quinta-feira, 29 de março de 2012

Saber ajudar

COM MÚSICA



Todos nós, volta não volta, precisamos de ajuda.
Não é no entanto qualquer um que consegue, efectivamente, ajudar e uma ajuda “mal dada” pode inclusivamente tornar-se contraproducente.

Aquilo que me parece de longe mais importante, quando nos propomos a ajudar alguém, é que estejamos de facto dispostos a fazê-lo.
É um duro golpe contarmos com alguma coisa e puxarem-nos o tapete debaixo dos pés. Expectativas goradas causam desalento, o que é certamente a última coisa de que essa pessoa precisa.
Infelizmente, muitos propõem ajuda porque é simpático fazê-lo, porque é costume em determinadas situações, porque se deixam levar pela emotividade do momento, sem que no entanto, consciente ou inconscientemente, tenham uma real intenção de a fornecer.

O contrário também se aplica. Ás vezes as pessoas precisam simplesmente de desabafar, sem que isso implique qualquer acção da nossa parte.
Arregaçar as mangas e começar a engendrar soluções pode ser extremamente invasivo.

Outra coisa que me parece fundamental é termos a noção de que todos somos diferentes.
A outra pessoa pode ter princípios, ideias, crenças, convicções, etc que não partilhamos, sendo no entanto importante que as respeitemos.
Por outro lado, cada um de nós tem as suas próprias limitações. O facto de, perante determinada situação, nos sentirmos capazes de tomar esta ou aquela atitude, não quer dizer que o outro também o consiga fazer.
Ou seja, não podemos esperar que o outro reaja como nós o faríamos e convém que configuremos a nossa ajuda tendo em conta as suas características. Sugerir-lhe que faça algo que vá contra aquilo que é ou aquilo de que é capaz só irá afligi-lo ainda mais.

Para que surja vontade de ajudar alguém, essa pessoa tem de nos dizer alguma coisa, temos de ter com ela algum tipo de empatia.
Empatia em excesso, em momentos de crise, parece-me no entanto ser mais prejudicial do que outra coisa.
As dificuldades da vida trazem uma carga emocional associada, não é útil partilha-la.
Alguns dos problemas que surgem nessas alturas são a perda de visão clara sobre os factos, o raciocínio turvo, uma parcialidade exacerbada.
Ora se vestirmos completamente a pele do outro, seremos afectados pelo mesmo handicap.

Quem está de fora, tende a ver as situações com mais clareza.
Se por um lado me parece fundamental que alerte o outro sobre detalhes que lhe possam estar a passar ao lado, fazê-lo em excesso só irá servir para causar angústia.
Há pessoas que, na sua desesperada tentativa de ajuda, divagam sobre potenciais dificuldades futuras cuja consideração em nada irá ajudar a resolver a situação presente. Um extenso leque de “ses” só indo baralhar as tomadas de decisão.

Ninguém é perfeito ou dono da verdade e, quando analisamos as situações, damos conselhos, propomos soluções, estamos sempre sujeitos a falhar, a que estes não sejam os ideais para a situação concreta.
No entanto, e apesar dessa hipótese, dizer ao outro aquilo que muitas vezes sabemos que ele quer ouvir, em vez daquilo em que realmente acreditamos é, na minha opinião, um erro. Por muito difícil que seja ouvir ou dizer certas coisas, quando julgamos que o outro está a seguir pelo caminho errado, devemos dizer-lho.

Finalmente, ajudar não costuma ser fácil.
Física e/ou psicologicamente sai-nos do coiro, desgasta, cansa, chupa energia, rouba tempo. Pontualmente temos de pôr a nossa própria vida em pausa para tentarmos ajudar a desembrulhar a dos outros.
Mas… what goes around, comes around… e se não o fizermos, como podemos esperar que alguém um dia o faça por nós?! ;)



quarta-feira, 21 de março de 2012

Querer e poder…



A generalidade das pessoas tem uma noção bastante clara do que pode ou não, legalmente, fazer. A maioria delas tenderá a cumprir a lei.
Muitas das coisas consideradas ilegais estão ao alcance de qualquer um, só não as fazemos porque, apesar de na prática podermos, sabemos que não devemos fazê-las…

No que diz respeito às questões morais, o caso muda completamente de figura, muitas pessoas se dando ao luxo de ter atitudes de bradar aos céus.
Passo a exemplificar.

No painel de controlo da rede do LF, há um assustador botãozinho que diz “delete network”. Só eu tenho acesso ao mesmo, fui eu que criei o site, sou eu que o giro.
Posso então, se me der na real gana, clicar-lhe em cima, certo?!
Posso, a Ning  diz que sim…
Ou será que não é bem assim?
Criei aquele site na brincadeira, sem a mínima noção daquilo em que se viria a transformar. Fui ultrapassada pelos acontecimentos, a coisa tendo tomado proporções completamente desmesuradas.
Poderia ter (descansem amiguinhos, que não tenho…lol) mil e duas razões, perfeitamente válidas, para querer vê-lo pelas costas, livrar-me dele.
No entanto, apaga-lo é a última coisa que me sinto no direito de fazer.
Apesar de o ter “gerado” ele não é meu, ganhou vida própria, é de todos e de cada um dos seus membros. Cada um lá depositou, pouco ou muito de si, ninguém podendo deitar isso para o lixo, como se não tivesse qualquer importância.

Todos somos regularmente confrontados com casos de maus tratos ou abandono animal. Chegam ao nosso conhecimento actos atrozes, de revolver o estômago, que nos fazem duvidar da humanidade de certos indivíduos e perguntar quem será efectivamente o animal.
Podem fazer essas coisas?
Podem.
Têm pés para dar chutos, punhos para esmurrar, facas para cortar, fogo para queimar, carros para os ir largar bem longe de casa, para garantir que não voltem. Tanto quanto sei, nada disto é punível por lei.
Os bichos não têm defesa contra as monstruosidades das bestas humanas, a sua única safa é não cruzar o seu caminho. Nem todos têm essa sorte.

Recentemente, vi no Facebook, um apelo relativamente a uma pessoa desaparecida. O texto tocou-me e a fotografia também, fiz portanto share do post.
Recebi posteriormente um aviso para não continuar a partilhar, pois tinha sido encontrada… morta.
Era muito bonita, jovem e… tinha dois filhos pequeninos. Suicidou-se.
Não irei certamente atirar a primeira pedra, não só porque não tenho conhecimento do que se passava na vida e na cabeça daquela pessoa como porque, como os meus leitores mais assíduos sabem, não tenho autoridade moral para o fazer.
Mas, podia?
Dois filhos, dificilmente se tem dois filhos por acidente, foram provavelmente desejados, amados, queridos e tragicamente atirados para a orfandade. Dois filhos por criar e desiste-se, decide-se que não valem o esforço de lutar por eles, seja lá contra o que for? É preciso não ter qualquer noção da gigantesca cicatriz que se lhes deixa em herança, da devastadora sensação de abandono que os irá perseguir por toda a vida.

Julgo que estes três exemplos sejam suficientes to make my point
Em qualquer uma destas situações, como em tantas outras, as pessoas têm a faca e o queijo na mão, podem efectivamente fazer estas coisas.
Podem, se se dispensarem de auto-crítica, autocensura, auto-controle, auto-estima, às vezes. Podem se não tiverem os outros, humanos ou animais, em consideração, se não se puserem no seu lugar, se não tiverem princípios morais sólidos.
Infelizmente, muitos só se inibem se também for ilegal…


COM MÚSICA

quarta-feira, 14 de março de 2012

Dar a mão à palmatória

COM MÚSICA


Eu portei-me mal
Tu portaste-te mal
Ele portou-se mal
Quem nunca se portou mal, que atire a primeira pedra…

O que quero dizer com portar-se mal?!
Basicamente, agir contra os nossos próprios princípios.
Fazer (ou não fazer)  algo que normalmente criticaríamos nos outros.

Mais ou menos frequentemente, todos o fazemos e quem disser que não, mente com quantos dentes tem na boca.
Por muitos esforços que façamos para nos tornarmos pessoas melhores, por muito que tentemos viver segundo as nossas convicções, que estejamos alertas para que a teoria e a prática andem de mãos dadas… há sempre alturas em que metemos a pata na poça.

Porque estamos com o período, porque estamos doentes, porque sofremos de algum mal-estar, porque estamos chateados, porque estamos revoltados, porque estamos preocupados, porque estamos cansados, porque estamos stressados, porque temos a cabeça noutro lado, porque deixámos os nossos instintos levar a melhor, porque não pensámos antes de agir, porque acordámos com o pé esquerdo… porque, porque, porque… há sempre razões que explicam as más acções.
Explicam mas não justificam, nem desculpam.

Nem todos os seres humanos seguem o seu caminho no sentido de tentar melhorar a sua personalidade, o seu feitio, o seu relacionamento com os outros…
Não se iludam no entanto os que o fazem, a coisa nem é fácil, nem acontece de um dia para o outro. Não basta decidir mudar. Fazê-lo requer trabalho, perseverança, insistência.
Tal como para uma criança que aprende a andar, há muitos tombos à nossa espera.

Por outro lado, a demanda da perfeição (daquilo que na nossa cabeça é a perfeição), é uma perseguição inglória, uma utopia, é como tentar atingir o fim do arco-íris. Há sempre mais arestas a limar, mais campos a trabalhar.
Uma coisa é no entanto certa, sem a ajuda dos outros para nos abrirem os olhos e fazerem ver onde vamos errando, associada a uma boa dose de auto-crítica, não chegaremos a lado nenhum.

Um episódio recente inspirou este meu post…
Uma amiga pediu-me ajuda e lembrei-me de deixar um apelo no nosso sitezinho.
Quando me contactou no chat do FB, já era muito tarde e estava a tentar despachar uma série de coisas para me ir deitar. Tivemos uma conversa telegráfica, em que estupidamente não pedi detalhes, sendo consequentemente o meu apelo no dia seguinte bastante minimalista.

Qual não é no entanto o meu espanto quando, em vez das habituais mensagens positivas e solidárias, me deparo com uma pessoa que, ainda com menos conhecimento de causa do que eu, interpretou a coisa como lhe deu na real gana (com requintes de malvadez imaginativa, devo dizer) e julgou e condenou ali a minha amiga, sem dó nem piedade.

Mais estranha a ainda foi a reacção de outros que, perante esta atitude, foram a seguir pôr paninhos quentes, atribuindo a culpa desta crucificação aos computadores, à comunicação na net…

Um “filme” foi gerado na cabeça daquela pessoa, com base na informação deficiente que transmiti, as novas tecnologias não tendo qualquer responsabilidade no assunto. Retratou infelizmente uma pessoa que é exactamente o oposto da que conheço.
Não indagou, não quis saber detalhes, não deu o beneficio da dúvida antes de apontar acusadoramente o dedo…
Na minha humilde opinião, portou-se mal.

Acredito que, no seu íntimo, também ache o mesmo. Acredito que não aprove este tipo de reacção  precipitada e infundada. Acredito que dela se tenha de alguma forma arrependido.
Não foi no entanto o que deixou transparecer. Quando mais tarde lá fui deixar uma explicação mais completa do que se estava a passar, deu uma desculpa totalmente esfarrapada para justificar a sua atitude

Se não reconhecermos os nossos erros, se não os assumirmos como tais, dificilmente os conseguiremos corrigir, será difícil escapar a recidivas, amanhã voltaremos garantidamente, de uma forma ou de outra, a repetir “a graça”.
E se os outros julgam que nos estão a fazer algum favor em nos aparar os golpes, desenganem-se. A sua reacção é a nossa bitola, o espelho das nossas faltas. Validar uma postura negativa é ajudar a perpetuar o erro. Ajudem o próximo com a vossa crítica, não com a vossa permissividade.

quinta-feira, 8 de março de 2012

O amor é cego

COM MÚSICA



Or so they say…pessoalmente, acho que muitas vezes simplesmente não quer ver.

Pomos aqueles que amamos num pedestal, desviando instintivamente o olhar dos seus defeitos e imperfeições, como se tivéssemos medo que o facto de os encararmos como tal fosse de alguma maneira afectar o nosso amor.
Com eles tendemos a ser permissivos, tolerantes, pacientes, indulgentes, condescendentes, aceitando comportamentos que não toleraríamos de mais ninguém, arranjando geralmente forma de os justificar.
Perdoamos ao ente querido actos que provavelmente criticaríamos implacavelmente a terceiros, tornando-nos, parciais, tendenciosos e por vezes até injustos.

Ás vezes fazemo-lo por empatia, por nos reconhecermos neles, não tendo assim que os assumir como indesejáveis. Outras, pelo contrário, vão de tal forma contra tudo aquilo que somos, que preferimos renega-los completamente.

É muitas vezes difícil convencer uma mãe de que o seu filho cometeu efectivamente um acto danoso ou levar um amante a condenar uma atitude do outro, por exemplo. Esta negação, esta falta de visão, podem no entanto levar a amargos dissabores. Quem não conhece o caso clássico do casal que se separa, passando “o outro” de bestial a besta, do dia para a noite… do pai que "renega" o filho que comete alguma "atrocidade", perfeitamente previsível se o tivesse encarado com olhos de ver.

As pessoas não precisam de ser perfeitas para serem dignas do nosso amor, nada é perfeito, ninguém é perfeito, nem eles, nem nós. Parece-me portanto fundamental que as aceitemos tal como são, com todos os seus prós e contras bem definidos nas nossas mentes.

Um amigo nosso costumava dizer que “homem que é homem, papa miúdas feias… as giras qualquer um papa”. lol
Gostar de alguém apesar dos seus “senões”, parece-me muito mais positivo do que tapar o sol com a peneira e fazer de conta que não os tem.

Por outro lado, ingénua, iludida ou simplesmente parva, a verdade é que acredito que nos seja possível ajudarmo-nos mutuamente a ter uma postura mais positiva na vida.  
Se não identificarmos aquilo que consideramos pontos fracos no outro, não poderemos tentar abrir-lhe os olhos no sentido de tentar melhorar, não poderemos agir por forma a ajuda-lo a “trabalha-los”, o que iria possivelmente não só melhorar a sua qualidade de vida, como também a nossa.

Depois há as coisas que não se podem mudar e quanto a essas batatas, como se costuma dizer, “não há bela sem senão”.
O que me parece, no fundo, realmente importante é que se ame aquilo que o outro é efectivamente e não uma ilusão criada por nós. ;)



terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

O meu popó

COM MÚSICA



Quando vivíamos em Lisboa, tínhamos um só carro, que passava a maior parte do tempo estacionado à porta.
A mudança para cá fez com que tivéssemos de comprar outro, sendo impossível (que é como quem diz “muito chato”) viver por estas bandas sem locomoção própria.

Assim, estando já nessa altura as vacas muito magrinhaaas, comprámos uma biatura em segunda mão, num estado absolutamente miserável, pelo que nos fizeram um desconto considerável.
A aquisição transformou-nos em alegres proprietários de dois chaços velhos, mas perfeitamente funcionais. Que mais se pode querer?!

Os anos foram passando… as vacas continuaram a tender para o anoréctico… e os carritos foram atingindo as provectas idades de 14 e 19 anos.
O mais velhote, um Pagero, consideramos que tem a obrigação de durar “uma vida”. Assim vamoziu tratando com muito amor e carinho e continua aí para as curvas (e contra curvas e lombas e calhaus e praias de Porto Covo… hehe).

A Zafira, tadinha, vinha muntooo maltratada da antiga dona. Parecia um daqueles cãezinhos que se vão buscar ao canil para não serem abatidos… Nem vale a pena mencionar o que gastámos em veterinário desde que a acolhemos.
A realidade é que estava com um pé para a cova. Mais do que uma vez nos deixou a meio de uma viagem, recusando-se a prosseguir caminho. Nunca sabíamos se efectivamente chegaríamos ao destino, pelo menos na sua garupa.

Conclusão, comprámos um carro novoooooooo!!! :)))

Quando anunciamos isto, regra geral as pessoas comentam “estão ricos… a vida corre-vos bem…”
Pois que não e foi esta a razão que me levou a escrever um post sobre o assunto.  
Passo a explicar…

A primeira parte é “técnica” e talvez possa ajudar alguém com este raciocínio:
Basicamente, fiz uma pesquisa e cheguei à conclusão de que, a maioria dos carros de hoje em dia, consome metade do que gastava a negra besta.  
Depois de me informar sobre preços e ofertas de mercado, sentei-me a fazer continhas e cheguei à conclusão de que a diferença do que vamos gastar em gasolina é suficiente para pagar uma prestação a 96 meses.
Demos o chaço de entrada mas reservámos parte do dinheiro para pagar a primeira prestação, que é sempre mais cara por causa das despesas de processo.
Fizemos um seguro contra todos, a pagar mensalmente em vez de anualmente, diluindo assim a dolorosa.
E eis-nos felizes proprietários de um magnifico “Ferrari” C1 vermelhinho, lindo, lindo… :)))

Ok, passámos de cavalo velho para burro novo, é um facto.
Tínhamos um carro de sete lugares, com um porta bagagens onde dava para dançar o tango, computador de bordo e todo o tipo de mariquices, que substituímos por quatro míseros assentos (apertados), um porta-luvas traseiro e indicador de velocidade.
Mas, digo eu, mais vale burro a trotar do que cavalo morto. ;)

Sobretudo, é impressionante (apesar de estupidamente material) a lufada de ar fresco que veio trazer ás nossas vidas… A ilusão de prosperidade que proporciona. A sensação de que as coisas afinal não estão assim tão mal. Já sem falar da confiança no veiculo que nos irá transportar.

Não comprava um carro novo há 25 anos!
Já não me lembrava do cheirinho, dos tapetes imaculados, da carroçaria a brilhar… quando o fui buscar estava tapado com um feltro para não lhe porem dedadas… lol
O nosso filhote tinha imensa vergonha do nosso antigo “amolgado”. Sobretudo quando o estacionava na escola ao lado de outro igualzinho mas que não está colado com cuspo…
Hoje, quando o fui deitar, disse-me: “que bom, amanhã vou para a escola”. Quando estranhei a afirmação, explicou: “… no carro novo.”

Hoje é Natal cá em casa! :)))














sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Figuras Publicas

COM MÚSICA



A internet tem vindo progressivamente a transformar os seus utilizadores em “figuras públicas”.
Se não acreditam, Googlem o vosso nome e pasmem-se com os resultados. Scaryyy!!!

Antes de escrever este post fiz esse exercício e deparei-me, entre outras coisas, com um comprovativo de transferência do Barclays, para pagamento de um dos jantares do Liceu Francês…
Tudo ali escarrapachadinho, ordenante, nib, destinatário, valor, comissões (que fiquei a saber que o senhor não paga, tenho de me mudar para aquele banco), referência, data, etc…

Se dantes nos podíamos dar ao luxo de ser “cidadãos anónimos” agora, desde que frequentemos o ciberespaço, isso acabou.

Há muitos, muitos anos (mas já não era eu uma criança) escrevi um livro que se chama “Um baralho de cartas”. É uma história contada através de cartas enviadas a várias pessoas. A ideia por detrás do mesmo sendo que aquilo que contamos a cada um, assim como a forma como o fazemos, as expressões que utilizamos, etc, variam de indivíduo para indivíduo, de relação para relação.
Teoricamente é esta a base das relações humanas, a diplomacia, o respeito e consideração pelo outro, pelas suas ideias, pela sua postura perante a vida, sendo fundamentais para que haja entendimento e harmonia.

Com certas pessoas fazemos cerimónia, com outras refreamo-nos de partilhar algumas coisas, com alguns sentimos confiança para assumir todas as nossas idiossincrasias…
Esta gestão, aliada a um mínimo de bom senso, costumava ser fácil… Hoje em dia está-se a transformar uma tarefa titânica…
Na internet tudo fica registado, tudo fica visível, tudo fica acessível a qualquer um, tornando extremamente difícil a compartimentação daquilo que partilhamos com os outros.

A generalidade das pessoas julgo que ainda não se tenha realmente apercebido deste facto. Muitas pessoas partilham online detalhes das suas vidas privadas, sem noção de que não estão a escrever “para os amiguinhos”. Mesmo quando estão conscientes desse facto, muitos não pensam em todo o tipo de gente que os pode ler, ver, etc…
Assim, ás vezes sem sequer pensar duas vezes no assunto, dizem ou partilham coisas que podem de alguma forma mete-las em sarilhos.
Ao vivo, frente a frente, provavelmente não o fariam… não mostrariam certas fotos a determinadas pessoas, não fariam certo tipo de comentários, não contariam certas coisas, não utilizariam certo tipo de linguagem. Na net, esquecem-se, soltam-se e por vezes arrependem-se.

Quem navega na internet tem de se comportar como as “verdadeiras” figuras públicas. Tem de se resguardar, de se proteger, de evitar expor-se. Para além disso tem de estar disposto a assumir tudo o que faz, tudo o que diz, tudo o que divulga, perante seja quem for. Não é nada fácil.

Tomando o exemplo deste blog (ou de outro qualquer), não faço ideia de quem o irá ler. Pode ser a minha mãe, uma tia, a minha empregada, os meus vizinhos, um cliente, a professora do meu filho. Tenho portanto o máximo cuidado com o que digo.
Não quer dizer por isso que não possa meter a pata na poça de vez em quando, mas estou extremamente consciente de qualquer individuo, com todo o tipo de ideias, susceptibilidades, crenças, credos, etc, é um potencial leitor. Tento assim fazer o meu melhor por não agredir, não ofender, não chocar… uso e abuso da autocensura, releio várias vezes o que escrevo e sobretudo não tenho de forma alguma o à-vontade que teria no recato da minha vida íntima e privada.

Outra coisa que tento fazer é não expor a vida de terceiros.
E é aqui que a porca torce o rabo…
Se é verdade que, com um pouco de presença de espírito e noção das coisas nos conseguimos proteger da exposição pública, quem é que nos vai proteger dos outros?!

A foto que podem ver em cabeçalho foi publicada esta semana no facebook por uma amiga minha.  Não tem mal nenhum, pelo menos aos meus olhos, e acho até, tal como a pessoa que a postou, que está bem gira. É de um grupo de amigos esparramados num sofá, num casório… nada demais.
Acontece que não tenho qualquer dúvida de que certas pessoas a fossem achar “escandalosa”… pernas nuas, mãos nas ditas cujas, tudo a molho… é o debocheeeeeeee!

Acho portanto muito importante que tenhamos também muito cuidado com o que mostramos, divulgamos ou dizemos, dos outros… Que tenhamos a noção de que não sabemos de todo quem o irá ver/ler, incluindo o próprio. Que poderemos, sem querer, por não termos sequer pensado nisso, de alguma forma lesa-los.

A internet é fantástica mas é um local muito perigoso… ;)











quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A tradição já não é o que era…

COM MÚSICA



Tendo recebido uma educação tradicional, sou uma menina prendada, que sabe fazer muitas coisas “como deve de ser”.
Sei, por exemplo, pôr a mesa com todo o tipo de talheres, para as mais variadas funções, sem qualquer hesitação quer na ordem quer na direcção, o mesmo se passando com os copos. Sei fazer a cama com “cantinhos de enfermeira” e a dobra da colcha a moldar as almofadas. Sei fazer bainhas “invisíveis”, engomar uma camisa, dobrar uma fralda de pano em forma de bacalhau, enfim, uma verdadeira fadinha do lar.

A realidade é que não pratico a maior parte dos ensinamentos que recebi.
Dobro as toalhas da casa de banho em três, por uma questão estética e as meias em envelope, para ser mais fácil de enfiar o pé, e posteriormente em bolinha para não se perderem umas das outras. Dou no entanto nós nos lençóis de baixo que não sejam de elástico, uso guardanapos de papel e não tenho qualquer problema em trazer uma panela para a mesa se estivermos em família (e com esta descarada e desonrosa confissão, acabei de me habilitar a ser deserdada).

Também em termos de relacionamentos sociais as coisas se vão alterando.
Em tempos, por pouco não fiz uma embaraçosa figura de ursa, aparecendo indevidamente num casamento, por ter recebido um idiota de um “faire part" que confundi com um convite. Quando o meu pai morreu, choquei um que outro membro da família, por me ter recusado a enviar os tétricos envelopezinhos de borda preta com os agradecimentos a quem nos acompanhou.

Enfim, mudam-se os tempos mudam-se os hábitos e pessoalmente mantenho os que me parecem fazer sentido, por razões práticas, de tempo, de dinheiro, de espaço. Não acredito em fazer as coisas “porque já os meus paizinhos faziam assim”… a não ser que continue a ver razão para tal.
Noto no entanto cada vez mais, um “descarte” da educação que nos foi dada, sem grande critério, devo dizer.

Acontece-me frequentemente ir buscar o meu filho à escola e ser bloqueada por carros em segunda fila, uma vez por mais de um quarto de hora, sendo quase insultada pelo paizinho/mãezinha ao ousar protestar no seu regresso.
Na passagem de ano, tendo os anfitriões do costume roído a corda quanto à mega festa dançante da praxe, decidi fazer um pequeno get together cá em casa. Enviei um mail a cerca de quinze pessoas, das quais UMA respondeu. Quando protestei, três responderam a gozar comigo, continuando a não dizer se sim ou sopas. Na véspera, outro perguntou a que horas era para aparecer. Não sei se algum deu com as fuças na porta porque não fiquei cá para ver.
No último jantar que fizemos, duas pessoas chegaram perto da hora combinada. Todos os outros chegaram com pelo menos uma hora de atraso, como se nada fosse. Quando comentei o facto, uma respondeu que achava ternurento que ainda tivesse ilusões de que alguma vez fossem chegar a horas.

Podia continuar por aí a fora, com muitíssimos mais casos, alguns dos quais já mencionei aqui, mas acho que já deu para perceber de que tipo de coisas estou a falar.
Adorava poder pensar que era uma cabala contra a minha pessoa, que só a mim estes filmes aconteciam, infelizmente não tenho tais ilusões, é um mal generalizado.
Os exemplos que mencionei denotam a meu ver, no mínimo, de falta de educação. Mas todos os males fossem esses… o que me parece realmente grave é a aceitação tácita pela maioria das pessoas, deste estado das coisas.

Chamem-me careta, chamem-me antiquada, chamem-me basicamente o que quiserem… mas não consigo de facto engolir posturas que demonstram nítida falta de respeito  e consideração pelos outros.

É-me perfeitamente indiferente o que cada um pratica em sua casa, no seu dia a dia, na sua intimidade, cada um sabe de si e ninguém tem nada a ver com isso. A coisa já muda completamente de figura quando entram terceiros em cena. O estar-se completamente a cagar para o próximo, não tendo minimamente em conta o incómodo que se possa causar é uma coisa que me ultrapassa.

Se calhar é o rumo que o bicho homem está a tomar. Eu própria já não mando vir como mandaria há uns anos, já não fico de trombas como ficaria, já não reajo de uma forma tão intempestiva como reagia dantes. Não deixo no entanto de me indignar, de me revoltar e de continuar a protestar.

“Não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti”, sempre foi para mim uma regra de ouro. Parece agora estar a ser subvertida pelo conceito de “aguenta dos outros para poderes fazer tu também…”
Não consigo papar esta.









terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Trocas e baldrocas…

COM MÚSICA



Parece reinar a ideia de que sem o vil metal nada se faz neste mundo…
Tenho no entanto vindo a descobrir, com muito agrado devo dizer, que não é bem assim.
A noção de comércio começou com trocas.
Pois bem, ás trocas podemos (e estamos a) voltar, fazendo um belo de um manguito à maldita da crise… Tomaaa!!!  ;)

De há uns anos para cá que tenho vindo a organizar, com uma certa regularidade, “Cházinhos das Trocas”.
Começaram com o site do Liceu Francês e a coisa foi-se alargando ao povo em geral.
Hoje em dia são já eventos extremamente concorridos, aos quais comparece todo o tipo de gente.
Para além de se “trocar”, ainda se bebem os tais chazinhos e se comem uns bolos, enquanto se vai convivendo alegremente.

Começámos com trocas de roupa, toda a gente tem em casa roupa em bom estado que não usa.
Acreditem ou não, há quem tenha nos armários roupa que nunca chega a vestir… ou porque não a provou e, descobrindo posteriormente que não servia, teve preguiça de ir trocar… ou porque chegou á conclusão de que afinal não gostava… ou porque lhe ofereceram mas não é do seu agrado...
Da mesma forma e por variadíssimas razões, há quem guarde roupa usada mas em perfeito estado, para a qual olha ano após ano, sem nunca saltar lá para dentro.
A coisa foi-se alargando e hoje em dia já inclui calçado, malas, acessórios, bijutaria, maquilhagem, cremes, perfumes, roupa de casa, objectos de decoração, brinquedos, livros, etc…
Têm tido um sucesso tal que já estamos a começar a especializar e o próximo vai ser só de livros.

Os nossos “chazinhos” funcionam nos seguintes moldes:
Alguém fornece a casa e o chá e organiza a coisa (ou “manda” a escrava de serviço tratar do assunto… lol). Os outros levam os bolinhos. Para além disso, cada um leva aquilo de que se quer desfazer.
Todos vasculham (tipo feira de Carcavelos), experimentam, comentam, botam no saco. 
Alguns levam mas não trazem nada de volta, outros levam pouco e voltam com muito, não interessa.
Em qualquer dos casos sobram sempre montanhas de coisas, que são no fim empacotadas e entregues a uma qualquer causa de solidariedade.
É tudo bom!!!
Calor humano, compras à borla, ajuda a quem precisa, reciclagem… ;)

Mas a coisa não se ficou por aí, uma vez descoberto este maravilhoso conceito, comecei também a trocar serviços…
Há sempre coisas que gostávamos/precisávamos de ter/fazer, sem que tenhamos meios de as pagar…
Porque não trocar a criação de um site por uma consulta de astrologia, aulas por massagens, babysitting por explicações, costura por cozinhados, etc, etc, etc…?
Porque não utilizar aquela riqueza, muito maior do que qualquer euromilhões, que é o nosso precioso tempo?!
Não é imperativa a troca de moeda… troca-se simplesmente uma coisa que podemos fornecer por outra que queremos.
Elementar, meu caro Watson… ;)
Não tendo eu, evidentemente, inventado a pólvora, o Facebook e restante Internet também já se aperceberam deste ovo de Colombo, pululando páginas e sites com base no mesmo princípio.

Se tiverem uma casa de férias, uma casa devoluta que estejam a tentar vender, a vossa própria casa, se tiverem estômago para isso… podem trocar.
Uns amigos meus fizeram isso recentemente, trocaram um apartamento que têm em regime de arrendamento temporário, com outro em Veneza.
Eles fizeram a troca directamente mas, boas notícias, já há sites que tratam exactamente disso. Pessoalmente conheço este, mas deve haver muitos mais…

Minha gente, o céu é o limite, tudo se pode trocar…
Se pensam que, lá porque o mundo está a atravessar uma fase difícil, têm de a passar a pão e água, pensem outra vez!
As trocas são a saída obvia, uma postura contra a merda da sociedade de consumo (pardon my french…), uma reciclagem de bens, uma ajuda a quem precisa e, se bem organizadas, uma ocasião de encontrar pessoas que nos são agradáveis. ;)












terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Vaquinhas... Muuu

COM MÚSICA




Sou daquelas pessoas (quase) completamente rendidas ás “Maçãzinhas roídas”, como lhes chamava o meu pai. Se há coisas que me dão genuinamente gozo são os is… o iPod, o iPhone, o iPad…
Claro que poderia comprar qualquer um destes gadgets, absolutamente indispensáveis à vida de qualquer ser humano, se abdicasse de alguma coisa menos importante, como por exemplo pagar o empréstimo da casa.

Felizmente, tanto no meu grupo de amigos, como na minha família, somos fervorosos adeptos das Vaquinhas.
Cá em casa reunimos em conselho familiar e os três decidimos que a próxima seria para o tão desejado brinquedo, demorasse o tempo que demorasse.  Assim, esta começou no Natal. Tendo-se decidido em quase todas as “frentes natalícias” que "prendas só para as crianças", o Pedro foi o que “doou” mais para a causa. Depois, nos meus anos, a contribuição foi de tal forma entusiasta e tanta gente aderiu (Brigadaaaa... mais uma vez, a todos!!!), que já temos suficiente para o comprar. Mas estávamos dispostos a esperar calmamente até ao Natal que vem, se fosse preciso.

A nossa televisão foi “adquirida” nos mesmos moldes… e o nosso conjunto de pratos, lindo, lindo, do Ikea. E mais coisas de que não me recordo agora assim de repente.
Não me incomoda nada sugerir uma vaquinha para alguma coisa que não posso comprar mas gostaria muito de ter.
Neste mundo dos habitués das vaquinhas, já foram oferecidos berços, iPods, câmaras fotográficas, um serviço de talheres, etc…

Há sempre pessoas que insistem em oferecer alguma coisa nas ocasiões festivas. Várias pessoas… ás vezes muitas pessoas. Muitas pessoas que vão oferecer muitas coisas. Ás vezes coisas giras, ás vezes coisas úteis, ás vezes coisas que nos perguntamos o que lhes terá passado pela cabeça… lol
Mas muito raramente, até porque cada um por si seria difícil, aquilo que nós realmente queremos.

As vaquinhas são, para além disso, uma coisa bonita porque mostram como a “união faz a força”. Porque são a prova demonstrada de que organização aliada à generosidade faz milagres. 
Assim, aconselho-as vivamente.

Se é uma ocasião em que saibam de antemão que determinadas pessoas lhes irão dar prendas, se lhes perguntarem o que gostariam de receber, não se acanhem, não tenham vergonha de pedir…
Esta vida anda tão dura que sabe bem satisfazer um capricho de vez em quando, para variar das despesas que não temos outra hipótese senão fazer para sobreviver.
Se  for uma vaquinha “familiar”, melhor ainda. Pessoalmente acho uma excelente experiência uma criança abdicar de um punhado de prendas, para participar na compra de alguma coisa que nem sequer é exclusivamente para si. Desenvolve o espírito de grupo, a partilha e sobretudo permite-lhes compreender que as coisas não caem do céu.

E se estiverem do outro lado, não tenham pruridos em organizar.
Pensem no que o outro precisa ou poderia gostar de ter e, se não saltar imediatamente alguma coisa específica á vista, ofereçam vales. Gosta de livros, de filmes, de tecnologia? Ofereçam-lhe um vale Fnac. Adora trapos? Um vale de uma loja de roupa. Precisa de coisas para a casa? Um vale Ikea. É uma criança? Um vale do Toys R Us. Hoje em dia quase todas as lojas têm vales. Imaginem o babanço… uma “carteira” com dinheiro que não é deles, para gastar irresponsavelmente no que lhes apetecer. :)))
Ás vezes temos a sorte de descobrir “a prenda perfeita” para alguém, pessoalmente poucas coisas me dão mais prazer, infelizmente nem sempre é o caso. Pergunte-se então quem conhece melhor os desejos do outro, ele ou você?!  Pergunte-se se aquilo que lhe estava eventualmente a pensar dar lhe poderá efectivamente dar mais prazer do que algo que pudesse escolher sozinho.
Junte-se a outros para oferecer uma “prenda de peso”, em vez de “qualquer coisinha”. Imagine a satisfação de  pensar, “eu dei-lhe aquela prendaça”. Não deu sozinho, é certo, mas sabe igual, participou, é o que interessa.

E ainda relativamente ao dar, só mais uma dicazinha… Há muito o hábito, quando se entra nesta coisa das vaquinhas, de se dividir “o bolo” em partes iguais. O que interessa isso?! Quem recebe não irá saber com quanto cada um contribuiu e para alguns 5€ podem pesar tanto ao fim do mês como para outros 50€. Mas grão a grão enche a galinha o papo e várias pequenas contribuições contam tanto como uma grande. E em absoluto, o que conta é a intenção, certo?!

E já agora, aproveitando a deixa, pensem no que esta união pode fazer por causas verdadeiramente importantes e contribuam para uma que outra de vez em quando… ;)