quarta-feira, 9 de março de 2011

The blues

COM MÚSICA



“A vida é como os interruptores, umas vezes para cima, outras vezes para baixo…”

Embora acredite que haja quem goste de “curtir a neura”, não será o caso para a maior parte de nós. Alguém, no seu perfeito juízo (digo eu, sei lá), não aprecia estar “em baixo”.
É no entanto inevitável que, volta não volta, nos sintamos assim.
Seja lá qual for a razão e respectiva gravidade, de vez em quando sentimo-nos abatidos, tristes, desmoralizados…

Há quem, nessas alturas, atribua a esse estado um peso, uma importância nefasta, que a meu ver não deveria ter.
Na realidade acredito que os momentos maus sejam tão importantes nas nossas vidas como os bons. Acredito que se não tivermos a capacidade de sofrer, também não teremos a de retirar prazer das situações. É uma questão de sensibilidade.

A meu ver, a dor física é encarada de uma forma muito mais natural, do que a dor psicológica.
A insensibilidade à mesma (Insensibilidade congénita à dor) é aliás uma condição que inspira cuidados e preocupação. A dor adverte-nos de que qualquer coisa não está bem, se não tivermos esse sinal de alarme a coisa pode dar muito para o torto.

A dor psicológica não é menos natural. Há coisas que nos agridem, magoam, incomodam, angustiam, quer queiramos quer não.
A forma como encararmos esse estado menos agradável irá fazer toda a diferença.

Na minha opinião, não é aconselhável tentarmos tapar o sol com a peneira.
Se estivermos efectivamente na merda (pardon my french) não vale a pena atirarmos areia para os olhos de quem nos perguntar o que se passa e fazer de conta que está tudo bem. Os seres humanos têm antenas e essas coisas transparecem, ponto final.
Podemos “invocar a quinta emenda” (lol) e recusar-nos a falar sobre o assunto. Podemos levantar um bocadinho do véu e fornecer uma versão Readers Digest da questão. Ou então, em certos casos, aproveitar e desabafar, o que ás vezes até sabe bem.
Quanto mais não seja pelo facto destes estados de espírito gerarem alguma sensibilidade emocional, é bom que os assumamos para que os outros saibam com o que contar.
Por outro lado, empolar a situação e fazer dela um bicho de sete cabeças, encarar uma crise como se fosse o fim do mundo, não é de todo saudável. As coisas têm o peso que têm mas, embora possamos ainda não lhes conseguir visualizar o fim, é bom que estejamos conscientes de que este chegará.
Se não o fizermos, corremos o risco de que a inofensiva neura se transforme em depressão, upgrade que não interessa a ninguém e muito mais difícil de ultrapassar.
“Não há bem que sempre dure, não há mal que nunca acabe”.

Há quem ache que chorar é um sinal de fraqueza, de mariquice se assim lhe quiserem chamar. Pessoalmente acho que é uma válvula de escape, como a das panelas de pressão. Tanto assim que, grande parte de nós, em certas situações não o consegue evitar, por muito que tente controlar-se.
Não consigo ver qualquer vergonha ou humilhação nisso. Antes pelo contrário, acho que prova que somos humanos, o único animal que o consegue fazer para expressar emoções.

Mesmo que eventualmente não vertamos lágrimas, seja lá por que razão for, alturas há em que perdemos a alegria, a energia.
Apesar da iniciativa própria nessas alturas não ser expectável, se formos desafiados para alguma actividade que em “tempos normais” nos daria prazer, acho que devemos fazer um esforço para aceder. Muitas vezes acabamos assim por conseguir uma pausa que nos permite recuperar algum fôlego.
Para além da óbvia falta de vontade para fazer seja o que for, que estes estados provocam, muitas vezes a desculpa para a nossa recusa é o típico “não estou boa companhia”. No entanto, se os outros estiverem cientes da situação em que nos encontramos, não esperarão certamente que sejamos a boa disposição personificada.

Opostamente, se a situação que nos transtorna envolver pessoas, ir ao seu encontro, enquanto ainda nos sentimos fragilizados, talvez não seja a melhor das ideias. É aquilo a que se chama meter-se na boca do lobo.
Confrontarmo-nos com o que nos apoquenta, não sendo absolutamente necessário, não vai ajudar em nada a nossa recuperação.
Tal como as feridas, é preciso deixar sarar, dar tempo ao tempo, este cura a maior parte dos males.

Mas, acima de tudo, é preciso ter a noção de que acima das nuvens o céu está azul e o sol brilha. Tudo se resolve… it’s a mistery.



terça-feira, 1 de março de 2011

Feelings

COM MÚSICA


Considero-me uma pessoa essencialmente racional.
Como não me canso de dizer, isto não tem nada a ver com as emoções, que continuo a sentir, mas com a forma como encaro a vida.
Basicamente, quer dizer que baseio as minhas acções, as minhas decisões, no raciocínio, numa análise das situações. Que sou sensível a argumentos lógicos, estatísticos, probabilísticos. Que tenho em conta os possíveis resultados da acção/reacção, causa/consequência, etc…

No entanto, e de certo modo contraditoriamente, tenho imensos feelings.
Quantas vezes estes não me dizem uma coisa, quando a razão me diz outra…
Por feelings entendam-se coisas que não consigo explicar, provar, ou sequer analisar.
Acontece, curiosamente, que acredito que estes sejam tão importantes nas nossas vidas como a utilização do cérebro, que tanto defendo.
Acho que tem a ver com aquilo a que chamamos

Apesar de ter sido baptizada, dado que ninguém me perguntou a opinião sobre o assunto, não pratico qualquer religião. Tenho alguma noção dos princípios básicos de algumas delas e a sensação de que, no fundo, vão todas dar ao mesmo.
Também não sou imensamente dada a esoterismos, mantendo sempre um certo cepticismo.
Vivendo num país essencialmente católico estou evidentemente embebida, em muitos aspectos, da sua cultura. É bem capaz de me sair uma expressão do género “por amor de Deus…”, simplesmente porque as ouço desde que nasci e estão de certa forma alojadas no meu subconsciente.

Paradoxalmente então, a minha vida rege-se em grande parte por esses tais  feelings que mencionei, aos quais costumo dar bastante crédito.

Numa conferência no TED, sobre expectativas, o orador afirma que, probabilisticamente, é uma estupidez monumental apostar em lotarias e afins.
Embora compreenda perfeitamente os seus argumentos e esteja de acordo com eles, continuo, semanalmente, a apostar no Euromilhões. Porquê?
Acho que, como costumava dizer-me uma pessoa, “é a hipótese do Anjo”…
Apesar de consciente de que a hipótese de ganhar alguma coisa que se veja é ridiculamente baixa, é uma realidade que acontece todas as semanas a várias pessoas.
Não jogo portanto com qualquer expectativa, não aposto o meu futuro nisso, não tenho ilusões de que seja por essa via que vá resolver os meus problemas financeiros.
Faço-o porque acredito que qualquer pessoa possa ganhar. Excepto se não apostar.

Da mesma forma, se qualquer outra coisa fizer intuitivamente sentido para mim, pratico-a. Abraço a ideia de que, se não parecer haver inconveniente, porque não experimentar.
Assim, do alto do meu “agnosticismo”, entrego-me a práticas teoricamente reservadas aos “crentes”.

Em momentos de grande aflição, costumo acender velas, por exemplo…
Porque o faço?! Não tenho a mais pequena ideia.
Acho que acredito que estas funcionem como um lembrete para o universo, de que estamos a transmitir energia positiva, ou talvez que sejam antes um veículo dessa mesma energia…
De cada vez que uma criança está gravemente doente, alguma pessoa em sérias dificuldades, etc, lá estou eu a acender velinhas.
No outro dia, vendo-me a acender mais uma, a minha cara metade perguntou-me se essa era para que um projecto fosse aprovado.
Não acendo velas a “pedir” resultados específicos, faço-o acreditando estar a contribuir para um desfecho favorável das questões que nos apoquentam, seja lá ele qual for.

Tenho também aquilo a que costumamos chamar “pressentimentos”. Sensações que me perseguem, coisas que se me apresentam como quase certezas, não tendo ainda acontecido.
A partir do momento em que me dei conta de que gostaria de viver nesta zona, por exemplo, não duvidei por um segundo de que isso fosse efectivamente acontecer, apesar de só me ter mudado muitos e longos anos mais tarde.
Tal como esta, há muitas coisas que tenho a sensação de “saber”, sem que isso seja efectivamente possível.

O mesmo acontece com pessoas… o meu âmago “sabe” coisas que ás vezes o meu cérebro é incapaz de processar. Excepto raríssimas excepções, venho geralmente mais tarde a compreender a minha primeira reacção ás mesmas. Tantas vezes, devido ao tal carácter racional e analítico, as contrario, para mais tarde dar a mão à palmatória.

Acredito do fundo do coração que, se tivermos boa onda, uma visão positiva do mundo, formos “boas pessoas”, atrairemos coisas agradáveis para a nossa vida. Que, apesar das pedras do caminho, o balanço será positivo.
Nem tudo é explicável, nem tudo faz sentido, nem tudo se pode provar.
Pessoalmente, acho que tudo acontece por uma razão mas não sinto necessidade de obrigatoriamente saber qual. Não preciso de justificar, perante mim própria ou terceiros porque acredito no que acredito, entrego-me, simplesmente.
Mas acreditar, acreditar com todo o nosso ser, seja lá no que for, é o que nos mantém coesos quando tudo o resto falha.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Dessa água não beberei

COM MÚSICA



Há já muitos anos que me apareceram os primeiros cabelos brancos… ao longo do tempo a coisa foi-se intensificando. ;)
Conforme a minha cabeleira se ia tornando grisalha muitas das pessoas à minha volta se sentiam impelidas a comentar o facto.

Alguns, poucos devo dizer, davam-me os parabéns pela minha “coragem” e afirmavam que me ficava muito bem.
A maioria, de uma forma mais ou menos diplomática, mais ou menos empolgada, mais ou menos violenta, criticavam-me frontalmente e tentavam convencer-me a pintar.

Durante muitos e longos anos fui vítima de assédio (lol) por parte de família, amigos e, como não podia deixar de ser, cabeleireiros.
Diziam que ficava com um ar pesado, que parecia mais velha…
Mais velha quanto, costumava eu perguntar. Pareço ter sessenta anos? Não, isso também não, respondiam… Cinquenta? Não. Pareço ter que idade então, quarenta e cinco?! Sim.
Ora bolas, isso é a idade que eu tenho!!! Então não pareço mais velha, não pareço é mais nova do que realmente sou.

Alguns tinham uma reacção tão visceral, que até chegava a parecer que tinham alguma coisa a ver com isso.
Cheguei a ter a sensação de estar a trair algum segredo, como se o facto de assumir os meus cabelos brancos, lembrasse constantemente a todos que é natural tê-los a partir de certa idade.

Repetidamente afirmava que não tinha a mínima intenção de os pintar.
Apesar de tentar, de um modo geral, evitar empregar as palavras sempre e nunca, qualquer expressão que tenha empregue para exprimir a minha opinião sobre o assunto, tinha sem a mínima dúvida implícita a ideia de que “dessa água não beberei”.

Não era uma casmurrice gratuita, tinha as minhas razões…
Para começar, sendo esta a que sempre falou mais alto, não tenho qualquer jeito ou vocação para ser mulher. A ideia de me comprometer com mais um dos grilhões da condição feminina não me atraía portanto por aí além.
Depois, sempre tive consciência de que, uma vez que se comece, é muito difícil voltar atrás.
Finalmente, não vejo qualquer problema em assumir a idade. O corpo vai-se deteriorando, rugas e flacidez vão-se instalando aqui e ali, perdemos o ar fresco da juventude mas tudo isto me parece largamente compensado pelo que ganhamos em sabedoria e paz de espírito. Considero-o portanto uma troca justa.
Devo também confessar que o ar de  bruxa, que a minha cabeleira me conferia, não de desagradava de todo. Hehe

Até que um dia, a minha ginecologista, com um ar doce, me disse:
- Cristina, permite-me que lhe dê um conselho?! Porquê que não corta o cabelo?
Cruzes, credo, canhoto… Eu cá sou como o Sansão, não me falem em cortes de cabelo.
Tendo-se nitidamente apercebido de que por aí não ia a lado nenhum, corrigiu:
- Ou então… pinte… Sabe o que é?! É que o cabelo grisalho comprido fica com um ar tão desleixado…

Alto e pára o baile!!! Desleixado?! Eu tenho um ar desleixado?
No elevador confirmei… tinha sem dúvida um ar desleixado… :(
Velha, bruxa, pesada, eu aguento, eu assumo, eu não me importo… agora desleixada é que não pode ser nada, não gosto cá de desleixes.
No dia seguinte tinha o cabelo pintado. lol

Neste momento estão-se vocês a perguntar, por que raio veio ela hoje com conversas frívolas sobre cabelos e tintas… ;)
É que há várias conclusões a tirar desta história.

Abraçar a ideia da mudança foi sem dúvida assustador. Como podem ter compreendido pela descrição, esta foi uma guerra que travei durante muitos anos. Acabou por ser uma característica que me definia. Era aquela que se recusava a pintar o cabelo, contra tudo e contra todos. De certa forma, foi como se passasse a ser uma pessoa diferente, perdi parte da minha antiga identidade. 
Tenho no entanto, sem dúvida, de reconhecer que estou com "melhor aspecto”, que a mudança me fez bem.

Dar o braço a torcer não é fácil para ninguém e, se alguns o torcem com jeitinho para não magoar, outros há que, já que nos pusemos a jeito, tiram verdadeiro prazer em fazê-lo com toda a força que têm. Enfrenta-los e reconhecer que, de uma forma ou de outra tinham razão, é um excelente exercício de humildade.
Como dizia o Churchill, “Eating words has never given me indigestion”.
O mesmo se aplica aos defensores do “avô cantigas” que se sentiram traídos pelo meu acto de rendição.

Cheguei também à conclusão de que  remar contra a maré é um trabalho inglório. Quer queira quer não (e o que eu queria fazer xixi de pé contra as arvores… lol) sou gaja, não há nada a fazer. E, na sociedade em que vivemos, a maioria de nós faz a depilação e pinta o cabelo para não ficar com o tal ar considerado desleixado. Por muito trabalho que dê,  por muito chato que seja ou dinheiro que custe…  Resistance is futile!

Finalmente, prova-se que não é com vinagre que se apanham moscas. A única pessoa que me conseguiu fazer mudar de ideias fê-lo sem reprovação implícita, como simples constatação de facto e partilha de opinião. Perguntou, sugeriu, não afirmou, o que para os teimosos como eu faz toda a diferença.
Talvez tenha também escolhido melhor as palavras, aquelas que efectivamente mexeram comigo. Talvez os outros pensassem exactamente a mesma coisa mas não o tenham querido dizer, para não ferir susceptibilidades ou simplesmente por não se terem lembrado de colocar a questão nesses termos. A forma como nos exprimimos é de extrema importância.

Dito isto, falo-vos em cabelos mas a questão aplica-se um pouco a todos os campos das nossas vidas. Há coisas que somos renitentes a mudar.
Conheço uma pessoa que sempre se recusou a pôr os pés num barco, que jurava a pés juntos que era incapaz e que, hoje em dia, ganha regatas internacionais. Conheço outra que afirmava detestar certos alimentos, sem nunca os ter provado, que numa certa viagem começou a comer de quase tudo, "como as pessoas". Outra ainda que afirmava que morreria se não pudesse ter filhos e que, a certa altura, abdicou de os ter, por opção de vida.   

Não, mudar de opinião, mudar de atitude, mudar de hábitos, não é fácil não senhor... mas se, por alguma razão, acharmos que vale a pena tentar... porque não?!

Para a semana acho que vou rapar a cabeça e tatuar qualquer coisa no alto da moleirinha… ;)




quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Amores da loja do chinês

COM MÚSICA



É um erro comum partirmos do princípio de que amar tem o mesmo significado para toda a gente… nessa óptica, ou se ama ou não se ama.
Se alguém se enquadra nos nossos standards do que é o amor, gosta de nós, senão é certamente porque afinal não gosta.
Era bom que fosse assim tão simples, infelizmente a vida não é a preto e branco.

A nossa forma de amar tem a ver com muitos outros traços do nosso carácter. A demonstração desse afecto também.  Em suma, como tudo o resto, está relacionada com a nossa postura perante a vida.

O amor é um sentimento, como tal sujeito a intensidade.
O que fazemos com ele é uma questão de atitude.

Afirmar que se gosta de alguém é assumir que essa pessoa tem um papel especial na nossa vida, que está “mais perto do nosso coração” do que outras por quem não nutrimos qualquer tipo de sentimento, que nos são no fundo indiferentes.
Mesmo se inconscientemente, todos temos uma escala interior por comparação; gostamos muito, gostamos pouco, gostamos assim assim.
Isto refere-se à parte quantitativa.

Da forma como demonstramos o nosso amor depende a qualidade do mesmo.
A pessoa amada pode senti-lo mais ou menos intensamente, consoante as atitudes do outro para consigo. Tem a ver com o tratamento especial e preferencial e a atenção que lhe é dedicada.
O resultado prático é que, relativamente a certas pessoas, mesmo sabendo que gostam de nós, sentimos que se não gostassem ou gostassem menos a atitude seria a mesma.

As possíveis demonstrações passam por uma preocupação real com o bem estar alheio e pelo que podemos, da nossa parte, fazer para o proporcionar. Passam por, através da empatia, conseguirmos entender os sentimentos do outro e agirmos conforme gostaríamos que fizessem connosco se estivéssemos na mesma situação. Pedem sacrifícios  quando, postas as coisas numa balança, os interesses do outro falem mais alto. Requerem disponibilidade para apoiar e ajudar, dentro das nossas possibilidades, quer seja com palavras ou com acções. Implicam respeito e consideração pelo outro e que o tratemos como igual. Pressupõem dedicação e entrega.

Enfim… há várias formas de “provar” o nosso amor por alguém… há no entanto quem ache que não tem de o fazer, que senti-lo é mais do que suficiente.
Uma tripla da loja do chinês não tem direito ao nome de tripla?! Com certeza que tem.
Pela sua fraca qualidade e fiabilidade, arriscamo-nos é a que nos incendeie a casa…

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Expectativas

COM MÚSICA


“Esperava outra coisa de ti…”
Quem já não pensou, disse, ouviu, uma coisa semelhante?!
O sentimento associado é de desilusão, mágoa, ressentimento por vezes… a pessoa em questão não esteve à altura das expectativas.

Normalmente encaramos isso como uma falha do outro, como se a “culpa” fosse dele. Será?!
Não tenho dúvidas de que existam pessoas maliciosas, manipuladoras, que se nos apresentem da forma que mais lhes convier com o objectivo de levarem a água ao seu moinho.
Acredito no entanto que sejam uma minoria absoluta.
No geral, as expectativas somos nós próprios que as criamos.

Quando conhecemos alguém, havendo empatia, começamos por tirar-lhe as medidas.  Passamos depois geralmente por um test-drive, em que apalpamos terreno e, caso nos sintamos satisfeitos, avançamos para a “compra”.
Apesar de algumas pessoas serem definitivamente mais cautelosas do que outras no que diz respeito à entrega, ao grau de envolvimento inicial, embora a duração do período de “satisfeito ou reembolsado” possa variar, a certa altura do campeonato esta decisão acaba por ter de ser tomada.

Imaginemos que o leque das nossas relações é uma estante… em que, para as prateleiras inferiores, chutamos as pessoas que não temos em grande consideração, de quem não esperamos grande coisa… e nas superiores, nas que estão mais perto do coração, colocamos aquelas por quem sentimos maior admiração.

Quando sentimos apreço por alguém, tendemos a valorizar as suas facetas mais agradáveis e a subestimar as outras, ao ponto ás vezes de nem as querermos ver. Nessa perspectiva, criamos no nosso cérebro uma imagem lisonjeira da pessoa.
Quanto mais dela gostarmos, mais quereremos ver o seu lado positivo, mais alto a colocaremos na nossa estante e quanto mais alto, maior a queda.

A nossa análise do carácter e personalidade alheios não passa de uma visão pessoal e subjectiva daquilo que é efectivamente o outro.
O desenho que dele fazemos não passa de uma interpretação do que vemos, que não corresponde obrigatoriamente à realidade, ou pelo menos a toda a realidade.
Os seres humanos são criaturas complexas, ricas em características, que não conseguimos nunca apreender por completo.

Não seria inédito, ao descrevermos alguém a si próprio, este não se reconhecer. Ao pintarmos o seu retrato, se sentir nitidamente favorecido. E quantas vezes, se no lo disser, o encararemos como derivado de modéstia, não concordando com as suas contraposições.

Por outro lado, todos temos as nossas limitações. Das nossas, estamos geralmente conscientes, as dos outros podem passar-nos durante muito tempo ao lado, até que se apresente a ocasião de virem ao de cima.

Não é igualmente de menosprezar o factor mudança… Aqueles que somos hoje, podemos já não ser amanhã, a experiência de vida muda-nos, as prioridades vão-se alterando e quem está à nossa volta não se dá obrigatoriamente conta disso.

Voltando a citar George Bernard Shaw:
“The only man I know who behaves sensibly is my tailor; he takes my measurements anew each time he sees me. The rest go on with their old measurements and expect me to fit them.”

Resumindo e concluindo, geralmente as pessoas não nos decepcionam, nós é que nos decepcionamos devido a expectativas goradas. Logo, ficar chateado com o outro é perfeitamente ridículo. Por muito que nos possa custar, assumir que pudéssemos estar enganados ajuda a ultrapassar a frustração.
Querer que os outros estejam sempre à altura daquilo que esperávamos deles é utópico, é preciso manter a elasticidade de rearranjar a nossa estante ao longo do tempo e consoante as experiências que formos tendo, sem dramas, como simples constatação de factos.

As boas notícias são que ás vezes também nos deparamos com a surpresa de passar alguém para uma prateleira superior. ;)

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

A postura

COM MÚSICA


Há dias… semanas… meses… anos… que não nos correm nada bem.
Todos, volta não volta, passamos por períodos mais negros.
Problemas financeiros, de saúde, relacionais, etc, ás vezes ensombram-nos o horizonte, deixando-nos de rastos, sem fôlego.

Devemos questionar-nos sobre se estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para resolver as coisas. Uma resposta positiva não nos trará no entanto, só por si, grande consolo. A nuvem continuará a pairar por cima das nossas cabeças.

Nessas alturas a tendência é encolhermo-nos num sentimento de autocomiseração. Quem não está bem, sente-se vulnerável e logo tende a fechar-se sobre si próprio, numa postura defensiva.
Se se derem ao trabalho de observar as pessoas à vossa volta na rua, facilmente identificarão algumas nesse estado de espírito.

Acredito no entanto que, para além das acções, a nossa postura perante na vida seja crucial. Quem se sente derrotado, mais facilmente o será efectivamente pelas contrariedades do caminho. Como se costuma dizer “a sorte favorece os audazes”… ;)
Sem querer ir tão longe, assumirmos uma atitude de “coitadinhos” é que não serve efectivamente para nada.

Fui descobrindo um que outro truque, que ajudam a ultrapassar o dano emocional que estas coisas nos causam:

Tentarmos esvaziar a mente de preocupações, em todos os momentos em que não podemos agir relativamente a elas.
As pausas são fundamentais, não só para poupar o fôlego necessário para enfrentar as provações, como para ganhar recuo e clareza de espírito.
Quem alguma vez, ao nadar, já se viu aflito para chegar a terra, terá certamente compreendido que parar para descansar pode ser a melhor forma de se aguentar à tona.
Estarmos constantemente a remoer as questões, não resolve nada e só nos irá desgastar.
Como dizia a Scarlet Ohara: “I can't think about that right now. If I do, I'll go crazy. I'll think about that tomorrow.”

Assumirmos baby steps. “Roma e Pavia não se fizeram num dia”…
Por muito que nos aflija e a quiséssemos ver para trás das costas de uma vez por todas, se a questão é complicada, não se irá provavelmente resolver de um momento para o outro, como por milagre.
Não convém olharmos para o topo da montanha, para não desmoralizarmos, mas para o que está imediatamente em frente ao nosso nariz, um passo de cada vez.
É preciso ter paciência, reconhecer pequenas vitórias, regozijarmo-nos com elas, encara-las como o princípio do fim da crise.

Compararmo-nos com pessoas com problemas semelhantes e tentarmos pôr-nos no seu lugar.
Mas olhando “para baixo”, nunca para cima, há sempre quem esteja numa situação mais complicada do que a nossa.
Believe it or not, a óptica do “partiste uma perna, ainda bem que não partiste as duas”, ajuda bastante. Não há nenhuma situação suficientemente grave que não pudesse ser mais grave ainda.
Se nos mantivermos atentos, em vez de nos fecharmos numa conchinha de self-pitty, facilmente nos daremos conta de que há quem esteja muito pior do que nós.
Talvez não sirva de consolo, mas serve garantidamente de bitola.

Dar valor ás coisas boas que ainda temos na vida, apreciá-las, realçar o seu papel.
Raramente tudo é efectivamente negro, as pessoas é que ás vezes se recusam a abrir os olhos para se dar conta disso.
Por muito mal que alguns campos possam estar, há de haver outros que nos podem de certa forma compensar, se lhes dermos a devida importância.
Quando estamos na fossa tendemos a desprezar, numa atitude quase masoquista, coisas que nos poderiam no fundo ajudar a ultrapassar essas fases mais difíceis.

“Não há mal que sempre dure, nem há bem que nunca acabe”
Ás vezes não vemos a luzinha ao fundo do túnel, mas devemos fazer por acreditar que daqui a uns tempos tudo não passará de uma dolorosa recordação.
Mesmo que não estejamos a ver qual seja, não há problemas sem solução, tudo se resolve.
Como?! Já dizia o dono do teatro do Shakespeare in Love: “I don't know. It's a mystery.”

Finalmente dei-me conta de que a postura física, propriamente dita, tem imensa influência.
Ás vezes, nestas alturas, damos por nós a andar quase que a arrastar os pés, curvados, de olhos postos no chão, com uma respiração curta e intermitente.
Endireitar as costas, encolher a barriga, levantar a cabeça, respirar profundamente… provocam uma sensação de confiança, de optimismo.
Mesmo que na prática possa não ser o caso, ficamos com a sensação de já estar a caminho da vitória.


“If you are going through hell, keep going! “
Winston Churchill

;)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Keep it cool...

COM MÚSICA



Temos contacto com outros seres humanos praticamente numa base diária. A forma como decorre essa interacção, tem uma influência importante no nosso estado de espírito.
A relação com os outros, tanto nos pode provocar uma sensação de paz e bem estar, como de tensão e angústia.
Não sei se “o inferno são os outros” mas é um facto que, de vez em quando, há quem nos faça a vida num inferno… lol Há pessoas com mentes extremamente complicadas e tortuosas, com as quais o convívio muitas vezes não é nada fácil.

Tal como tantas outras coisas, os relacionamentos são muito mais agradáveis quando fluem, quando os mantemos de forma serena e relaxada.
É difícil que, ao longo do tempo, não haja um que outro atrito, uma que outra questão menos agradável. No entanto, pela sua postura perante a vida, certos indivíduos parecem provoca-los frequentemente, tornando o convívio francamente difícil de gerir e mais ainda de apreciar.

Certas pessoas parecem viver de pé atrás com tudo e com todos, qualquer comentário ou acção lhes parece susceptível de ser mal intencionado, facilmente vêm maldade em qualquer lado. Para elas todos são culpados até prova do contrário. Como tal, tornam-se agressivas, conflituosas, implicativas… sempre em pé de guerra.

Alguns sentem-se ofendidos, magoados, por dá cá aquela palha. Tudo o que se diga ou faça tem de ser muito bem medido e pesado, por forma a não agredir a sua sensibilidade exacerbada. No entanto, mesmo com estes cuidados em mente, muitas vezes os outros se vêem confrontados com acusações de “maus tratos” que os deixam completamente atónitos e desconcertados.

Outros, pelo contrário, não conseguindo manter á rédea curta o seu mau feitio, permitem-lhe que se atire ás canelas alheias à mínima contrariedade. Nessas alturas conseguem tornar-se verdadeiramente execráveis, perdem as estribeiras, vociferam, provocam ambientes de cortar á faca, acabando consequentemente por perder qualquer “razão” que pudessem  eventualmente ter.
(Céus… fui tããão assim durante taaantos anos…)

A intolerância (eventualmente aliada ao preconceito) é outro factor que em nada favorece as relações inter-pessoais, a não aceitação da diferença, das escolhas de vida de cada um, todos os que não se rejam pelos mesmos padrões sendo considerados infractores. “Viver e deixar viver” não é nitidamente o seu lema, caindo impiedosamente em cima de tudo aquilo que seja a seus olhos condenável, mesmo que só ao próprio diga respeito.

Há os que não são capazes de manter uma conversa sem, inevitavelmente, acabar a cascar no país, no governo, no povo, no mundo, no estado das coisas... Para eles nenhuma situação parece suficientemente agradável para merecer uma pausa, um desfrutar do momento, sem que seja ensombrado por pensamentos negativos. 

Alguns gostam de desenterrar esqueletos. Julga-se que uma questão já está morta e enterrada e lá volta ela tipo assombração. Tipicamente são aqueles que embora possam ter oficialmente dado as coisas por encerradas, na realidade não conseguem pôr uma pedra nos assuntos, ficando a remoer rancores e ressentimentos.

Na mesma óptica, há também aqueles que insistem em sacar os erros alheios da cartola , sempre que a ocasião se proporciona. Relembrando-os, de dedo apontado,  que em tempos pensaram de outra forma, agiram menos correctamente, expressaram uma opinião diferente, como se não lhes atribuíssem o direito à mudança.

Temos também pessoas para quem tudo é competição, que passam a vida a medir pilas. Estão constantemente a considerar interiormente quem é mais rico, mais bonito, mais popular, mais poderoso…  As coisas não podem simplesmente ser, tem de ser mais ou ser menos, tudo é comparação, tudo é uma questão de ganhar ou perder o concurso.

Alguns põem-se muito pouco em questão, aceitar que possam ter “culpas no cartório” relativamente a alguma coisa é-lhes extremamente penoso. Tudo acontece sempre essencialmente por culpa dos outros e, se alguma responsabilidade por acaso assumem, esta vem invariavelmente acompanhada de um “mas”.

Relativamente a outros, nunca se sabe com o que contar. As suas afirmações não condizem com as suas atitudes. Mudam do dia para a noite consoante a pessoa com quem estão a lidar, parecem ter várias caras, várias personalidades, várias posturas perante o mesmo assunto, tornando muito difícil compreender quem realmente são e consequentemente nelas confiar.

Enfim, estes são alguns exemplos, muitos mais haverá…
A realidade é que certas atitudes em nada contribuem para um bom ambiente e, se recorrentes, para um bom relacionamento com os outros.
Todos, já teremos tido alguma ou várias das que descrevo ou outras igualmente nocivas, há no entanto quem delas faça modo de vida.
Com este tipo de postura, coisas inócuas facilmente viram “casos”, gerando-se verdadeiras tempestades em copos de água.
Se estas se forem acumulando, irão minando as relações até que, por muito que se possa gostar delas, se passe a suportar as pessoas, em vez de as apreciar verdadeiramente.

Conviver numa base regular com este tipo de coisas é intoxicante, malsão. Provoca tensões, angústias, ansiedade…  Na minha opinião não trás nada de positivo para ninguém.
Defendo então que, não só tentemos erradica-las de nós próprios, como afastar-mo-nos delas, dentro da medida do possível, e rodear-mo-nos maioritariamente por pessoas conciliadoras, harmoniosas, serenas e equilibradas, que contribuam para o bem estar geral em vez de o corroerem.



Make love, not war! ;)

domingo, 16 de janeiro de 2011

E lá vão 4…

COM MÚSICA



Quatro anos… parece que foi ontem…
Achei que era uma boa altura para fazer uma revisão, um balanço, destes já quase duzentos posts.

Ao relê-los tive vontade de alterar alguns, de apagar outros…
Aquilo que dissemos, faz no entanto parte de nós, daquilo que fomos, daquilo que somos. Não toquei portanto numa só virgula.

Ao criar este blog não tinha de todo a noção de que viria a ser lido por perfeitos desconhecidos. Fi-lo por desafio de um amigo, divulguei-o junto dos mesmos e, estupidamente, pensei que se iria ficar por aí…
Dahaaa, isto é a néteee…
Assim, os meus primeiros posts são bastante pessoais e intimistas.

Ao longo dos tempos passei a ter mais cuidado com o que dizia, com as histórias que contava, sobretudo se envolvessem terceiros. O objectivo é passar ideias e não relatar ocorrências e, hoje em dia, só as descrevo quando me parecem absolutamente necessárias para demonstrar alguma coisa, tentando sempre manter o anonimato dos intervenientes.

Escrevi dois ou três posts que, apesar de se enquadrarem no espírito do blog, eram dirigidos pessoas específicas, tentando passar-lhes uma mensagem. Ingenuamente julguei que assim as poderia tentar ajudar mais eficazmente do que com o discurso directo que não estavam na disposição de ouvir.
Apesar de não as ter nomeado sei que ficaram chateadas. Compreendo hoje que foi um erro e peço-lhes agora publicamente desculpa.

Dito isto e passando estas excepções…
 “Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência”?!
Grande treta, todos temos que nos inspirar em algum lado, este disclaimer foi nítidamente inventado para evitar processos legais.
Escrevo sobre características e atitudes humanas que acredito nos ajudem, ou pelo contrário prejudiquem, relativamente a sermos felizes.
Não mantenho um blog de ficção científica. Logo, aquilo que escrevo sai directamente da observação e reflexão sobre “a vida real”.

Começando por mim, como dizia o José Mário Branco, “Eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar…”
Tempos houve em que não era de todo feliz e em que a minha postura perante a vida em nada contribuía para que o fosse.
Grande parte do que aqui escrevo se baseia na minha experiência pessoal, nos erros que cometi, nalguns que ainda cometo, nos truques que fui descobrindo e na análise das respectivas consequências. 
Ganhei uma que outra batalha, tenho ainda muitas lutas a travar, muitas arestas a limar.
Por outro lado, as ervas daninhas não param de crescer em qualquer jardim, arranca-las é portanto um trabalho que não tem fim…

Baseio-me também, evidentemente, na observação dos outros, do mundo que me rodeia. Falo sobre assuntos que de alguma forma me tocam, me levam a reflectir.
Muitas vezes me têm perguntado sobre quem estava a falar…
Apesar de todos sermos diferentes, há características que temos em comum com outras pessoas, é sobre elas que escrevo, não sobre indivíduos em particular.
Se é um facto que coisas específicas me dão a ideia de escrever um post sobre determinado tema, a realidade é que, ao fazê-lo, me surgem sempre N exemplos que se enquadram nas descrições.

Uma coisa é certa, apesar de ciente de que alguns poderão não o interpretar desta forma, tudo o que aqui escrevo é no intuito de passar uma mensagem positiva.
Não acredito que nada no nosso carácter seja incontornável, acho que podemos mudar o que quisermos, desde que tenhamos a vontade, a coragem e a perseverança de o fazer.
Quando menciono características a meus olhos nefastas, é tendo isto e conta e não para deitar abaixo ou apontar o dedo a seja quem for.

Deixo-vos com um apanhado de alguns posts, dos mais antigos, que pessoalmente gostei de reler ;)

Controlar o medo  / You can’t always get what you want / Somos todos animais, mas uns são mais animais que outros / Ser ou não ser, eis a questão / Vira o disco e toca o mesmo / O sindroma de Calimero / Os dodois / Os pré-sentimentos / Felicidade: sintomas / Paroles, paroles, paroles / Emoção e Razão / Quem sou, de onde venho, para onde vou?


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Jogo de cintura

COM MÚSICA



Qualquer um de nós, volta não volta, se sente agredido por palavras de terceiros.
Da forma como reagirmos, dependerá o desfecho da questão.

Se é verdade estas situações sempre existiram, hoje em dia, com a facilidade dos meios de comunicação, nomeadamente a internet, acontecem incomparavelmente mais.
Quem costuma navegar pelas revoltas águas do mundo virtual, já teve certamente ocasião de presenciar verdadeiras guerras, tantas vezes originadas pela falta de bom senso dos intervenientes.
Como dizia o outro, “Não havia necessidadeee…” ;)

Julgo que um dos principais responsáveis pelo despoletar destes incidentes seja a limitação da linguagem escrita, que não vindo acompanhada de tom de voz e expressão facial, frequentemente dá azo a interpretações erróneas.
Dependendo do nosso estado de espírito, muitas vezes se entenderá então alguma coisa, cujo significado possa ser dúbio, da pior maneira possível.

De qualquer forma, bem ou mal interpretadas, há sem dúvida coisas que nos ferem, ofendem, irritam, etc… e nos deixam com vontade de “ripostar”.

Na minha opinião, o primeiro erro é fazê-lo de imediato. A quente, todos nos tornamos bastante irracionais, podendo dizer coisas impensadas de que nos arrependeremos mais tarde.
Aqui, a escrita, que é como quem diz o facto de não nos encontrarmos frente a frente, até pode jogar a nosso favor, permitindo-nos fazer uma pausa para respirar fundo e reflectir sobre o assunto.

O segundo erro será não analisarmos o ponto de vista do outro, não tentarmos perceber porque disse o que disse, não pormos em questão se não poderá terá alguma razão. Se nos sentimos atingidos a tendência natural é acharmos que nós estamos certos e eles errados. Nem sempre é o caso…

Algumas pessoas têm uma maneira de falar, de colocar as questões, que nos deixam logo virados do avesso. Assim, pecam frequentemente não pelo conteúdo mas pela forma.

Há também os conflituosos, aqueles que estão sempre a ver mosquitos na outra banda e não perdem ocasião de mandar a sua aguilhoada.

Os agressivos transmitem qualquer ideia sem dó nem piedade, não se dando ao trabalho de medir as palavras. Ao transmitir as suas ideias soam como se estivessem “a ralhar”.

Os susceptíveis vêm maldade em tudo, qualquer coisa que se diga poderá fazê-los sentir vítimas de agressão e pô-los na defesa. E como todos sabemos, a melhor defesa é o ataque. ;)

Os egocêntricos acham que tudo tem a ver com eles. Qualquer coisa que se diga lhes é evidentemente dirigida, levam tudo a peito e reagem em conforme.

Temos também os puristas que, percebendo perfeitamente o que queremos dizer, não perdoam qualquer “pontapé na gramática”, reagindo como se não entendessem o nosso discurso.

Outro caso são os que gostam de contrariar por desporto. São capazes de provocar, de contradizer, de criticar, só pelo prazer de gerar polémica, só pelo gozo de poder refutar.

Enfim, muito mais tipos de atitude poderia descrever que potencialmente nos puxam os pelinhos do… mas diria que já chega.
Em qualquer dos casos, há sempre que ter em conta que o facto de alguma coisa mexer connosco não quer dizer que não possa ter uma ideia válida por trás e é sempre uma questão a considerar.

De qualquer modo, com razão ou sem ela, temos duas opções; entrar a matar ou usar a cabeça, engolir em seco e adoptar uma atitude sensata e conciliadora.
Sempre que possível, a segunda opção parece-me de caretas a melhor. ;)

Pensem… quem é que ganha alguma coisa com estas lutas?!
Que bem se poderá extrair de ânimos exaltados e trocas de palavras azedas?
Aquilo que nos sai da boca não podemos reclamar de volta. Se não dermos abébias ao próximo não as poderemos também reclamar para nós.

Todos temos, volta não volta, atitudes mais parvas, menos simpáticas, menos agradáveis, que se fossem sempre consideradas declarações de guerra passávamos a vida à estalada.
Se tentarmos pôr água na fervura, ver o outro lado, compreender ou explicar as situações consoante o caso, de uma forma civilizada, evitaremos muitos conflitos perfeitamente desnecessários e que nos moem inevitavelmente o juízo.
As pessoas tendem a reagir de forma muito positiva a este tipo de atitude e a maior parte opta por adopta-la também.

Depois há os casos perdidos… os surdos… aqueles que não querem paz mas sim catrapáspáspás… quanto a esses, a meu ver, a melhor opção é mesmo o silêncio.

“Don't argue with an idiot. They will only drag you to their level and beat you with experience.”
Autor desconhecido

;)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Os egoístas

COM MÚSICA



Apesar de nunca ter ouvido ninguém referir-se ao egoísmo como sendo propriamente uma virtude, este parece-me no entanto ser bastante bem tolerado pela sociedade.
Basta considerarmos o famoso perfume da Chanel
Gostava de ver o sucesso que teria um produto com o nome de “Pedophile”, por exemplo. lol

Os egoístas não são obrigatoriamente más pessoas… 
São simplesmente indivíduos que pensam acima de tudo em si próprios. Que colocam os seus interesses, opiniões, desejos e necessidades em primeiro lugar. Que, em caso de conflito de interesses, optam geralmente pela solução que mais os favorece.
Esta postura dá frequentemente maus resultados.
Não quer no entanto dizer que não tenham amor ao próximo, que não sejam capazes de atitudes solidárias, de dar apoio, de ser generosos, etc…

Quando era miúda tive um jogo, com uma certa piada e que tenho pena que tenha desaparecido, que consistia nuns cartões com características opostas dos seres humanos:
Pontual/Atrasado - Calmo/Nervoso - Tímido/Extrovertido - etc
Cada cartão tinha uma escala de 1 a 10 (em que o 1 equivalia a uma das duas características e o 10 à outra) e cada jogador dez cartas com os respectivos números. 
A ideia era, para cada cartão e para cada jogador, cada um atribuir um número da escala, para se ver a diferença entre o que cada um pensava de si próprio e a opinião dos outros.
Apesar de bastante básico e com algumas falhas, pois algumas das características não eram nitidamente opostas, ainda nos divertimos bastante com ele.

Não me lembro se havia algum cartão em que constasse o egoísmo… aposto no entanto que seria dos casos em que a opinião dos outros mais frequentemente fosse divergir da opinião do próprio. 
Isto, claro está, partindo do princípio de que se jogasse com total franqueza, o que era um pressuposto. ;)

Todos teremos eventualmente atitudes egoístas mas alguns têm-nas incomparavelmente mais frequentemente que outros. Acredito no entanto piamente que a maioria não reconheça em si essa característica. Tipicamente “o egoísta” não assume esse rótulo, chegando inclusivamente muitas vezes ao ponto de se achar o contrário.
Se repararem, têm quase sempre razões, para si perfeitamente válidas, que justificam plenamente os seus actos ou falta deles. 

Na minha opinião, o egoísmo anda a par com um certo egocentrismo.
Só isso justifica, a meu ver, o facto de alguns “egoístas” serem pessoas extremamente simpáticas e até atenciosas.
Parece-me que, instintivamente, não conseguem encarar o mundo a não ser do seu ponto de vista, não têm basicamente capacidade de empatia.
Não acho que o egoísmo seja um defeito mas mais uma deficiência.

O mal gerado por atitudes egoístas seria grandemente minimizado se cada um de nós usasse uma balança, uma balança virtual, numa base diária.
Se pesarmos as consequências dos nossos actos, ou falta deles, muitas vezes optaremos por fazer, de bom grado, um que outro sacrifício, pois chegaremos à conclusão de que o dano/prazer que podemos proporcionar é muito superior nos outros do que o seria em nós.
Acho que era a isto que o Einstein chamava “teoria da relatividade”… lol

Por outro lado, dado que vivemos em sociedade, ter em conta o bem estar geral é quase tão importante como o próprio, não acredito que alguém se possa sentir realmente bem provocando mal estar à sua volta.

É preciso também não esquecer o célebre ditado “quem muito quer tudo perde”… e ás vezes os egoístas puxam de tal forma a brasa à sua sardinha que acabam a ver navios.

Resumindo, acho que a maior parte é gente sem maldade, sem vontade ou intenção de lesar mas que, não sendo capaz de olhar para além do seu umbigo, acaba por não ver “the big picture” e consequentemente contribuir inteligentemente para a felicidade tanto própria como alheia.


A balança… não se esqueçam da balança… ;)