terça-feira, 7 de junho de 2011

Blasés

COM MÚSICA



É típico das crianças quererem muito qualquer coisa, chagarem o juízo dos progenitores até à exaustão e, quando finalmente a conseguem, dentro de um maior ou menor espaço de tempo, já não lhe darem a mínima importância.

Embora tenda a atenuar-se com a idade e, na maior parte dos casos, a tornar-se menos obvio, para muitos este padrão de comportamento mantêm-se até à idade adulta sendo, na minha humilde opinião, um dos factores que nos transformam em “António Variações”.

Quantas vezes não vibramos com a possibilidade de comprar um carro - com a escolha do mesmo - a inspecção de todas as paneleirices, os compartimentos, o movimento dos bancos, a arrumação da mala, o rádio e o computador de bordo - a condução dos primeiros trajectos - a apresentação aos amigos, “bora lá dar uma voltinha” ou “já viste que tem isto ou aquilo?!”...
Depois o tempo passa. O carro deixa de ser novidade, para ser só um meio de transporte. Descobrimos coisas que nos chateiam, nas quais não tínhamos reparado anteriormente. Vai envelhecendo, vão aparecendo outros mais modernos, com novos gadgets, menos consumo de combustível e vamos começando a gostar cada vez menos dele e a ter vontade de comprar um novo.

É difícilmente igualável a excitação de comprar casa - a pesquisa - a selecção -  a visita ás várias hipóteses e o avaliar dos prós e contras de cada uma – as terríveis decepções com algumas e o entusiasmo com outras – o destinar divisões e idealizar a colocação dos móveis - a decisão final – os passos legais e burocracias – a mudança – a decoração – a vivência num novo espaço.
Ao fim de um tempo já tudo é familiar, vai-se aquele sentimento inicial de “depaysement”  (que perdoem os que não falam francês mas fartei-me de puxar pela cabeça e não encontro a tradução do termo para português – estão perfeitamente à vontade para o considerar cagonisse da minha parte). Já conhecemos os cantos à casa, já temos tudo no sítio, já adquirimos e instalámos as últimas necessidades. Quantas vezes não deixamos de dar importância áquilo que no la fez comprar.

Quem não conhece as borboletas no estomago de quem se apaixona?! Aquela sensação de que morremos se não “tivermos” aquela pessoa – as inseguranças –  a sedução – o jogo da conquista – a victória. Os primeiros tempos em que parece que não conseguimos dar atenção a mais nada nem a mais ninguém. Os primeiros beijos (e vou ficar-me por aqui), as palavras mais ou menos melosas mas sempre ternas, a cumplicidade, o companheirismo, a saudade quando se está longe.
Ás tantas parece que já conhecemos o outro como a palma das nossas mãos. Vai perdendo a capacidade de nos surpreender. A rotina do dia a dia vai atenuando o espírito romântico. As suas histórias foram sendo repetidas até que já nos fartámos de as ouvir, já as sabemos de côr, são sempre as mesmas. O sexo acaba por sempre igual, mais coisa, menos coisa. Vai-se perdendo o mistério, a pica.

O nascimento de uma criança é sempre um verdadeiro milagre, uma montanha russa de emoções. A esperança de poder conceber - a tentativa de engravidar - a dúvida, a incerteza – os primeiros indícios, a suspeita de que possa ser “desta” – a transformação do corpo – as idas ao médico, os exames, as ecografias – o parto – os primeiros banhos – os primeiros passos – as primeiras palavras.
Depois “o bebé” transforma-se definitivamente no Asdrubalzinho, passando a ter direito à qualidade de gente, com as suas características muito próprias.  Vamos descobrindo os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Vamo-nos dando conta, na pele, do que implica trazer uma criança ao mundo.  Vai-nos pesando – no físico – na liberdade – na responsabilidade – na necessidade de aprender aquilo que acaba por ser um verdadeiro novo ofício.

Resumindo, acabamos por nos tornar “blasés” relativamente ás coisas que mais espectativa, empenho e prazer nos provocam na vida.

Já sofri desse sindroma.
E depois, um dia, que não sei precisar, deu-se em mim um clic e algo mudou definitivamente (espero).
Não imaginam o prazer intenso e continuado que retiro actualmente do que tenho.

O meu jipe velhinho, do alto dos seus vinte anos, dos quais já mais de quatorze nas minhas mãos, continua a encher-me as medidas. Certo que acabei por só duas vezes fazer todo o terreno com ele, o meu pai, o meu companheiro de aventuras, baldou-se e não tenho outros amiguinhos para brincar. Dá no entanto um jeitão para subir passeios e estacionar com duas rodas num plano inclinado. No verão, permite-me chegar ao estacionamento dos calões, aqueles que não têm de palmilhar quilómetros a pé, praia fora, com todo o tipo de tralha ás costas, para chegar a um sítio onde possa dispôr de um que outro metro de areia à volta da toalha. Os bancos têm amortecedores e ainda hoje aprecio a sua carícia no rabo quando passo por um buraco. No transito vejo por cima dos outros carros, tenho uma visão de horizonte que alivia o sufoco de me sentir presa.

Não se passa um dia sem que olhe para o meu minúsculo  jardim, literalmente “debaixo” da Serra de Sintra, e não me sinta uma priveligiada por aqui viver. Sempre que levo o meu filho à escola, apanhando um só semáforo pelo caminho e ladeando campos onde pastam cabras e andam cavalos à solta, penso no stress de Lisboa e suspiro de alívio. Sorrio interiormente de cada vez que abro uma gaveta que corre literalmente sobre rodas, quando fecho uma janela e praticamente deixo de ouvir os ronronares do autodromo, quando me levanto numa madrugada de inverno e vou para a casa de banho descalça, sem frio, graças ao aquecimento central.

Passada a fase da descoberta e habituação à vida conjugal, constantemente me congratulo por ter conseguido levar uma relação avante (as anteriores, coitadinhas, não deveram muito à longevidade). Admiro-me de cada vez que conseguimos ultrapassar uma crise complicada e fico contente de ver a nossa relação dela sair mais forte.  Dou por mim a observar o outro e a encara-lo com respeito, consideração, admiração crescentes conforme os episódios da vida se vão sucedendo e novas facetas vindo a lume.

De cada vez que olho para o meu filho, quando lhe vou dar um beijo antes de me deitar, o observo enquanto corre para mim na escola, me lembro de como já tinha desistido de o ter. Sinto-me abençoada. Comovo-me com a evidência da sua felicidade, alivio-me de o saber tão bem, tão saudável, com uma vida tão facilitada. Nunca páro de me surpreender, tanto com as suas parecenças connosco, algumas das quais sem origem na imitação mas num qualquer mistério genético, como com as diferenças, aquelas coisas que são só dele. A sua educação, o investimento de todo o meu ser na ajuda á formação do seu, fascina-me numa base diária.

Enfim, como disse anteriormente, um dia dei-me conta de que “estava assim”, de que apreciava intensamente tudo aquilo por que tinha desejado e até algumas coisas que me foram caindo na sopa sem pré-aviso. Dei-me conta de que retirava prazer da maior parte das coisas/pessoas/animais que me rodeiam. Aprecio genuinamente cada interacção, cada observação, cada movimento rotineiro. Sinto-me em relação a quase tudo como se ainda estivesse “em viagem de nupcias”.

Com o tempo, as coisas que desejámos, pelas quais nos encantámos, lutámos e ganhámos, vão-se acumulando e vamos tendo uma panóplia de prazeres cada vez maior.
Se mantivermos a chama acesa, que nem homem pré-histórico, se apreciarmos realmente o que temos em vez de desejarmos sempre algo que não temos, se não nos tornarmos blasés em relação á nossa própria vida, esta será garantidamente muito mais gratificante. ;)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Torre de Babel

COM MÚSICA


Há dias, a seguir a um telefonema desesperante, comentei com o meu filho, à laia de desabafo:
- “Ai, Pedro, o bicho homem é tãooo complicadinho...”
- “É por causa do que tem a mais do que os outros...”
- “E o que é isso?”
- “A fala!!!”

Perguntei-me então se não terá alguma razão.
A nossa linguagem, que deveria servir para nos fazermos entender, surte frequentemente o efeito contrário.

Quando um cão nos rosna, de dentes arreganhados ou um gato põe as orelhas para trás fazendo wóóóóóóóú, captamos a mensagem com toda a clareza. O mesmo acontece se o primeiro nos vier cumprimentar a dar ao rabo ou o segundo se deitar ao nosso colo a ronronar.

Com os humanos a coisa já funciona de outra forma...
Já todos devemos ter passado pela experiência de alguém nos dizer que gosta muito de nós, ou que pelo contrário não gosta, quando toda a sua linguagem gestual, o seu olhar, as suas acções, nos sugerem o contrário.
Ou de nos afirmarem que “não se passa nada”, quando os sentimos, sem grande margem para dúvidas, preocupados, tristes, chateados, etc...
Todos conhecemos pessoas que dizem A e fazem B, que fazem afirmações ou emitem opiniões totalmente diferentes consoante o ouvinte, que ao relata-los alteram ás vezes de tal forma os acontecimentos que criam uma realidade diferente...
Etc, etc, etc...

Quando a palavra é escrita, a coisa complica ainda mais, por não vir acompanhada de tom de voz ou expressão facial. O  discurso escrito, mais ainda do que o oral, permite frequentemente variadíssimas interpretações, sem que o autor possa detectar ou esclarecer, no momento, eventuais mal entendidos.

 “A falar é que a gente não se entende”, frase que tenho ouvido tão frequentemente nos últimos tempos e me faz amarinhar pelas paredes acima... terá afinal algum fundo de verdade?!
Terei talvez de dar a mão à palmatória.

Compreendo que se controle a palavra no sentido de preservar os sentimentos alheios. Que não ponhamos cá para fora tudo o que nos passa pela cabeça, simplesmente porque temos cordas vocais e acesso a uma linguagem articulada. Entendo as “mentirinhas inocentes”, os floreados, as metaforas, a ironia, as formas de expressão, as figuras de estilo... Sou apologista da auto-sensura, do pensar antes de abrir a boca, do não falar a quente.
No entanto, na minha ideia, a palavra deveria reflectir aquilo que realmente somos, aquilo que sentimos, aquilo que pensamos, e a realidade é que, na maior parte das vezes, não o faz.

O resultado é que dizemos uma coisa e as pessoas muitas vezes ouvem outra. Atribuem segundos e terceiros sentidos ao nosso discurso, tentam ler nas entrelinhas, duvidam, questionam as nossas razões, põem palavras em boca alheia.
As pessoas não se entendem a falar porque o que dizem, muitas vezes, não é de todo o que gostariam de, ou deveriam, dizer.
A maior parte delas não faz pegas de caras, só de cernelha e dado que tendemos a ver os outros à luz do que somos, partem do princípio de que funcionem da mesma forma, transformando o mundo numa verdadeira Torre de Babel.

“Say what you mean, mean what you say”

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mentologia

COM MÚSICA



Há relativamente poucos anos atrás, deitava os papeis dos rebuçados e as cascas das castanhas para o chão, sem sequer pensar duas vezes e tomava duches de meia hora (se a minha mãe não estivesse em casa...lol) com o maior dos prazeres. 
Hoje em dia sou incapaz de deixar torneira aberta enquanto lavo os dentes ou de deitar uma garrafa para o  lixo.

O homem deu-se conta da merda que andava a fazer à milénios, pôs travões a fundo e tenta agora salvaguardar o que resta do nosso belo planeta azul.
Para isso foi necessário que se apercebesse das consequências dos seus actos, que as interiorizasse e que começasse uma auto-educação, no sentido de preservar o seu habitat.

Da mesma forma que, ao longo da história, foi atentando contra a natureza e o meio envolvente, foi fazendo o mesmo com os seus iguais. As atrocidades que se cometeram nos tempos da escravatura, da inquisição, das conquistas, não têm qualificação possível em termos humanos.

Vivemos tempos difíceis, confusos, angustiantes, nota-se que a humanidade anda meio à toa. Não é no entanto de hoje nem de ontem que o homem se “porta mal”. Sem chegar aos extremos que mencionei acima, a realidade é que não tem sido propriamente exímio na arte das relações interpessoais. 
Perante esta evidência, em 1948 foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos do Homem.  Hoje, em pleno século XXI, grande parte dos artigos continuam diáriamente a ser ignorados. 

Referindo só alguns pontos, os menos extremos:
 “...devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade...” 
“...sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação....”
“...Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação...”
“...Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões...”
“.... A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos...”
Qualquer um de nós, olhando à sua volta, poderá facilmente apontar vários casos de violação a estas “regras”.

O pior é que somos frequentemente nós próprios a fazê-lo, sem sequer nos apercebermos. Reina a  falta de respeito, de consideração, de compreensão, de compaixão, de empatia pelo próximo, que justificamos esfarrapadamente, para apaziguar as nossas consciências. 
O comum dos mortais não comete crimes contra a humanidade, não deixa por isso de ser culpado de delitos menores, que em nada contribuem para a paz e harmonia entre seres humanos. 

Também disso nos estamos finalmente a aperceber e a agir a respeito.
A questão é que frequentemente se cai nos extremos o que, na minha humilde opinião, é contraproducente. 
Excandalizar-se com a água que gastam os leds dos telemóveis ou afirmar que as cenouras foram assassinada,s é perfeitamente ridículo. 
Também o são muitas das medidas que o homem tem inventado na esperança de consertar o estado das coisas, como o "politicamente correcto", por exemplo. 

As mudanças dão-se quando as pessoas interiorizam que certas atitudes não são saudáveis, não são benéficas. Quando percebem que, se fizerem um pequeno esforço, poderão melhorar em muito a sua relação com os outros. Quando decidem pôr em prática ideias tão básicas como  “a minha liberdade acaba onde começa a dos outros” ou “não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti”. Quando conseguem começar ver para além do seu próprio umbigo e a funcionar em termos de comunidade, para o bem de todos.

Se cada um de nós se der ao trabalho de alterar a sua mente, de praticar a “mentologia” associada à “ecologia”, será garantidamente “um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”... ;)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gostas mais do papá ou da mamã?

COM MÚSICA


Acreditem ou não, já ouvi fazer esta pergunta...

Em termos emocionais, certas pessoas parecem estar na vida como se de um concurso se tratasse, encarando o próximo como potencial concorrente.
Concurso de afectos, concurso de popularidade, consciente ou inconscientemente, alguns comparam-se constantemente com terceiros, controlando a sua própria posição numa escala imaginária.

Batalham pelo coração alheio, como se este não fosse um gigantesco órgão, de capacidade quase infinita. Não se parecem dar conta de que é possível  gostar simultaneamente de muita gente, de muitas formas. Querem à força lugar num pódio que na realidade não existe.

Estes sentimentos seriam inócuos se não passassem de macaquinhos no sótão de quem deles padece. A questão é que este espírito de rivalidade acaba invariavelmente por levar a antagonismos e animosidades. Como irracional que é, acaba frequentemente por gerar atitudes impensadas, que não trazem proveito a ninguém, inclusive aos “seres amados”.

Assim, é comum que, de uma forma mais ou menos consciente, tentem manipular estes últimos, denegrir os outros aos seus olhos, que exerçam chantagens emocionais, assumam um papel de vítimas, distorçam factos por forma a ficarem melhor na fotografia, etc... Tudo com vista a, de alguma forma, os forçar a escolher, a tomar partidos.

Que bem de tudo isto poderá advir, é o que muitas vezes me pergunto. Que prova de amor daí se retira é outra questão. Só me faz pensar na história do Rei Salomão, propondo cortar a criança ao meio. As nossas inseguranças não deveriam lesar terceiros, muito menos os que são importantes para nós.

A afectividade tem várias vertentes... amorosa, de amizade, familiar, etc. Estas não são exclusivas, não “tiram bocado” umas ás outras.
Em muitos casos, até pertencendo à mesma categoria, podem coexistir pacificamente. Uma mãe pode gostar igualmente de todos os filhos, mesmo que eventualmente  o demonstre de formas diferentes.

Assistimos no entanto a pais que se degladiam pelo amor dos filhos. A filhos que fazem o mesmo pelo dos pais. A namorados(as) que não descansam enquanto não afastam o outro dos(as) amigos(as) ou até ás vezes vice-versa. A relações amorosas que não admitem o relacionamento com alguém que tenha estado no seu papel no passado. Etc, etc, etc...
A realidade é que só ganhariam se vivessem em harmonia, se compreendessem que há lugar para todos.

Quem já assistiu ao jogo infame de dois pais em luta pelo amor de uma criança, terá noção do efeito devastador que pode ter, das sequelas que pode deixar.
Os adultos são mais resilientes, têm mais capacidade de encaixe, mais noção de que na vida nem tudo corre como gostaríamos. Não deixam por isso de ser afectados, de sofrer com estas guerras, de ver o seu mundo virar-se de pernas para o ar, de se sentir entre a espada e a parede.

Cada um de nós tem o seu papel na vida alheia. O seu papel presente, a sua função, a sua importância e estes não anulam os dos outros, reforçam-nos. As pessoas providas de inteligência emocional conseguem interiorizar isto e aliam-se em prol do bem comum, as outras fazem-se frente e dividem-se. São as que não conseguem compreender que é a união que faz a força, não o conflito.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Don Quixotes

COM MÚSICA



Como devem supor, o tipo de “conversa” que por aqui mantenho, em nada difere das que tenho ao vivo e a cores. A grande diferença está no feed-back, ganhando com o diálogo a percepção do que as pessoas pensam efectivamente de tudo isto.

Pois já não é nem a primeira nem a segunda vez que, relativamente à minha “frase estandarte” aqui em cima, comentam que é  muito bonita mas não passa de teoria
Meus amigos, este não é um blog de poesia, não o escrevo para ser bonito. Também não é um blog de ficção cientifica ou de histórias da carochinha.

Se escolhi a dita frase para o cabeçalho do blog é porque tem, de certa forma, sido a minha “bíblia” nos últimos anos. Por muito estranho que vos possa parecer, quando a descobri, interiorizei e passei a tentar pôr em prática, a minha vida mudou radicalmente.

Não, não é uma fórmula mágica que transforme a nossa passagem pela terra num mar de rosas. Não evita problemas ou desgostos, não é um escudo contra a dor, não faz milagres nem nos transforma em super homens… a sua compreensão, a interiorização do seu significado, proporciona-nos no entanto uma coisa que considero fundamental como base para que possamos ser felizes: paz de espírito.

Senão vejamos…

”… SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR…”
Relativamente a esta parte até já afirmaram, inclusivamente, não estar de acordo.
Não estar de acordo?! Mas como é que se pode não estar de acordo?
Será que acreditam que tudo se possa mudar?!
Não podemos mudar o passado, o que aconteceu, o que dissemos, o que fizemos, por muito que gostássemos que tivesse sido diferente… Não podemos mudar os outros, está exclusivamente nas suas mãos fazê-lo… Não podemos evitar a morte, alterar a orbita da terra ou decidir que não descendemos do macaco…
Volta não volta, o que não podemos mudar revolta-nos, indigna-nos, agride-nos, magoa-nos… muitas vezes não o conseguimos sequer compreender, não faz qualquer sentido para nós.
Mas, se efectivamente chegámos à conclusão de que não o podemos mudar, não será então benéfico aceita-lo com serenidade?
Aceitar não quer dizer defender, apoiar, aprovar, louvar… aceitar é simplesmente concluir que não possa ser de outra forma, que não haja nada que possamos fazer para alterar a ordem das coisas. É encolher os ombros, respirar fundo e continuar com a nossa vida. Lutar, espernear, recusarmo-nos a encarar a realidade, não irá servir de nada. Se assumirmos que não está nas nossas mãos fazer seja o que for, pelo menos não gastamos forças desnecessárias a lutar contra moinhos de vento.

”… CORAGEM PARA MUDAR AS QUE POSSO…”
A vida, no geral, requer coragem, nunca ninguém nos prometeu que iria ser fácil.
Mudar certas coisas parece-nos ás vezes uma tarefa hercúlea. Sentimo-nos frequentemente tentados a desistir, perdemos as forças, o ânimo, a motivação.
Mas como se costuma dizer, “a sorte protege os audazes” e há poucas coisas tão gratificantes como a satisfação de concluir que mudámos alguma coisa para melhor… sim, que para pior não vale a pena. ;)
Podemos mudar muito mais do que julgamos. Coisas que tomamos como dados adquiridos, podem ser alteradas. Situações estabelecidas, hábitos enraizados, traços de personalidade, tudo se pode mudar se a isso nos propusermos. Podemos transformar-nos em pessoas diferentes, o rumo das nossas vidas está muito mais nas nossas mãos do que estamos habituados a pensar.
Isto não quer dizer que seja fácil… requer esforço, perseverança, paciência, fé, tolerância para com os falhanços, insistência e, claro, coragem.

“…SABEDORIA PARA PERCEBER A DIFERENÇA…”
É aqui que costuma dar ares de sua graça o D. Quixote que habita em cada um de nós…
Pessoalmente considero esta a parte, de longe, a mais difícil de levar a cabo. A vida tem muitos tons de cinzento e nem sempre é óbvio compreender o que podemos efectivamente fazer por ela.
As coisas parecem muito mais claras se forem vistas de fora, pela observação de terceiros.
Através desta damo-nos conta do esforço inglório que certas pessoas fazem para tentar alterar coisas relativamente ás quais nada podem na realidade fazer. Assistimos a batalhas titânicas contra inimigos invencíveis. Ao cansaço de nadar contra a corrente. À frustração de não conseguir levar água ao seu moinho. Quando uma situação nos contraria de sobremaneira, a tendência, o impulso, é fazer-lhe frente, tentar dar-lhe a volta, ir à luta. Infelizmente nem sempre isso é efectivamente possível.
Observamos também, pelo contrário, quem assista de camarote, impávido e sereno, ao total descambar do seu universo. De braços cruzados, aceitando uma sorte que poderia não ser a sua, se se desse ao trabalho de reagir, de arregaçar as mangas e fazer-se à vida. Estes,  tendem a achar que pouco ou nada se pode mudar, que o destino está traçado, que temos de viver com as características com que nascemos, de arcar estoicamente com tudo o que nos aparece pela frente.
Quando se trata de nós, no entanto, as coisas são sempre muito mais confusas. Perceber onde e como é possível agir para obter resultados, não é de todo evidente.
Se formos de natureza combativa, iremos frequentemente abraçar causas perdidas. Se formos brandos e resignados, iremos ver passar muitos navios.

Não duvidem no entanto da preciosidade da sabedoria que adquirimos ao conseguir destrinçar as situações ou da paz de espírito que estas três coisas nos proporcionam. ;)


quarta-feira, 4 de maio de 2011

A lei da selva

COM MÚSICA



O país está em crise, o mundo está em crise, o bicho homem está-se a passar… de repente é a lei da selva.
Não me lembro, do alto dos meus quarenta e seis aninhos, de nenhum período tão difícil como o que agora atravessamos e suspeito seriamente que, antes de melhorar, ainda piore. O mundo está a saque, as pessoas foram atiradas para fora de pé, perderam a margem de manobra, desapareceram as zonas de conforto.

Tal como as catástrofes naturais, a crise não poupa ninguém, levando tudo à sua frente. Se é verdade que uns são mais gravemente atingidos do que outros, a realidade é que poucos escapam ilesos. Os clientes não pagam ás empresas, as empresas não pagam aos fornecedores, os fornecedores não pagam aos empregados, os empregados não pagam aos senhorios… gerando-se um círculo vicioso. Coisas que até há pouco tempo tomávamos por garantidas, deixaram de o ser.

Assiste-se à falência de empresas que por cá andavam há muitos anos, marcos da nossa sociedade (já sem falar das outras), a pessoas que perdem as casas, os empregos, os meios de subsistência.
Os “pés de meia” são delapidados, os bens vendidos ao desbarato, trabalha-se por meia dúzia de tostões, sob pena de não se trabalhar de todo.
Muita gente não faz ideia se amanhã vai conseguir pagar o empréstimo da casa, a escola dos filhos, a conta do supermercado.
Os naturais imprevistos facilmente se transformam em dramas que em muitos casos ficam sem seguimento pois não há meios de o fazer.

Tudo isto provoca angústia, ansiedade, preocupação, medo, desespero… sentimentos que geram mau viver e trazem ao de cima o pior que há em cada um de nós.
Nestas alturas muitos entram em pânico, tornando-se totalmente irracionais, chegando a agir contra os seus próprios interesses.  Perdem os escrúpulos, fazendo aos outros o que não gostavam que lhes fizessem a si. Tornam-se pessimistas, derrotistas, não conseguindo sequer conceber melhores dias.

O facto de ser um problema geral não melhora de todo os ânimos, antes pelo contrário. Não se vê luz em lado nenhum e no meio da escuridão dificilmente se encontra esperança.
A situação está sem dúvida alguma muito negra.

É no entanto preciso não esquecer que “depois da tempestade vem a bonança” e que, enquanto isso não acontecer, quer demore muito ou pouco tempo, está nas nossas mãos garantir alguma qualidade de vida.

Se, perante as adversidades, respirarmos fundo e pusermos o cérebro a funcionar, já é meio caminho andado. Entrar em pânico, julgo eu que  nunca tenha resolvido nenhum problema. Convém tentar manter a cabeça fria a cada problema que surja, analisa-lo e tentar descobrir a melhor forma de o resolver. Só a morte não tem solução.

Nestas alturas o longo prazo deixa de fazer grande sentido, ninguém sabe o que será o amanhã. Assim, ir vivendo o dia a dia, um pé à frente do outro, lidando o que se nos depara no imediato e ir resolvendo as questões uma a uma, conforme se nos vão apresentando, permite-nos manter o fôlego. Se olharmos para o todo desmoralizamos, a montanha vai-nos parecer demasiado alta, possivelmente não nos sentiremos com energia para a enfrentar.

Passar os dias a devorar e transmitir tudo quanto é notícia sobre o estado das coisas, também não me parece de todo saudável. Nestas alturas as pessoas tendem a obcecar, não conseguindo ver mais nada à frente e não tendo assim um minuto de descanso.

Um alheamento de quando em quando parece-me fundamental, gozar de momentos que não nos remetam para a situação negra que vivemos. Confraternizar com os amigos sem falar em chatices, ver um filme leve que estimule o nosso lado mais idealista, mais optimista, apreciar um dia bonito ou uma bela paisagem… enfim, continuar a gozar do que não é afectado pelo estado das coisas.

Por outro lado, se há momentos que apelam à compaixão são mesmo estes. “Ser uns para os outros” é muito mais benéfico do que “puxar a brasa á nossa sardinha”, muito mais gratificante, muito mais produtivo. Se nos ampararmos mutuamente, apoiando e ajudando no que for possível, todos ganharemos força e calor. Já dizia o povo, “unidos venceremos”. O salve-se quem poder, o cada um por si, parecem-me totalmente contraproducentes.

Ser-se positivo e optimista, o que não quer dizer alucinado e irrealista, parece-me igualmente imprescindível. Pessoalmente acredito piamente na teoria da “lei da atracção”. Acho que, estar sempre a imaginar o pior cenário possível, atrai isso mesmo. Com os pés bem assentes na terra e a noção daquilo com que estamos a lidar, acreditemos que, de uma forma ou de outra, tudo se há de resolver. Estou convicta de que essa postura ajude a que assim seja.

Finalmente, há que ter a noção de que as coisas mais importantes da vida não passam através do dinheiro e isso não mudou. O amor, a amizade, a saúde, são coisas que nada pode pagar. Aprecia-los, acarinha-los, valoriza-los, dar-lhes a devida importância, sem deixar que os problemas os ofusquem, soa-me absolutamente imprescindível para aguentar a borrasca, por um lado, e para relativizar as coisas por outro.

Let’s prepare for the worst and hope for the best. ;)

terça-feira, 26 de abril de 2011

Time is Money

COM MÚSICA



Algures durante a adolescência, perante o grande ponto de interrogação que era a minha vocação profissional, levaram-me a fazer um daqueles testes psicotécnicos, na esperança de uma luz sobre o que poderia ser o meu caminho.
Para além de me informarem que tinha um QI superior ao do chimpanzé, disseram que poderia “ser” basicamente o que quisesse, desde que para aí estivesse virada. Foi extremamente elucidativo.

A realidade é que não consegui escolher uma carreira…
Senti-me extraordinariamente atraída por algumas profissões mas, por razões que me ultrapassam, não encarreirei por nenhuma delas.
Fui seguindo a minha vida ao sabor do vento, fazendo um que outro curso, tendo um que outro trabalho, sem nunca me fixar em nada de concreto.

Todos nós conhecemos pessoas que não têm literalmente “tempo para nada”, que o passam a trabalhar para ganhar dinheiro e o pouco que lhes sobra a descansar do esforço.
Dizem que perguntaram uma vez ao Dalai Lama o que mais o surpreendia na humanidade, tendo ele respondido; “O homem, porque trabalha muito e perde muita saúde pra ganhar dinheiro, e quando o tem, perde muito para recuperar a saúde!!

Ora bem, cheguei à conclusão de que a afirmação de que tempo é dinheiro não podia estar mais certa… a maior parte das pessoas não tem é conta nesse banco para lá depositar os cheques…

Durante o meu percurso de vida tenho passado por épocas mais prósperas do que outras, não foram obrigatoriamente as mais felizes.
Não estou com isto a querer dizer que o dinheiro seja dispensável, estando bem ciente de que nos permite ter qualidade de vida, numa época em que quase tudo se paga.
Estou no entanto convencida de que é um daqueles venenos que tomados na dose certa podem salvar e usados descontroladamente matar.
Como toda a gente, faço sacrifícios em seu nome, pois há que ter com que pôr a sopa na mesa.

Nos nossos dias, no entanto, ganhar dinheiro facilmente se pode transformar em pescadinha de rabo na boca, e não estou a falar das que se fritam e comem com arroz de tomate.
A realidade é que quanto mais temos, mais queremos, e quanto mais queremos mais dinheiro temos de gerar para o obtermos.
Casas, carros, roupas, viagens, gadjets… tudo nos sai do pelo, a não ser que tenhamos ganho o euromilhões.
Por cada coisa que nos damos ao luxo de pagar, alguma outra perdemos certamente, entretidos que estávamos a tratar de a conseguir.

Cheguei recentemente à conclusão de que sempre fui extremamente ambiciosa, acreditando piamente na célebre afirmação de Benjamim Franklin.
O dinheiro não nos pode comprar tempo, mas o tempo equivale sem a mínima dúvida a muito dinheiro.

Acredito que as horas com o meu filho não tenham preço, o tempo que passo a ler-lhe histórias antes de dormir, a ajuda-lo a fazer os trabalhos de casa, os jogos que jogamos juntos, os passeios, as conversas. Não há dinheiro que pague o podermos dispor de umas horas para curtir um amigo ou simplesmente para o ajudar se disso precisar. Não é possível quantificar a qualidade do tempo passado sem stress, sem pressas, sem correrias, as horas passadas na companhia daqueles de quem gostamos, a fazer o que nos apeteça. E não podemos sem dúvida sempre fazer o que nos apetece mas podemos pelo menos tentar que aquilo que temos de fazer nos apeteça.

Ás vezes tenho a sensação de que a humanidade perdeu a noção das coisas. O homem anda tão ocupado a produzir riqueza, para conseguir atingir o que a sociedade moderna tem para lhe proporcionar, que se esquece de que muitas das melhores coisas da vida são à borla.
Trabalha tanto para lá chegar que não se dá conta de que está a gastar uma fortuna… em tempo. ;)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Nós, macaquinhos

COM MÚSICA



Quando penso nos progressos da medicina, da ciência, da tecnologia, fico absolutamente abismada… É impressionante o caminho que a humanidade fez até aos nossos dias, o cérebro humano é sem dúvida uma máquina brilhante, prodigiosa. Tivemos, mais do que qualquer outra espécie, graças á nossa inteligência, uma evolução deslumbrante.

Outra coisa que não deixa nunca de me admirar é a gigantesca falta de inteligência emocional demonstrada por grande parte dos seres humanos. Esta reflecte-se a todos os níveis, desde o individuo, aos governos, passando por empresas e organizações. Basicamente, já vamos à lua mas continuamos, em muitos casos, a comportar-nos como verdadeiros trogloditas.

A fome de poder, a ganância, a inveja, o ciúme, os sentimentos de posse, o egoísmo, a necessidade de status, o consumismo, a busca de popularidade, etc, parecem reger mais as atitudes do bicho homem do que o bom senso, o autocontrolo, a persistência, o zelo,  a compaixão, a empatia…

O resultado, na minha opinião, é termos um mundo muito pior do que o poderia ser se, para além do QI, desenvolvêssemos na mesma medida o QE.
Preocupamo-nos em estimular nas crianças a inteligência pura e dura, o raciocínio, a aprendizagem, mas transmitimos-lhes simultaneamente, pelo exemplo, conceitos de vida que de inteligentes muitas vezes nada têm.

Aceitamos como válidos comportamentos dignos dos homens das cavernas, dos tempos em que, mais do que viver, sobrevivíamos. Permitimo-nos agir por impulso, sem medir as consequências dos nossos actos. Não temos em conta os nossos melhores interesses, ou os dos outros, no médio/longo prazo. Não pomos as coisas em perspectiva, cedendo muitas vezes aos nossos instintos animais, desadequados aos tempos e à sociedade em que vivemos.

Segundo Daniel Goleman:
“Em termos de concepção biológica do circuito neuronal de emoções básico, aquilo com que nascemos é o que resultou melhor para as últimas 50 000 gerações humanas, e não para as últimas 500, e certamente não para as últimas cinco. As forças lentas e deliberadas da evolução que moldaram as nossas emoções fizeram o seu trabalho ao longo de um milhão de anos; os últimos 10 000 - apesar de terem assistido à rápida ascensão da civilização humana e à explosão da população de cinco milhões para cinco biliões - quase não deixaram marca nas nossas matrizes biológicas para a vida emocional.
Para o melhor ou para o pior, a nossa avaliação de cada encontro pessoal e as nossas respostas a estes encontros não são determinadas apenas pelos nossos juízos racionais ou a nossa história pessoal, mas também pelo nosso passado ancestral. [...] Em resumo, muito frequentemente confrontamos dilemas pós-modernos com um repertório emocional feito à medida das exigências do Pleistoceno.”

Tudo bem… mas estando conscientes desta questão será que não conseguimos mudar isto?!
Será que não está nas nossas mãos alterar a ordem das coisas?
Acredito genuinamente que, se todos fizéssemos um esforço consciente, se controlássemos o macaco que há em nós, se transmitíssemos a ideia aos nossos filhos, os educássemos nesse sentido, a humanidade saísse certamente a ganhar.
Temos inteligência suficiente para explorar o espaço mas não para nos comportarmos como seres civilizados e viver em harmonia com o próximo no nosso próprio planeta?! Não acredito…

terça-feira, 12 de abril de 2011

A fonte da juventude

COM MÚSICA



O nosso corpo, quer queiramos quer não, vai-se desgastando. Podemos poupa-lo, trata-lo e trabalha-lo em vários sentidos para retardar o envelhecimento, disfarçar alguns dos seus sintomas, no entanto, tarde ou cedo, iremos inevitavelmente sentir o peso da idade.
A mente, se não tivermos cuidado, tende também a degradar-se… parece-me no entanto bem mais susceptível de se manter firme, tonificada, flexível e saudável. ;)

Alguns alegam que a fonte da juventude é o Photoshop (lol), outros as operações plásticas e os avanços da medicina… a meu entender, uma das coisas que nos mantêm realmente jovens é a abertura de espírito aliada à capacidade de empatia com os vários estádios da vida humana.

Esta passa por várias fases, que vamos ultrapassando, uma após outra, metamorfoseando-nos em pessoas diferentes. Com o passar do tempo, temos ás vezes dificuldade em lembrar-nos daqueles que fomos.
Se conseguirmos, emocionalmente falando, manter viva a memória de outros tempos e acrescentar-lhe aquilo que fomos aprendendo pelo caminho, conseguiremos manter uma frescura acrescida de sabedoria.

Sentir-se jovem é conseguir efectivamente consolar uma criança, atormentada pelos terríveis dramas da meninice, compreendendo e atribuindo o devido peso aos seus desgostos ou receios, mesmo sabendo nós que não voltará a ter outra altura da vida em que se sinta tão mimada, tão protegida, tão segura, tão legitimamente irresponsável.

É, apesar de termos a noção de que quanto mais sabemos, mais sabemos que nada sabemos, conseguirmos fazer-nos ouvir por um adolescente que tudo sabe e ajuda-lo a questionar as suas certezas e a tirar as suas próprias conclusões.

É, sabendo que a vida é um arco-íris, com uma imensa variedade de cores e nuances, lembrarmo-nos de que em certas idades o bicho homem só consegue ver a preto e branco.

É, mesmo tendo descoberto que o amor só é mesmo eterno enquanto dura e que ao longo dos anos os romances irão enchendo as prateleiras, conseguirmos continuar a sorrir-lhe e a apoiar e respeitar as grandes paixões de juventude.

É valorizar e apoiar entusiasticamente aqueles grandes projectos que, sabemos nós, eventualmente não chegarão a ver a luz do dia, porque a vida nos reserva sempre um belo ramalhete de surpresas e as coisas nem sempre correm como queremos mas mais como calha.

É, no fundo, termos a capacidade de pontualmente regredir emocionalmente para podermos compreender, gerar empatia e, através dela, não só comunicar efectivamente, ultrapassando a eventual barreira das idades, como também continuar a aprender…

Com o passar dos anos e as pedras do caminho, há quem tenda a azedar, a tornar-se arrogante intolerante, prepotente. Quem perca a flexibilidade de raciocínio, se prenda a tradições ou  preconceitos sem futuro, se recuse a adaptar ás novas realidades de um mundo em constante mudança.
Tal como acontece com os músculos, a sua gana de viver parece definhar.
Tal como acontece com a pele as suas ideias parecem ganhar rugas e flacidez.
Tal como acontece com os órgãos, os seus raciocínios parecem começar a falhar.

Esses são os que se tornam velhos. 
Basicamente, só não nos podemos deixar esquecer do que é a juventude.


terça-feira, 5 de abril de 2011

Sonsices

COM MÚSICA



Há coisas nas nossas vidas, emoções, ideias, opiniões, actos, etc, que nem sempre são fáceis de assumir.  Se perante alguns o conseguimos fazer, perante outros a coisa já custa bastante mais.

As razões dessa dificuldade podem ser diversas… termos a noção de que são uma falha de coerência entre o que apregoamos e o que praticamos, a sensação de termos falhado algures, o não gostarmos de pedir desculpa, a consciência de que poderemos magoar ou ofender alguém, a vontade de agradar ou de nos enquadrarmos, orgulho, medo da exposição, etc.

Viver segundo as nossas convicções, conscientes dos nossos pontos fortes e das nossas fraquezas, aceitar que não somos perfeitos, reconhecer que cometemos erros e desculpar-mo-nos por eles se for caso disso, interiorizar que não se pode agradar a Gregos e a Troianos, ter a noção de que nem toda a gente irá gostar de nós, não são posturas fáceis, não senhores…

A vida é no entanto, a meu ver, para ser enfrentada com coragem… Acredito que se tivermos uma coluna vertebral sólida, apesar dos dissabores que possamos enfrentar pelo caminho, no fim sairemos sempre a ganhar.
Acredito que retidão e frontalidade sejam trunfos fortes nas relações humanas.

Não defendo a “verdade a qualquer custo”, lá porque sentimos, pensamos ou fizemos alguma coisa, não temos obrigatoriamente de a publicar no jornal.
A noção de diplomacia é, sem dúvida, um trunfo importante para quem vive em sociedade.  Não podemos fazer ou dizer tudo o que gostaríamos, temos de nos adaptar ás situações.

Como tal, todos temos várias faces, é natural, mudamos consoante as pessoas com quem estamos a lidar.
Uma coisa, no entanto, é mudar de tom de voz, de vocabulário ou de tema de conversa… outra é mudar como se de outra pessoa efectivamente nos tratássemos.
A este fenómeno costuma chamar-se sonsice.

Sou de opinião que, em termos de carácter, devemos investir no longo prazo. Tive ocasiões várias de comprovar que, o que fazemos para remediar as situações agora, optando pela solução mais fácil, que menos nos custa, que menos trabalho nos dá, acaba frequentemente com o famoso tiro pela culatra.

Por outro lado, a mentira (neste caso a sonsise) tem a perna curta.
O sonso tem geralmente uma que outra testemunha da sua sonsice.
Para além da figura de urso, que evidentemente faz quando é topado nestes esquemas, o que em si só não me parece muito grave, estará potencialmente a provocar dois efeitos altamente danosos em termos de relações humanas.

O primeiro só o lesa a si. Torna-se difícil confiar numa pessoa com várias caras, com várias palavras, com vários sorrisos, consoante a circunstância… o mais natural é que, ao se darem conta disso os outros fiquem de pé atrás.

O segundo, é o facto de frequentemente transformarem em  bodes expiatórios aqueles que, contrariamente a si, têm a coragem de pegar a vida de caras. Escondendo-se atrás das suas costas largas, beneficiando das suas atitudes, sem terem de suportar as consequências dos seus actos. Pode ser o melhor de dois mundos mas, meus amigos, que é muito cobardolas, ai isso é.

E ainda há quem ache os sonso kiduchos… quem os ache uns espertalhões… quem aprecie este joguinho das caraças… há sem dúvida gostos para tudo.