quinta-feira, 13 de maio de 2010

O mostrengo

COM MÚSICA

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar


A minha recente experiência de navegação, ao leme de uma casquita de noz com cerca de três mil e setecentas pessoas, leva-me á interrogação de como que raio será possível governar um país… deve ser um verdadeiro pesadelo. lol

Há quem lhe chame “o teu site”… confesso que se me eriçam os pelos dos braços, mais depressa seria eu dele do que o contrário.
Tenho-me sem dúvida dedicado a ele de corpo e alma mas sem qualquer sentimento de posse.
Acredito que seja a chave do seu sucesso, é de todos e não é de ninguém.

Nesta óptica tenho tentado ser democrática na sua gestão.
Sempre que surgem questões polémicas, relativas a decisões a tomar, abro votações e fóruns de discussão…
Temos uma abstenção que ronda os 95%. lol
A maior parte dos membros não o frequenta regularmente e suspeito que nem sequer tenha activada a funcionalidade de receber as mensagens que envio para todos.
Alguns simplesmente não querem saber.
Os outros dão-me água pela barba… ;)

A amostragem que temos é já suficiente para que haja um pouco de tudo.
Por entre os que se interessam em partilhar o seu ponto de vista, temos gente com posições tão díspares como o dia e a noite. A realidade é que há mesmo muitas opiniões possíveis relativamente a um mesmo assunto e nem todos sabem discuti-las pacificamente.

A primeira coisa que observo é que frequentemente lêem o que escrevo na diagonal…
Tento sintetizar o mais possível, apresentar as coisas com clareza, passo horas a escrever e reler cada comunicação, mas há sempre quem leia alhos nos bugalhos que transmito.

Como referi, costumo abrir fóruns de discussão sobre os temas… pois no entanto há sempre imensa gente que prefere comunicar-me a sua opinião em privado, facto que ainda não consegui compreender tratando-se de assuntos “públicos” e relativamente aos quais quanto mais se partilhar melhor para se tentar chegar a consenso.

A maior parte dos que se manifestam têm geralmente opiniões formadas sobre os assuntos.
Dou-me no entanto conta de que alguns não fazem a mínima ideia do que estão a falar, demonstrando uma total ignorância sobre o funcionamento e funcionalidades do site e sugerindo consequentemente soluções de bradar aos céus.

Tipicamente há sempre uma mão cheia de pessoas que toma as coisas a peito interagindo frequente e activamente nas discussões. Tipicamente são essas mesmas pessoas que acabam por me “acusar” de excesso de democracia. lol

A realidade é que, não sendo possível submeter a votação todos os detalhes de uma questão, há sempre coisas que terei de decidir por mim. Não é fácil. Tento ser ponderada, sensata, usar de inteligência… mas não deixo de ser humana estando portanto sujeita a erro. E uma vez as decisões tomadas, há sempre quem ache que cometi algum, não se pode agradar a Gregos e a Troianos.

Finalmente, como se tem verificado em várias ocasiões, apesar de se comprometerem, muitos não irão cumprir. Tal como a tia do Solnado, os nossos membros gostam muito de dizer coisas… mas entre o dizer e o fazer vai uma grande distância. As sondagens, votações e inscrições valem o que valem, ou seja, não valem grande coisa. lol

Tudo isto se resume numa valiosíssima lição de vida e num treino sem igual.
Graças a este meu “cargo” tenho aperfeiçoado competências na área da gestão e organização mas também da diplomacia, da tolerância, do controle de emoções.
Mas tenho-me sobretudo dado conta de que, desde que as coisas sejam feitas com o coração, com firmeza mas sem prepotência, com empenho, honestidade, frontalidade e transparência, apesar das diferenças, tudo acaba por se resolver.

Como alguém tão bem disse:
“… este site é literalmente uma CASA. Podemos ter idades diferentes, recordações diferentes, amigos diferentes, há quem cá venha mais, quem venha menos, mas para grande espanto do resto do mundo, somos membros da mesma "família". /…/ Não venho cá muito, mas gosto de saber que este canto existe e não há outras paredes onde estes retratos todos fiquem tão bem...”

;)

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Amor e uma cabana

COM MÚSICA


Ahhh…amor e uma cabana… bonito… romântico… muito pouco realista… lol

Quando estamos apaixonados parece que o amor consegue ultrapassar tudo.
A realidade é que, para funcionarem, as relações requerem trabalho, investimento e esforço.
Nem tudo são rosas como possa parecer de início. Passada a fase do encantamento, há que começar a acertar agulhas.

As relações amorosas são, a meu ver, das mais complicadas e difíceis de gerir.
Com a nossa cara-metade partilhamos, voluntariamente, o nosso território, a nossa intimidade, o nosso quotidiano, os nossos prazeres e os nossos maus estares, os nossos problemas e alegrias … tudo isto numa base diária e geralmente sem grandes pausas para ganhar fôlego. Não é fácil, não.

O amor é ás vezes um sentimento cruel, que aproxima pessoas que não foram nitidamente talhadas para se entenderem.
Acredito bastante na teoria da metade da laranja, embora não ache que só exista uma única metade para cada um de nós.
Acredito mais ainda que certas pessoas nunca conseguirão ser felizes juntas.
Não, o amor não chega, de todo.
Quantos casais, unidos pela paixão, não viveram infelizes para sempre ?

Um dos primeiros erros que podemos cometer é tentarmos ser aquilo que achamos que o outro gostaria que fossemos. O nosso verdadeiro eu há de, mais tarde ou mais cedo, dar o grito do Ipiranga e aí temos a burra nas couves.
Quantas vezes não afirmamos gostar de coisas que não apreciamos realmente, amordaçamos certos traços do nosso carácter, alinhamos em actividades que não coadunam com a nossa personalidade, etc… para um dia nos perguntarmos quem é esta pessoa que vive agora dentro de nós.
E o pior é que, se deixarmos sair a que lá estava antes, o outro não a vai reconhecer e vai perguntar-se porque “mudámos”.

Não estou com isto a defender que não devamos fazer concessões, ajustar o nosso modo de vida ou inclusivamente rever os nossos anteriores pontos de vista. Acho simplesmente que temos de ter noção do que somos no nosso âmago e daquilo que estamos de facto genuinamente dispostos a mudar em prol da relação. Há coisas fundamentais para cada um de nós, ideias, princípios, posturas perante a vida, sem os quais perdemos a nossa coluna vertebral e nos tornamos seres amorfos. Outras são passíveis de ser alteradas e devem sê-lo se disso depender a relação, por muito que ás vezes nos possa custar. Teimar num “eu sou assim, sou assim, quem não gosta, come menos”, relativamente a tudo, usar de intransigência e esperar que seja o outro a adaptar-se a nós demonstra, a meu ver, não só egoísmo como de falta de visão. 

Da mesma forma que temos tendência a mudar para agradar ao outro, tendemos igualmente a não querer ver as suas características que nos são menos agradáveis. Por alguma razão se costuma dizer que o amor é cego. Tapamos o sol com a peneira, chegando inclusivamente a julgar achar piada a coisas, que normalmente não apreciaríamos de todo.
Tipicamente mais tarde elas voltarão então a assumir o seu papel de “defeito” aos nossos olhos.
Se tivermos consciência de que ninguém é perfeito, nós inclusive, muito mais facilmente aceitaremos que numa relação nem tudo o seja.
Se insistirmos em acreditar que beijando o sapo este se vai transformar em príncipe, estaremos a habilitar-nos a uma bela desilusão.

Outro erro frequente é o achar que havendo amor, empatia, companheirismo e todos os outros ingredientes que compõem uma relação amorosa, não há necessidade de palavras. Muitas vezes partimos do princípio que sabemos o que se passa na cabeça do outro. Muitas vezes estamos errados. Se qualquer coisa parece estar mal, provavelmente está, mais vale po-la em pratos limpos do que agir numa presunção de conhecimento de causa.

Da mesma forma ás vezes evita-se o dialogo por medo de um desfecho pouco favorável á nossa causa. O falar pode sem dúvida piorar as coisas antes de as melhorar, uma situação morna pode tornar-se quente ao ser verbalizada. Ninguém gosta de ser criticado, de ser apontado do dedo e a reacção imediata pode muitas vezes não ser das mais agradáveis. No entanto, se houver abertura de espírito de ambas as partes, o mais provável é que a situação acabe por se resolver. As discussões (no sentido inglês de “discussion” e não de “fight”) são a meu ver extremamente saudáveis, permitem por os pontos nos iis.

Uma relação é feita de dar e receber, ceder e exigir, tudo isto com conta peso e medida e tendo em consideração ambos os lados. Se a balança desequilibrar, dificilmente a relação se manterá saudável e agradável para ambas as partes. Não há fórmulas mágicas, cada caso é um caso, cada relação é única com as suas particularidades. Há que ir conhecendo não só o outro como a nós próprios, ir tendo noção do que é aceitável, do que é razoável, do que funciona para os dois indivíduos em questão. 

Mas sobretudo, nunca, mas nunca, tomar o outro por garantido… que nem planta no nosso jardim, se baixarmos os braços, se deixarmos de podar, adubar, regar, um dia quando dermos por isso já só encontraremos raminhos secos.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A vida é um jogo II

COM MÚSICA


Já em tempos abordei este tema aqui no blog
Bolas, ando a repetir-me?! lol

Quando se diz que a vida é um jogo muitas pessoas torcem o nariz, como se fosse uma afirmação pejorativa. O jogo é frequentemente associado a ideias como batota, manipulação, competição,  conflito, vício, bancarrota, etc…
Para outros, como o meu grupo de amigos, jogadores “invertebrados”, é uma palavra que põe vários pares de olhos a brilhar… ;) Adoramos jogar!

Os jogos podem ser a dinheiro ou não (nós não jogamos nada a dinheiro), para o caso é perfeitamente irrelevante.

Há basicamente dois tipos de jogos, os de sorte e os de estratégia.
Se bem que, na realidade, os segundos dependem sempre um pouco da primeira.
Diz-se, por exemplo, que o Xadrez não é um jogo de sorte… mentirinha. Para se ganhar é preciso ter a sorte do outro fazer um mau movimento. ;)
Mas, para muitos jogos, a sorte não chega. Podemos ter uma excelente “mão” e perder o jogo se não a soubermos jogar.

Dizem que se jogamos é para ganhar… Também não estou de acordo. Claro que ninguém gosta de perder, embora alguns o saibam fazer com mais elegância do que outros, mas muitos jogam simplesmente pelo prazer de jogar, independentemente do desfecho. Umas vezes ganha-se, outras perde-se, é assim mesmo.

Jogar implica o conhecimento das regras e a mestria da mecânica de jogo. Quanto mais vezes se jogar um jogo mais hipóteses se terá de o ganhar. Claro que não estou a ter em conta a célebre “sorte de principiante”…lol
Implica também a referida estratégia, o ter um objectivo em mente e descobrir como o atingir.


Enfim… tudo o que podemos encontrar num jogo se aplica à vida real, incluindo o factor sorte. Há quem não tenha esta noção, quem não viva consciente de que grande parte do seu “destino” está efectivamente nas suas mãos.
A realidade é que a vida também se aprende e se vai descobrindo aos poucos como jogar cada vez melhor.

Para vos dar um exemplo concreto …
O meu filhote, com os pais que tem, é já também evidentemente um “viciado” em jogos. Do alto dos seus oito aninhos já domina bastante bem muitos deles, inclusivamente alguns supostamente para adultos.
Não lhe damos qualquer “abébia” por ser pequenino, quanto muito simplificamos uma que outra regra.

É difícil ás vezes explicar “as coisas” a uma criança, fazê-los compreender que certas atitudes não irão ter resultados que joguem a seu favor.
Utilizo então o exemplo do jogo para lhe demonstrar certos aspectos da vida.
Explico-lhe que, se não for um parceiro agradável, ninguém quererá jogar com ele. Que é preciso pensar, não basta “atirar cartas para cima da mesa”. Que se analisar as consequências dos seus actos irá aprendendo quais as “jogadas” que mais o favorecem. Que a vida é um jogo de grupo e se não se compenetrar disso acabará a fazer paciências.
Tenho obtido muito bons resultados.

Na vida, tal como no jogo, é preciso dominar muito bem as regras, ter noção do jogo que temos na mão, saber quando arriscar e medir os riscos, alinhavar estratégias, conhecer os parceiros, saber quando e como fazer bluff, usar de fairplay, não fazer batota… mas sobretudo, é preciso gostar de jogar. ;)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Quem tem medo, compra um cão…

COM MÚSICA

Em tempos que já lá vão, nos primórdios deste blog, falei sobre o medo ...
Nesse post misturei vários tipos de “medos” possíveis, hoje gostaria de desenvolver mais um específico, o medo de agir ou deveria talvez antes dizer de interagir. 

Quantas vezes não dizemos ou não fazemos algo, simplesmente por medo?
Quantas vezes a nossa cabeça e/ou o nosso feeling nos dizem para agir de determinada maneira e a avestruz que há em nós nos impede de o fazer?!


Ter medo de fazer algo, cujas consequências possam eventualmente vir a magoar-nos, é natural… No entanto, se deixarmos que este nos paralise, estaremos muitas vezes na realidade a desistir de lutar pela nossa felicidade, pelos nossos princípios, pelas nossas convicções.

Descobri uma citação do Mark Twain que ilustra bem esta ideia:
“Evitar a felicidade com medo que ela acabe é o melhor meio de ser infeliz. Coragem é resistência ao medo, domínio do medo, e não ausência do medo.”

O ser humano parece-me ser essencialmente pessimista…
Quando confrontada com uma situação hipotética, a nossa imaginação tende a encontrar muito mais desfechos dolorosos do que agradáveis.
Por exemplo, se alguém está anormalmente atrasado, uma das ideias que nos vem logo à cabeça é se lhe terá acontecido alguma coisa.
Apesar de, infelizmente, algumas vezes ser o caso, na esmagadora maioria das vezes há uma justificação muito menos dramática para tal.

Da mesma forma tendemos, ao analisar as potenciais consequências de determinadas atitudes, a considerar uma série de desfechos negativos.
Estamos a falar em situações hipotéticas, em passos que ainda não foram dados… mas quantas vezes só a ideia de que possa correr mal nos faz vacilar e nem sequer tentar que corra bem?

Quantas vezes não dizemos ou fazemos alguma coisa por medo da reacção do outro. Quantas vezes não partilhamos os nossos sentimentos, não fazemos valer as nossas convicções, não exigimos os nossos direitos, por medo do que possa acontecer se o fizermos.

Quantas vezes receamos envolver-nos numa relação por medo de nos magoarmos, por medo de que não funcione. Quem não arrisca, não petisca… quantos petiscos não ficaram por saborear por medo de que nos pudessem “cair mal”…

Quantas vezes não agimos conforme nos dita a nossa consciência, por temermos que nos possa sair o tiro pela culatra. Acreditamos numa forma de acção, sentimos que seria a atitude correcta, mas conscientes de que comporta risco, preferimos abster-nos.

E no entanto, quantas vezes, se arranjarmos a coragem de o fazer, nos damos conta de que afinal valeu a pena, que a nossa vida melhorou por não termos tido medo de lutar por ela…

Claro que as nossas acções podem ter consequências nefastas… 
Mas não são só elas que nos magoam na vida. Muita coisa desagradável, dolorosa, nos pode acontecer que não depende minimamente de nós.
Ao menos que tenhamos a coragem de correr riscos em prol da nossa felicidade. Que as coisas que não fazemos sejam porque decidimos não as fazer… e não por termos sido caguinchas… ;)

Como dizia não sei quem "prefiro arrepender-me do que fiz do que daquilo que não fiz"...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Falar como gente…

COM MÚSICA

Não é espectável que, no relacionamento entre duas pessoas, não surja de quando em quando um atrito, um mal entendido, um conflito de interesses, etc… Da forma como ambos lidarem com eles dependerá a saúde da relação.

Há quem simplesmente não aborde as questões.
Como se costuma dizer, “a quem dói o dente é que vai ao dentista”. Assuntos mal resolvidos, ou não resolvidos de todo, podem gerar mágoas que poderiam perfeitamente ser evitadas se as pessoas se dignassem a falar umas com as outras.
Para isso é no entanto fundamental que haja, de ambos os lados, abertura de espírito, discernimento, permeabilidade à crítica, capacidade de auto-análise.
Infelizmente cada vez mais me convenço de que estas características não abundam por aí e, no caso da sua ausência, ás vezes é pior a emenda do que o soneto. Mais vale de facto ficar calado para não piorar ainda mais a situação.
Não considero no entanto minimamente gratificantes as relações que se enquadram nesse cenário.

Uma vez que se chegue à fala, parece-me tão importante saber falar como saber ouvir.
Se consideramos que nos pisaram de alguma forma os calos é natural que daí advenha algum ressentimento. No entanto, partir para a acusação, para a agressão, só vai servir para deixar o outro de pé atrás, na defesa, inibindo-lhe a capacidade de realmente apreender o que estamos a tentar transmitir. Assim, a diplomacia parece-me fundamental na apresentação que “queixas”.

A reacção natural ao sentirmo-nos “acusados” de alguma coisa, sobretudo se não tiver sido intencional ou ás vezes mesmo consciente, é a negação. Ninguém gosta que lhe apontem o dedo.  Muitos adoptam então a teoria de que a melhor defesa é o ataque, apontando imediatamente o dedo de volta.
Fazer um esforço para realmente ouvir e compreender o que o outro tem a dizer, fazer perguntas, esclarecer dúvidas, é provavelmente o primeiro passo para o entendimento.

Raramente alguém está totalmente certo ou totalmente errado.
Há no entanto pessoas que parecem incapazes de dar o braço a torcer. Até podem intimamente reconhecer que o outro tem alguma razão, mas são incapazes de o assumir e verbalizar. Continuam a puxar a brasa à sua sardinha, insistindo na(s) parte(s) em que consideram ter razão, ignorando aquela(s) em que possam de facto ter falhado.

Ignoram assim um factor que me parece extremamente importante. Se de facto na vida fizermos questão em limar as nossas arestas, o feed-back de terceiros é fundamental. É ele que nos serve de barómetro e nos permite avaliar os nossos eventuais progressos.
Em tempos tive uma loja. Vendia, entre outras coisas, colchas indianas. Um dia fui a casa de um amigo que me tinha comprado uma, que utilizava para cobrir o sofá e vi que este estava todo tingido, tendo assim descoberto que largavam tinta. Acreditam que não tivemos uma única reclamação?! Não acho normal…

Este fim de semana fui para fora com amigos. Regressei com a sensação de que a estadia tinha corrido muito bem. Sobretudo considerando a assustadora (pelo menos para mim) proporção de quase um para um entre adultos e crianças numa casa a abarrotar de cheia.
Qual não foi o meu espanto, ao descobrir que afinal não era bem assim…

No caso concreto estiveram em questão duas características minhas…

Primeira: Não sou menina de educar filhos alheios, posso não concordar com a metodologia adoptada mas costumo abster-me de intervir. Considero no entanto que, sobretudo no que diz respeito a crianças, se não há regras é o caos. Estas variando de família para família, estando várias reunidas, adoptar as do anfitrião parece-me uma solução tão válida como outra qualquer. Como se costuma dizer “em Roma faz como os Romanos”…

Segunda: Tenho uma tendência natural para a gritaria tipo tropa, quando se trata de pôr crianças na ordem… Ando “a tratar-me” (não profissionalmente …lol), já consigo ás vezes controlar-me e concretizar a tarefa de outras formas mas, volta não volta, lá salta o sargento que há em mim…

O conjunto destas duas características faz com que seja considerada um verdadeiro Ogre por algumas criancinhas. Estas estavam em maioria absoluta no nosso fim de semana.
Ando muito activamente a tentar alterar esta imagem e aparentemente com algum sucesso.
Já não encolhem instintivamente a cabeça quando levanto a mão, por exemplo… (just kidding!!! lol) até sorriram simpaticamente para mim, julgo que pela primeira vez…

Conclusão, aparentemente acabei por utilizar como exemplo, para os necessários ralhetes pontuais, os dois com quem me sinto mais à vontade, sendo um deles o meu próprio filho.
Tá mali!
A questão é que o outro é relativamente “novo” nestas lides, não tem termo de comparação. Por outro lado está a passar por uma fase complicada, relativamente à qual eu tive a sensibilidade de um paquiderme numa loja de porcelanas…

A mãe teve então uma conversa comigo, atitude que acho louvável, a falar é que a gente se entende e eu estava a leste desta questão.
Sobretudo neste tipo de situações, em que a “parte lesada” é a nossa cria, o instinto é pormos as garras de fora e virarmos leoninas.


Não o fez. Usou diplomacia, bom senso, inteligência. Não fez acusações, limitou-se a expor a questão e a explicar o que não lhe tinha agradado.
Esta atitude permitiu-me ver as coisas de um ponto de vista que talvez não tivesse sido possível se me tivesse sentido “atacada” e chegar à conclusão de que o meu caminho para a redenção ainda vai ser longo, ainda há muito que trabalhar… lol
I’ll keep trying… prometo!!!

Este é um bom exemplo de situação em que, se não se fizer uso de inteligência emocional, as coisas podem dar muito para o torto, as pessoas podem ficar francamente chateadas.
Nós não somos bichos, pessoal. Não devemos carregar sobre tudo o que possa remotamente parecer uma ameaça ás nossas ideias, aos nossos princípios, ao nosso modo de vida... Se dermos o benefício da dúvida ás ideias que nos são apresentadas, talvez encontremos algumas boas para adoptar… ;)





















segunda-feira, 29 de março de 2010

Amor é...

COM MÚSICA



Quem não se lembra dos bonequinhos da Kim Grove sobre o tema?! Amor é isto, amor é aquilo… ;)
Tantos tentaram defini-lo, tantos o “cantaram”…deve ser dos temas mais abordados desde os primórdios da humanidade. Tantos poemas, canções, quadros, esculturas, peças de teatro, filmes, lhe foram dedicados. Tanta coisa foi feita em seu nome…
A maior parte de nós sente-o ou já sentiu em determinada altura da sua vida.
Amo-te, adoro-te, serão possivelmente as palavras mais batidas em todas as línguas…

Pergunto-me, no entanto, se será de facto o mesmo sentimento para toda a gente.
A minha visão do amor, por exemplo, pressupõe altruísmo, uma certa dose de sacrifício em prol da felicidade do ser amado, empenho nesse sentido…
Observo no entanto que, muitos dos que afirmam sentir amor… pelos filhos, pela mulher, pelo cão… frequentemente não o demonstram desta forma.
Verifico, com demasiada frequência, atitudes que não me parecem coerentes com este sentimento…

Quantos homens não espancam as mulheres e/ou os filhos, sujeitando-os a um permanente clima de terror, fazendo-os chegar a duvidar se o merecem.
Quantos pais não levam as suas vidas como se não tivessem filhos, chutando-os dos avós para as babysitters, isto quando não os deixam mesmo sozinhos.
Quantos cônjuges não têm aventuras, fixas ou voláteis, insistindo em manter-se numa relação na qual se recusam no entanto a investir.
Quantos pais separados não vêem os filhos durante meses, anos às vezes, entrando e saindo das suas vidas sem a mínima preocupação relativamente ao que isso irá fazer ás suas cabecinhas.
Quantos donos não “mimam” os seus cães com comidas impróprias, que os fazem inchar que nem balões e perder consequentemente a saúde ou se ausentam deixando os gatos fechados em condições de higiene duvidosas, ás vezes sem água ou comida suficientes.

Poderia arranjar muitos, mas muitos, mais exemplos de casos, infelizmente corriqueiros, uns mais extremos que outros, em que a felicidade e bem estar do ser “amado” não são tidos em consideração.
Acredito no entanto que, algumas dessas pessoas, se sintam absolutamente destroçadas se o perderem. Que, em muitos casos, estivessem dispostas a dar um rim por ele, a vida até… Acredito que sintam saudades lancinantes se dele estiverem separadas. Que o olhem como uma das coisas mais importantes das suas vidas…

Parece-me no entanto que, para alguns, o amor é um sentimento passivo…
Não sentem necessidade de o demonstrar, de o partilhar. Afirmam-no e isso é suficiente. Não parecem ter a noção de que o outro precisa de se sentir amado, não em situações extremas, de vida ou de morte, que felizmente não se nos apresentam frequentemente, mas no dia a dia.
Para nos sentirmos de facto amados precisamos que nos tratem com respeito e consideração e precisamos de constância nesse tratamento… para nos sentirmos amados temos de nos sentir importantes para a outra pessoa e não "saber" que somos.  A incongruência de algumas atitudes leva-nos a duvidar.

Pergunto-me, muito sinceramente, o que é o amor para certas pessoas…


domingo, 21 de março de 2010

O máximo


COM MÚSICA
Acredito genuinamente que ser-se bem fornecido de ego seja o primeiro requisito para sermos felizes.
Os Calimeros  deste mundo, aqueles que passam a vida a queixar-se de como são feios, estúpidos, pouco dignos de amor e por aí a fora… duvido que alguma vez consigam realmente saber do que estou a falar.


Eu pessoalmente (e digo-o sem qualquer pudor) gosto bastante de mim própria.
Sou essencialmente uma pessoa simpática. Gosto à brava de gente e parto do princípio que todos são boas pessoas até prova do contrário. Existe um princípio jurídico do género chamado presunção de inocência, acho que é um bom princípio. ;)
Logo, trato tendencialmente bem as pessoas, tentando não criar ondas nem atritos. O meu amor pelo género humano é habitualmente correspondido.

Claro que toda a regra tem excepção e há quem não me possa suportar, nem com molho de tomate…Já chegaram a ligar-me, ás tantas da manhã, para me insultar, gritando-me (entre outras coisas) estridentemente aos ouvidos “…e se julgas que eu não sei cortar alho, estás muito bem enganada, óvistes???!!!”
Mas isso não interessa nada porque, das pessoas de quem não gosto ou que não gostam de mim, e que curiosamente tendem a ser as mesmas, afasto-me.

Quando tenho oportunidade faço qualquer coisita pelo próximo, o que me faz sentir muito bem comigo própria (sou uma egoísta…) e sinto que, no geral, dou a minha modesta contribuição para “um mundo melhor”.
Vivo feliz, em paz e serenidade e sinto-me bem comigo e com os outros.
Estou perfeitamente consciente de que tenho ainda muitas arestas para limar, como toda a gente, mas vou enfrentando um dia de cada vez, sempre com esse propósito em mente.

No oposto dos Calimeros, temos aqueles que se acham o máximo…
Once upon a time, tive um amigo que se achava o máximo e nunca se cansava de o apregoar. Nunca vi um ego tão grande em toda a minha vida… É o menino da história do barco, do início deste post

Achava-se inteligentíssimo… e era, tinha um cérebro de fazer inveja a muita gente. Que o diga a sua carreira que, até ao ponto em que a conheço, foi brilhante.
Achava-se cultíssimo… e era, uma pessoa bem formada, com boas bases. Qualquer tema que o interessasse era estudado até à exaustão.
Achava-se engraçadíssimo… e era, quantas vezes não estive à beira de ter de mudar a fralda, ao ouvir deliciada as histórias que contava. Fazia qualquer episódio banal parecer interessantíssimo, se bem que os episódios da vida dele raramente eram banais…
Achava-se um borracho… bem… isso não acho que fosse, mas é só a minha opinião pessoal... lol Mas acho que tinha pinta, muita pinta e uma lábia sem igual.
Achava-se um grande mestre da sedução… e era, faria corar o D. Juan de humilhação, confesso que não conheço ninguém de carne e osso com um portfolio como o dele… a não ser talvez o Galo Tito.
Achava-se muito sábio… de facto, era absolutamente impressionante o conhecimento teórico que tinha do género humano, as conclusões a que chegava, os sentimentos e reacções que conseguia identificar e analisar.
E mais razões teria para se achar o máximo…

A questão é que raríssimamente vi o Máximo  utilizar qualquer destas características para ser ou tornar alguém feliz….
A pessoa que acabei de descrever, e que não passa de um exemplo, tinha toda a matéria-prima necessária para ser uma pessoa de excepção… mas não era. Sou daquelas que ainda acreditam no Pai Natal, não sei no que se terá transformado…
Do alto do seu ego passou a vida a desperdiçá-la, a pô-la constantemente em risco assim como as dos outros, a magoar quem gostava dele, a fazer escolhas erradas, a desprezar tudo o que de bom lhe ia parar ao colo…
O resultado prático é que, at the end of the day, só mesmo ele é que se achava o máximo.

Conclusão, quando o vosso ego vos disser que ninguém vos chega aos calcanhares, quando se acharem o máximo, façam um favor a vocês próprios… peçam uma segunda opinião. ;)

O máximo

Acredito genuinamente que ser-se bem fornecido de ego seja o primeiro requisito para sermos felizes.
Os Calimeros  deste mundo, aqueles que passam a vida a queixar-se de como são feios, estúpidos, pouco dignos de amor e por aí a fora… duvido que alguma vez consigam realmente saber do que estou a falar.


Eu pessoalmente (e digo-o sem qualquer pudor) gosto bastante de mim própria. Acho que se eu não fosse eu, também gostaria muito de mim… lol
Sou essencialmente uma pessoa simpática. Gosto à brava de gente e parto do princípio que todos são boas pessoas até à prova do contrário. Existe um princípio jurídico do género chamado presunção de inocência. Acho que é um bom princípio. ;)

Logo, trato tendencialmente bem as pessoas, tentando não criar ondas nem atritos. O meu amor pelo género humano é correspondido e, no geral, as pessoas também gostam de mim.
Claro que toda a regra tem excepção e há quem não me possa suportar, nem com molho de tomate…Já chegaram a ligar-me, ás tantas da manhã, para me insultar, gritando-me (entre outras coisas) estridentemente aos ouvidos “…e se julgas que eu não sei cortar alho, estás muito bem enganada, óvistes???!!!”
Mas isso não interessa nada, porque das pessoas de quem não gosto ou que não gostam de mim, e que curiosamente tendem a ser as mesmas, afasto-me.

Sempre que tenho oportunidade faço qualquer coisita pelo próximo, o que me faz sentir muito bem comigo própria (sou uma egoísta…) e sinto que, no geral, dou a minha modesta contribuição para “um mundo melhor”.
Vivo feliz, em paz e serenidade e sinto-me bem comigo e com os outros.
Estou perfeitamente consciente de que tenho ainda muitas arestas a limar, como toda a gente, mas vou enfrentando um dia de cada vez, sempre com esse propósito em mente.

No oposto dos Calimeros, temos aqueles que se acham o máximo…
Tive um amigo que se achava o máximo e nunca se cansava de o apregoar. Nunca vi um ego tão grande em toda a minha vida… É o menino da história do barco, do início deste post
Achava-se inteligentíssimo… e era, tinha um cérebro de fazer inveja a muita gente. Que o diga a sua carreira que, até ao ponto em que a conheço, foi brilhante.
Achava-se cultíssimo… e era, uma pessoa bem formada, com boas bases. Qualquer tema que o interessasse era estudado até à exaustão.
Achava-se engraçadíssimo… e era, quantas vezes não estive à beira de ter de mudar a fralda, ao ouvir deliciada as histórias que contava. Fazia qualquer episódio banal parecer interessantíssimo, se bem que os episódios da vida dele raramente eram banais…
Achava-se um borracho… bem… isso não acho que fosse, mas é só a minha opinião pessoal. Acho que tinha pinta, muita pinta e uma lábia sem igual.
Achava-se um grande mestre do engate… e era, faria corar de humilhação o D. Juan, confesso que não conheço ninguém de carne e osso com um portfolio como o dele… a não ser talvez o Galo Tito ...
Achava-se muito sábio… e, de facto, era incrível o conhecimento teórico que tinha do género humano, os sentimentos e reacções que conseguia identificar e analisar.

A questão é que raríssimamente vi o Máximo  utilizar qualquer destas características para ser ou tornar alguém feliz….
O ser que acabei de descrever tem toda a matéria prima necessária para ser uma pessoa de excepção e não é. Correcção; não era, que eu sou daquelas que ainda acreditam no Pai Natal e não sei no que se terá transformado… ;)
Do alto do seu ego passou a vida a desperdiçá-la, a pô-la em risco constantemente, assim como a dos outros, a magoar as pessoas que gostavam dele, a fazer escolhas erradas, a desprezar tudo o que de bom lhe ia parar ao colo…
O resultado prático é que só mesmo ele é que se achava o máximo.

Quando se acharem o máximo, quando o vosso ego vos disser que são do melhor que há por aí, façam um favor a vocês próprios… peçam uma segunda opinião. ;)





segunda-feira, 15 de março de 2010

Para além dos rótulos

COM MÚSICA



Apesar de todos estarmos perfeitamente conscientes de que pessoas são pessoas, o nosso primeiro contacto com cada uma irá, antes do mais, ser influenciado pelo seu “rótulo”…
Antes de encararmos alguém como ser humano, a tendência natural é de o vermos como o empregador, o médico, o advogado, o vizinho, o aluno, a celebridade, o pobrezinho, o polícia, o rival, etc… Estes rótulos ser-lhes-ão aplicados por nós, consoante a circunstância e, inútil será dizer, cada um poderá ter outros em diferentes situações.

Em alguns casos, estes estarão associados, nas nossas cabeças, a uma série de características (diferentes para cada um de nós) que atribuímos à “espécie”… Assim poderemos considerar, por exemplo, que os políticos são corruptos, os moedinhas drogados e os actores de cinema o máximo… Sem sequer conhecermos a pessoa, já estaremos a fazer juízos de valor.

Por outro lado, estes mesmos rótulos, irão provocar instintivamente em nós reacções emocionais… receio, admiração, repulsa, reverência, etc.
Quem não se sentiu já nervoso por ir conhecer os futuros sogros ou intimidado ao ver-se perante o juiz num tribunal, por exemplo…

Na minha opinião, ninguém é melhor ou pior por ser advogado ou caixa de supermercado, cantor ou mestre de obras, médico ou motorista de autocarro… nas relações humanas, e todas as relações entre pessoas o são (entre outras coisas), o que interessa é o âmago de cada um. O respeito e consideração (ou a ausência dos mesmos), deveriam estar, a meu ver, associados á pessoa e não ao rótulo. Qualquer um pode ser um gajo porreiro ou um filho da mãe desgraçado.

A realidade é que, todos aqueles com quem temos de lidar na vida, são acima de tudo “gente”. Comem, dormem e respiram como nós, têm sentimentos, opiniões, assumem posições e terão provavelmente também família e amigos. Somos basicamente todos feitos do mesmo barro…
Se tivermos sempre isso presente, a interacção torna-se muito mais fácil. Seremos muito mais susceptíveis de demonstrar tolerância, compaixão, empatia. Os sentimentos de superioridade/inferioridade, que ás vezes nos tomam de assalto, tornam-se ridículos.

Um orador afirmou que, para não se sentir intimidado pelo seu público, imaginava que a assistência estava toda nua. Não iria a esse ponto.
Acho no entanto um exercício interessante imaginar a pessoa com quem estamos a lidar a tomar o pequeno almoço em pijama ou a lavar os dentes antes de se ir deitar. Vê-la mentalmente na intimidade do seu dia a dia, ajuda a humaniza-la, a pô-la exactamente ao mesmo nível que nós.

Imaginem, por exemplo, o médico que vos vai operar, deitado na cama ao lado da vossa a sofrer de cólicas renais. Ou a super-star que têm de entrevistar, enjoada que nem uma pescada num barco. A empregada doméstica, a fazer em casa dela as mesmas tarefas que fez na vossa. A sogra a fazer respiração de cãozinho cansado enquanto dá à luz a vossa cara metade. And so on…

Os outros têm as mesmas vivências que nós… alegrias e desgostos, problemas e vitórias, desalentos e entusiasmos, independentemente do papel que estejam a interpretar no momento. Se os olharmos nos olhos e virmos a pessoa por detrás do rótulo, se os tratarmos como gente e exigirmos o mesmo tratamento, o desfecho de qualquer encontro será garantidamente muito mais satisfatório. ;)

terça-feira, 9 de março de 2010

Que fazes tu?




Aqui à tempos recebi um mail, de um membro do nosso sitezinho, a informar que tinha começado a dedicar-se à pintura de casas e execução de diversos trabalhos de bricolage…
Achei giro, reencaminhei-o e guardei-o para se um dia precisar dos seus serviços.
Qual não foi o meu espanto, ao  receber um que outro comentário,  em que a ideia de fundo era “isto anda mesmo a saque, até os ex-LF (uma verdadeira elite, como todos sabem…lol)  já andam a pintar paredes…”

Não conheço bem a pessoa em questão, vi-o duas ou três vezes ao vivo e a cores e trocámos algumas palavras no site. Posso evidentemente estar enganada mas, aparenta ser uma pessoa alegre, bem disposta, positiva, em paz com a vida.
Também não sei qual será a sua situação financeira mas, longe de me parecer uma atitude desesperada (a “aviltante” decisão de pintar paredes… credo) senti um verdadeiro gozo pela actividade, mais uma vez posso estar enganada…

A maior parte de nós precisa de trabalhar para viver…
Em termos de “mercado de trabalho” existem dois extremos; os que, por variadíssimas razões, não têm outra hipótese senão agarrar-se ao que vier à rede e aqueles que, tendo-se apaixonado por uma profissão, abraçam uma carreira.
Pelo meio temos variadíssimos tons de cinzento…

Se tivermos em conta que o trabalho ocupa a maior parte do nosso precioso tempo, parece bastante evidente que quanto mais satisfação dele conseguirmos retirar melhor.
Se o nosso “ganha pão” requer esforço constante, se a maior parte dos dias metemos mãos à obra contrariados, sem entusiasmo, se não nos der gozo, não nos desafiar/realizar de alguma forma … então algo está profundamente errado.

A minha empregada saiu recentemente de um casamento desastroso. Necessitando ganhar o seu dinheirinho, foi por opção que decidiu fazer o que faz.  Simplesmente gosta das tarefas domesticas e fá-las com prazer e brio. Anda de cabeça erguida, está-se nas tintas para quem a aponta do dedo e parece bem disposta e satisfeita com a vida.

Todos seremos competentes em algum campo de utilidade profissional. “Diagnosticar” essas competências e apetências e aplica-las a um projecto real, nem sempre é no entanto obvio ou fácil. A realidade é que todos ficarão muito melhor servidos se cada um se conseguir integrar numa área onde se sinta capaz e feliz.
A questão é que, aparentemente, nem toda a gente tem noção disto…

Há uns anos trabalhei numa agência de comunicação. Estava encarregue de toda a parte logística da empresa, assim como da contabilidade corrente, pagamentos e recebimentos, mapas de tesouraria, etc e dava também apoio a alguns projectos.
Basicamente, fazia aquilo que melhor sei fazer; organizar… Para mim é quase uma actividade lúdica, o meu cérebro parece talhado para esse tipo de tarefa. Mesmo sem querer, quando dou por mim já estou a organizar tudo à minha volta. Ou seja, durante uns tempos senti-me bem naquela empresa.
As minhas patroas também pareciam bastante satisfeitas comigo. Na realidade, tão satisfeitas, que acharam que deveria aspirar a um “cargo” de maior relevância, que deveria tornar-me gestora de projecto. Começaram a pressionar-me por não compreenderem a minha falta de “ambição”.  O ambiente tornou-se tão pesado que acabei por me despedir.
Ora se fazia bem o meu trabalho e gostava de o fazer… se elas precisavam de alguém que o fizesse… isto parece-vos fazer algum sentido? Pois…

Há tempos, propuseram-me um negócio de venda de roupas. Pareceu-me uma ideia brilhante, coisas muito giras, muito baratas, atirei-me a ela.
Erro! Oh que grande erro… a realidade é que, se há quem consiga vender areia no deserto, eu  acho que nem água conseguiria vender. Se as pessoas se queixam de falta de dinheiro, ponho-me no lugar delas e não consigo insistir. Se não acedem a vir ver à primeira ou à segunda, sou incapaz de insistir, sinto-me uma chata. Se não se mostram naturalmente inclinadas a comprar, não consigo dar-lhes a volta. Não tenho espírito de vendedora, tudo o que implica vai contra as minhas tendências naturais.

Há coisas que gostamos de fazer ou que fazemos bem, com facilidade, mesmo que não nos dêem um especial  prazer, e outras para as quais simplesmente não fomos talhados. Coisas que a uns saem com naturalidade, para outros são verdadeiras provações mas, como se costuma dizer, há gente para tudo.
As aflições financeiras tendem a toldar-nos o raciocínio e a fazer com que, em desespero, nos abalancemos a actividades condenadas ao fracasso desde o início. Se conseguirmos no entanto ter uma noção dos nossos pontos fortes e fracos, mais facilmente nos iremos encaixar nalguma, seja ela qual for, que nos encha as medidas, que nos faça sentir que aquelas horas do dia não são desperdiçadas.


COM MÚSICA