quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A crise

COM MÚSICA



Caramba!!!
(para não dizer outra coisa...)
Não se fala de mais nada, parece uma obsessão colectiva.

Sim, os indivíduos estão em crise, o país está em crise, o mundo está em crise.
Sim, estamos a passar por momentos complicados, duros, difíceis, espinhosos.

Toda a gente se queixa, se lamenta, se indigna, se revolta contra o estado das coisas...
No facebook, post sim, post não, é sobre o tema. Na televisão e nos jornais, é a mesma coisa. Na rádio, ouvi um anúncio que afirmava ser o único a não mencionar a crise (dahaaa!). Parece hoje em dia impossível ter uma conversa sem que esta, mais tarde ou mais cedo, venha à baila. Há pessoas, inclusivamente, que já não parecem conseguir falar de outra coisa.

Parecem velhas a comparar doenças.
Mas será que acham que esta conversa monotemática geral ajuda em alguma coisa?!
Será que não conseguem compreender que só estão a complicar ainda mais a situação?!

Crises tem havido muitas, ao longo da história da humanidade. Crises económicas, políticas, de saúde pública, etc... já passámos por guerras, recessões, epidemias.
But... everything will be ok at the end, if it’s not ok, it’s not the end.
Ou, se preferirem na lingua de Camões: não há bem que sempre dure, não há mal que nunca acabe.

Não estou de forma alguma a menosprezar as dificuldades que se fazem sentir neste momento, a terrível e assustadora luta  que tem sido para alguns (eu que o diga) manter a cabeça fora d’água. Não estou a tentar minimizar os dramas que se vivem por esse mundo fora.
Mas, minha gente, acham mesmo que é por nos lamuriarmos que as coisas vão melhorar?

Reina o pessimismo, o derrotismo, o desalento. O ambiente fica pesado, oprimente, sufocante. Seja para onde fôr que nos viremos não vemos outra coisa à frente. Em vez de nos puxarmos uns aos outros para cima, empurramo-nos ainda mais para baixo.

Será que ninguém consegue já ver o que tem de bom na vida? Será que “um mau bocado”, por muito longo que esteja a ser, apaga tudo o que temos de positivo?
Bolas, o que é feito da amizade, do amor, da saúde... perderam a importãncia?
Se as coisas estão duras, mais razão me parece haver para nos agarrarmos, com unhas e dentes, ao que realmente importa. Se os tempos estão difíceis de suportar, é acarinhar o que temos de agradável. Será que absolutamente tudo desapareceu de repente?
Consigo imaginar casos extremos em que isso tenha efectivamente acontecido mas não será certamente o caso para a maioria de nós...

Imaginem uma criança que esteja a enfrentar uma fase difícil da sua vida, uma mudança de escola, o nascimento de um irmão, o divórcio dos pais, naquelas idades em que tudo é “um drama”. Imaginem o efeito devastador que teria estar constantemente a ser relembrada disso, constantemente a ser violentada pela confrontação com as dificuldades que irá enfrentar. Qualquer adulto, no seu perfeito juízo, tentará minimizar a situação, pôr “paninhos quentes”, distraí-la, dar-lhe força para enfrentar a situação.
Porque não fazemos então isso uns com os outros?

Quem já passou por períodos de dôr física, ter-se-há dado conta de que a distracção é, por vezes, um bom analgésico. Apesar da dôr continuar lá, parece incomodar menos.
O que se está a passar neste momento é um “foquem-se na dôr, não pensem em mais nada”, estamos a agudizar o problema.

Temos de apertar o cinto?! Apertemos o cinto. Respiremos fundo e façamo-nos à vida, com coragem e boa disposição. Não abramos voluntariamente a porta ao desespero e à depressão. Passemos uma mensagem positiva, de esperança no futuro, em vez de ceder ás dificuldades do momento.

Acima das núvens, o céu está azul e o sol brilha. 
Chega de má onda!!!
Não nos deixemos desmoralizar pelo inverno. ;)




PS: Criei o "Sopa de Ideias II" (Link por baixo do cabeçalho), para tentar transmitir mais regularmente "boa onda"... enjoy. ;)







terça-feira, 18 de outubro de 2011

Em defesa do Facebook...

COM MÚSICA



... em particular e das redes sociais em geral.

No domingo passado, tive cá uma prima a lanchar...três dias antes, nem sequer sabia da sua existência.
O irmão, devido ao nosso apelido comum, tinha-me feito um “pedido de amizade” no Facebook. Comentei o facto com outro primo meu, que me disse que ele tinha uma irmã que era minha vizinha. Pedi-lhe então eu amizade e, tendo-se mostrado tão entusiasmada com a ideia de nos virmos a conhecer, convidei-a a aparecer.

Apesar de ter vagamente conhecido, em miúda, o tal primo que me elucidou sobre os outros dois, a verdade é que não tivemos qualquer contacto, até nos reencontrarmos no Facebook. 
Sinto hoje em dia com ele uma empatia que não sinto com qualquer um.
Dado que vive do outro lado do atlântico, ainda não tivemos oportunidade de nos encontramos mas vamo-nos assim mantendo em contacto regularmente...

Pela mesma via reencontrei uma vizinha dos tempos em que vivi em França, de quem nada sabia há mais de trinta e cinco anos. Reatei conversa com o meu primeiro namorado. Fui descoberta por uma menina que andou comigo na primeira classe. Já sem falar em todos os ex-Liceu Francês que reapareceram ou apareceram na minha vida, graças ás ditas redes.

Há muita gente que, não só se recusa a aderir, como parece sentir por elas uma certa repulsa.
As redes sociais, como o seu nome indica, são ferramentas que nos permitem sociabilizar.
Se as pessoas em questão fossem bichos do mato, candidatos a eremitas, eu ainda conseguiria compreender. Não é no entanto geralmente o caso.

Denotam ás vezes de um certo receio, um sentimento de insegurança relativamente a elas. Acusam-nas de ser antros de bisbilhotice e mexericos.  Afirmam não ter tempo “para essas coisas”.

Acontece que, tal como acima referi, estas são simplesmente mais uma ferramenta de comunicação posta ao nosso dispor.
Tal como com qualquer ferramenta, convém sem dúvida aprender a utiliza-la. Convém estar cientes  dos eventuais perigos para podermos evita-los. Mas isto é tão válido para o Facebook como para uma rebarbadora.

Não há dúvidas que, se para lá pespegar-mos com todo o tipo de informações e fotos pessoais, nos arriscamos a surpresas desagradáveis.
O mesmo poderá acontecer se gritarmos aos sete ventos o código do nosso cartão multibanco... ;)

Ai que é invasivo, ai que não tenho pachorra para certas pessoas, ai que não quero que alguns leiam o que escrevo, vejam o que lá ponho... afirmam alguns.
É, mais uma vez, uma questão de domínio da ferramenta. Aquilo está tão bem feito que quase tudo é possível, limitar o que os outros podem ver, bloquear algumas coisas a algumas pessoas, etc... convém sem dúvida tirar a carta antes de comprar carro.
Por outro lado, ninguém nos obriga a aceitar ou manter “amizades” que não queremos ter, da mesma forma que só abrimos a porta de nossa casa a quem quisermos.

O senso comum é também, evidentemente, uma característica a não menosprezar e convém ter em conta que, ao postar, nos estamos a dirigir a uma plateia alargada. Impõe-se portanto, sem dúvida, uma certa auto-censura, tendo em conta que nem todos poderão encarar da melhor forma as nossas opiniões ou detalhes das nossas vidas.
Por outro lado, pessoas que se metem onde não são chamadas, que emitem opiniões que ninguém pediu, que são dadas a peixeiradas, etc... sempre houve e sempre há de haver, infelizmente. Não é no entanto um exclusivo da internet.

Outra ideia, na minha opinião errada, é que a vida passe a ser uma coisa virtual, como se o facto de se inscreverem lhes limitasse os relacionamentos ao vivo e a cores.
Se não tenho grandes dúvidas de que haja pessoas para quem isso seja verdade, não é no entanto de todo obrigatório que assim seja. Antes pelo contrário, acho que potencialmente as proporciona devido à facilidade de contacto.

Esta ferramenta de comunicação (e divulgação, pois até para actividades várias e/ou negócios é extremamente útil) vem finalmente, a meu ver, de certa forma combater um dos grandes males dos nossos dias: a falta de tempo.
O Facebook e afins são um veículo para “irmos sabendo” de gente que, de uma forma ou de outra, é importante para nós.
De certa maneira são como as antigas idas ao café, onde se punha a par das novidades, se davam dois dedos de conversa, se combinavam encontros, se conheciam pessoas.
Hoje, podemos fazê-lo sem nos deslocarmos e relativamente a muito mais gente.

Será que quando apareceu o telefone também houve assim tanta resistência?! lol

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Assuntos em ordem

COM MÚSICA


A morte do Steve Jobs mexeu mais comigo do que alguma vez poderia ter imaginado...
Poderá talvez dever-se ao facto de ter acontecido numa altura do mês em que estou sempre especialmente sensível ou simplesmente á descoberta, instigada pela curiosidade, do grande homem que aparenta ter sido, em mais do que um sentido.
Bem, o certo é que, entre outras coisas, me pôs a pensar sobre o assunto.

Há quem se sinta desconfortável com o tema da morte. Quem não goste de falar ou sequer de pensar nela. Há pessoas a quem a simples noção angustia e gera ansiedade, tal como a mim o faz a de infinito (um dia conto-vos).
O pior de tudo parece ser encarar a própria. Se alguns conseguem enfrentar a dos outros com uma certa coragem, a ideia da sua é-lhes intolerável.

A mim, esse medo é uma cena que não me assiste. lol
Desde que me lembro, sempre encarei a morte como a coisa mais natural da vida.
Talvez por isso tenha tido aquela ”ideia de génio” aos quatorze anos... simplesmente não tinha medo.

Não digo de forma alguma que, se amanhã me anunciassem que tinha X tempo de vida, fosse ficar descontraída, feliz e contente. 
Deve ser absolutamente aterrador e não invejo quem já teve de passar por isso.
Quero aliás deixar aqui um grande beijinho a alguns, que sei que me leem de vez em quando, e que já passaram pela experiência de lhes ser dada uma notícia do género.

O que quero dizer é que, para mim, tendo perfeita consciência de que é uma coisa inevitável, aceito-a com a mesma naturalidade com que aceito o meu nascimento. Não lhe resisto. Basicamente, todos lá iremos parar (em sentido próprio).

Em grande parte graças ao amigo Steve, consegui então, de certa forma, racionalizar e compreender tudo isto... tive uma epifania na parte do discurso em Stanford em que ele relata que o médico o aconselhou a “pôr os assuntos em ordem”.
Pus-me a pensar no que faria se me dissessem isso... pensei... pensei... e  nada me ocorreu que precisasse de ser posto em ordem. lol

Deu-se então a tal epifania... eu tenho mantenho sempre tudo "em ordem"!!!
Isto não quer dizer que já tenha dito tudo o que tinha a dizer, feito tudo o que tinha a fazer, dado tudo o que tenho a dar. 
Não quer dizer que esteja pronta a entregar a alma ao criador. 
Não quer dizer que não tenha muita coisa por resolver, muitos assuntos para tratar.
Seriam no entanto exactamente os mesmos, se me lessem uma sentença de morte.

Julgo que não faria nada diferente.
Não tenho nada por resolver que pudesse já ter resolvido ou resolver agora, de repente, só porque tinha uma deadline.
Dou constantemente a entender àqueles de quem gosto, por actos, por palavras, como as valorizo, como as aprecio, como são importantes para mim. 
Gozo da sua companhia sempre que é possível e oportuno.
Logo que dou por um erro da minha parte, uma atitude que assuma como menos correcta, uma injustiça que tenha cometido, tento retratar-me, peço desculpa.
Não há nada que gostasse de dizer a alguém que não tenha já dito.
Não me arrependo de nada que alguma vez tenha feito e ainda pudesse de alguma forma corrigir.
Não acho que conseguisse transmitir, nuns meses, nuns anos, tudo aquilo que gostaria de transmitir numa vida aos que me rodeiam. Não dá para “compactar”... a vida é para ser vivida e partilhada, não resumida.
Também não me parece que pudesse dar-me melhor a conhecer, “para mais tarde recordarem”. What you see, is what you get, tem sido o meu lema. Tenho também largado muito lastro por aí, como aliás qualquer um de nós. As nossas pegadas ficam.
Não há nada que gostasse de fazer, nenhum sítio onde gostasse de ir e tivesse oportunidade/pudesse/quisesse/conseguisse agora,  lá porque “as condições de vida” tinham passado de vitalícias para contrato a prazo.
Finalmente, não acredito em “últimas vontades”, tenho experiência suficiente do que lhes acontece. Que o diga a minha pobre avó, que jaz ao lado da sogra que não gramava, quando sempre gritou  aos quatro ventos que queria ir “para a terra”.

A brilhante conclusão a que cheguei então, foi a de que para que a morte não nos assuste, dado que é tão inevitável como encher os pulmões de ar quando nascemos,  ajuda muito vivermos com as coisas permanentemente em dia. 
Meus amigos, não se assustem, nem levem isto no mau sentido, mas... ponham os vossos assuntos em ordem! ;)


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

So long, Steve Jobs

COM MÚSICA


Hoje acordei com a notícia da morte do Steve Jobs...
De início não senti assim um grande impacto.
No entanto, ao longo da manhã, fui dando por mim a ficar cada vez mais triste.

Os famosos, tal como as pessoas (lol), morrem, e quando morrem, sabe-se.
Vimos partir este ano o Andy Whitfield, o Peter Falk, a Elisabeth Taylor, o Leslie Nilson, a Amy Winehouse... uns mais novos, outros mais velhos, algumas mortes anúnciadas, outras nem por isso. Não é de qualquer forma nunca uma notícia agradável.

Algumas mortes de famosos mexeram de certa forma comigo... a da Amália, do Sinatra, do Paul Newman, do Picasso e  mais uma que outra que não me vem agora à cabeça.
Hoje dei-me conta de que na sua grande maioria eram "monstros sagrados" do espectáculo e das artes, que admiramos essencialmente pela sua carreira.

Ao longo do dia o Facebook foi-se enchendo de posts sobre o Steve Jobs,  mais do que alguma vez me lembro de ver sobre outro que nos tenha deixado.
Perguntei-me porquê, porque parecia estar a afectar tanta gente?!

A resposta imediata à pergunta é fácil, ele simplesmente mudou as vidas de muitos de nós.
Pessoalmente, "só" tenho um iPhone e um iPod... mas já não consigo imaginar a minha vida sem eles...
Há os que desdenham a Apple (será que querem comprar?! hehe) e os que a amam. Chamem-lhes  cagões ou o que quiserem, mas quando se veste a camisola da "maçãzinha roída" (como lhe chamava o meu pai) ela cola-se-nos ao corpo.

Acredito no entanto que o legado de Steve Jobs tenha ido muito para além disso.
Em praticamente todos os posts, comentários e notícias com que me deparei hoje, apesar de obviamente se referir a sua ligação com a Apple, o que mais saltava à vista eram as suas palavras.
Palavras essas que não tinham nada a ver com tecnologia, mas com a própria vida. Palavras sábias, repetidas vezes sem conta por todo o lado.

Steve Jobs não nos deixou só uns gadgets de design deslumbrante e funcionamento impecável... deixou-nos uma mensagem.

How to live before you die



Think different


Não se esqueçam de mandar calar o Bob, antes de fazerem play... ;)


terça-feira, 27 de setembro de 2011

O efeito boomerang

COM MÚSICA



As relações humanas são como um grande feira de trocas...  trocamos olhares, sorrisos, palavras, palavras por sorrisos, sorrisos por olhares.
Até que ás tantas, neste mercado dos relacionamentos, acabamos por ter um rating, umas estrelas, tal como os vendedores do Ebay.

Aqui ouve-se um estridente barulho de agulha a arranhar o disco vinil...
Vá, vá, confessem lá que, quando comecei a falar em mercados, imaginaram uma qualquer cena bucólica... cambada de românticos. lol

O  elevado número de estrelas de um “comerciante”, atribuídas pelos próprios “clientes”, inspirar-nos-á confiança na transacção. 
Assim se vai criando, aos poucos, uma reputação, um bom ou mau nome, que se cola ao individuo, através da experiência dos outros.

Nas relações, passa-se a mesma coisa.
Se respondermos a um sorriso com um olhar carrancudo, a pessoa em questão sentir-se-á compreensivelmente lesada com a troca. Provavelmente, da próxima vez que a encontrarmos, será a primeira a oferecer a cara feia no negócio.

Ou seja, nós recebemos aquilo que damos.
Se oferecermos “produtos” de baixa qualidade, ou mesmo estragados, poderemos "enganar alguns por muito tempo, todos por algum tempo, mas não podemos enganar todos para sempre".
Se pelo contrário oferecermos coisas que façam feliz quem as recebeu, a tendência será, não só de receber de volta coisinhas boas e agradáveis, como de também ganhar boa reputação.

Todos gostamos de ser acarinhados, mimados, apreciados,  valorizados. Não interessa se pela nossa cara metade ou pela menina do supermercado.
Uma vida feita de atritos, conflitos, agressões, confrontos, não interessa a ninguém.
Só de nós depende que assim não seja.

A probabilidade da vida nos correr mal, se efectivamente formos “comerciantes” honestos e oferecermos produtos atractivos e de boa qualidade, é muito fraca.
As pessoas à nossa volta tenderão a pagar-nos na mesma moeda.
Se tivermos mau carácter e não inspirarmos confiança, ninguém quererá fazer negócio connosco.
Podemos também ser Xicos Espertos, tentar vender gato por lebre. No entanto, mais tarde ou mais cedo, a “verdade vem ao de cima” e não conseguimos manter o papel.

Sejam simpáticos. Sorriam, sorriam a quem conhecem e a quem não conhecem. Digam bom dia, boa tarde, boa noite, se faz favor e muito obrigado. Riam, digam piadas, sejam bem dispostos. Façam surpresas agradáveis, ofereçam prendas, oiçam, falem. Compreendam e serão compreendidos, Sejam tolerantes e aceitar-vos-ão os vossos defeitos. Ajudem e serão ajudados, apoiem, serão apoiados.

Enfim... you got the picture...
O ambiente humano que nos rodeia, depende de nós e só de nós, do que temos para oferecer.
Se oferecermos merda, não esperemos rosas em troca. ;)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

De bestial a besta

COM MÚSICA



Era bom que todos os seres humanos conseguissem viver em paz e harmonia uns com os outros. Infelizmente, por mil e duas razões, esta não é uma realidade no nosso mundo.
As pessoas desentendem-se, chateiam-se, zangam-se, desiludem-se...
Quanto mais alto tiver sido colocado aos nossos olhos aquele com quem nos incompatibilizamos, maior será obviamente a queda.
Qualquer rotura provoca dor, mágoa, ressentimento...

Tenho vindo a reparar, não só por observação dos que me rodeiam, como inclusivamente por auto-análise que, nessas situações, temos tendência a tornar-nos extremistas.
A imagem do outro vai-se rapidamente denegrindo aos nossos olhos, assomando-se-nos o seu lado menos agradativo. Vamos-lhe progressivamente retirando valor... até que um dia damos por nós a considera-lo uma perfeita besta.

Não tenho conhecimentos de psicologia que me permitam fazer interpretações sobre a razão de ser deste fenómeno. Arrisco-me talvez a sugerir que possa ter alguma coisa a ver com o instinto de auto-protecção, com o facto de serem mais fáceis de suportar os sentimentos nefastos que a situação envolve, se o outro fôr efectivamente uma cavalgadura. 
Não sei...

Salta no entanto à vista que dar redea solta a este impulso, aparentemente natural no bicho homem é, por razões várias, muito indesejável, tornando-se imprescindível controla-lo.
Senão vejamos...

Se com a pessoa em questão nos relacionámos anteriormente com algum prazer, por alguma razão há de ter sido.
Podem entretanto ter acontecido variadíssimas coisas que tenham gerado sentimentos negativos e até se podem inclusivamente ter descoberto facetas que não se suspeitavam, mas algo de positivo há de ter.
Parece-me importante que o consigamos continuar a ver.

Notem que não estou de todo a sugerir que viremos Madres Teresas... parecem-me perfeitamente legítimos sentimentos de raiva, de traição, de injustiça, de revolta, de desilusão, de desprezo, etc, relativamente a certas situações.
São aliás, na minha opinião, tão importantes nas nossas vidas como os outros, os que nos dão prazer. Mas isto é conversa para outro post...
Parece-me simplesmente fundamental que, em qualquer processo, mantenhamos a capacidade de ver a cores.

Se não o fizermos, isso irá afectar o nosso passado (*), presente e futuro...

PASSADO:
Se encararmos o outro, no presente, como sendo uma perfeita besta, isso irá reflectir-se na nossa noção de passado.
Chuta-lo do pedestal para a sarjeta, sem passar pela casa partida e sem receber os dois contos, começa por não abonar grande coisa a favor do nosso discernimento.

Por outro lado, de repente passamos a atribuir-lhe atitudes, posturas, pensamentos e intenções com retro-activos, que possivelmente não existiram. 
Vamos aos poucos apagando da mente os bons momentos, até só quase restarem os desagradáveis. Interiorizamos o que significou para nós, à luz da forma como o vemos hoje, o passado perdendo qualquer peso.

Assim, passamos a encarar um caso de amor como um erro crasso, uma proposta de emprego como uma oferta envenenada, uma amizade como uma ilusão.
Há coisas que acabam e ás vezes, infelizmente, acabam mal.
Não devemos no entanto deixar que o fel do presente envenene a memória do passado.

PRESENTE:
Encarar o outro como se fosse o pai de todos os males, também não traz bem nenhum ao presente, pois deixamos de conseguir ver com clareza.

É um clássico, por exemplo, atribuirmos todos os “males” à persona non grata, isentando à partida quem a rodeia.
Ora se alguém tomar o seu partido, se assinar por baixo das suas ideias, se subscrever a sua postura, se apoiar a sua atitude, não será uma falta de consideração pelo mesmo, partir do princípio que está, de alguma forma, a ser manipulado? Não será uma visão demasiado simplista?! Onde colocar então o livre arbítrio?

Outra coisa recorrente é a mania da perseguição. O outro pode não estar nem aí mas, como é mau como as cobras, uiiiii, o mais certo é que tudo o que faça seja para lixar alguém em geral e provavelmente nós, em particular.
É a visão que os filmes nos dão do “mau da fita”, das Glenn Closes, que se imiscuem nas nossas vidas.  
No mundo real, há muito menos gente a congeminar para f... o próximo do que possa parecer. Não é, que não possa acontecer, mas a maior parte das coisas, na realidade, acontece por acaso e não por premeditação.

FUTURO:
Ás vezes temos a sorte de nos incompatibilizarmos com pessoas que podemos descartar das nossas vidas. Pomos um ponto final, damos um passo em frente e seguimos caminhos separados.
Infelizmente nem sempre é assim. A pessoa em questão pode, por exemplo, trabalhar no mesmo sítio que nós ou, pior ainda, ser o/a pai/mãe dos nossos filhos.

Se não conseguirmos ver neles nada de positivo, como irão ser as relações que obrigatoriamente iremos continuar a ter? O que iremos transmitir ás pessoas que convivem com ambos? Que ambiente iremos gerar, se reinar a desconfiança, a falta de crédito, a constante presunção de más intenções? 
Ninguém é completamente bom, nem completamente mau. É importante que consigamos ver alguma coisa em cada prato da balança.
Senão, citando o Capitão Blight (private joke, sorry) "a nossa vida é um inferno".

Concluindo, o outro, seja lá ele quem fôr, mesmo que a nossos olhos se tenha portado mal, mesmo que tenhamos descoberto a seu respeito traços de carácter que não se coadunam connosco, mesmo que nos tenha de alguma forma magoado, merece o benefício da dúvida.
Talvez não o mereça por ele, mas merece-o garantidamente por nós, pela nossa paz de espírito. ;)



(*) O post de hoje era para ter sido escrito na semana passada, mas esta história do passado pareceu-me demasiado “grande” para caber dentro de outro post. Decidi assim escrever o outro primeiro. ;)



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

O passado é um filme que se vai alterando com o tempo

COM MÚSICA


Temos tendência a encarar o passado como sendo uma coisa estática, imutável, uma sequência de  factos consumados.
Cada vez mais me convenço de que não é bem assim...

A noção que temos de passado é sem dúvida composta pelo que vivemos, o que foi feito, o que foi dito, o que aconteceu... está no entanto também estreitamente ligada ao que vamos assimilando ao longo da vida e àquilo que somos no presente.
A percepção do passado, individual ou colectivo, passa pelo conhecimento que vamos adquirindo com  o tempo, o evoluir da nossa personalidade, as alterações emocionais por que vamos passando.
Em suma, o nosso passado, memória factual mas também emocional, acaba por ser uma coisa muito subjectiva e diferente consoante os estádios da nossa vida, dado que uma afecta a outra.

Jack Nicholson descobriu, já quase com quarenta anos, que aquela que julgava ser sua mãe era na realidade sua avó e que a sua mãe era aquela que julgava ser a sua irmã.
Um Jack de trinta anos recordaria o seu passado como “a minha mãe isto, a minha irmã aquilo”. O Jack actual atribuirá outros nomes ás caras e aos papeis que encarnaram na sua vida. De repente o passado mudou...

Uma das minhas irmãs nasceu no dia 10 de Maio de 1968. Até certo ponto da sua vida, a sua data de nascimento não passava de um dia no calendário, importante para si e para os que lhe eram chegados...
A partir do momento em que tomou conhecimento da questão da revolta estudantil, esta passou a fazer parte integrante do seu passado, quanto mais não fosse pela coincidência.

Eu e ela partilhamos o mesmo pai, a mesma mãe, a mesma infância.
No entanto, ao partilharmos memórias, há coisas de que, uma ou outra, pura e simplesmente não se lembra. Teoricamente estaríamos as duas presentes mas, por alguma razão, para uma de nós foi simplesmente apagado da memória, não existe, não faz aparentemente parte do nosso passado, dado que não nos lembramos.

Da mesma forma, todos teremos certamente conhecimento de actos totalmente repudiados por quem os praticou. E não estou a falar em mentiras ou encobrimentos mas em acções que foram totalmente apagadas da mente de quem as cometeu e para elas são genuinamente como se nunca tivessem acontecido.

A psicanálise vai muitas vezes repescar memórias desvanecidas, de actos cometidos ou sofridos, que passam de um momento para o outro a fazer parte integrante daquilo que somos, daquilo que fomos.

Até no que diz respeito à história universal as opiniões divergem, coabitam várias versões e interpretações do passado.
Ao fazer uma pequena pesquisa para escrever este post, dei de caras com este site. Quem o escreveu (a menos que eu tenha feito uma interpretação completamente errónea do mesmo) não acredita no holocausto nazi. Se alguém que o leia se deixar convencer pelos seus argumentos, estará a criar um passado diferente daquele em que acreditava.

Resumindo, o passado está constantemente a ser reescrito pois não é uma simples acumulação de factos mas também as sua compreensão e interiorização. Acrescentamos ou anulamos dados, encaramo-los com diferentes olhos,  julgamo-los pelo que somos no presente.
Assim, se somos resultado da nossa experiência de vida, a forma como a encaramos acaba por moldar não só aquilo que somos mas também aquilo que fomos.

"Quando se gosta da vida, gosta-se do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana." 
Marguerite Yourcenar

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Abaixo da linha d'água...

COM MÚSICA


Os nossos bem estar, paz de espírito, serenidade, estão dependentes do estado em que se encontram os vários campos das nossas vidas... Grosso modo, a vida afectiva (relações amorosas, familiares, de amizade, etc...), a saúde (nossa e daqueles que são importantes para nós) e as finanças.

Poderíamos fazer a comparação com as linhas de um electrocardiograma. Ás vezes estamos nos píncaros, exultando de felicidade, outras vezes, como vulgarmente costumamos dizer, estamos na merda.
 Á linha horizontal da “média”, gosto de chamar “linha d' água”,   abaixo da qual não nos sentimos decididamente bem.

Normalmente os dias decorrem entre pequenas flutuações, não indo nem muito abaixo, nem muito acima. A frequência de grandes picos, quer num sentido quer noutro, já denotando de uma certa “anormalidade” nas nossas vidas. Se fôr nos dois sentidos podendo inclusivamente ser sintoma de bipolaridade.

Acontece no entanto que passemos por fases, mais ou menos prolongadas, podendo chegar a durar anos, em que o "normal", em determinado campo, é estarmos abaixo da linha d’água.
Dado que o homem não tem guelras, é chato. 
Gera uma sensação de opressão, de angústia, de falta de ar, com as quais é extremamente difícil de conviver.

Quem, em criança, teve um padrasto/madrasta menos simpático sabe bem do que estou a falar, quem já passou por um desgosto de amor, por uma doença prolongada, por uma situação financeira difícil...
Por muito que os outros campos das nossas vidas possam estar saudáveis e equilibrados, basta uma das linhas desregular, para afectar o nosso estado de espírito.
Quando a situação se prolonga, sentimos as forças a esvairem-se, falta-nos energia, todo o nosso ser enfraquece. Sendo nós “vasos comunicantes”,  tudo o resto acaba, mais tarde ou mais cedo, por ser afectado.

Não sendo muitas vezes possível escapar a este estado das coisas, há que enfrenta-las de forma a que não nos arrastem irremediavelmente para o fundo.

A primeira atitude a ter é tão óbvia que quase não precisaria de a mencionar: lutar. 
Lutar, com todas as nossas forças, por todos os meios ao nosso alcance, para tentar remediar a situação.
Mas ás vezes não é suficiente, não resolve, não trata, não cura, ou não há simplesmente nada que possamos efectivamente fazer. 
Há que aprender a lidar com a falta de ar até que passe.

Uma coisa extremamente importante é fazer um real esforço, não só para reconhecer, como para não contaminar o que ainda temos de bom. 
Sim, porque raramente TUDO está mal, certo?!
Citando um conhecido exemplo popular; “casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão...”
Se uma situação nos preocupa, nos atormenta, nos pesa... tratemos de não procurar mais lenha para nos queimarmos. Antes pelo contrário, acarinhemos as que nos são agradáveis, invistamos nelas em vez de as desleixar, atribuamos-lhes o valor que têm em vez de as desprezar.

Adoptar uma atitude de “coitadinhos” é terrivelmente desmoralizante. Enfrentemos a crise, seja ela qual fôr, de cabeça erguida, sem self-pitty. Assumamos que a vida é mesmo assim, como os interruptores, umas vezes para cima e outras vezes para baixo. Lá porque andamos rasteirinhos não quer dizer que não olhemos para o céu.  Ninguém gosta de “loosers”, ninguém os admira, ninguém os respeita. 
Na merda tudo bem, mas com dignidade.

Fraquejar, volta não volta, não é no entanto vergonha nenhuma, não somos super-herois. Chorar, gritar, ajudam ás vezes a aliviar a tensão. Desabafar, serve para pôr os pensamentos em ordem. Ouvir os outros pode trazer novos pontos de vista. Fechar-mo-nos numa concha, quando a vida nos corre mal, é na minha opinião um erro a evitar a todo o custo, a solidão mata.

Um pequeno truque que aprendi, foi a dar grandes golfadas de ar, a encher bem os pulmões, sempre que vimos à tona.
Mesmo nas situações mais complicadas, há sempre, volta não volta, uma luzinha que se acende na escuridão. Momentos em que a dôr, por alguma razão,  alivia o seu jugo, proporcionando algum alívio. É aproveita-los, goza-los, tirar a barriga de misérias, nem que seja por uns minutos, pois são a prova de que melhores tempos são possíveis.

Mas, para além de tudo isto, o que me parece realmente importante, é nunca duvidarmos de que acima das nuvens o céu está azul e o sol brilha e não desistirmos de os voltar a ver. ;)