho de confessar que sim. Como em qualquer outro sítio onde vivesse, há praticas que me chateiam, coisas que agridem o meu sentido estético, episódios pontuais que não me agradam.
Daí a “fazer queixa” dos mesmos…

Quando as nossas visitas juntaram numa mesma frase a afirmação de que eram odiados à de que corria tudo muito bem, confesso que fiquei baralhada, pois a mim parece-me sintoma de que algo corre infelizmente bastante mal.
Eu pelo menos atribuo uma enorme importância ao ambiente em que vivo, acho fundamental sentirmos harmonia à nossa volta e não animosidade.
Gosto de trocar dois dedos de conversa com os vizinhos quando nos cruzamos na rua, de me sentir à vontade para lhes cravar isto ou aquilo e vice-versa, de lhes poder deixar a chave de nossa casa se for necessário, etc…
A minha irmã é muito amiga dos vizinhos do lado, fazem jantaradas, passam férias juntos, confesso que tenho uma pontinha de inveja, gostava de ter uma coisa do género aqui na zona. lol

Se pensarmos bem, todos temos coisas a apontar, todos de alguma forma temos  telhados de vidro (no nosso caso até em sentido próprio…lolololol), duvido que alguém possa afirmar, em consciência, que jamais incomodou o próximo.
Resumindo, acho fundamental esforçarmo-nos por ter para com os outros a paciência e tolerância que gostaríamos e esperamos que tenham para connosco.

Queixas, reservo-as para se surgir alguma questão realmente grave, nos entretantos prefiro uma boa vizinhança… :)







COM MÚSICA
(Sim, sim... mas foi a única música gira 
que encontrei sobre vizinhanças, ok? lol)
Pete Seeger - Little Boxes

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sem stress…


Na semana passada tive de ir fazer uns exames e aproveitei para a seguir passar no Ikea. Cada vez mais me sinto uma pacóvia quando me desloco à metrópole, percebi finalmente porquê.

No consultório, as senhas de vez encravaram na máquina, o que gerou uma relativa confusão no atendimento. Algumas pessoas desatinaram com a senhora que estava ao balcão, esta reagiu de forma ríspida e desagradável. Num instante se criou ali um ambiente pesado, sem grande razão de ser dado que na realidade ninguém acabou por perder nem tempo nem vez.
Na caixa do Ikea abandonei o carrinho durante uns segundos para ir buscar um saco para as compras e não uma mas duas famílias me passaram à frente. Pressenti que tentar recuperar o meu lugar na fila iria provocar um verdadeiro pé de vento, fiquei-me.
Finalmente, no estacionamento, um senhor por pouco não me abalroou em marcha atrás por ter surgido outro carro, também ele a galar o lugar de onde estava a retirar o meu. Notem que havia outros alguns metros mais à frente. Quando passei por ele ainda vociferou na minha direcção.

No regresso a casa vinha a pensar no assunto e dei-me conta que levo uma vida com muito pouco, para não dizer praticamente nenhum stress.
Tenho problemas e preocupações, lido com dificuldades e contrariedades, sinto dor e tristeza, às vezes ansiedade ou angústia… mas a realidade é que o stress raramente “me assiste”.
Sempre funcionei muitíssimo mal sob pressão, como tal sempre fugi dela como da peste e tento erradica-la da minha vida em tudo o que me é possível. 
Isto não se faz sem custos, sem abdicar de determinadas coisas, muitas delas directamente ligadas ao lado material. Permite-me no entanto, em certa medida, escapar a esta calamidade da vida moderna. 

Durante a vida académica, por exemplo, é comum trabalhos e estudo serem deixados para a última hora. A maior parte dos meus coleguinhas adiava o inevitável até aos limites, alguns deles afirmando inclusivamente ser muito mais produtivos desta forma. Eu sempre tive a atitude contrária, despachando logo o que houvesse a despachar, para poder relaxar a seguir.
O facto de ser naturalmente responsável e organizada permite-me adoptar quase que inconscientemente esta postura. Não deixa no entanto de ser necessário um trabalho consciente, quando as coisas não dependem de nós, no sentido de aprender a evitar tensões desnecessárias.

Assim, quando tenho de estar em algum lado a uma hora certa, por exemplo, dou um desconto para imprevistos e saio um bocado antes do que estimo ser necessário para lá chegar. Quando planeio e organizo o meu dia-a-dia, faço-o de forma realista, não tentando meter o Rossio na Rua da Betesga.
Tenho também vindo a aprender a não assumir os atrasos alheios, se a responsabilidade não é minha, descontraio, relaxo, o mesmo se passando quando fiz ou estou a fazer tudo o que esteja ao meu alcance para tratar de determinada situação, mesmo que ainda não esteja resolvida.
Basicamente cheguei à conclusão que preocupar-me não resolve absolutamente nada e stressar ainda menos. No que me respeita só serve mesmo para me diminuir as capacidades, provocando inevitavelmente desfechos negativos. Para além disso sinto nitidamente que me envenena, me corrói a qualidade de vida de uma forma inaceitável.

Mas, mais uma vez nenhum homem sendo uma ilha, não basta tentarmos cortar no nosso stressezinho pessoal. Se quisermos realmente um mundo melhor, é preciso que também nos coibamos de o mandar para cima dos outros.
É essa nuvem negra, essa tensão, que se sente na rua, no trânsito, no atendimento em geral, que me incomoda quando me desloco hoje em dia a Lisboa e me faz sentir como se vivesse na província. Aqui não se sente de todo com o mesmo peso, e notem que não vivo propriamente no Alentejo profundo, demoro menos tempo da minha casa ao Marquês do que alguém que more nos Olivais…

Já devem conhecer a definição de segundo; o tempo que demora entre o sinal passar para verde e o fdp que está atrás de nós começar a buzinar… ;)
Ouvi sensivelmente as mesmas buzinadelas desde que cá estou, há nove anos, do que num só dia mais complicado na capital. Simplesmente não se usa, não é hábito, não é comum.
Assim, eu que era uma buzinadora de primeira, deixei também de o fazer. Apito para alertar sobre algum perigo e, confesso, volta não volta com uns palavrões à mistura, como sinal de protesto se alguém faz asneira da grossa. Não enterro a mão na buzina para apressar as pessoas.

Na vida profissional,  é sempre tudo “para ontem”. No entanto, quantas vezes não exigem prazos que obrigam a trabalhar à noite, ao fim de semana, para depois ficar tudo não sei quanto tempo em águas de bacalhau… “para ontem”, tirando raras excepções, casos de força maior, é um timming absolutamente obsceno, se era para ontem tratassem do assunto anteontem.
Pessoalmente, tento sempre não pressionar ninguém quando não estou efectivamente com pressa. É muito curioso sentir o misto de espanto e alívio, quando alguém se está a desfazer em desculpas devido a alguma demora, e lhes respondemos sinceramente “não tem problema, esteja à vontade”. Até parece que ouvimos o chiar da descompressão… lol

A vida actual parece uma corrida contra o tempo, andamos sempre a mil. Não tem no entanto de ser sempre assim, muitas vezes fazemo-lo porque não trocamos de mudança, de registo. Corremos e pressionamos os outros a fazê-lo por “defeito”, porque é aquilo a que estamos habituados. 
Basta no entanto que cada um de nós abra os olhos e desacelere um bocado, que lute activa e conscientemente contra este estado das coisas, para que tudo mude. 
Infelizmente, como em tantas outras coisas, a maioria encolhe os ombros e decreta que não há nada a fazer.

COM MÚSICA

Platters - Sixteen Tons


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