quinta-feira, 7 de julho de 2011

Não há super-herois...

COM MÚSICA



Algumas pessoas são nítidamente fracas, têm dificuldade em lutar contra as adversidades, vão-se abaixo à mínima contrariedade, perdem o ânimo com facilidade...
Outras, pelo contrário, parecem julgar-se verdadeiros super-herois.

Mas sabem o que acontece aos super-herois, sabem?!
Mais tarde ou mais cedo, acabam por cair num caldeirão de Kyptonite e aí é que está o caldo entornado...

De onde nos vêm então os super-poderes necessários para enfrentar algumas crises?!
Na minha opinião, da união, da entre-ajuda...

O orgulho impede-nos muitas vezes de assumir que sozinhos eventualmente não chegaremos lá, que não somos auto-suficientes.
Saber pedir/aceitar/dar ajuda parece-me, no entanto, fundamental.

Acontece que, como tudo na vida, esta tem de ser bem gerida, inteligentemente, sob pena de ser pior a emenda do que o soneto. Como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio.

Todos os que têm espírito de “caregivers”, se sentem impelidos a dar uma mãozinha ao próximo, se disso tiverem oportunidade e mais ainda se se tratar de alguém de quem gostem.
Há no entanto vários cuidados a ter.

Para começar, se propusermos ajuda a alguém, é bom que tenhamos intenções e possibilidade de a levar a cabo. Há pessoas que passam a vida a oferecer-se e que, quando a ocasião se proporciona, nunca se chegam efectivamente à frente, não se dão talvez conta do dano que causam as espectativas goradas.

Outras, dispõem-se a ajudar, sem se perguntarem se o estarão a fazer da melhor maneira. Impôem as suas ideias, os seus métodos, as suas soluções, num espírito de “my way, or the highway”, recusando-se a tentar realmente compreender o outro e os seus problemas.

Há também os que entram em pânico com a aflição alheia, parecendo baratas tontas. Agem antes de pensar, disparam em todos os sentidos, não ponderam a potencial eficiência da sua ajuda. Na sua ânsia, sufocam-nos com a sua preocupação, fazem com que as questões pareçam ainda mais graves, mais complicadas, mais difíceis de resolver.

Acontece também que proponham ajuda, na maior das boas vontades, não compreendendo que o que sugerem, não só não é solução, como só vai atrapalhar. Na sua tentativa, acabam por criar um cenário ainda mais complicado do que o original, acrescentando peso à coisa em vez de a simplificar.

Alguns iludidos insistem em tentar ajudar quem não se quer ajudar a si próprio. Luta inglória e perdida à partida.

O saber pedir/aceitar ajuda, tem também muito que se lhe diga.
É natural que, ao fazê-lo, nos sintamos de certa forma fragilizados. Nesse momento, assumimos que precisamos de alguém, quando gostariamos de ser auto-suficientes.

Alguns adquirem um desagradável sentimento de “dívida” que, a meu ver, não deveria existir se a atitude do outro fôr genuina e desinteressada, se sentirmos que o faz de boa vontade, se, na situação contrária, estivessemos dispostos a fazer o mesmo por ele.

Ás vezes, alguém se apercebe da nossa situação e oferece espontaneamente ajuda. Infelizmente nem sempre temos essa sorte e temos mesmo de a pedir. Não é vergonha nenhuma, não nos torna menos “machos”, não nos rouba dignidade.

Convém, no entanto, escolher bem a quem pedimos ajuda.
Os principais candidatos sendo, obviamente, aqueles com quem partilhamos a nossa vida e mais concretamente a questão que nos atormenta.
Assim, a nossa cara metade, os filhos, os pais, os irmãos, a família em geral, os amigos, serão aqueles para quem nos tenderemos a voltar.

Precisaremos depois de ter uma noção muito nítida do que podemos pedir e a quem, daquilo com que podemos contar.
O amor, os laços de sangue, a amizade, são tudo coisas muito bonitas mas não transformam os outros naquilo que gostariamos (ou precisariamos) que fossem.

Cada um de nós tem os seus “super-poderes”, que poderão ser extremamente úteis em determinadas situações mas não servir para nada noutras.
Uns têm o dom de acalmar, outros de consolar, de racionalizar, de planear, etc...  Uns têm uma imensa destreza para dar a volta a problemas financeiros, outros parecem talhados para dar assistência a doentes e acidentados. Alguns têm uma paciência infinita para nos ouvir e outros a coragem de nos dizer aquilo que não queremos mas deveriamos ouvir nós.
Cada um tem também as suas “kryptonites” e, relativamente a determinados assuntos, o melhor mesmo é não contar com eles.

Mas, super-poderes à parte, o que me parece mesmo importante é a empatia. Ajudar-nos-ão muito melhor se tiverem efectivamente vontade de o fazer, motivação, empenho. Não podemos pedir a ninguém algo que não nos quer dar, porque se o fizer, será de má fé. E ajuda de má fé, ainda nos sai o tiro pela culatra.

Quem nos rodeia, não tem obrigatoriamente noção de que estamos necessitados de apoio. Pode-nos ás vezes parecer insensível da sua parte mas há que nos conformar que não somos o centro do universo e que os outros podem andar distraídos. E não  porque não gostam de nós, porque não se importam connosco mas simplesmente porque não se deram conta. Não devemos levar isso a peito.

Acreditem no entanto que, na maior parte das vezes, se lhes chamarmos a atenção, sem crítica, sem ressentimento, sem mágoa, irão responder muito positivamente ao nosso apelo e “contribuir para a causa” com todo o prazer.

Resumindo e concluindo, arcar com o peso da vida sozinho, é um esforço desnecessário, um desperdício de energia  e rouba-nos força, que poderia ser utilizada, pelo nosso lado, para ajudar os outros .


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Get a grip

COM MÚSICA



Se desenhássemos um gráfico das nossas vidas, este assemelhar-se-ia a um electrocardiograma.
Há alturas em que estamos “em cima”, as coisas correm-nos bem, sentimo-nos alegres, contentes, bem dispostos, eufóricos ás vezes.
Infelizmente os “downs” fazem também parte do filme e são inevitaveis, é utópico julgar que lhes podemos escapar. Pontualmente, todos passamos por crises sérias a vários níveis.

Momentos difíceis, são isso mesmo, difíceis.
Como tal, não é evidentemente fácil encara-los, enfrenta-los, atravessa-los, ultrapassa-los... para isso sendo necessária muita coragem, muita força, muita inteligência, muita fé.

Os momentos de que falo, são aqueles que mexem profundamente com aquilo que somos, que nos fazem pôr tudo em questão, que nos viram a vida do avesso,  gerando o medo de um futuro pior.
Estes não só ameaçam a nossa felicidade como, pior ainda, a põem em questão.

Nos tempos complicados em que vivemos, todos conhecemos mais do que um caso de pessoas que estão, neste momento, ás portas do desespero.
Acontece que o desespero é extraordináriamente perigoso, é portanto imprescindível que não cedamos à tentação de entrar.

Como alguns de vocês saberão, pois já o mencionei anteriormente neste blog, aos quatorze anos fiz uma tentativa de suicídio.
Não foi uma chamada de atenção, não foi um aviso, não foi a fingir.
Não me atirei impulsivamente da janela, nem cortei os pulsos no sentido errado.
Estudei o assunto durante meses, pus detalhadamente um plano em prática e só não morri porque não estava escrito que assim seria.

Volto a falar do assunto agora, como quem saca do canudo para se candidatar a um emprego, para tentar merecer a vossa credibilidade.
Acreditem, sei muitíssimo bem o que é o desespero!
Quando se apodera de nós, só parece haver duas saídas possíveis, matarmo-nos ou deixarmo-nos morrer aos poucos. É demasiado poderoso, perdemos a capacidade de lutar, deixamos de ter o nosso destino nas mãos.

Deixem-me então partilhar convosco as conclusões a que, em trinta de dois anos de caminho, fui chegando.

Não há poços sem fundo, não há bem que nunca acabe, não há mal que sempre dure. Não há nada que não se ultrapasse, se tivermos os “cojones” de o fazer.
Aqui deixo umas quantas muletas mentais, que espero possam ajudar alguns.

Se em vez de nos encolhermos num canto, a carpir as nossas máguas, nos dermos ao trabalho de olhar para trás, conseguiremos, na maior parte das vezes, identificar várias ocasiões, em que nos sentimos tão mal ou pior e ás quais se sucederam períodos de agradável bem estar. Isto dá-nos uma noção de perspectiva sobre o assunto.

Se não o conseguirmos fazer, por esta “crise” ser pior, mais dura, mais difícil de ultrapassar do que qualquer outra por que tenhamos passado antes (há uma primeira vez para tudo), é então conveniente que façamos um esforço para nos lembrarmos dos casos semelhantes que conhecemos. Neles encontraremos certamente exemplos de pessoas que sairam victoriosas, que conseguiram salvaguardar a sua felicidade, recuperar a qualidade de vida, a paz de espirito, depois de uma experiência parecida com a nossa. É nesses que nos devemos focar.

Se, apesar de tudo, continuamos a conseguir fazer uma vida mínimamente “normal”, funcional, o caso não é tão grave assim, certo?!
Senão estaríamos a considerar atirarmo-nos da ponte...
Ora bem, isso parece provar que mantivemos algo de bom, não?! Desprezar ou mesmo repudiar os pequenos prazeres do dia a dia, entrar numa de mortificação, parece-me no mínimo masoquista.

Antes pelo contrário, acho imprescindível listarmos mentalmente tudo aquilo que ainda temos de bom nas nossas vidas. Valoriza-lo, acarinha-lo, procura-lo.
São as coisas agradáveis que nos dão ânimo para enfrentar as outras.

Se alguma coisa está mal, que não fique tudo mal... tenhamos então especial cuidado com os nossos actos, nesses momentos de fraqueza.
Não lixemos a relação com o nosso marido/mulher porque o nosso filho está no hospital. Não subvertamos a relação com os nossos filhos por causa de um divórcio complicado. Não nos atiremos para soluções totalmente impulsivas e irracionais devido a angústias financeiras. Não nos afastemos dos que são importantes para nós por causa de um desgosto de amor.

Se mantivermos intactos os nossos princípios, as nossas ideias, os nossos sentimentos, seremos muito mais coesos. Sentiremos que enfrentamos as adversidades de armadura, que estamos preparados para o que der e vier.
Se soubermos quem somos, o que somos, o que queremos, ao que estamos dispostos para o ter e aquilo de que não abdicamos de forma alguma, poderemos cair, mas muito mais fácilmente nos levantaremos.

Mesmo que não cedamos ao desespero, algumas alturas haverá em que nos sentimos efectivamente desesperados. Em que nos é difícil encontrar esperança. Em que não conseguimos descobrir qualquer solução. Em que achamos que já nada mais há que possamos fazer e tudo continua na mesma ou pior. Não conseguimos simplesmente aperceber a luzinha ao fundo do túnel.
É não ligar, não dar importância! Ignorar como quem ignora a birra de uma criança...
Há sempre momentos piores... à noite, de manhã ao acordar, quando algo ou alguém nos recorda aquilo que nos atormenta, quando as situações pioram.
É deixar passar... tudo o que sobe, desce... mas tudo o que desce também acaba eventualmente por voltar a subir.

Finalmente (esta última é só para aqueles que também acreditam, lá no amago, que assim seja), há a lei da atracção ou como lhe queiram chamar.
Imaginar o pior cenário, estar sempre a pensar nas coisas horríveis que podem acontecer, no que a situação pode ainda piorar, só serve para nos aterrorizar e atrair isso mesmo.
Pensamentos positivos, optimismo realista, boa disposição, parecem motivar “os anjos” a tomar conta de nós...  ;)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Calor humano

COM MÚSICA



Entramos, de alguma forma, em contacto com outros seres humanos numa base quase diária.
Alguns serão perfeitos desconhecidos, com quem provavelmente não voltaremos a falar na vida, outros fazem parte do nosso dia a dia, pelo meio haverá potenciais relações futuras.

Do tipo de interação que mantemos com o próximo depende toda a nossa vida, quer queiramos quer não, “nenhum homem é uma ilha”.

Um amigo de outros tempos disse-me, mais do que uma vez, que achava que eu tinha “medo de ficar sozinha”. Pela repetição se depreende que nunca consegui transmitir-lhe efectivamente a minha opinião sobre o assunto.

É verdade, adoro viver rodeada de gente, invisto imensamente nas relações humanas, ás quais me entrego de corpo e alma e sinto fascínio pelo seu estudo, não em teoria mas na prática, por observação.
Poderia sem dúvida “ter medo” de perder tudo isto, não estivesse consciente de que de nós depende conserva-lo.

As pessoas não são objectos, não são canetas ou isqueiros, que se percam... As relações constroem-se, mantêm-se e alimentam-se, cada uma na respectiva categoria a que pertencem e as pessoas só se “perdem” se desprezarem a sua manutenção.

Por que raio haveria alguém que tenha gosto e facilidade em dar-se com os outros de “ficar sozinha”?! Se naufragasse numa ilha deserta, talvez... mas “ter medo” disso parece-me um bocado descabido.

Quem brinca com o fogo queima-se, não há bela sem senão e essas coisas... É um facto que nem tudo são rosas nas relações interpessoais.

Quem não ouviu já alguém afirmar que não quer animais domésticos por já ter tido algum, de quem gostava muito, que lhe provocou grande desgosto ao morrer...
Pois com as pessoas passa-se o mesmo, depois de uma qualquer má experiência, muitos temem entregar-se, com receio de se magoarem novamente.

Quer sejam relações profundas ou superficiais, estas apelam aos nossos skills sociais, á nossa capacidade de integração e adaptação, de manter o respeito e a consideração pelo outro, exigindo-os também para nós. Dão trabalho, requerem constante esforço e empenho, capacidade de empatia, altruísmo ás vezes. 

Como tal, muitos preferem manter os outros a uma certa distância de segurança, só se abrindo realmente para um grupo restrito de eleitos.
Quase que apostava que, esses sim, têm medo de “ficar sozinhos”. ;)

Viver é um risco, a todos os níveis, milhões de coisas “más” podem acontecer e não é por nos fecharmos na nossa concha, por criarmos uma armadura à nossa volta, que as vamos conseguir evitar. Quer queiramos, quer não, de uma forma ou de outra, havemos sempre de ir apanhando umas porradas da vida. A questão é se as suportamos sozinhos ou acompanhados.

As pessoas vão entrando e saindo das nossas vidas. Umas vão ganhando importância e outras perdendo. Uns aproximam-se e outros afastam-se. Temos surpresas agradáveis e decepções. Ganhamos rapidamente confiança e intimidade com alguns enquanto que com outros vamos criando relações fortes mas mais distantes, ao longo dos tempos.

Se tirarmos genuíno prazer de tudo isto, se apreciarmos os vários tipos de relações que preenchem as nossas vidas, se as acarinharmos, se lhes atribuirmos importância, quer sejam regulares ou esporádicas, dar-nos-emos conta de que é o calor humano que nos aquece realmente.
Uma vez que descubramos isto ficaremos sem dúvida dele dependentes, mas sem medos, pois saberemos que ele está em todo o lado e que basta abrirmos os olhos para o vermos e nos dirigirmos para ele.

Podemos não ter uma clássica relação de amizade com o nosso mecânico, a menina do supermercado ou a professora do nosso filho. Podemos não os convidar para nossa casa ou participar na sua festa de anos. Mas não deixa por isso de ser amizade se houver apreço mútuo, simpatia, um contacto agradável ao longo dos tempos.
Esse sentimento, a vários níveis, com vários graus de intimidade, distribuído por várias pessoas, faz com que nunca nos sintamos efectivamente sozinhos. Podemos estar sós, “home alone”, mas não estamos sozinhos.

Eu sei que hoje estou a soar muito "Jesus Cristo"... mas é que acho que o rapaz tinha razão, “amai-vos uns aos outros” até que é uma cena baril. 
E facilita-nos tanto a vida... ;)



PS: Este post vai dedicado áquele senhor que cá veio comer a açorda no outro dia, com os meus agradecimentos pela inspiração... ;)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Modernices

COM MÚSICA




Ao longo dos tempos os hábitos, a vida prática, as atitudes, as regras de convivência em sociedade, vão mudando. O homem vai-se moldando a novas realidades, vai-se, mal ou bem, adaptando ao mundo em que vive.  

Para alguns estas mudanças são mais difíceis de encarar do que para outros. Algumas pessoas tendem a agarrar-se com unhas e dentes ás suas “tradições”, à forma como as coisas funcionavam nas gerações anteriores, que lhes foram transmitidas pela vivência, pela educação.

Lembro-me, aquando da morte do meu pai, de uma pessoa da minha família se ter sentido indignada por eu me recusar a enviar (pelo correio) as antigamente habituais cartas de agradecimento, pelas condolências que me tinham sido dirigidas.
Não fazia no entanto para mim qualquer sentido. A todos agradeci, no momento, do fundo do coração.
A ideia de passar umas horas a escrevinhar à mão palavras em série, pareceu-me uma verdadeira perca de tempo. Tentar imaginar a reacção dos potenciais visados, ao abrirem a caixa do correio e darem de caras com um envelopezinho de borda preta, ainda me valeu uma que outra gargalhada interior.

A realidade é que algumas coisas, por razões várias, pura e simplesmente deixam de fazer sentido.
Quem é que, hoje em dia, tem tempo para passar a ferro toalhas ou lençóis de linho bordado, arear pratas, ou lavar fraldas?! Neste último caso está inclusivamente provado que, as modernas fraldas descartáveis, apesar de menos ecológicas, são muito melhores para os bebés, que têm agora os rabinhos sempre secos.
Quem é que tem casa para aqueles roupeiros fantásticos, em madeira maciça, com dois metros e meio de altura, para mesas de sala de jantar para dezoito pessoas, para lustres gigantescos?

Parece-me perfeitamente lógico que a tendência seja deixarmos cada vez mais de ter objectos físicos, a vida tende a tornar-se mais “digital”... Podemos ter toda a nossa música dentro de um iPod e os filmes num disco rígido. As coisas já não precisam de ocupar o nosso tão precioso espaço. Podem ser substituídas por formas de organização mais lógicas, mais fáceis de consultar, mais diminutas.

Por muito que pense, não consigo encontrar uma única vantagem em ter uma discoteca sob a forma de CDs, já para não falar dos vinis. Não são propriamente bonitos, ocupam espaço, têm caixas de plástico, uma pessoa vê-se grega para encontrar a musica que quer.
No que respeita aos livros, já o caso é muito diferente... São, pelo menos alguns, objectos lindíssimos, decorativos, têm um cheiro insubstituível, um manuseamento agradável, têm alma.
Há portanto que ter cuidado para não cair em extremos e não começar a descartar em excesso.

Da mesma forma, há comportamentos que também têm real valor, de que seria uma pena abrirmos mão. E no entanto, parece ser o que está a acontecer...
Tenho vindo a sentir-me cada vez mais “demodée”, para não utilizar a expressão “velha” que o meu filho não deixa, relativamente aos comportamentos humanos. Não consigo simplesmente compreende-los e, pior ainda, acho que são extremamente nocivos para a sociedade.

Não acho normal chegar-se com uma hora, hora e meia, de atraso a qualquer lado, na maior das descontrações. Não acho normal só se responder a convites se se estiver potencialmente interessado nos mesmos. Não acho normal aceita-los e baldarmo-nos á última da hora, porque afinal não nos apeteceu ir, ou porque surgiu entretanto um programa mais interessante. Não acho normal não se responder alguém que nos contacte, só porque ainda não temos uma resposta concreta a dar.

Na minha opinião, qualquer uma destas atitudes, ou outra do mesmo género, denota de uma incrível falta de consideração e respeito pelo próximo. Infelizmente, hoje em dia, parecem ser comummente aceites, como se não tivessem qualquer importância.
Quem as pratica aceita-as com a mesma ligeireza, quem contra elas se insurge fica rotulada de “careta”.

Acontece que não consigo acreditar que esta postura possa contribuir para o bem estar geral.
Qualquer uma das situações que descrevi acima, implica que alguém saia eventualmente lesado com a história... os jantares arrefecem, as pessoas não conseguem fazer planos por falta de informação, deixam-nos na dúvida sobre a recepção do “recado”, custam dinheiro umas vezes, outras simplesmente esforço.

Este esbanjamento, ou desperdiçar se preferirem, de energia, o  não considerar minimamente o outro lado, não sentir empatia pelo próximo... arrefecem terrivelmente as relações humanas. Assume-se o “estou-me nas tintas para o próximo e aceito na boa que ele se esteja nas tintas para mim”. É triste, é muito triste.

Alguns dirão, ah, que não é bem assim e tal e coiso, e que se as pessoas não se chateiam porque que não se há de fazer, e que os dias de hoje são muito preenchidos e stressantes, que não temos tempo nem para respirar, quanto mais para dar atenção a terceiros...
Pois, meus amigos, acreditem que, um dia, esta vos irá fazer falta!

Conforme me fui dando conta de que me estava a tornar um animal em vias de extinção, fui gesticulando menos, reclamando menos, com menos ímpeto.
Não posso impôr a ninguém a minha visão sobre a questão, por muito que a considere “a certa”.
Posso no entanto lutar por ela e, do alto da minha presunção, tentar “fazer ver a luz”.

As reacções são das mais variadas... desde aqueles que reconhecem uma atitude pouco simpática e se mostram genuinamente incomodados com a sua “falha”, àqueles que não conseguem sequer compreender a importância da coisa, passando pelos que dizem que sim mas que também, arranjam mil e duas justificações validíssimas, para a sua conduta e amanhã se for preciso voltam a fazer o mesmo.
Mas sabem que mais?!... Fiquem atentos e observem que, os primeiros, são aqueles com quem desenvolvemos verdadeiras relações de amizade!
E esta, hein?! ;)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Blasés

COM MÚSICA



É típico das crianças quererem muito qualquer coisa, chagarem o juízo dos progenitores até à exaustão e, quando finalmente a conseguem, dentro de um maior ou menor espaço de tempo, já não lhe darem a mínima importância.

Embora tenda a atenuar-se com a idade e, na maior parte dos casos, a tornar-se menos obvio, para muitos este padrão de comportamento mantêm-se até à idade adulta sendo, na minha humilde opinião, um dos factores que nos transformam em “António Variações”.

Quantas vezes não vibramos com a possibilidade de comprar um carro - com a escolha do mesmo - a inspecção de todas as paneleirices, os compartimentos, o movimento dos bancos, a arrumação da mala, o rádio e o computador de bordo - a condução dos primeiros trajectos - a apresentação aos amigos, “bora lá dar uma voltinha” ou “já viste que tem isto ou aquilo?!”...
Depois o tempo passa. O carro deixa de ser novidade, para ser só um meio de transporte. Descobrimos coisas que nos chateiam, nas quais não tínhamos reparado anteriormente. Vai envelhecendo, vão aparecendo outros mais modernos, com novos gadgets, menos consumo de combustível e vamos começando a gostar cada vez menos dele e a ter vontade de comprar um novo.

É difícilmente igualável a excitação de comprar casa - a pesquisa - a selecção -  a visita ás várias hipóteses e o avaliar dos prós e contras de cada uma – as terríveis decepções com algumas e o entusiasmo com outras – o destinar divisões e idealizar a colocação dos móveis - a decisão final – os passos legais e burocracias – a mudança – a decoração – a vivência num novo espaço.
Ao fim de um tempo já tudo é familiar, vai-se aquele sentimento inicial de “depaysement”  (que perdoem os que não falam francês mas fartei-me de puxar pela cabeça e não encontro a tradução do termo para português – estão perfeitamente à vontade para o considerar cagonisse da minha parte). Já conhecemos os cantos à casa, já temos tudo no sítio, já adquirimos e instalámos as últimas necessidades. Quantas vezes não deixamos de dar importância áquilo que no la fez comprar.

Quem não conhece as borboletas no estomago de quem se apaixona?! Aquela sensação de que morremos se não “tivermos” aquela pessoa – as inseguranças –  a sedução – o jogo da conquista – a victória. Os primeiros tempos em que parece que não conseguimos dar atenção a mais nada nem a mais ninguém. Os primeiros beijos (e vou ficar-me por aqui), as palavras mais ou menos melosas mas sempre ternas, a cumplicidade, o companheirismo, a saudade quando se está longe.
Ás tantas parece que já conhecemos o outro como a palma das nossas mãos. Vai perdendo a capacidade de nos surpreender. A rotina do dia a dia vai atenuando o espírito romântico. As suas histórias foram sendo repetidas até que já nos fartámos de as ouvir, já as sabemos de côr, são sempre as mesmas. O sexo acaba por sempre igual, mais coisa, menos coisa. Vai-se perdendo o mistério, a pica.

O nascimento de uma criança é sempre um verdadeiro milagre, uma montanha russa de emoções. A esperança de poder conceber - a tentativa de engravidar - a dúvida, a incerteza – os primeiros indícios, a suspeita de que possa ser “desta” – a transformação do corpo – as idas ao médico, os exames, as ecografias – o parto – os primeiros banhos – os primeiros passos – as primeiras palavras.
Depois “o bebé” transforma-se definitivamente no Asdrubalzinho, passando a ter direito à qualidade de gente, com as suas características muito próprias.  Vamos descobrindo os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Vamo-nos dando conta, na pele, do que implica trazer uma criança ao mundo.  Vai-nos pesando – no físico – na liberdade – na responsabilidade – na necessidade de aprender aquilo que acaba por ser um verdadeiro novo ofício.

Resumindo, acabamos por nos tornar “blasés” relativamente ás coisas que mais espectativa, empenho e prazer nos provocam na vida.

Já sofri desse sindroma.
E depois, um dia, que não sei precisar, deu-se em mim um clic e algo mudou definitivamente (espero).
Não imaginam o prazer intenso e continuado que retiro actualmente do que tenho.

O meu jipe velhinho, do alto dos seus vinte anos, dos quais já mais de quatorze nas minhas mãos, continua a encher-me as medidas. Certo que acabei por só duas vezes fazer todo o terreno com ele, o meu pai, o meu companheiro de aventuras, baldou-se e não tenho outros amiguinhos para brincar. Dá no entanto um jeitão para subir passeios e estacionar com duas rodas num plano inclinado. No verão, permite-me chegar ao estacionamento dos calões, aqueles que não têm de palmilhar quilómetros a pé, praia fora, com todo o tipo de tralha ás costas, para chegar a um sítio onde possa dispôr de um que outro metro de areia à volta da toalha. Os bancos têm amortecedores e ainda hoje aprecio a sua carícia no rabo quando passo por um buraco. No transito vejo por cima dos outros carros, tenho uma visão de horizonte que alivia o sufoco de me sentir presa.

Não se passa um dia sem que olhe para o meu minúsculo  jardim, literalmente “debaixo” da Serra de Sintra, e não me sinta uma priveligiada por aqui viver. Sempre que levo o meu filho à escola, apanhando um só semáforo pelo caminho e ladeando campos onde pastam cabras e andam cavalos à solta, penso no stress de Lisboa e suspiro de alívio. Sorrio interiormente de cada vez que abro uma gaveta que corre literalmente sobre rodas, quando fecho uma janela e praticamente deixo de ouvir os ronronares do autodromo, quando me levanto numa madrugada de inverno e vou para a casa de banho descalça, sem frio, graças ao aquecimento central.

Passada a fase da descoberta e habituação à vida conjugal, constantemente me congratulo por ter conseguido levar uma relação avante (as anteriores, coitadinhas, não deveram muito à longevidade). Admiro-me de cada vez que conseguimos ultrapassar uma crise complicada e fico contente de ver a nossa relação dela sair mais forte.  Dou por mim a observar o outro e a encara-lo com respeito, consideração, admiração crescentes conforme os episódios da vida se vão sucedendo e novas facetas vindo a lume.

De cada vez que olho para o meu filho, quando lhe vou dar um beijo antes de me deitar, o observo enquanto corre para mim na escola, me lembro de como já tinha desistido de o ter. Sinto-me abençoada. Comovo-me com a evidência da sua felicidade, alivio-me de o saber tão bem, tão saudável, com uma vida tão facilitada. Nunca páro de me surpreender, tanto com as suas parecenças connosco, algumas das quais sem origem na imitação mas num qualquer mistério genético, como com as diferenças, aquelas coisas que são só dele. A sua educação, o investimento de todo o meu ser na ajuda á formação do seu, fascina-me numa base diária.

Enfim, como disse anteriormente, um dia dei-me conta de que “estava assim”, de que apreciava intensamente tudo aquilo por que tinha desejado e até algumas coisas que me foram caindo na sopa sem pré-aviso. Dei-me conta de que retirava prazer da maior parte das coisas/pessoas/animais que me rodeiam. Aprecio genuinamente cada interacção, cada observação, cada movimento rotineiro. Sinto-me em relação a quase tudo como se ainda estivesse “em viagem de nupcias”.

Com o tempo, as coisas que desejámos, pelas quais nos encantámos, lutámos e ganhámos, vão-se acumulando e vamos tendo uma panóplia de prazeres cada vez maior.
Se mantivermos a chama acesa, que nem homem pré-histórico, se apreciarmos realmente o que temos em vez de desejarmos sempre algo que não temos, se não nos tornarmos blasés em relação á nossa própria vida, esta será garantidamente muito mais gratificante. ;)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Torre de Babel

COM MÚSICA


Há dias, a seguir a um telefonema desesperante, comentei com o meu filho, à laia de desabafo:
- “Ai, Pedro, o bicho homem é tãooo complicadinho...”
- “É por causa do que tem a mais do que os outros...”
- “E o que é isso?”
- “A fala!!!”

Perguntei-me então se não terá alguma razão.
A nossa linguagem, que deveria servir para nos fazermos entender, surte frequentemente o efeito contrário.

Quando um cão nos rosna, de dentes arreganhados ou um gato põe as orelhas para trás fazendo wóóóóóóóú, captamos a mensagem com toda a clareza. O mesmo acontece se o primeiro nos vier cumprimentar a dar ao rabo ou o segundo se deitar ao nosso colo a ronronar.

Com os humanos a coisa já funciona de outra forma...
Já todos devemos ter passado pela experiência de alguém nos dizer que gosta muito de nós, ou que pelo contrário não gosta, quando toda a sua linguagem gestual, o seu olhar, as suas acções, nos sugerem o contrário.
Ou de nos afirmarem que “não se passa nada”, quando os sentimos, sem grande margem para dúvidas, preocupados, tristes, chateados, etc...
Todos conhecemos pessoas que dizem A e fazem B, que fazem afirmações ou emitem opiniões totalmente diferentes consoante o ouvinte, que ao relata-los alteram ás vezes de tal forma os acontecimentos que criam uma realidade diferente...
Etc, etc, etc...

Quando a palavra é escrita, a coisa complica ainda mais, por não vir acompanhada de tom de voz ou expressão facial. O  discurso escrito, mais ainda do que o oral, permite frequentemente variadíssimas interpretações, sem que o autor possa detectar ou esclarecer, no momento, eventuais mal entendidos.

 “A falar é que a gente não se entende”, frase que tenho ouvido tão frequentemente nos últimos tempos e me faz amarinhar pelas paredes acima... terá afinal algum fundo de verdade?!
Terei talvez de dar a mão à palmatória.

Compreendo que se controle a palavra no sentido de preservar os sentimentos alheios. Que não ponhamos cá para fora tudo o que nos passa pela cabeça, simplesmente porque temos cordas vocais e acesso a uma linguagem articulada. Entendo as “mentirinhas inocentes”, os floreados, as metaforas, a ironia, as formas de expressão, as figuras de estilo... Sou apologista da auto-sensura, do pensar antes de abrir a boca, do não falar a quente.
No entanto, na minha ideia, a palavra deveria reflectir aquilo que realmente somos, aquilo que sentimos, aquilo que pensamos, e a realidade é que, na maior parte das vezes, não o faz.

O resultado é que dizemos uma coisa e as pessoas muitas vezes ouvem outra. Atribuem segundos e terceiros sentidos ao nosso discurso, tentam ler nas entrelinhas, duvidam, questionam as nossas razões, põem palavras em boca alheia.
As pessoas não se entendem a falar porque o que dizem, muitas vezes, não é de todo o que gostariam de, ou deveriam, dizer.
A maior parte delas não faz pegas de caras, só de cernelha e dado que tendemos a ver os outros à luz do que somos, partem do princípio de que funcionem da mesma forma, transformando o mundo numa verdadeira Torre de Babel.

“Say what you mean, mean what you say”

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Mentologia

COM MÚSICA



Há relativamente poucos anos atrás, deitava os papeis dos rebuçados e as cascas das castanhas para o chão, sem sequer pensar duas vezes e tomava duches de meia hora (se a minha mãe não estivesse em casa...lol) com o maior dos prazeres. 
Hoje em dia sou incapaz de deixar torneira aberta enquanto lavo os dentes ou de deitar uma garrafa para o  lixo.

O homem deu-se conta da merda que andava a fazer à milénios, pôs travões a fundo e tenta agora salvaguardar o que resta do nosso belo planeta azul.
Para isso foi necessário que se apercebesse das consequências dos seus actos, que as interiorizasse e que começasse uma auto-educação, no sentido de preservar o seu habitat.

Da mesma forma que, ao longo da história, foi atentando contra a natureza e o meio envolvente, foi fazendo o mesmo com os seus iguais. As atrocidades que se cometeram nos tempos da escravatura, da inquisição, das conquistas, não têm qualificação possível em termos humanos.

Vivemos tempos difíceis, confusos, angustiantes, nota-se que a humanidade anda meio à toa. Não é no entanto de hoje nem de ontem que o homem se “porta mal”. Sem chegar aos extremos que mencionei acima, a realidade é que não tem sido propriamente exímio na arte das relações interpessoais. 
Perante esta evidência, em 1948 foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos do Homem.  Hoje, em pleno século XXI, grande parte dos artigos continuam diáriamente a ser ignorados. 

Referindo só alguns pontos, os menos extremos:
 “...devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade...” 
“...sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação....”
“...Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação...”
“...Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões...”
“.... A educação deve visar à plena expansão da personalidade humana e ao reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos raciais ou religiosos...”
Qualquer um de nós, olhando à sua volta, poderá facilmente apontar vários casos de violação a estas “regras”.

O pior é que somos frequentemente nós próprios a fazê-lo, sem sequer nos apercebermos. Reina a  falta de respeito, de consideração, de compreensão, de compaixão, de empatia pelo próximo, que justificamos esfarrapadamente, para apaziguar as nossas consciências. 
O comum dos mortais não comete crimes contra a humanidade, não deixa por isso de ser culpado de delitos menores, que em nada contribuem para a paz e harmonia entre seres humanos. 

Também disso nos estamos finalmente a aperceber e a agir a respeito.
A questão é que frequentemente se cai nos extremos o que, na minha humilde opinião, é contraproducente. 
Excandalizar-se com a água que gastam os leds dos telemóveis ou afirmar que as cenouras foram assassinada,s é perfeitamente ridículo. 
Também o são muitas das medidas que o homem tem inventado na esperança de consertar o estado das coisas, como o "politicamente correcto", por exemplo. 

As mudanças dão-se quando as pessoas interiorizam que certas atitudes não são saudáveis, não são benéficas. Quando percebem que, se fizerem um pequeno esforço, poderão melhorar em muito a sua relação com os outros. Quando decidem pôr em prática ideias tão básicas como  “a minha liberdade acaba onde começa a dos outros” ou “não faças aos outros o que não gostas que te façam a ti”. Quando conseguem começar ver para além do seu próprio umbigo e a funcionar em termos de comunidade, para o bem de todos.

Se cada um de nós se der ao trabalho de alterar a sua mente, de praticar a “mentologia” associada à “ecologia”, será garantidamente “um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade”... ;)

terça-feira, 17 de maio de 2011

Gostas mais do papá ou da mamã?

COM MÚSICA


Acreditem ou não, já ouvi fazer esta pergunta...

Em termos emocionais, certas pessoas parecem estar na vida como se de um concurso se tratasse, encarando o próximo como potencial concorrente.
Concurso de afectos, concurso de popularidade, consciente ou inconscientemente, alguns comparam-se constantemente com terceiros, controlando a sua própria posição numa escala imaginária.

Batalham pelo coração alheio, como se este não fosse um gigantesco órgão, de capacidade quase infinita. Não se parecem dar conta de que é possível  gostar simultaneamente de muita gente, de muitas formas. Querem à força lugar num pódio que na realidade não existe.

Estes sentimentos seriam inócuos se não passassem de macaquinhos no sótão de quem deles padece. A questão é que este espírito de rivalidade acaba invariavelmente por levar a antagonismos e animosidades. Como irracional que é, acaba frequentemente por gerar atitudes impensadas, que não trazem proveito a ninguém, inclusive aos “seres amados”.

Assim, é comum que, de uma forma mais ou menos consciente, tentem manipular estes últimos, denegrir os outros aos seus olhos, que exerçam chantagens emocionais, assumam um papel de vítimas, distorçam factos por forma a ficarem melhor na fotografia, etc... Tudo com vista a, de alguma forma, os forçar a escolher, a tomar partidos.

Que bem de tudo isto poderá advir, é o que muitas vezes me pergunto. Que prova de amor daí se retira é outra questão. Só me faz pensar na história do Rei Salomão, propondo cortar a criança ao meio. As nossas inseguranças não deveriam lesar terceiros, muito menos os que são importantes para nós.

A afectividade tem várias vertentes... amorosa, de amizade, familiar, etc. Estas não são exclusivas, não “tiram bocado” umas ás outras.
Em muitos casos, até pertencendo à mesma categoria, podem coexistir pacificamente. Uma mãe pode gostar igualmente de todos os filhos, mesmo que eventualmente  o demonstre de formas diferentes.

Assistimos no entanto a pais que se degladiam pelo amor dos filhos. A filhos que fazem o mesmo pelo dos pais. A namorados(as) que não descansam enquanto não afastam o outro dos(as) amigos(as) ou até ás vezes vice-versa. A relações amorosas que não admitem o relacionamento com alguém que tenha estado no seu papel no passado. Etc, etc, etc...
A realidade é que só ganhariam se vivessem em harmonia, se compreendessem que há lugar para todos.

Quem já assistiu ao jogo infame de dois pais em luta pelo amor de uma criança, terá noção do efeito devastador que pode ter, das sequelas que pode deixar.
Os adultos são mais resilientes, têm mais capacidade de encaixe, mais noção de que na vida nem tudo corre como gostaríamos. Não deixam por isso de ser afectados, de sofrer com estas guerras, de ver o seu mundo virar-se de pernas para o ar, de se sentir entre a espada e a parede.

Cada um de nós tem o seu papel na vida alheia. O seu papel presente, a sua função, a sua importância e estes não anulam os dos outros, reforçam-nos. As pessoas providas de inteligência emocional conseguem interiorizar isto e aliam-se em prol do bem comum, as outras fazem-se frente e dividem-se. São as que não conseguem compreender que é a união que faz a força, não o conflito.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Don Quixotes

COM MÚSICA



Como devem supor, o tipo de “conversa” que por aqui mantenho, em nada difere das que tenho ao vivo e a cores. A grande diferença está no feed-back, ganhando com o diálogo a percepção do que as pessoas pensam efectivamente de tudo isto.

Pois já não é nem a primeira nem a segunda vez que, relativamente à minha “frase estandarte” aqui em cima, comentam que é  muito bonita mas não passa de teoria
Meus amigos, este não é um blog de poesia, não o escrevo para ser bonito. Também não é um blog de ficção cientifica ou de histórias da carochinha.

Se escolhi a dita frase para o cabeçalho do blog é porque tem, de certa forma, sido a minha “bíblia” nos últimos anos. Por muito estranho que vos possa parecer, quando a descobri, interiorizei e passei a tentar pôr em prática, a minha vida mudou radicalmente.

Não, não é uma fórmula mágica que transforme a nossa passagem pela terra num mar de rosas. Não evita problemas ou desgostos, não é um escudo contra a dor, não faz milagres nem nos transforma em super homens… a sua compreensão, a interiorização do seu significado, proporciona-nos no entanto uma coisa que considero fundamental como base para que possamos ser felizes: paz de espírito.

Senão vejamos…

”… SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR…”
Relativamente a esta parte até já afirmaram, inclusivamente, não estar de acordo.
Não estar de acordo?! Mas como é que se pode não estar de acordo?
Será que acreditam que tudo se possa mudar?!
Não podemos mudar o passado, o que aconteceu, o que dissemos, o que fizemos, por muito que gostássemos que tivesse sido diferente… Não podemos mudar os outros, está exclusivamente nas suas mãos fazê-lo… Não podemos evitar a morte, alterar a orbita da terra ou decidir que não descendemos do macaco…
Volta não volta, o que não podemos mudar revolta-nos, indigna-nos, agride-nos, magoa-nos… muitas vezes não o conseguimos sequer compreender, não faz qualquer sentido para nós.
Mas, se efectivamente chegámos à conclusão de que não o podemos mudar, não será então benéfico aceita-lo com serenidade?
Aceitar não quer dizer defender, apoiar, aprovar, louvar… aceitar é simplesmente concluir que não possa ser de outra forma, que não haja nada que possamos fazer para alterar a ordem das coisas. É encolher os ombros, respirar fundo e continuar com a nossa vida. Lutar, espernear, recusarmo-nos a encarar a realidade, não irá servir de nada. Se assumirmos que não está nas nossas mãos fazer seja o que for, pelo menos não gastamos forças desnecessárias a lutar contra moinhos de vento.

”… CORAGEM PARA MUDAR AS QUE POSSO…”
A vida, no geral, requer coragem, nunca ninguém nos prometeu que iria ser fácil.
Mudar certas coisas parece-nos ás vezes uma tarefa hercúlea. Sentimo-nos frequentemente tentados a desistir, perdemos as forças, o ânimo, a motivação.
Mas como se costuma dizer, “a sorte protege os audazes” e há poucas coisas tão gratificantes como a satisfação de concluir que mudámos alguma coisa para melhor… sim, que para pior não vale a pena. ;)
Podemos mudar muito mais do que julgamos. Coisas que tomamos como dados adquiridos, podem ser alteradas. Situações estabelecidas, hábitos enraizados, traços de personalidade, tudo se pode mudar se a isso nos propusermos. Podemos transformar-nos em pessoas diferentes, o rumo das nossas vidas está muito mais nas nossas mãos do que estamos habituados a pensar.
Isto não quer dizer que seja fácil… requer esforço, perseverança, paciência, fé, tolerância para com os falhanços, insistência e, claro, coragem.

“…SABEDORIA PARA PERCEBER A DIFERENÇA…”
É aqui que costuma dar ares de sua graça o D. Quixote que habita em cada um de nós…
Pessoalmente considero esta a parte, de longe, a mais difícil de levar a cabo. A vida tem muitos tons de cinzento e nem sempre é óbvio compreender o que podemos efectivamente fazer por ela.
As coisas parecem muito mais claras se forem vistas de fora, pela observação de terceiros.
Através desta damo-nos conta do esforço inglório que certas pessoas fazem para tentar alterar coisas relativamente ás quais nada podem na realidade fazer. Assistimos a batalhas titânicas contra inimigos invencíveis. Ao cansaço de nadar contra a corrente. À frustração de não conseguir levar água ao seu moinho. Quando uma situação nos contraria de sobremaneira, a tendência, o impulso, é fazer-lhe frente, tentar dar-lhe a volta, ir à luta. Infelizmente nem sempre isso é efectivamente possível.
Observamos também, pelo contrário, quem assista de camarote, impávido e sereno, ao total descambar do seu universo. De braços cruzados, aceitando uma sorte que poderia não ser a sua, se se desse ao trabalho de reagir, de arregaçar as mangas e fazer-se à vida. Estes,  tendem a achar que pouco ou nada se pode mudar, que o destino está traçado, que temos de viver com as características com que nascemos, de arcar estoicamente com tudo o que nos aparece pela frente.
Quando se trata de nós, no entanto, as coisas são sempre muito mais confusas. Perceber onde e como é possível agir para obter resultados, não é de todo evidente.
Se formos de natureza combativa, iremos frequentemente abraçar causas perdidas. Se formos brandos e resignados, iremos ver passar muitos navios.

Não duvidem no entanto da preciosidade da sabedoria que adquirimos ao conseguir destrinçar as situações ou da paz de espírito que estas três coisas nos proporcionam. ;)


quarta-feira, 4 de maio de 2011

A lei da selva

COM MÚSICA



O país está em crise, o mundo está em crise, o bicho homem está-se a passar… de repente é a lei da selva.
Não me lembro, do alto dos meus quarenta e seis aninhos, de nenhum período tão difícil como o que agora atravessamos e suspeito seriamente que, antes de melhorar, ainda piore. O mundo está a saque, as pessoas foram atiradas para fora de pé, perderam a margem de manobra, desapareceram as zonas de conforto.

Tal como as catástrofes naturais, a crise não poupa ninguém, levando tudo à sua frente. Se é verdade que uns são mais gravemente atingidos do que outros, a realidade é que poucos escapam ilesos. Os clientes não pagam ás empresas, as empresas não pagam aos fornecedores, os fornecedores não pagam aos empregados, os empregados não pagam aos senhorios… gerando-se um círculo vicioso. Coisas que até há pouco tempo tomávamos por garantidas, deixaram de o ser.

Assiste-se à falência de empresas que por cá andavam há muitos anos, marcos da nossa sociedade (já sem falar das outras), a pessoas que perdem as casas, os empregos, os meios de subsistência.
Os “pés de meia” são delapidados, os bens vendidos ao desbarato, trabalha-se por meia dúzia de tostões, sob pena de não se trabalhar de todo.
Muita gente não faz ideia se amanhã vai conseguir pagar o empréstimo da casa, a escola dos filhos, a conta do supermercado.
Os naturais imprevistos facilmente se transformam em dramas que em muitos casos ficam sem seguimento pois não há meios de o fazer.

Tudo isto provoca angústia, ansiedade, preocupação, medo, desespero… sentimentos que geram mau viver e trazem ao de cima o pior que há em cada um de nós.
Nestas alturas muitos entram em pânico, tornando-se totalmente irracionais, chegando a agir contra os seus próprios interesses.  Perdem os escrúpulos, fazendo aos outros o que não gostavam que lhes fizessem a si. Tornam-se pessimistas, derrotistas, não conseguindo sequer conceber melhores dias.

O facto de ser um problema geral não melhora de todo os ânimos, antes pelo contrário. Não se vê luz em lado nenhum e no meio da escuridão dificilmente se encontra esperança.
A situação está sem dúvida alguma muito negra.

É no entanto preciso não esquecer que “depois da tempestade vem a bonança” e que, enquanto isso não acontecer, quer demore muito ou pouco tempo, está nas nossas mãos garantir alguma qualidade de vida.

Se, perante as adversidades, respirarmos fundo e pusermos o cérebro a funcionar, já é meio caminho andado. Entrar em pânico, julgo eu que  nunca tenha resolvido nenhum problema. Convém tentar manter a cabeça fria a cada problema que surja, analisa-lo e tentar descobrir a melhor forma de o resolver. Só a morte não tem solução.

Nestas alturas o longo prazo deixa de fazer grande sentido, ninguém sabe o que será o amanhã. Assim, ir vivendo o dia a dia, um pé à frente do outro, lidando o que se nos depara no imediato e ir resolvendo as questões uma a uma, conforme se nos vão apresentando, permite-nos manter o fôlego. Se olharmos para o todo desmoralizamos, a montanha vai-nos parecer demasiado alta, possivelmente não nos sentiremos com energia para a enfrentar.

Passar os dias a devorar e transmitir tudo quanto é notícia sobre o estado das coisas, também não me parece de todo saudável. Nestas alturas as pessoas tendem a obcecar, não conseguindo ver mais nada à frente e não tendo assim um minuto de descanso.

Um alheamento de quando em quando parece-me fundamental, gozar de momentos que não nos remetam para a situação negra que vivemos. Confraternizar com os amigos sem falar em chatices, ver um filme leve que estimule o nosso lado mais idealista, mais optimista, apreciar um dia bonito ou uma bela paisagem… enfim, continuar a gozar do que não é afectado pelo estado das coisas.

Por outro lado, se há momentos que apelam à compaixão são mesmo estes. “Ser uns para os outros” é muito mais benéfico do que “puxar a brasa á nossa sardinha”, muito mais gratificante, muito mais produtivo. Se nos ampararmos mutuamente, apoiando e ajudando no que for possível, todos ganharemos força e calor. Já dizia o povo, “unidos venceremos”. O salve-se quem poder, o cada um por si, parecem-me totalmente contraproducentes.

Ser-se positivo e optimista, o que não quer dizer alucinado e irrealista, parece-me igualmente imprescindível. Pessoalmente acredito piamente na teoria da “lei da atracção”. Acho que, estar sempre a imaginar o pior cenário possível, atrai isso mesmo. Com os pés bem assentes na terra e a noção daquilo com que estamos a lidar, acreditemos que, de uma forma ou de outra, tudo se há de resolver. Estou convicta de que essa postura ajude a que assim seja.

Finalmente, há que ter a noção de que as coisas mais importantes da vida não passam através do dinheiro e isso não mudou. O amor, a amizade, a saúde, são coisas que nada pode pagar. Aprecia-los, acarinha-los, valoriza-los, dar-lhes a devida importância, sem deixar que os problemas os ofusquem, soa-me absolutamente imprescindível para aguentar a borrasca, por um lado, e para relativizar as coisas por outro.

Let’s prepare for the worst and hope for the best. ;)