terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Quem conta um conto…

COM MÚSICA



O ser humano comum fofoca… e quem nunca fofocou, que atire a primeira pedra. ;)
Por fofoca entenda-se falar de pessoas e assuntos que não lhe dizem obrigatoriamente respeito, basicamente, dar notícias e comentar a vida alheia.
Está-lhe na natureza, por alguma razão existem as malfadadas revistas da especialidade.

Uns fofocam sem dúvida mais do que outros, é certo mas, se há pessoas que raramente iniciam conversas sobre terceiros, não sei se existe algum ser que nunca nelas participe.

Aqueles vão-se separar, o outro vai casar, aquela teve uma criança, teve um acidente, cortou o cabelo, inscreveu-se no curso tal, mudou de casa, adoptou um cão, pintou o tecto de beige… lol
A curiosidade é uma das características do homem e a conversa também.

Não havendo tempo suficiente na vida para aprender tudo com a experiência, a dos outros pode eventualmente ajudar-nos. Através da observação e análise daquilo que consideramos ser os seus erros poderemos evitar comete-los nós próprios. O contrário também sendo evidentemente válido e parecendo-me legítimo “copiarmos” comportamentos que pareçam trazer bons resultados.

A conversa sobre a vida alheia pode também ser valiosa como exemplo para discutir ideias. Muitas pessoas têm pudor em falar de si próprias mas, distanciando-se, conseguem argumentar teorias que poderão ser de alguma utilidade.

A experiência dos outros poderá também servir de alerta para determinado tipo de situações. Pode ajudar-nos a protegermo-nos e/ou ensinar-nos como lidar com acidentes, doenças, agressões, falcatruas, etc…

Mas, frequentemente convenhamos, serve simplesmente para se praticar aquele desporto chamado “corte e costura”… ;)
Desde que não seja feito com malícia, que não se inventem mentiras ou sejam devassados assuntos confidenciais ou íntimos, não vejo grande problema nisso.

Há no entanto um grande perigo…
Como se costuma dizer; “quem conta um conto, acrescenta um ponto”.
E se alguns falam exclusivamente daquilo que sabem, deixam claro que estão a dar uma opinião pessoal ou frisam que foi simplesmente o que ouviram dizer, outros há que extrapolam sem qualquer pudor.

Há quem acrescente o tal ponto, para dar colorido à história.
Quem tenha a presunção de conhecer os outros ao ponto de saber o que lhes vai na cabeça, de lhes atribuir pensamentos, intenções.
Quem permita que julgamentos de valor sufoquem qualquer isenção no que está a reportar.
Quem tenha uma imaginação fértil e tire ilações com demasiada leviandade.
Qualquer uma destas coisas pode facilmente levar à calúnia e à difamação...


Quem fala dos outros deveria fazê-lo com bom senso, justiça, critério e contenção, exactamente como gostaria que fizessem a seu respeito, pois suponho que ninguém seja ingénuo ao ponto de julgar que não falam também de si. ;)

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cantas bem mas não me alegras

COM MÚSICA



Hoje em dia circulam constantemente e-mails com dizeres filosóficos, sábios ditados, citações, histórias de vida, conselhos de saúde e bem estar, pedidos de ajuda vários…
Estes dizem-nos que o dinheiro não é tudo, que devemos viver o momento, acarinhar as amizades, estender a mão ao próximo, sorrir, beber água, escolher bem os alimentos que consumimos, fazer exercício, reciclar, proteger o ambiente, respeitar o próximo, ajudar… e não vos aborreço mais pois todos devem receber os mesmos que eu. ;)

Se algumas pessoas os mandam directamente para o lixo, outras há que, mais ou menos criteriosamente, os reencaminham. São estas que tipicamente também partilham este tipo de mensagens em Facebooks e afins, em blogs, ao vivo e a cores… ou seja que, mais ou menos empolgadamente, as divulgam de uma forma geral.

A evolução do bicho homem passa por uma tomada de consciência relativamente a si próprio, à vida em sociedade e ao mundo que o rodeia. Este tem-se vindo a aperceber dos muitos erros que cometeu ao longo da história e do facto que, se as coisas não mudarem, o seu futuro não será brilhante.
Os actuais meios de comunicação permitem uma divulgação fácil destas problemáticas.

Pergunto-me no entanto, por entre aqueles que “divulgam a mensagem”, quantos viverão realmente segundo aquilo que apregoam.
Quantos depositarão as suas garrafas no vidrão, tentarão evitar usar sacos de plástico ou pouparão água no duche? Quantos farão efectivamente o tal telefonema para a União Zoófila ou se darão ao trabalho de se deslocar aos postos de recolha para testar a compatibilidade de medula? Quantos beberão a quantidade diária aconselhada de água ou praticarão exercício? Quantos estarão lá para os filhos e para os amigos, brindarão o próximo com um sorriso ou farão um esforço consciente por expulsar o stress das suas vidas?

É sem dúvida importante termos noção daquilo que podemos fazer para melhorar as nossas vidas, para estendermos a mão ao próximo, para pouparmos o ambiente. É igualmente importante a partilha dessa informação. Mas não chega…
A divulgação, através dos vários meios ao nosso dispor, deste tipo de dicas parece hoje em dia ter virado moda. As pessoas parecem sem dúvida mais alertas, mais conscientes do que está ao seu alcance fazer… a questão é se o fazem. 

Muitos apoiam iniciativas, ideias, conceitos… dissertam sobre eles, divulgam-nos… mas nem todos agem nesse sentido. Se as “mensagens” transmitidas a torto e a direito fossem seguidas pelo menos por aqueles que as passam, o mundo já seria neste momento um sítio muito melhor.
A vida é uma cadeira prática. ;)

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Os Ogres são como as cebolas

COM MÚSICA



Burro – Cheiram mal?!
Shrek – Não! Têm camadas…

Assim são também as relações entre as pessoas, das mais superficiais às mais profundas …
Se o carácter e características dos indivíduos que se enquadram na primeira categoria não pesam grandemente na nossa vida, o mesmo já não se poderá dizer no que diz respeito aos da segunda.

Que o senhor do café,  goste de se vestir de mulher, que gaste tudo o que ganha no casino ou que tenha como hobbie coleccionar bigornas… para nós é perfeitamente igual ao litro. O mais provável, de qualquer forma, é que nem tenhamos conhecimento de nada disso.
Se estivermos no entanto a considerar casar com ele, talvez já não sejamos tão indiferentes a estes “pequenos detalhes” … ;)

Quanto mais as pessoas entram na nossa intimidade, mais importantes se tornam na nossa vida, mais peso têm. O que pensam, dizem e fazem as mais próximas de nós irá, frequentemente, de uma forma ou de outra, afectar-nos positiva ou negativamente.

O envolvimento, seja de que natureza for, começa por uma certa empatia. Volta não volta,  sentimo-nos tentados a “ir mais longe”, a deixar o outro entrar mais profundamente na nossa vida.
É no entanto extremamente importante que tenhamos a noção de “onde” o podemos efectivamente deixar entrar.
Inútil será dizer que isso nem sempre acontece e qualquer um de nós terá casos em que abriu a porta de uma divisão onde o outro não era suposto ir.

Onde isto é mais flagrante é nas relações amorosas.
Terá, até certo ponto, a ver com a paixão, com a irracionalidade e cegueira inerentes a este tipo de sentimento. Mas não só.
A realidade é que, muitas vezes, não temos noção de que uma pessoa que poderíamos apreciar  como amiga, dificilmente poderá partilhar a vida connosco.
Mas o que é válido para os amores é também válido para as amizades, and so on

Utilizando mais uma vez a analogia com os jogos, que neste caso ajuda bastante a exemplificar o que tento transmitir, é preciso saber o que conseguimos e nos dá prazer jogar.

Tanto eu como grande parte das pessoas com quem me dou, somos jogohólics. Jogamos jogos de tabuleiro (de dificuldade variada), jogos de sociedade, jogos de cartas, etc… Temos um armário cheio deles, de cima a baixo.

Ora cada um de nós tem jogos que se recusa a jogar, que não sabe nem quer aprender.
As razões podem ser variadas, podemos acha-los demasiado estúpidos, demasiado complicados, ou simplesmente não lhes achar graça por alguma razão pessoal e intransmissível.
Eu pessoalmente recuso-me a jogar Bridge, por exemplo. Vivi com uma pessoa que  jogava todas as semanas e todas as semanas havia discussões, pessoas que se zangavam forte e feio, por causa da porcaria do jogo. Acho que fiquei traumatizada… (LOL)

Por outro lado, há jogos que só jogamos no social, quando estão presentes grupos grandes, mas que não nos passaria pela cabeça jogar no nosso núcleo mais fechado. Digamos que há jogos que se adequam a cada camada  da cebola.

Dito isto, voltando à vida real, cada um de nós tem os seus jogos, sendo eles a sua maneira de ser, de pensar, de agir. Não fazendo julgamentos de valor, convém no entanto saber os que estamos dispostos a jogar com os outros. E quanto mais perto do núcleo os deixarmos aproximar, mais criteriosos deveremos ser.

Imaginemos que alguém tem tendências sexuais sadomasoquistas, por exemplo. Se fôr um amigo, dificilmente isso irá interferir com a nossa relação. A coisa pode mudar de figura se se tratar da nossa cara-metade.
Este é um exemplo extremo e caricatural, há no entanto muitos aspectos a ter em conta ao atribuirmos um papel na nossa vida a alguém. 
Se certas características se podem facilmente suportar em certo tipo de relações, em que eventualmente nem sequer daremos por elas, noutras já  nos poderão afectar seriamente.

Nem sempre o “tipo de jogo” de cada um é fácil de identificar à partida. Ás vezes  atiramo-nos de cabeça,  dando-nos posteriormente conta de que não o queremos ou conseguimos jogar.
Mas uma coisa parece-me óbvia; se já sabemos que o outro não ouve a mesma canção, não empenhemos a porcaria do anel de rubi… ;)

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Gatos escaldados

COM MÚSICA


No outro dia, numa série, apareceu um actor que já tinha visto várias vezes e tive a curiosidade de ir investigar…
Tommy Flannagan  tem duas cicatrizes na cara que dificilmente passarão despercebidas. Este Glasgow Smile  foi-lhe feito durante um assalto em que quase perdeu a vida. 
Depois desta desfiguração o rapaz tinha várias hipóteses… ficar fechado em casa, passar a usar burka ou, porque não, ir tentar a sorte como actor em Hollywood. ;)
Jà entrou entretanto em 42 filmes e séries, entre os quais o Braveheart e o Gladiator, e suspeito seriamente que o facto de nunca ter tido nenhum papel de relevo se deva mais provavelmente a uma certa ausência de talento do que à sua cara.

Ninguém está livre de passar por acontecimentos dramáticos. Ousaria mesmo dizer que, em diversas medidas, todos passamos por um que outro durante a vida.
Ás vezes são situações  tão extremas que nos perguntamos como será possível alguém sair delas mantendo alguma sanidade mental.
Conheço, pessoalmente, casos de mulheres maltratadas pelos maridos, de suicídios de entes queridos, de violações, de crianças molestadas sexualmente, de pessoas que perderam filhos, de filhos que perderam os pais durante a infância, um dos quais assassinado à sua frente…
Se conhecessem qualquer uma destas pessoas de quem vos falo, provavelmente nunca suspeitariam do que lhes tinha acontecido. São pessoas normais, sãs, aparentemente felizes. Qualquer uma delas acabou por me contar a sua história porque simplesmente veio a propósito e não para se vitimizar ou justificar fosse o que fosse.

Terão sido fáceis de ultrapassar, estas situações?!
Suspeito seriamente que não, deve ter sido um árduo e longo caminho. As cicatrizes, apesar de não serem visíveis a olho nu, devem ser profundas e nunca irão desaparecer.
A realidade é que, de uma forma ou de outra, conseguiram ultrapassar os seus martírios e aproveitar o que a vida tem de bom para dar.

No meio das minhas pesquisas dei de caras com esta citação, que lhes assenta que nem uma luva:
“No experience is a cause of success or failure. We do not suffer from the shock of our experiences, so-called trauma - but we make out of them just what suits our purposes.”
Alfred Adler

No outro dia estive a ver uma conferência muito interessante no Ted Talks, de um tal de Dan Gilbert, que vos aconselho vivamente.
Entre outras coisas, ele pergunta o que preferíamos, se ganhar a lotaria ou ficar paraplégicos, sublinhando o facto de que, provavelmente, todos escolheríamos a primeira opção.
Contou então que, um estudo demonstrou que, um ano depois de terem ganho a lotaria ou terem ficado paraplégicas, havia uma equivalência de pessoas felizes em ambos os grupos.

Há outro tipo de pessoas, para quem qualquer experiência menos agradável, mais difícil de gerir, serve de desculpa para não serem felizes. Pessoas que, em vez de tentarem dar a volta por cima, preferem passar a vida a carpir os seus dramas.
Não os aproveitam para aprender; a apreciar a “bonança” entre tempestades, a dar valor ao que de bom têm na vida, a lidar com os outros, a saber proteger-se, a fortalecer-se.
Muitos gostam de lhes chamar traumas, ficam traumatizados  por dá cá aquela palha. A questão é que esses traumas só costumam dar ares de sua graça quando a coisa dá para o torto e precisam de um bode expiatório para justificar as suas atitudes.
São pessoas que, em vez de erguer a cabeça e fazer-se à vida, se encolhem no seu pequeno ninho de autocomiseração, encarando o mundo como seu inimigo.

Quero ressalvar que estou consciente de que verdadeiros traumas existem e são problemas extremamente sérios e difíceis de ultrapassar. Acho simplesmente que se faz um uso abusivo da palavra.

Diz-se que “gato escaldado de água fria tem medo”… mas convém não esquecer que bichano é animal irracional… digo eu, sei lá… ;)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Comprimentos de onda

COM MÚSICA

 
“Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros…”
Ou deveria talvez antes dizer, para efeitos deste post ; todos somos diferentes, mas alguns são menos diferentes que outros… ;)

As pessoas com quem escolhemos relacionar-nos não são obrigatoriamente parecidas connosco. Cada um de nós é único, com características, convicções, ideias, atitudes, etc, potencialmente muito diferentes.
Se as semelhanças tendem a aproximar as pessoas, são no entanto, por vezes, as diferenças que nos atraem nos outros.

Partilhar a mesma visão do mundo não é condição  sine qua non  para um relacionamento. Se assim fosse, seria aliás um tédio, sem desafios, sem contradições, sem discussão, sem novidade.
Algo nos aproxima certamente, algo teremos em comum que nos atraia uns para os outros, mas não obrigatoriamente a postura perante a vida.
É perfeitamente possível um bom  relacionamento entre pessoas de diferentes religiões, opiniões políticas, ideologias, etc… nem só de concordância vive o homem.

O contacto com a diferença é, na minha opinião, positivo, saudável e estimulante, sobretudo se tivermos uma mente aberta, crítica e permeável à mudança.
Entre outras coisas, através desses outros diferentes  poderemos apreender novos pontos de vista, observar reacções ás suas maneiras de ser, assistir ás consequências dos seus actos, analisar as suas ideias e tirarmos as nossas próprias conclusões.
Em suma, permitem-nos evoluir, sem termos de passar pessoalmente pelas experiências o que, convenhamos, dá um certo jeito e poupa tempo.

Como seres em permanente mutação que somos, vamos pondo coisas em questão.
“Quanto mais sei, mais sei que nada sei…”
E, relativamente ás conclusões a que vamos chegando na vida, gostaríamos de ter certezas, gostaríamos de ter provas, gostaríamos de nos poder apoiar em verdades absolutas… mas nada disto acontece.

Há no entanto uma coisa que ajuda muito… e que são os  menos diferentes do que os outros.
Todos temos um que outro na nossa vida, seres com a mesma visão das coisas, a mesma postura. Daquelas pessoas que provocam em nós o pensamento presunçoso de que “Great minds think alike”…lol

Ao partilharmos as nossas ideias, as nossas teorias, com terceiros , estes podem até  vir a concordar connosco, aceitar os nossos pontos de vista ou simplesmente estar dispostos a considera-los.

Muito mais gratificante, no entanto, é o contacto com alguém que diga as mesmas coisas por outras palavras, que exprima aquilo que pensamos mas não verbalizámos, que acrescente alguma coisa que vá no mesmo sentido, que sustente teorias que intuímos, que desenvolva as questões como o faríamos… basicamente que tenha chegado, grosso modo, ás mesmas conclusões que nós.
 
Não serão obrigatoriamente parecidos connosco. São frequentemente pessoas com uma experiência diferente da nossa, ás vezes até com vidas muito diferentes  mas que, de alguma forma, acabaram por ver o mundo com os mesmos olhos, por chegar ás mesmas conclusões básicas sobre o que é realmente importante na vida.

Não são nem mais nem menos do que os outros mas, sobretudo se nos parecerem pessoas equilibradas, sãs, felizes, são de certa maneira eles que validam aquilo que somos.






Este vai dedicado a um






que tem sido objecto de agradáveis surpresas... ;)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Os bem intencionados

COM MÚSICA




Aqui à tempos veio cá jantar uma amiga em vias de mudar de casa.
Quando lhe perguntámos se precisava de ajuda, respondeu que  agradecia mas tinha tudo sob controlo e acrescentou que já várias pessoas lhe tinham perguntado o mesmo.
Ao que o namorado (ups… não sei se lhe devia ter chamado isso… lol) comentou que gostava de saber, se tivesse aceite, quantas delas se chegariam efectivamente à frente…

É um facto que aparentemente muita gente acredita que “a intenção é que conta”…
Não a querendo subestimar, pois sem dúvida que ás vezes as coisas não correm propriamente como desejaríamos, também não consigo concordar a afirmação.

Se alguém nos pede ajuda, ou espontaneamente lha oferecemos, supõe-se que seja porque dela precisa. A simples intenção de o fazer não vai, convenhamos, adiantar grande coisa.
Notem que quem diz ajudar, diz “estar lá” para os outros de alguma forma. Como se costuma dizer “os amigos são para as ocasiões”, expressão um bocado vaga mas que todos entendemos. ;)

É muito fácil ser-se “amigo” numa festa, numa ida ao cinema, num jantar… Os momentos de descontracção e lazer não geram normalmente conflitos de interesse.
Alancar numa mudança, fazer uma visita ao hospital,  dar uma ajuda com um projecto ou simplesmente ouvir um desabafo, não trazem à partida grande satisfação pessoal.

Estender a mão implica sempre algum sacrifício da nossa parte.
Pode obrigar-nos a reorganizar os nossos planos, a ter de arranjar soluções alternativas para a nossa própria vida, a arranjar um tempo que muitas vezes já escasseia ou simplesmente a abdicar de coisas que nos apetecia muito mais fazer.

A questão é que as pessoas tendem a falar da boca para fora, sem ter em conta este tipo de considerações. Querem ser simpáticas, fazer boa figura, portanto propõem/acedem e só mais tarde se deparam com os mas… e aí é que a porca torce o rabo.
Nessa altura põem, consciente ou inconscientemente, numa balança o transtorno que a “boa acção” lhes irá causar versus o seu retorno e optam por ficar quietinhas e seguir calmamente com a sua vida.

Aquilo de que provavelmente não se darão conta é que, ao gorar as expectativas que criaram, estão a causar dano.
A maior parte de nós já está conformada com o facto de que, infelizmente, a única pessoa com quem realmente pode contar é consigo própria. Quando não surge ninguém para dar uma “mãozinha”, já ninguém se admira.
No entanto, se nos puxarem o tapete debaixo dos pés, acaba por ser muito pior a decepção  e eventual alteração de planos para colmatar o buraco, do que a ausência de candidatos.

Assim, antes de acedermos a fazer alguma coisa pelo próximo, todos deveríamos estar perfeitamente conscientes do que isso implica e certos de que estamos dispostos a fazê-lo. Mas sobretudo, como em tantas outras coisas, deveríamos manter as nossas “promessas”.
A intenção, afinal, não conta para grande coisa…

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Watcha see is watcha get

COM MÚSICA



Quem somos, de onde vimos, para onde vamos?
De onde vimos, é história… para onde vamos, ninguém sabe… parece-me no entanto definitivamente importante que tenhamos uma ideia de quem somos. ;)

E quase tão importante como o sabermos nós, é que os outros também tenham uma boa noção.
Uma sólida coluna vertebral e transparência relativamente ao nosso carácter parecem-me fundamentais para que saibam com o que podem contar, o que não irá obrigatoriamente fazer com que nos aprovem ou apreciem, mas pelo menos não os induzirá em erro.
Por outro lado, esse reflexo de nós próprios que vemos nos outros – se nos dermos ao trabalho de lhe prestar atenção – é o que nos irá servir de bitola para irmos moldando a nossa personalidade.

Nobody is perfect. But who wants to be nobody?!
Todos temos traços menos agradáveis, todos metemos o pé na argola de vez em quando, todos já fizemos ou dissemos coisas de que nos arrependemos…

Por transparência não estou a sugerir que publiquemos os nossos pecados e pecadilhos no jornal ou que mandemos sempre cá para fora tudo o que nos passa pela cabeça. É evidente que viver em sociedade requer sensatez e diplomacia.
No entanto assumirmos, quando necessário, a responsabilidade tanto dos nossos actos como das nossas opiniões, torna-nos íntegros e fiáveis.

Tal como o disse anteriormente, isso não nos torna obrigatoriamente “amáveis”. Os outros, dependendo da presença ou ausência de empatia, do seu grau de tolerância para com as diferenças, das suas próprias características, gostos e ideias, poderão apreciar-nos ou nem por isso. Parece-me no entanto importante que, quer gostem ou não, seja daquilo que efectivamente somos, e não de uma ideia romanceada que possam fazer de nós.

É natural que, por razões várias, ás vezes tenhamos tendência a reprimir o nosso "verdadeiro eu”. Acontece, por exemplo, por desejo de agradar, necessidade de integração, receio de perder alguém ou simplesmente por não querermos criar ondas. Assim, frequentemente somos confrontados com a tentação de não nos mostrarmos tal como somos na realidade.

No entanto, a inegável realidade é que, quer queiramos quer não, as pessoas acabam sempre por falar umas sobre as outras; comentam o que fizeram ou disseram, teçem críticas ou elogios e emitem as suas opiniões sobre as mesmas.
Havendo grandes divergências, falta de consistência do personagem, falhas de coerência, começa a escassear a confiança na mesma.

Vestimo-nos consoante a ocasião, não é portanto de estranhar que alguns nos conheçam de fato de banho e outros de fato e gravata. Assim, é normal que várias pessoas tenham de nós percepções diferentes, para além de mais ou menos íntimas.
Mas, se parece natural alterarmos a nossa aparência, já não o será tanto fazê-lo com a nossa essência. Imaginem se duas pessoas, ao falar de nós, nos descrevessem com estrutura óssea, estatura, cor de pele, etc… diferentes.

Se esta transparência nos pode colocar em situações constrangedoras?! Sem dúvida.
Se nos virmos confrontados com alguma coisa que fizemos e da qual não nos orgulhamos, assumi-lo nem sempre é fácil. Estarmos em presença de pessoas com as quais temos normalmente relacionamentos completamente diferentes não é evidente de gerir. Assumirmos determinadas opiniões perante pessoas que suspeitamos á partida que não as partilham, nem sempre é uma coisa óbvia de fazer. Manter posições em que acreditamos mas não nos vão beneficiar no imediato pode parecer-nos suicida.

Todos vamos mudando ao longo dos tempos. Aprendemos com a experiência, mudamos de ideias, de gostos, de opiniões, ás vezes até mesmo de princípios. O importante no entanto é que a coluna vertebral se mantenha sólida, no lugar e perceptível para o resto do mundo.




Senão… somos umas lesmas… lol

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"Diferenças irreconciliáveis"

COM MÚSICA


A vida sendo uma caixinha de surpresas, nem sempre as coisas correm como esperávamos… não devemos tomar nada como garantido.
As relações entre as pessoas são complexas e ás vezes, tal como o leite, azedam.

A vida é demasiado curta para que a desperdicemos em relações que de bom nada nos trazem. É então necessário ter coragem para mudar aquilo que podemos mudar e serenidade para aceitar o que não podemos.
E se há algo que não podemos mudar, são os outros.

A maior parte dos nossos relacionamentos sendo voluntários, apesar de tudo o que isso possa implicar, somos livres de sair deles.
Abre-se talvez uma excepção para os laços de sangue, ou deveria talvez dizer “algemas de sangue”, pois esses não escolhemos, saem-nos na rifa.

A relação com os outros, quer queiramos quer não, tem uma enorme influência nas nossas vidas. As que são harmoniosas trazem-nos paz e bem estar e as difíceis, angústia e desconforto. Qualquer uma nos afecta na medida do tempo a que a ela estamos expostos.
Assim sendo, deixando de parte a família que não é para aqui chamada, as que mais nos tocam são as relações amorosas e de amizade.

Quando deixamos alguém entrar na nossa vida, devemos aceita-lo como um todo. Não podemos “comprar” só as partes que nos agradam. Ninguém sendo perfeito, cabe-nos perceber se o podemos e queremos fazer.
E aqui entramos em terreno pantanoso.

Para começar, antes de realmente conhecermos alguém… não o conhecemos. Lapalissade, sem dúvida, mas muito relevante.
As pessoas encetam relacionamentos devido à empatia, a algo que as atrai umas para as outras, no entanto só o tempo e a experiência partilhada as dão efectivamente a conhecer umas ás outras.
Por outro lado, as pessoas mudam e ninguém nos garante que a que conhecemos hoje vá manter-se a mesma amanhã.

Um relacionamento pode começar por ser empolgante, gratificante, agradável e algures ao longo do caminho definhar. É triste mas não inédito.
Não estou a falar em problemas que possam surgir ao longo do percurso, nada mais natural do que um atrito aqui ou ali, um desentendimento, uma falha de parte a parte, esses acabam por se resolver de uma forma ou de outra.

Há uns anos escrevi um post que me voltou agora á memoria, sobre os sintomas que nos podem levar a abandonar um barco… é a isso que me refiro agora. Àquela sensação de que “algo está podre no reino da Dinamarca”.
Um dia dá-se um clic, cai uma gota de água, e torna-se claro para nós, mesmo que não o seja para o outro, que a relação já nada tem de positivo.

E quando isso acontece sou apologista do ponto final.
Todos conhecemos casos em que as coisas se arrastam, doentes, moribundas, durante o que parecem séculos. Não é, sem dúvida, fácil dar o passo.
Representa normalmente tanta mudança nas nossas vidas que se torna assustador, altera rotinas, implica terceiros, obriga-nos a pôr muita coisa em perspectiva.

Quando o fazemos sentimos um misto de alívio com profunda tristeza, pois por alguma razão nos envolvemos, por alguma razão deixámos crescer a relação.

Um erro comum é querer encontrar maus da fita, na vida real há poucos heróis ou vilões.
Cada um é como é e não nos cabe apontar o dedo, da mesma forma que não somos obrigados a apreciar ou aprovar.
Outro típico tiro ao lado é tentar induzir terceiros a tomar partidos. Cada relação é única, pessoal e intransmissível. O que é válido para nós pode não o ser para os outros, deixa-los de fora das nossas questões é não só uma questão de civilidade como de bom senso.

Até reencontrar-mos algum equilíbrio, até recuperarmos alguma paz de espírito, passamos por momentos difíceis, em que a situação acaba por estar sempre presente no nosso espírito, em que tudo nos parece lembrar a pessoa em questão.
Depois o tempo acaba por ter o seu efeito curativo, a dor vai-se atenuando, sendo inclusivamente possível voltar eventualmente um dia a conviver civilizadamente nos mesmos meios.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Marreca? Qual marreca?!

COM MÚSICA

Há pessoas que parecem viver em realidades alternativas, a imagem que têm de si próprias e dos seus actos não condizendo com o que o resto do mundo observa.

Fazem-me lembrar aquela cena do Frankenstein Jr. em que este diz para o Igor:
- Sabes, sou um brilhante cirurgião, talvez te possa ajudar com essa marreca…
- Qual marreca?!


Para que consigamos dar a volta àqueles traços de carácter que não trazem bem nenhum ás relações humanas, temos de os identificar em nós e assumir como indesejáveis.
Curiosamente, certas pessoas conseguem eximiamente reconhece-los nos outros, parecendo no entanto incapazes de os detectar em sem si próprios.

Há muitos e longos anos uma pessoa, em pós divórcio, disse-me estar extremamente preocupada com os filhos, pois a mãe “é uma mentirosa compulsiva, sem a mínima noção da realidade… mente sem razão, sem objectivo… afirma ter almoçado com A tendo almoçado com B quando, qualquer das situações sendo perfeitamente inócua, não haveria teoricamente qualquer razão para mentir sobre o assunto… não se pode acreditar em nada do que diz, com o perigo inerente que isso acarreta, fazendo lembrar a história do pastor e do lobo…”
Durante o decorrer conversa, na realidade mais um monólogo, o queixo ia-se-me descaindo até quase assentar nos joelhos… É que essa pessoa esteve a descrever-se detalhadamente a si própria sem visivelmente ter a mínima noção disso.

São igualmente muito desprovidas de isenção no que diz respeito a factos, distorcendo-os da forma que menos incómodo lhes cause, tendo só em consideração o seu ponto de vista e chegando inclusivamente a negar que certas coisas tenham acontecido. O que nos outros é a seus olhos condenável, no que lhes diz respeito, é geralmente perfeitamente explicável e justificado.

Não tenho conhecimentos de psicologia para conseguir compreender o que vem primeiro, o ovo ou a galinha…
Pergunto-me se começam por bloquear a autocensura para poderem fazer/dizer as coisas sem problemas de consciência ou se agem primeiro negando de seguida interiormente que o fizeram.

Não faço ideia se esta condição terá direito ao rótulo de “patologia psicológica“ mas faz-me pensar na anorexia, em que a imagem que a pessoa vê reflectida no espelho não condiz com a visão do resto do mundo.


De qualquer forma, estes individuos têm nitidamente sérios problemas de discernimento , tornando muito complicado o relacionamento com eles.
Hoje em dia chego à conclusão de que o confronto não é solução, não muda nada, não resolve nada, antes pelo contrário.
Convém ter em conta que costumam ter uma visão bastante lisonjeira de si próprios, aos seus olhos são “lindos” enquanto que os outros são “feios, porcos e maus”…
Tentar chama-los à razão será tão frustrante como tentar partilhar as cores do arco íris com um cego. Talvez até pior, porque além de frustrante é igualmente inglório pois irão certamente voltar-se contra nós.

Todos conhecemos ao longo da vida várias pessoas que se enquadram na descrição que acabo de fazer. Pessoalmente não conheço uma única que tenha acabado por “ver a luz”…

Resta-nos ter presentes as suas características e tentar, dentro da medida do possível, não nos deixar lesar por elas.
Parece-me um caso flagrante de ter a serenidade para aceitar as coisas que não podemos mudar. ;)

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Um direito, uma obrigação, um dever cívico…

COM MÚSICA



Ser feliz é um acto de altruísmo… ;)
Pessoas infelizes são a pain in the arse.

As pessoas infelizes são tristes e a tristeza, tal como a alegria, é contagiante.
Tal como quando estamos com dores não conseguimos pôr-nos na pele de alguém que não as sente, quando estamos tristes não conseguimos encontrar razões para sorrir. As pessoas infelizes tornam-se amargas, o seu sentido de humor, quando presente, é ácido, sarcástico.
A infelicidade é um grande inibidor da empatia. Assim, as pessoas infelizes são muitas vezes assoladas por sentimentos de inveja, de rancor, de aversão, pelo próximo.
Por outro lado, ela sufoca o amor próprio e facilmente as pessoas se convencem de que não são dignas de estima e consideração. Frequentemente se sentem magoadas, agredidas, sub-valorizadas, vendo as atitudes dos outros como reflexo dos seus próprios olhos.
A tolerância também escasseia e salta-lhes a tampa por dá cá aquela palha. Simplesmente não têm pachorra para aturar os outros.
Se não se conseguem ajudar a si próprios muito menos o conseguirão fazer a terceiros, não se pode portanto contar com uma pessoa infeliz.
A eles a vida nunca parece simples, o complicómetro não pára um segundo. Tudo é negro, tudo é pesado, tudo é difícil…
Perdem o fôlego, perdem a esperança, não vêem luz ao fundo do túnel, entrando assim numa espiral descendente que ameaça sugar todos os que estiverem à sua volta.

As pessoas felizes, ao contrário, irradiam calor e luz.
Sentem que a vida lhes sorri e sorriem de volta.
Não é nada entusiasmante “beber sozinho”,  assim gostam de companhia, apreciam partilhar a vida com quem está na mesma onda.
São geralmente alegres, bem dispostas, boa companhia, muitas vezes engraçadas.
Gostam de si próprias logo acham natural que os outros gostem também.
Como se sentem bem, gostariam que todos sentissem o mesmo, costumam portanto a estender a mão a quem dela precisa.
Tendem a ter o pavio mais comprido, a aceitar mais facilmente as diferenças, a tentar compreender posições diferentes das suas.
Para as pessoas felizes as dificuldades, os problemas, são desafios e não o fim do mundo.
As pessoas felizes têm um halo de energia positiva à sua volta onde dá vontade de nos aconchegarmos.

Somando dois e dois, a infelicidade não trás nada de bom… nem a nós próprios, nem aos outros. Be happy!


PS: Este post é dedicado a uma pessoa que foi infeliz durante muitos e longos anos (tal como previsto pela astróloga… lol) e que recentemente voltou “ao mundo dos vivos”.  Welcome back! ;)