terça-feira, 30 de agosto de 2011

Quem semeia ventos, colhe tempestades...

COM MÚSICA




Quem semeia ventos, colhe tempestades.

A vida não sendo propriamente um mar de rosas, temos de contar com uma certa dose de coisas “más” ao longo do caminho, é utópico pensar que lhes podemos escapar.
Por muito cuidadosos que sejamos, algumas caem-nos em cima, vindas sabe-se lá de onde, não adiantando tentar criar uma redoma à nossa volta pois quando são para acontecer, acontecem.
Outras pelo contrário são, de uma forma ou de outra, da nossa responsabilidade, devendo-se algumas àquilo a que poderemos chamar “comportamentos de risco”.

A adolescência costuma ser o período em que somos campeões da modalidade, reinando um certo “je m’en foutisme” rebelde. De qualquer forma, seja lá quando e como for, poucos serão certamente aqueles que se podem gabar de sempre ter agido conscienciosamente e tendo em conta as potenciais consequências nefastas dos seus actos.
Quem não guiou já com um copito a mais ou não mandou uma pinocada desprotegida?!
Na esmagadora maioria das vezes, felizmente, safamos-nos com uma consciência pesada e a sensação de que fomos estupidamente inconscientes.

Há no entanto pessoas que parecem sentir uma atracção irresistível por este tipo de comportamentos, adoptando-os como modo de vida, numa de “o perigo é a minha profissão”.
Uns vivem nitidamente acima das suas possibilidades financeiras, outros envolvem-se com pessoas casadas, alguns praticam actividades perigosas sem tomarem as devidas precauções, outros conduzem numa base regular num estado perto do coma etílico, etc, etc, etc...

Os que os rodeiam bem podem tentar alerta-los, chama-los à razão, abrir-lhes os olhos para os riscos que estão a correr... que geralmente não serve para nada. Acabam inclusivamente ás vezes por, de alguma forma, compactuar com eles, aparando-lhes os golpes ou ajudando a “limpar” a porcaria que fazem.

Este tipo de postura pode perpetuar-se por anos e anos sem que nada demais aconteça, criando a ilusão de que não tem qualquer problema.
Até que um dia a coisa corre mal e alguém se “magoa” à séria...

Se há coisa importante é o factor probabilidade e, como se costuma dizer,  “tanto vai o cântaro à fonte”...
É óbvio que alguém que, num momento de loucura, mande uma cambalhota sem camisinha, terá muito menos hipóteses de engravidar, apanhar Sida ou qualquer outra doença menos simpática, do que aquele que passa a vida em one-night-stands com desconhecidos.

Outro factor de peso é a competência e empenho do anjo da guarda que paira por cima da cabeça de cada um.
Conheci uma pessoa que guiava, numa base regular, em avançado estado de embriaguez. Apesar de ter evidentemente espatifado um que outro carro, nunca aconteceu nada de grave, nunca se magoou, nem magoou ninguém. Isto durou muitos anos, não sei se continuará ainda, e o tal anjinho sempre se mostrou absolutamente incansável. Acredito no entanto que, a certo ponto, até eles se sintam tentados a desistir.

Quem vive na corda bamba parece ter muitas vezes a ilusão de que as coisas são a preto e branco, de que está conscientemente a arriscar o “tudo ou nada”.
Só para dar um exemplo, é recorrente ao falar-se com um motard sobre os perigos de andar de moto, este afirmar que não tem medo de morrer. Acontece que, em caso de acidente, muitos não morrem, não... ficam sem perninhas, sem bracinhos, tetraplégicos ou transformados em couve. Ou seja, a coisa não acaba num ponto final, em que vão desta para melhor,  mas potencialmente em muitos anos de sofrimento, para si e para os outros.

E a propósito dos outros, os comportamentos de risco não implicam geralmente exclusivamente os próprios. Ao tentar o destino, estão muitas vezes também a pôr em cheque os que os rodeiam, quer sejam família, amigos ou até mesmo perfeitos desconhecidos, que podem ser levados por arrasto.
Muitas vezes não pensam nisso, acham que só eles estão em questão e quando se dão conta de que terceiros foram lesados o peso torna-se ainda mais difícil de suportar.

Asneiras, todos fazemos, quem nunca errou que atire a primeira pedra.
A diferença entre o pontual pé na argola e a atitude recorrente é que, tanto para nós próprios como para os outros, a reacção passa do “ganda galo” para o “tava mesmo a pedi-las”... e com isso é muito mais difícil de lidar.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Presunção de culpa

COM MÚSICA



É um clássico, dos filmes de cowboys, a cena do desgraçado prestes a ser enforcado, sem direito a julgamento, por um crime que não cometeu...
Apesar de normalmente não se chegar a esse extremo, no nosso mundo é também infelizmente frequente a presunção de culpa “porque sim” e consequente acusação.

Acusa-se, directa ou indirectamente, o funcionário de preguiçar, a empregada de roubar, a criança de mentir, a cara metade de trair, o amigo de divulgar um segredo...
Para alguns, aparentemente, tudo o que parece é, sem se porem grandes questões.
Pode advir da ideia de que “onde há fumo há fogo”... mas, meus amigos, nem sempre, nem sempre.

Porque é que isto acontece?!
Porque o individuo tem perfil para cometer a infâmia, porque tem antecedentes, porque algo aconteceu que não se consegue explicar e a pessoa em questão aparenta ser o único suspeito, ás vezes simplesmente porque no seu lugar era o que faríamos.

Em qualquer dos casos, acusar sem fundamento, tá mali.
Na melhor das hipóteses gera um sentimento de injustiça, de revolta, pois ninguém gosta que lhe apontem o dedo sem razão.
Mas a coisa pode piorar, saindo o tiro pela culatra, se o outro adoptar uma atitude de “já que tenho a fama, vou ter o proveito”. Ah, pois...

Embora em alguns casos a questão não se ponha, noutros a pessoa em questão poderá na realidade ter efectivamente lutado contra a tentação de fazer exactamente aquilo de que acaba por ser acusada.
O auto-controle, resistir a certos impulsos,  conseguir que a razão leve a melhor, não fazer aquilo que queremos mas o que achamos que devemos, nem sempre é tarefa fácil. Ser recompensado com calúnia não é propriamente motivante.

Por outro lado, se se vier a provar que a coisa não aconteceu, que o “criminoso” não cometeu o acto, o delator faz uma verdadeira figura de urso.
Mas não só, será ele próprio encarado como estando de má fé, ou pior.
Assim, antes de abrir a bocarra e começar a gritar mata/esfola, convém ter a certeza de que as pedras que atiramos não irão fazer ricochete. ;)

terça-feira, 26 de julho de 2011

Palavras, leva-as o vento

COM MÚSICA




“Words are, in my not so humble opinion, our most inexhaustible source of magic, capable of both inflicting injury and remedying it.” -  Albus Dumbledore

Fonte de magia, sem duvida...
Através delas conseguimos agredir, magoar, ofender, humilhar, ridicularizar, enganar, enraivecer... mas também apaziguar, confortar, enaltecer, acalmar, louvar, gabar, seduzir. Permitem-nos proporcionar bem estar ou causar dano, gerar empatia ou aversão, abrir e fechar portas.

É também através delas que nos damos a conhecer aos outros, ao partilharmos as nossas ideias, os nossos pontos de vista, os nossos princípios, como se de um cartão de visita se tratassem. Aquilo que afirmamos, os ideais que defendemos, a forma como o exprimimos, acaba de certa forma, numa primeira abordagem, por nos definir aos seus olhos.

Ás vezes encontramos as palavras certas, outras vezes baralhamo-nos, falamos com clareza ou metemos os pés pelas mãos. Nem sempre o que nos sai da boca é o que queríamos efectivamente transmitir. Acontece também que falemos sem pensar, sem medir as consequências do que mandamos cá para fora, todos dizendo coisas de que nos arrependemos mais tarde.

No entanto, no fundo, “palavras leva-as o vento”... boas ou más, não é por elas que somos julgados, que seremos recordados, mas pelas nossas acções. O que fazemos, muito mais do que o que dizemos, faz de nós aquilo que somos. Podemos apregoar o que quisermos, que o que conta, at the end of the day, é a forma como agimos.

Amor,  amizade,  rectidão,  honestidade,  competência,  integridade, etc, são cadeiras praticas. Não basta conhecer a teoria, não basta expô-la, dissertar sobre ela, discuti-la. É na prática que a iremos demonstrar. O que pesa realmente no curriculum é o que fazemos ou deixamos de fazer. De boas intenções está o inferno cheio, de boas ideias também, é no arregaçar das mangas que está o mérito.

As declarações de intenções, as promessas, as garantias, valem o que valem... até ver. No momento da verdade é que se descobre quem é e quem parecia ser, quem está  e quem não está, quem se chegou à frente e quem ficou a assistir de camarote a mandar bitates.
Para dizer coisas, basta ter língua e cordas vocais, papel e caneta, monitor e teclado... fala-se bem, fala-se mal, fala-se certo ou errado, alto ou baixo... mas tudo o que dizemos empalidece à sombra do que fazemos lá fora, no campo de batalha da vida.

Com o passar do tempo, a memoria emocional torna-se mais fiável do que a racional.
Quantas vezes, por exemplo, já não sabemos ao certo porque nos chateámos com alguém, nos esquecemos dos detalhes do que se passou, mas mantemos uma sensação de desconforto em relação ao indivíduo em questão?!
Da mesma forma, o que conta aos olhos dos outros não é tanto no que os fizemos pensar mas como os fizemos sentir, o efeito, grande ou pequeno, bom ou mau, que causámos nas suas vidas.

É por esta razão que a difamação não resulta com quem conhece realmente outra pessoa, o seu ser para além do parecer. Porque por muito que se diga, por muito que se tente denegrir, o que se sente, o que se observa, o que se prova, no dia a dia, não deixa margem para dúvidas. As teorias provam-se pelo exemplo, não pela conversa, o poder da palavra acaba então por ser muito relativo.


"Remember, people will judge you by your actions, not your intentions. You may have a heart of gold, but so does a hard-boiled egg." 
Author Unknown






sexta-feira, 22 de julho de 2011

Faz aos outros...

COM MÚSICA



“Não faças aos outros o que não gostavas que te fizessem a ti”.
Máxima tantas vezes apregoada mas tão pouco posta em prática...
Parece que, quando lhes toca a elas, as pessoas acham sempre que “é diferente”, que é legítimo fazer aquilo que as faria a si próprias saltar dos carretos.

No Natal, época em que evito frequentar centros comerciais pois sou alérgica a multidões, tive mesmo de me sujeitar a lá ir, à “hora de ponta”, já nem me lembro porquê.
Andei mais de meia hora ás voltas, a deitar fumo pelas orelhas, à procura de lugar para o carro, quando finalmente, num corredor, vi que estavam não um mas dois prestes a sair.

À minha frente estava outro carro já com o pisca para o lugar que se ia libertar à direita. Pus o pisca para “reservar” o da esquerda e esperei.
Quando o da direita saiu, apareceu um carro desenbestado lá de trás, que num ranger de pneus, nos ultrapassou, se atravessou à frente do outro e lhe “roubou” o lugar.
A senhora não esteve com meias medidas, guinou para a esquerda e ficou com aquele de que eu estava à espera.

Pensei que não me tivesse visto. Qual não foi o meu espanto quando, depois de estacionar, me veio pedir desculpa pelo facto.
Confesso que teria ficado menos admirada se tivesse seguido directa para o Shopping.
O facto de se dar ao trabalho de se justificar, afirmando que só me tinha feito aquilo porque também lho tinham feito a ela é que me baralhou. Um reconhecimento de “culpa” sem qualquer sentimento da mesma...
Estava nitidamente furiosa com o outro tipo, mas não hesitou um segundo para seguir o seu exemplo.

Este tipo de postura é o pão nosso de cada dia e, na minha opinião, tá mali.
Não devemos ter bitolas diferentes para nós e para os outros.
Se conseguíssemos pelo menos não fazer aos outros o que não gostamos que nos façam a nós, o mundo já seria um sítio muito melhor, mais justo, mais equilibrado...

Mas eu vou um bocadinho mais longe, sugerindo que façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós. ;)
A primeira  é uma atitude passiva, a segunda requer sem dúvida algum esforço, na minha opinião grandemente recompensado.

Pensem na vossa infância, no que foi e no que gostariam que tivesse sido e proporcionem-no aos vossos filhos. Pensem nas vezes em que penaram por não vos “fazerem” alguma coisa e façam-na vocês a quem estiver na mesma situação. Pensem no que vos dá prazer, vos alivia, vos faz sentir mimados e distribuam-no à vossa volta.
Não esperem que vos peçam, adiantem-se, cheguem-se à frente. Criem uma rede de atenção e carinho, na qual se sentirão seguramente muito melhor do que se só olharem para o vosso próprio umbigo.
Dar,  seja o que fôr, tempo, atenção, apoio, ajuda, é extremamente gratificante. Estar atento aos outros e fazer o que estiver ao nosso alcance para os fazer sentir bem, por muito pequeno que seja o gesto, faz-nos sentir pessoas melhores. ;)






segunda-feira, 11 de julho de 2011

O movimento 1 Euro

COM MÚSICA



Há já bastante tempo, não sei precisar quanto mas bastante mesmo, reencaminharam-me um mail que me impressionou bastante por  duas razões.
Primeiro tocou-me o sentimento com que foi escrito. A paixão, a força, a clareza de ideias, a sinceridade, que dele emanavam.  Depois apercebi-me da genialidade e simplicidade da ideia.

Inscrevi-me  imediatamente na mailing list, para ir recebendo notícias do projecto.
Confesso no entanto, extremamente envergonhada, que não tinha grande fé de que fosse para a frente. Envergonhada, pelo simples facto de, ao não acreditar, ao não dar grande crédito, ter ido um bocado contra tudo aquilo em que acredito e passo a vida a apregoar aqui neste blog...

Eis senão quando, recebo um mail a avisar que o projecto está de pé e a funcionar.

Venho então agora tentar redimir-me, explicando-vos porque acredito, do fundo do coração, que vale a pena apostar neste projecto, aderir, divulgar, ajuda-lo a crescer mais e mais, para o infinito e mais além. ;)

Este nasceu na cabeça de um homem de 23 anos, que decidiu arregaçar as mangas e tentar efectivamente mudar o mundo.
Tenho muita pena de não poder transcrever aqui a sua mensagem inicial. Desde então troquei de computador e, como é habito nas mudanças, deitei muita coisa fora. Os primeiros mails foram-se assim, num qualquer “caixote”, onde os tinha arquivado

Ao lê-la, dei-me imediatamente conta da tarefa titânica que tinha pela frente. Razão pela qual não acreditei muito, shame on me, que uma pessoa tão nova tivesse perseverança e coragem para levar o barco a bom porto.
Não consigo sequer imaginar as portas com que levou na cara, os pesadelos burocráticos com que se deparou, a dificuldade em extruturar e pôr em prática o que não passava na altura de uma boa ideia.
E no entanto, cá está o “Movimento 1 euro”, a chamar por nós, vivinho da silva.
Só por isso, como forma de tirarmos o chapéu ao Bernardo pelas dificuldades que conseguiu ultrapassar, como recompensa pelo seu enorme esforço e trabalho, pela sua visão, já valia a pena aderirmos.

Muitos, se lhe juntaram, suponho que ao longo do caminho.
Se são leitores deste blog,  suponho (e espero) que seja por estarem em sintonia com as ideias que aqui transmito.
Ora se se derem ao trabalho de ir ler os perfis dos colaboradores da AIDHUM (confesso que não acho o nome dos mais felizes...lol) verão que todos eles transmitem, de uma forma ou de outra, (alguns mais directamente, usando inclusivamente as mesmas palavras, as mesmas citações), o mesmo que eu ando praqui a dizer há mais de duzentos posts.
Os valores do movimento: “Honestidade, Transparência, Altruísmo e Respeito por todos e cada um...”  ;)

O movimento transmite a ideia de que não é necessário um grande esforço, para fazer uma grande diferença, basta sermos muitos.
Felizmente, apesar das dificuldades do mundo actual, há muito pouca gente a quem um euro a menos por mês faça grande diferença. Mas esse euro a mais... a multiplicar por uns milhares, uns milhões, de pessoas... fazem toda a diferença para muita gente.

O “Movimento 1 euro”, simplificando a explicação, funciona da seguinte maneira:
- Quem quizer aderir inscreve-se no site e faz logo o pagamento de um ano (12€) dado que, acrescida dos custos, uma transferência bancária de 1€ seria ridícula.
- Consoante o número de associados no momento, a AIDHUM anuncia a soma disponível para a causa do mês
- As associações enviam candidaturas com causas
- Estas são colocadas online para votação
- Quando acaba a votação é anunciada a causa vencedora
- No site são apresentados os registos do apoio dado

A sua página do Facebook tem neste momento 1.201 Likes. No entanto, num post de hoje, o movimento anuncia com entusiasmo que já atingiu os 771 Associados.
Nada vos parece estranho nestes números?!
Do que estão à espera os 430 que perfazem a diferença?!
Ah, pois... é que dá muito menos trabalho clicar no botãozinho do Like do que ir ao homebanking fazer um pagamentozito de serviços, não é?!
Não vos parece que não chega?!
Que tal passar à acção?! 

Áqueles para quem toda esta conversa faz sentido, lanço então aqui um desafio...
Sejam egoístas, dêem.
Não há maior prazer do que o de dar, sem esperar nada em troca.
Divirtam-se a divulgar esta ideia, ajudar não tem de ser uma seca...
Sejam creativos, empenhem-se.
Transmitam-na, espalhem-na, expliquem-na, aos vossos amigos, aos vossos filhos, aos vossos pais.
Potenciem a rede de ajuda.
Parece que uma resposta de 6/7% numa campanha de marketing já é considerado muito bom. Pensem então que, para conseguirem que uma pessoa adira efectivamente, têm de chegar pelo menos a cerca de 15...

Aqui ficam algumas ideias para o fazerem, sem perderem mais do que alguns minutos das vossas vidas:
- Adiram à página do movimento no Facebook ( https://www.facebook.com/movimento1euro )
- Façam Share da página/site deles e sugiram aos vossos amigos que adiram
- Enviem o link do site ( http://www.aidhum.com ), com uma pequena explicação do que se trata (podem fazer copy/paste da apresentação que está no site)  por mail
- Se têm um blog escrevam sobre o assunto ou pelo menos ponham um apontamentozito / link algures
- Quando vier a calhar em conversa, falem sobre o movimento ás pessoas
- Enfim... a vossa imaginação é o limite.
- Mas sobretudo, não se esqueçam de se inscreverem vocês ;)

Depois, se acharem graça, vão cuscando a página do facebook e vendo os números a aumentar rapidamente.
Se 6% dos que lerem isto fizerem uma qualquer campanhasinha, por mais humilde que seja, aposto que é o que vai acontecer. É como a fofoca, dispara vertiginosamente... lol
Os meninos do nosso sitezinho,  bem sabem que assim é... já tiveram esse gozo... esse gostinho a vitória...
Ganhámos um telhado para a Nina, aquecemos o Natal da Miss das Castanhas, conseguimos uma cozinha do Ikea para a Paula, aconchegámos a família da Alexandra.
Se formos muitos, conseguimos fazer quase tudo, com quase nada!

Mãos à obra!!! ;)






quinta-feira, 7 de julho de 2011

Não há super-herois...

COM MÚSICA



Algumas pessoas são nítidamente fracas, têm dificuldade em lutar contra as adversidades, vão-se abaixo à mínima contrariedade, perdem o ânimo com facilidade...
Outras, pelo contrário, parecem julgar-se verdadeiros super-herois.

Mas sabem o que acontece aos super-herois, sabem?!
Mais tarde ou mais cedo, acabam por cair num caldeirão de Kyptonite e aí é que está o caldo entornado...

De onde nos vêm então os super-poderes necessários para enfrentar algumas crises?!
Na minha opinião, da união, da entre-ajuda...

O orgulho impede-nos muitas vezes de assumir que sozinhos eventualmente não chegaremos lá, que não somos auto-suficientes.
Saber pedir/aceitar/dar ajuda parece-me, no entanto, fundamental.

Acontece que, como tudo na vida, esta tem de ser bem gerida, inteligentemente, sob pena de ser pior a emenda do que o soneto. Como se costuma dizer, de boas intenções está o inferno cheio.

Todos os que têm espírito de “caregivers”, se sentem impelidos a dar uma mãozinha ao próximo, se disso tiverem oportunidade e mais ainda se se tratar de alguém de quem gostem.
Há no entanto vários cuidados a ter.

Para começar, se propusermos ajuda a alguém, é bom que tenhamos intenções e possibilidade de a levar a cabo. Há pessoas que passam a vida a oferecer-se e que, quando a ocasião se proporciona, nunca se chegam efectivamente à frente, não se dão talvez conta do dano que causam as espectativas goradas.

Outras, dispõem-se a ajudar, sem se perguntarem se o estarão a fazer da melhor maneira. Impôem as suas ideias, os seus métodos, as suas soluções, num espírito de “my way, or the highway”, recusando-se a tentar realmente compreender o outro e os seus problemas.

Há também os que entram em pânico com a aflição alheia, parecendo baratas tontas. Agem antes de pensar, disparam em todos os sentidos, não ponderam a potencial eficiência da sua ajuda. Na sua ânsia, sufocam-nos com a sua preocupação, fazem com que as questões pareçam ainda mais graves, mais complicadas, mais difíceis de resolver.

Acontece também que proponham ajuda, na maior das boas vontades, não compreendendo que o que sugerem, não só não é solução, como só vai atrapalhar. Na sua tentativa, acabam por criar um cenário ainda mais complicado do que o original, acrescentando peso à coisa em vez de a simplificar.

Alguns iludidos insistem em tentar ajudar quem não se quer ajudar a si próprio. Luta inglória e perdida à partida.

O saber pedir/aceitar ajuda, tem também muito que se lhe diga.
É natural que, ao fazê-lo, nos sintamos de certa forma fragilizados. Nesse momento, assumimos que precisamos de alguém, quando gostariamos de ser auto-suficientes.

Alguns adquirem um desagradável sentimento de “dívida” que, a meu ver, não deveria existir se a atitude do outro fôr genuina e desinteressada, se sentirmos que o faz de boa vontade, se, na situação contrária, estivessemos dispostos a fazer o mesmo por ele.

Ás vezes, alguém se apercebe da nossa situação e oferece espontaneamente ajuda. Infelizmente nem sempre temos essa sorte e temos mesmo de a pedir. Não é vergonha nenhuma, não nos torna menos “machos”, não nos rouba dignidade.

Convém, no entanto, escolher bem a quem pedimos ajuda.
Os principais candidatos sendo, obviamente, aqueles com quem partilhamos a nossa vida e mais concretamente a questão que nos atormenta.
Assim, a nossa cara metade, os filhos, os pais, os irmãos, a família em geral, os amigos, serão aqueles para quem nos tenderemos a voltar.

Precisaremos depois de ter uma noção muito nítida do que podemos pedir e a quem, daquilo com que podemos contar.
O amor, os laços de sangue, a amizade, são tudo coisas muito bonitas mas não transformam os outros naquilo que gostariamos (ou precisariamos) que fossem.

Cada um de nós tem os seus “super-poderes”, que poderão ser extremamente úteis em determinadas situações mas não servir para nada noutras.
Uns têm o dom de acalmar, outros de consolar, de racionalizar, de planear, etc...  Uns têm uma imensa destreza para dar a volta a problemas financeiros, outros parecem talhados para dar assistência a doentes e acidentados. Alguns têm uma paciência infinita para nos ouvir e outros a coragem de nos dizer aquilo que não queremos mas deveriamos ouvir nós.
Cada um tem também as suas “kryptonites” e, relativamente a determinados assuntos, o melhor mesmo é não contar com eles.

Mas, super-poderes à parte, o que me parece mesmo importante é a empatia. Ajudar-nos-ão muito melhor se tiverem efectivamente vontade de o fazer, motivação, empenho. Não podemos pedir a ninguém algo que não nos quer dar, porque se o fizer, será de má fé. E ajuda de má fé, ainda nos sai o tiro pela culatra.

Quem nos rodeia, não tem obrigatoriamente noção de que estamos necessitados de apoio. Pode-nos ás vezes parecer insensível da sua parte mas há que nos conformar que não somos o centro do universo e que os outros podem andar distraídos. E não  porque não gostam de nós, porque não se importam connosco mas simplesmente porque não se deram conta. Não devemos levar isso a peito.

Acreditem no entanto que, na maior parte das vezes, se lhes chamarmos a atenção, sem crítica, sem ressentimento, sem mágoa, irão responder muito positivamente ao nosso apelo e “contribuir para a causa” com todo o prazer.

Resumindo e concluindo, arcar com o peso da vida sozinho, é um esforço desnecessário, um desperdício de energia  e rouba-nos força, que poderia ser utilizada, pelo nosso lado, para ajudar os outros .


quarta-feira, 29 de junho de 2011

Get a grip

COM MÚSICA



Se desenhássemos um gráfico das nossas vidas, este assemelhar-se-ia a um electrocardiograma.
Há alturas em que estamos “em cima”, as coisas correm-nos bem, sentimo-nos alegres, contentes, bem dispostos, eufóricos ás vezes.
Infelizmente os “downs” fazem também parte do filme e são inevitaveis, é utópico julgar que lhes podemos escapar. Pontualmente, todos passamos por crises sérias a vários níveis.

Momentos difíceis, são isso mesmo, difíceis.
Como tal, não é evidentemente fácil encara-los, enfrenta-los, atravessa-los, ultrapassa-los... para isso sendo necessária muita coragem, muita força, muita inteligência, muita fé.

Os momentos de que falo, são aqueles que mexem profundamente com aquilo que somos, que nos fazem pôr tudo em questão, que nos viram a vida do avesso,  gerando o medo de um futuro pior.
Estes não só ameaçam a nossa felicidade como, pior ainda, a põem em questão.

Nos tempos complicados em que vivemos, todos conhecemos mais do que um caso de pessoas que estão, neste momento, ás portas do desespero.
Acontece que o desespero é extraordináriamente perigoso, é portanto imprescindível que não cedamos à tentação de entrar.

Como alguns de vocês saberão, pois já o mencionei anteriormente neste blog, aos quatorze anos fiz uma tentativa de suicídio.
Não foi uma chamada de atenção, não foi um aviso, não foi a fingir.
Não me atirei impulsivamente da janela, nem cortei os pulsos no sentido errado.
Estudei o assunto durante meses, pus detalhadamente um plano em prática e só não morri porque não estava escrito que assim seria.

Volto a falar do assunto agora, como quem saca do canudo para se candidatar a um emprego, para tentar merecer a vossa credibilidade.
Acreditem, sei muitíssimo bem o que é o desespero!
Quando se apodera de nós, só parece haver duas saídas possíveis, matarmo-nos ou deixarmo-nos morrer aos poucos. É demasiado poderoso, perdemos a capacidade de lutar, deixamos de ter o nosso destino nas mãos.

Deixem-me então partilhar convosco as conclusões a que, em trinta de dois anos de caminho, fui chegando.

Não há poços sem fundo, não há bem que nunca acabe, não há mal que sempre dure. Não há nada que não se ultrapasse, se tivermos os “cojones” de o fazer.
Aqui deixo umas quantas muletas mentais, que espero possam ajudar alguns.

Se em vez de nos encolhermos num canto, a carpir as nossas máguas, nos dermos ao trabalho de olhar para trás, conseguiremos, na maior parte das vezes, identificar várias ocasiões, em que nos sentimos tão mal ou pior e ás quais se sucederam períodos de agradável bem estar. Isto dá-nos uma noção de perspectiva sobre o assunto.

Se não o conseguirmos fazer, por esta “crise” ser pior, mais dura, mais difícil de ultrapassar do que qualquer outra por que tenhamos passado antes (há uma primeira vez para tudo), é então conveniente que façamos um esforço para nos lembrarmos dos casos semelhantes que conhecemos. Neles encontraremos certamente exemplos de pessoas que sairam victoriosas, que conseguiram salvaguardar a sua felicidade, recuperar a qualidade de vida, a paz de espirito, depois de uma experiência parecida com a nossa. É nesses que nos devemos focar.

Se, apesar de tudo, continuamos a conseguir fazer uma vida mínimamente “normal”, funcional, o caso não é tão grave assim, certo?!
Senão estaríamos a considerar atirarmo-nos da ponte...
Ora bem, isso parece provar que mantivemos algo de bom, não?! Desprezar ou mesmo repudiar os pequenos prazeres do dia a dia, entrar numa de mortificação, parece-me no mínimo masoquista.

Antes pelo contrário, acho imprescindível listarmos mentalmente tudo aquilo que ainda temos de bom nas nossas vidas. Valoriza-lo, acarinha-lo, procura-lo.
São as coisas agradáveis que nos dão ânimo para enfrentar as outras.

Se alguma coisa está mal, que não fique tudo mal... tenhamos então especial cuidado com os nossos actos, nesses momentos de fraqueza.
Não lixemos a relação com o nosso marido/mulher porque o nosso filho está no hospital. Não subvertamos a relação com os nossos filhos por causa de um divórcio complicado. Não nos atiremos para soluções totalmente impulsivas e irracionais devido a angústias financeiras. Não nos afastemos dos que são importantes para nós por causa de um desgosto de amor.

Se mantivermos intactos os nossos princípios, as nossas ideias, os nossos sentimentos, seremos muito mais coesos. Sentiremos que enfrentamos as adversidades de armadura, que estamos preparados para o que der e vier.
Se soubermos quem somos, o que somos, o que queremos, ao que estamos dispostos para o ter e aquilo de que não abdicamos de forma alguma, poderemos cair, mas muito mais fácilmente nos levantaremos.

Mesmo que não cedamos ao desespero, algumas alturas haverá em que nos sentimos efectivamente desesperados. Em que nos é difícil encontrar esperança. Em que não conseguimos descobrir qualquer solução. Em que achamos que já nada mais há que possamos fazer e tudo continua na mesma ou pior. Não conseguimos simplesmente aperceber a luzinha ao fundo do túnel.
É não ligar, não dar importância! Ignorar como quem ignora a birra de uma criança...
Há sempre momentos piores... à noite, de manhã ao acordar, quando algo ou alguém nos recorda aquilo que nos atormenta, quando as situações pioram.
É deixar passar... tudo o que sobe, desce... mas tudo o que desce também acaba eventualmente por voltar a subir.

Finalmente (esta última é só para aqueles que também acreditam, lá no amago, que assim seja), há a lei da atracção ou como lhe queiram chamar.
Imaginar o pior cenário, estar sempre a pensar nas coisas horríveis que podem acontecer, no que a situação pode ainda piorar, só serve para nos aterrorizar e atrair isso mesmo.
Pensamentos positivos, optimismo realista, boa disposição, parecem motivar “os anjos” a tomar conta de nós...  ;)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Calor humano

COM MÚSICA



Entramos, de alguma forma, em contacto com outros seres humanos numa base quase diária.
Alguns serão perfeitos desconhecidos, com quem provavelmente não voltaremos a falar na vida, outros fazem parte do nosso dia a dia, pelo meio haverá potenciais relações futuras.

Do tipo de interação que mantemos com o próximo depende toda a nossa vida, quer queiramos quer não, “nenhum homem é uma ilha”.

Um amigo de outros tempos disse-me, mais do que uma vez, que achava que eu tinha “medo de ficar sozinha”. Pela repetição se depreende que nunca consegui transmitir-lhe efectivamente a minha opinião sobre o assunto.

É verdade, adoro viver rodeada de gente, invisto imensamente nas relações humanas, ás quais me entrego de corpo e alma e sinto fascínio pelo seu estudo, não em teoria mas na prática, por observação.
Poderia sem dúvida “ter medo” de perder tudo isto, não estivesse consciente de que de nós depende conserva-lo.

As pessoas não são objectos, não são canetas ou isqueiros, que se percam... As relações constroem-se, mantêm-se e alimentam-se, cada uma na respectiva categoria a que pertencem e as pessoas só se “perdem” se desprezarem a sua manutenção.

Por que raio haveria alguém que tenha gosto e facilidade em dar-se com os outros de “ficar sozinha”?! Se naufragasse numa ilha deserta, talvez... mas “ter medo” disso parece-me um bocado descabido.

Quem brinca com o fogo queima-se, não há bela sem senão e essas coisas... É um facto que nem tudo são rosas nas relações interpessoais.

Quem não ouviu já alguém afirmar que não quer animais domésticos por já ter tido algum, de quem gostava muito, que lhe provocou grande desgosto ao morrer...
Pois com as pessoas passa-se o mesmo, depois de uma qualquer má experiência, muitos temem entregar-se, com receio de se magoarem novamente.

Quer sejam relações profundas ou superficiais, estas apelam aos nossos skills sociais, á nossa capacidade de integração e adaptação, de manter o respeito e a consideração pelo outro, exigindo-os também para nós. Dão trabalho, requerem constante esforço e empenho, capacidade de empatia, altruísmo ás vezes. 

Como tal, muitos preferem manter os outros a uma certa distância de segurança, só se abrindo realmente para um grupo restrito de eleitos.
Quase que apostava que, esses sim, têm medo de “ficar sozinhos”. ;)

Viver é um risco, a todos os níveis, milhões de coisas “más” podem acontecer e não é por nos fecharmos na nossa concha, por criarmos uma armadura à nossa volta, que as vamos conseguir evitar. Quer queiramos, quer não, de uma forma ou de outra, havemos sempre de ir apanhando umas porradas da vida. A questão é se as suportamos sozinhos ou acompanhados.

As pessoas vão entrando e saindo das nossas vidas. Umas vão ganhando importância e outras perdendo. Uns aproximam-se e outros afastam-se. Temos surpresas agradáveis e decepções. Ganhamos rapidamente confiança e intimidade com alguns enquanto que com outros vamos criando relações fortes mas mais distantes, ao longo dos tempos.

Se tirarmos genuíno prazer de tudo isto, se apreciarmos os vários tipos de relações que preenchem as nossas vidas, se as acarinharmos, se lhes atribuirmos importância, quer sejam regulares ou esporádicas, dar-nos-emos conta de que é o calor humano que nos aquece realmente.
Uma vez que descubramos isto ficaremos sem dúvida dele dependentes, mas sem medos, pois saberemos que ele está em todo o lado e que basta abrirmos os olhos para o vermos e nos dirigirmos para ele.

Podemos não ter uma clássica relação de amizade com o nosso mecânico, a menina do supermercado ou a professora do nosso filho. Podemos não os convidar para nossa casa ou participar na sua festa de anos. Mas não deixa por isso de ser amizade se houver apreço mútuo, simpatia, um contacto agradável ao longo dos tempos.
Esse sentimento, a vários níveis, com vários graus de intimidade, distribuído por várias pessoas, faz com que nunca nos sintamos efectivamente sozinhos. Podemos estar sós, “home alone”, mas não estamos sozinhos.

Eu sei que hoje estou a soar muito "Jesus Cristo"... mas é que acho que o rapaz tinha razão, “amai-vos uns aos outros” até que é uma cena baril. 
E facilita-nos tanto a vida... ;)



PS: Este post vai dedicado áquele senhor que cá veio comer a açorda no outro dia, com os meus agradecimentos pela inspiração... ;)

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Modernices

COM MÚSICA




Ao longo dos tempos os hábitos, a vida prática, as atitudes, as regras de convivência em sociedade, vão mudando. O homem vai-se moldando a novas realidades, vai-se, mal ou bem, adaptando ao mundo em que vive.  

Para alguns estas mudanças são mais difíceis de encarar do que para outros. Algumas pessoas tendem a agarrar-se com unhas e dentes ás suas “tradições”, à forma como as coisas funcionavam nas gerações anteriores, que lhes foram transmitidas pela vivência, pela educação.

Lembro-me, aquando da morte do meu pai, de uma pessoa da minha família se ter sentido indignada por eu me recusar a enviar (pelo correio) as antigamente habituais cartas de agradecimento, pelas condolências que me tinham sido dirigidas.
Não fazia no entanto para mim qualquer sentido. A todos agradeci, no momento, do fundo do coração.
A ideia de passar umas horas a escrevinhar à mão palavras em série, pareceu-me uma verdadeira perca de tempo. Tentar imaginar a reacção dos potenciais visados, ao abrirem a caixa do correio e darem de caras com um envelopezinho de borda preta, ainda me valeu uma que outra gargalhada interior.

A realidade é que algumas coisas, por razões várias, pura e simplesmente deixam de fazer sentido.
Quem é que, hoje em dia, tem tempo para passar a ferro toalhas ou lençóis de linho bordado, arear pratas, ou lavar fraldas?! Neste último caso está inclusivamente provado que, as modernas fraldas descartáveis, apesar de menos ecológicas, são muito melhores para os bebés, que têm agora os rabinhos sempre secos.
Quem é que tem casa para aqueles roupeiros fantásticos, em madeira maciça, com dois metros e meio de altura, para mesas de sala de jantar para dezoito pessoas, para lustres gigantescos?

Parece-me perfeitamente lógico que a tendência seja deixarmos cada vez mais de ter objectos físicos, a vida tende a tornar-se mais “digital”... Podemos ter toda a nossa música dentro de um iPod e os filmes num disco rígido. As coisas já não precisam de ocupar o nosso tão precioso espaço. Podem ser substituídas por formas de organização mais lógicas, mais fáceis de consultar, mais diminutas.

Por muito que pense, não consigo encontrar uma única vantagem em ter uma discoteca sob a forma de CDs, já para não falar dos vinis. Não são propriamente bonitos, ocupam espaço, têm caixas de plástico, uma pessoa vê-se grega para encontrar a musica que quer.
No que respeita aos livros, já o caso é muito diferente... São, pelo menos alguns, objectos lindíssimos, decorativos, têm um cheiro insubstituível, um manuseamento agradável, têm alma.
Há portanto que ter cuidado para não cair em extremos e não começar a descartar em excesso.

Da mesma forma, há comportamentos que também têm real valor, de que seria uma pena abrirmos mão. E no entanto, parece ser o que está a acontecer...
Tenho vindo a sentir-me cada vez mais “demodée”, para não utilizar a expressão “velha” que o meu filho não deixa, relativamente aos comportamentos humanos. Não consigo simplesmente compreende-los e, pior ainda, acho que são extremamente nocivos para a sociedade.

Não acho normal chegar-se com uma hora, hora e meia, de atraso a qualquer lado, na maior das descontrações. Não acho normal só se responder a convites se se estiver potencialmente interessado nos mesmos. Não acho normal aceita-los e baldarmo-nos á última da hora, porque afinal não nos apeteceu ir, ou porque surgiu entretanto um programa mais interessante. Não acho normal não se responder alguém que nos contacte, só porque ainda não temos uma resposta concreta a dar.

Na minha opinião, qualquer uma destas atitudes, ou outra do mesmo género, denota de uma incrível falta de consideração e respeito pelo próximo. Infelizmente, hoje em dia, parecem ser comummente aceites, como se não tivessem qualquer importância.
Quem as pratica aceita-as com a mesma ligeireza, quem contra elas se insurge fica rotulada de “careta”.

Acontece que não consigo acreditar que esta postura possa contribuir para o bem estar geral.
Qualquer uma das situações que descrevi acima, implica que alguém saia eventualmente lesado com a história... os jantares arrefecem, as pessoas não conseguem fazer planos por falta de informação, deixam-nos na dúvida sobre a recepção do “recado”, custam dinheiro umas vezes, outras simplesmente esforço.

Este esbanjamento, ou desperdiçar se preferirem, de energia, o  não considerar minimamente o outro lado, não sentir empatia pelo próximo... arrefecem terrivelmente as relações humanas. Assume-se o “estou-me nas tintas para o próximo e aceito na boa que ele se esteja nas tintas para mim”. É triste, é muito triste.

Alguns dirão, ah, que não é bem assim e tal e coiso, e que se as pessoas não se chateiam porque que não se há de fazer, e que os dias de hoje são muito preenchidos e stressantes, que não temos tempo nem para respirar, quanto mais para dar atenção a terceiros...
Pois, meus amigos, acreditem que, um dia, esta vos irá fazer falta!

Conforme me fui dando conta de que me estava a tornar um animal em vias de extinção, fui gesticulando menos, reclamando menos, com menos ímpeto.
Não posso impôr a ninguém a minha visão sobre a questão, por muito que a considere “a certa”.
Posso no entanto lutar por ela e, do alto da minha presunção, tentar “fazer ver a luz”.

As reacções são das mais variadas... desde aqueles que reconhecem uma atitude pouco simpática e se mostram genuinamente incomodados com a sua “falha”, àqueles que não conseguem sequer compreender a importância da coisa, passando pelos que dizem que sim mas que também, arranjam mil e duas justificações validíssimas, para a sua conduta e amanhã se for preciso voltam a fazer o mesmo.
Mas sabem que mais?!... Fiquem atentos e observem que, os primeiros, são aqueles com quem desenvolvemos verdadeiras relações de amizade!
E esta, hein?! ;)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Blasés

COM MÚSICA



É típico das crianças quererem muito qualquer coisa, chagarem o juízo dos progenitores até à exaustão e, quando finalmente a conseguem, dentro de um maior ou menor espaço de tempo, já não lhe darem a mínima importância.

Embora tenda a atenuar-se com a idade e, na maior parte dos casos, a tornar-se menos obvio, para muitos este padrão de comportamento mantêm-se até à idade adulta sendo, na minha humilde opinião, um dos factores que nos transformam em “António Variações”.

Quantas vezes não vibramos com a possibilidade de comprar um carro - com a escolha do mesmo - a inspecção de todas as paneleirices, os compartimentos, o movimento dos bancos, a arrumação da mala, o rádio e o computador de bordo - a condução dos primeiros trajectos - a apresentação aos amigos, “bora lá dar uma voltinha” ou “já viste que tem isto ou aquilo?!”...
Depois o tempo passa. O carro deixa de ser novidade, para ser só um meio de transporte. Descobrimos coisas que nos chateiam, nas quais não tínhamos reparado anteriormente. Vai envelhecendo, vão aparecendo outros mais modernos, com novos gadgets, menos consumo de combustível e vamos começando a gostar cada vez menos dele e a ter vontade de comprar um novo.

É difícilmente igualável a excitação de comprar casa - a pesquisa - a selecção -  a visita ás várias hipóteses e o avaliar dos prós e contras de cada uma – as terríveis decepções com algumas e o entusiasmo com outras – o destinar divisões e idealizar a colocação dos móveis - a decisão final – os passos legais e burocracias – a mudança – a decoração – a vivência num novo espaço.
Ao fim de um tempo já tudo é familiar, vai-se aquele sentimento inicial de “depaysement”  (que perdoem os que não falam francês mas fartei-me de puxar pela cabeça e não encontro a tradução do termo para português – estão perfeitamente à vontade para o considerar cagonisse da minha parte). Já conhecemos os cantos à casa, já temos tudo no sítio, já adquirimos e instalámos as últimas necessidades. Quantas vezes não deixamos de dar importância áquilo que no la fez comprar.

Quem não conhece as borboletas no estomago de quem se apaixona?! Aquela sensação de que morremos se não “tivermos” aquela pessoa – as inseguranças –  a sedução – o jogo da conquista – a victória. Os primeiros tempos em que parece que não conseguimos dar atenção a mais nada nem a mais ninguém. Os primeiros beijos (e vou ficar-me por aqui), as palavras mais ou menos melosas mas sempre ternas, a cumplicidade, o companheirismo, a saudade quando se está longe.
Ás tantas parece que já conhecemos o outro como a palma das nossas mãos. Vai perdendo a capacidade de nos surpreender. A rotina do dia a dia vai atenuando o espírito romântico. As suas histórias foram sendo repetidas até que já nos fartámos de as ouvir, já as sabemos de côr, são sempre as mesmas. O sexo acaba por sempre igual, mais coisa, menos coisa. Vai-se perdendo o mistério, a pica.

O nascimento de uma criança é sempre um verdadeiro milagre, uma montanha russa de emoções. A esperança de poder conceber - a tentativa de engravidar - a dúvida, a incerteza – os primeiros indícios, a suspeita de que possa ser “desta” – a transformação do corpo – as idas ao médico, os exames, as ecografias – o parto – os primeiros banhos – os primeiros passos – as primeiras palavras.
Depois “o bebé” transforma-se definitivamente no Asdrubalzinho, passando a ter direito à qualidade de gente, com as suas características muito próprias.  Vamos descobrindo os seus pontos fortes e os seus pontos fracos. Vamo-nos dando conta, na pele, do que implica trazer uma criança ao mundo.  Vai-nos pesando – no físico – na liberdade – na responsabilidade – na necessidade de aprender aquilo que acaba por ser um verdadeiro novo ofício.

Resumindo, acabamos por nos tornar “blasés” relativamente ás coisas que mais espectativa, empenho e prazer nos provocam na vida.

Já sofri desse sindroma.
E depois, um dia, que não sei precisar, deu-se em mim um clic e algo mudou definitivamente (espero).
Não imaginam o prazer intenso e continuado que retiro actualmente do que tenho.

O meu jipe velhinho, do alto dos seus vinte anos, dos quais já mais de quatorze nas minhas mãos, continua a encher-me as medidas. Certo que acabei por só duas vezes fazer todo o terreno com ele, o meu pai, o meu companheiro de aventuras, baldou-se e não tenho outros amiguinhos para brincar. Dá no entanto um jeitão para subir passeios e estacionar com duas rodas num plano inclinado. No verão, permite-me chegar ao estacionamento dos calões, aqueles que não têm de palmilhar quilómetros a pé, praia fora, com todo o tipo de tralha ás costas, para chegar a um sítio onde possa dispôr de um que outro metro de areia à volta da toalha. Os bancos têm amortecedores e ainda hoje aprecio a sua carícia no rabo quando passo por um buraco. No transito vejo por cima dos outros carros, tenho uma visão de horizonte que alivia o sufoco de me sentir presa.

Não se passa um dia sem que olhe para o meu minúsculo  jardim, literalmente “debaixo” da Serra de Sintra, e não me sinta uma priveligiada por aqui viver. Sempre que levo o meu filho à escola, apanhando um só semáforo pelo caminho e ladeando campos onde pastam cabras e andam cavalos à solta, penso no stress de Lisboa e suspiro de alívio. Sorrio interiormente de cada vez que abro uma gaveta que corre literalmente sobre rodas, quando fecho uma janela e praticamente deixo de ouvir os ronronares do autodromo, quando me levanto numa madrugada de inverno e vou para a casa de banho descalça, sem frio, graças ao aquecimento central.

Passada a fase da descoberta e habituação à vida conjugal, constantemente me congratulo por ter conseguido levar uma relação avante (as anteriores, coitadinhas, não deveram muito à longevidade). Admiro-me de cada vez que conseguimos ultrapassar uma crise complicada e fico contente de ver a nossa relação dela sair mais forte.  Dou por mim a observar o outro e a encara-lo com respeito, consideração, admiração crescentes conforme os episódios da vida se vão sucedendo e novas facetas vindo a lume.

De cada vez que olho para o meu filho, quando lhe vou dar um beijo antes de me deitar, o observo enquanto corre para mim na escola, me lembro de como já tinha desistido de o ter. Sinto-me abençoada. Comovo-me com a evidência da sua felicidade, alivio-me de o saber tão bem, tão saudável, com uma vida tão facilitada. Nunca páro de me surpreender, tanto com as suas parecenças connosco, algumas das quais sem origem na imitação mas num qualquer mistério genético, como com as diferenças, aquelas coisas que são só dele. A sua educação, o investimento de todo o meu ser na ajuda á formação do seu, fascina-me numa base diária.

Enfim, como disse anteriormente, um dia dei-me conta de que “estava assim”, de que apreciava intensamente tudo aquilo por que tinha desejado e até algumas coisas que me foram caindo na sopa sem pré-aviso. Dei-me conta de que retirava prazer da maior parte das coisas/pessoas/animais que me rodeiam. Aprecio genuinamente cada interacção, cada observação, cada movimento rotineiro. Sinto-me em relação a quase tudo como se ainda estivesse “em viagem de nupcias”.

Com o tempo, as coisas que desejámos, pelas quais nos encantámos, lutámos e ganhámos, vão-se acumulando e vamos tendo uma panóplia de prazeres cada vez maior.
Se mantivermos a chama acesa, que nem homem pré-histórico, se apreciarmos realmente o que temos em vez de desejarmos sempre algo que não temos, se não nos tornarmos blasés em relação á nossa própria vida, esta será garantidamente muito mais gratificante. ;)