quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Encruzilhadas

COM MÚSICA



Todos os dias fazemos escolhas, optamos por isto ou por aquilo… referem-se normalmente a pequenas coisas, o que vestir, o que fazer para o jantar, que caminho seguir para evitar o trânsito.
Volta não volta, no entanto, somos confrontados com decisões que poderão mudar radicalmente o curso da nossa vida.
São momentos tão cruciais como terríveis.

A dura tarefa é facilitada quando a decisão depende maioritariamente do raciocínio lógico, bastando assim uma análise cuidada da situação para se poder chegar a conclusões.
A coisa muda completamente de figura quando estão envolvidas emoções.
Nesses casos, encontrar o tal equilíbrio entre a razão e a emoção, fundamental para que possamos efectivamente ser felizes, não só se transforma numa tarefa titânica como gera normalmente muitíssimo sofrimento.

Nessas alturas desejamos que existissem bolas de cristal, que nos pudessem dar uma ante-visão dos resultados e consequências de cada uma das opções. Gostaríamos de poder de alguma forma tirar uma prova dos nove, de ter acesso a algum método de decisão infalível. 
Infelizmente, a não ser que ponhamos o nosso futuro nas mãos de cartomantes e videntes, nada disso será possível.

Opostamente ao nosso desejo e para mal dos nossos pecados, aquilo com que temos de lidar é com pontos de interrogação, dúvidas, incertezas, dilemas. Sentimo-nos em terreno pantanoso, a tentar andar por cima de areias movediças, com uma sensação de “loose, loose, situation”… para onde quer que olhemos só conseguimos visualizar a perda, aquilo de que iremos abdicar se optarmos pelo outro caminho.

Não há soluções fáceis, não há receitas milagrosas, não há truques que ajudem a ultrapassar as situações saltando levemente de nenúfar em nenúfar… estes momentos são sempre barra pesada e não há nada a fazer quanto a isso. A única coisa que poderemos tentar é não perder a cabeça, por forma a minimizar eventuais estragos.

A indecisão dilacera, e a dor às vezes é tão grande, parece-nos tão insuportável, que só queremos desesperadamente que passe, precipitando assim impetuosamente as decisões. Comparando com o lado físico, dói-nos tanto o dente, que só queremos tomar um analgésico, estando-nos nesse momento nas tintas para se este nos pode provocar uma úlcera no estômago.
A realidade é que o melhor conselheiro é geralmente o tempo.
Se tomarmos decisões simplesmente para tentar fugir ao sofrimento, à angústia, à ansiedade, que as situações não definidas provocam, o mais provável é que passemos algum tempo a andar para trás e para a frente.
Só conseguiremos viver em paz com o caminho escolhido quando se tiver dado um clic e os clics não obedecem a prazos.

Por outro lado, havendo emoção à mistura, esta tentará sempre falar mais alto. Quando o coração se põe a bater com força parece que o barulho nos impede de pensar.
Nessas alturas só conseguimos considerar o aqui e agora, não querendo sequer pensar na hipótese de nos poder sair o tiro pela culatra.

Há quem viva bem assim, navegando ao sabor das emoções. 
Acontece no entanto frequentemente que o que hoje nos parece tão bom se transforme amanhã num belo pesadelo. Os indícios normalmente até estão lá desde o início e tudo, nós é que preferimos não os ver. É impressionante como escolhemos calar as dicas da intuição quando estas não nos agradam.

Por outro lado, a partir de certa altura, damo-nos conta de que a nossa vida não é só nossa, parte dela pertence aos que partilham o nosso caminho. As nossas decisões, sejam elas quais forem, irão assim ter um impacto directo nas suas vidas.
O mundo é um grande emaranhado de relações inter-pessoais.
Viver em função dos outros, sejam eles quem forem, é na minha opinião um erro.
Não os ter em consideração, também.
Como tal, impõe-se uma noção de responsabilidade e o recurso a toda a sensatez que consigamos encontrar dentro de nós.  

Se formos completamente verdadeiros, com nós próprios e com os outros, por muito que isso nos possa custar, as coisas serão na realidade mais fáceis. Estas questões já são suficientemente difíceis de destrinçar, de encarar, sem que tenhamos de acrescentar factores externos que as venham complicar mais ainda. Se chamarmos os bois pelos nomes, se pegarmos o touro pelos cornos, se não taparmos o sol com a peneira, chegaremos muito mais facilmente a conclusões.

Costuma-se dizer que só nos arrependemos daquilo que não fazemos…  subscrevo… só me parece no entanto válido para as decisões tomadas com base na cobardia, no medo de enfrentar um futuro desconhecido que, por alguma razão, na altura nos assusta.
De resto, certezas nunca as teremos, e há que viver com as consequências das nossas escolhas. 
Se as tivermos feito em consciência, dando ouvidos tanto à razão como ao coração, abraçaremos em paz o caminho que escolhemos e conseguiremos olhar com serenidade e sem arrependimento ou azedume para o que não seguimos.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vai-se andando…

COM MÚSICA





- Como estás?!
- Vai-se andando…
Um clássico.

“Vai-se andando”, é assim uma espécie de “nem bem, nem mal, antes pelo contrário”… é o cinzento neutro, a sopa sem sal, o chá morno…
Faz-me sempre pensar no deserto… andando… sem rumo, sem destino, sem objectivo… até encontrar um oásis, um camelo, a morte por desidratação.
Esta resposta transmite um espírito derrotista, conformado, apático, dificilmente a ouvirão da boca de um “lutador”.

Como todos sabemos, a vida é como os interruptores, umas vezes para cima, outras vezes para baixo. Tentem lá mantê-los numa posição intermédia para verem… lol
Assim, consoante o momento em que a pergunta for feita, estaremos bem ou mal, em diversos graus de intensidade.
Se pensarmos na dor física, por exemplo, ou a temos ou não temos. Esta pode ser mais forte ou mais fraca, mas dificilmente alguém responderá que está “mais ou menos” a sofrer.

“Algumas pessoas julgam que ser forte é nunca sentir dor. Na realidade, os mais fortes são aqueles que a sentem, compreendem e aceitam.”

O sofrimento, tal como o prazer, faz parte da vida, assumi-lo não é fraqueza, não é vergonha.
Não é necessário que desbobinemos toda a nossa vida a qualquer pessoa que pergunte, a alguns basta transmitir de alguma forma a noção de que possamos não estar nos nossos melhores dias.
A maior parte das pessoas, perante esta revelação de fragilidade, mesmo que não possa ou queira fazer nada por nós, terá pelo menos algum cuidado para não piorar a situação o que, convenhamos, é bastante providencial nessas alturas.

Este assumir dos nossos sentimentos, dos nossos estados de espírito, o chamar os bois pelo nome, tem ainda outra grande vantagem.
Não é fácil “mostrar a barriga”, assumir uma posição de vulnerabilidade… é portanto bom que nos sintamos efectivamente assim se o formos transmitir a terceiros.

Ora a realidade é que, mesmo no meio de uma fase difícil, se nos dermos ao trabalho de lhes prestar atenção, passamos por momentos em que a dor ou a aflição abrandam e nos deixam respirar.
Esses são definitivamente momentos bons, chamemo-los assim, não assumamos uma postura calimérica.
O mais engraçado é que, este tipo de atitude, acaba por efectivamente nos ajudar a dar valor ao que de bom a vida nos vai dando, desdramatizando as questões e reduzindo drasticamente os momentos em que nos sentimos realmente no fundo do poço.


terça-feira, 9 de outubro de 2012

O que tem de ser, tem de ser e o que tem de ser, tem muita força

COM MÚSICA



A vida não é um mar de rosas
Nem sei quantos posts terei eu começado com esta frase mas parece-me sempre bem insistir, talvez para aqueles que continuam a achar que, se não é, deveria ser.

Volta não volta, somos confrontados com situações que doem, que doem pra caramba…
Fazem parte, vêm com o pacote, não há como evita-las, resistance is futile.
Da forma como lhes dermos a volta, dependerão a duração e intensidade do sofrimento.
Seja qual for a questão, há sempre decisões a tomar e uma postura a adoptar.

Esta última tende, no primeiro impacto, a ser de “coitadinhos” cheios de autocomiseração.
Depois do choque inicial parece-me no entanto mais do que natural carpirmos as nossas mágoas, sendo inclusivamente, na minha opinião, extremamente saudável que o façamos.
Aquela ideia de “homem não chora” (aplicada neste caso figurativamente e relativamente a ambos os sexos) parece-me completamente idiota se considerarmos o alívio que pode proporcionar.

Ainda me estou a ver, há tanto tempo que quase parece noutra vida, frente a frente com o homem com quem vivia, literalmente a chorar baba e ranho.
“Mas és tu que te queres separar…” dizia-me ele com ar perplexo.
“Pois sou, eu sei… mas isso não quer dizer que não me custe!”
O facto de estarmos convencidos de que tomámos a decisão certa, em pouco ou nada muitas vezes atenua a dor nos primeiros tempos.

Para quem está de fora e, azar dos azares, seja apanhado no enredo nesta fase, menosprezar essa dor será garantidamente a pior maneira de ajudar. É como, quando caímos e nos aleijamos, tentarem levantar-nos logo. As pessoas precisam de um tempinho para recuperar, para conseguir reagir, não é espectável que levem uma porrada valente e sigam caminho como se nada fosse.
Carinho, compreensão e empatia são assim os primeiros socorros aconselhados.

Se esta primeira reacção é perfeitamente natural é também, por outro lado, absolutamente indispensável que não desliguemos o cérebro e que nos comecemos, o mais rapidamente possível, a fazer à ideia.
Fazer-se à ideia como o avião se “faz à pista”, para poder fazer uma boa aterragem.

Tipicamente, as primeiras coisas que nos vêm ao espírito em momentos críticos são as “más”, as dificuldades, cabe-nos a nós encontrar as boas, que TODAS as situações têm.
Perguntaram à Elle Macpherson: “Como encara a ideia de envelhecer?” Pergunta muito pertinente, a meu ver… como enfrentará efectivamente “The body” a questão das rugas e das peles flácidas? A sua resposta foi surpreendente: “Acho fantástico… já pensou na alternativa?!” Always look at the bright side of life, já diziam os Monthy Python.

Uma das minhas amigas de infância morreu há pouco tempo de cancro. Apesar de altamente recomendada pelos médicos, recusou-se terminantemente a fazer uma mastectomia.  Ainda por cá andaria se a tivesse feito? Quem sabe… O que se sabe efectivamente é que a sua postura perante a doença foi negativa do princípio ao fim, nunca tendo efectivamente ultrapassado aquela fase inicial de que falava à pouco.

Dito isto, o que fazer então para encarar de forma positiva e saudável, situações difíceis e dolorosas?

O primeiro instinto é tentar fugir da dor. Na maior parte das vezes, não só não o vamos conseguir, como estaremos na realidade com isso a prolonga-la. Se temos de perder um braço, que seja de um golpe rápido e limpo, não o arranquemos devagarinho.
Tapar o sol com a peneira não nos ajuda em nada, enfrentemos o touro pelos cornos.

Como em tudo na vida, sendo que nestes casos mais importante ainda é, encaremos um dia de cada vez. Se olharmos para o todo, para o topo da montanha, desmoralizaremos. Lidemos com as situações conforme se forem apresentando, sem fazer filmes, sem sofrer por antecipação.

Ganhar a noção de que, por muito má que possa ser a situação, podia ser muito pior ainda, também ajuda enormemente. Desdramatizar, relativizar, as situações, é o primeiro passo para as ultrapassar.
Se vez de chorarmos no ombro de quem parece estar em melhor situação, oferecermos o nosso a quem esteja pior, poderá ser uma excelente terapia.

Fazer por dar valor a todo e qualquer pequeno detalhe positivo que a situação nos possa trazer. Ignorar o facto que se temos isto foi porque perdemos aquilo e apreciar e aproveitar plenamente a parte que nos agrada.

Não tentar enfrentar tudo sozinhos, aceitando a ajuda e apoio que nos oferecerem. Compreender que ao longo do percurso iremos ter altos e baixos e que isso é perfeitamente natural. Não encarar momentos pontuais de fraqueza como “recaídas”.

Finalmente, usar sempre a cabeça para raciocinar e o coração para nos guiar.

Como se costuma dizer, o que não nos mata torna-nos mais fortes. ;)




terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nenhuma situação é tão má que não a consigamos ainda piorar.

COM MÚSICA


Não vivemos tempos fáceis, não senhores… este mundo está virado do avesso, em mais do que um sentido. Reinam as dificuldades, a angústia, a insegurança, o descontentamento. Estamos, sem a mínima sombra de dúvida, a viver um período muito negro da história da humanidade. Dificilmente alguém conseguirá passar ao lado de uma situação destas despreocupadamente e de ânimo leve, sendo perfeitamente legítima a sensação de extrema gravidade do estado das coisas.

Nos últimos tempos têm-me vindo frequentemente à cabeça filmes pós-apocalípticos.
Valores e princípios parecem diluir-se nos ácidos da crise. É o vale tudo, o sai da frente, o salve-se quem puder. Os momentos de aflição sendo quando melhor se vê de que barro cada um é feito, demonstrando que não passam de bichos falantes, alguns transformam-se agora em animais irracionais e agressivos.
Enfim… o karma certamente se encarregará de equilibrar todas essas situações.

Mas o que certamente não ajuda e, por muito que tente, não consigo mesmo, mesmo, compreender, é a postura geral relativamente ao estado das coisas. Por que raio as pessoas continuam a puxar-se umas às outras para baixo em vez de contribuírem para levantar o moral. Não consigo entender em quê que esta propagação do desespero possa ajudar seja quem for.

Para vos dar um pequeno exemplo concreto; um amigo meu mudou recentemente a foto de perfil do facebook… colocou uma imagem de sobrolho franzido, com cara de caso, que grita “estou muito preocupado e nada optimista”. Esta expressão perturba-me ainda mais do que o facto de há já algum tempo não postar sobre qualquer outro assunto.

Muitos estão neste momento em real sofrimento, num estado emocional debilitado e, em vez de lhes ser transmitida energia positiva, não param de ouvir como as coisas estão más, como vão provavelmente piorar ainda.
Estejam onde estiverem, não conseguem deixar de ouvir estas vozes, de ver estes semblantes carregados, que sufocam qualquer sopro de esperança. Que vez de procurarem os pontos positivos que existem em qualquer situação, as potenciais boas notícias, as pequenas melhorias que possa haver, só falam dos aspectos negativos. Que em vez de citarem exemplos de situações semelhantes que foram ultrapassadas, apresentam cenários dantescos e premonições do que de mau pode ainda estar para vir.

É o que se sente neste momento por todo o lado.
Uns, em vez de tentar levantar o moral geral, não param de agoirar e de por achas na fogueira. Os outros partilham maleitas que nem velhas no posto médico, fazendo concursos de miséria.
Todos parecem esquecer ou desprezar as coisas boas que ainda têm.

Não há vida para além da crise? Nunca vamos sair do buraco? O nosso destino é continuar a ir de mal para pior?
Então e a esperança de um futuro melhor, morreu?!
Que tal começarmos a falar disso também?!
E, se possível, com um sorrisinho na cara... meio sorriso, vá… ;)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Os maus da fita

COM MÚSICA





Os contos infantis, os filmes, os desenhos animados, as BDs, apresentam-nos geralmente um mundo que se divide entre bons e maus. Depois, conforme vamos crescendo, vamos descobrindo tons de cinzento e abandonando esta noção tão radical das coisas.
Pergunto-me no entanto seriamente hoje em dia se não será mesmo essa a visão correcta…

É sabido que infelizmente existem seres humanos (?!) que mais parecem ser a própria maldade encarnada, pedófilos, torturadores, serial killers… não é evidentemente desses que trata este post mas de gente com quem potencialmente todos convivemos no dia-a-dia.

A verdade é que há realmente pessoas relativamente às quais a avaliação é quase sempre negativa. Que, ao longo das suas vidas, pouco ou nada contribuem para que haja paz e harmonia entre seres humanos, antes pelo contrário. Que vivem em função dos seus próprios umbigos, sem qualquer noção de empatia ou compaixão. Para quem há sempre duas bitolas, uma para si e outra para os outros. Que magoam, humilham, agridem, espezinham, sem hesitar, sem pensar duas vezes, sem se questionarem, sem se arrependerem.

No entanto, contrariamente à ficção, em que se topam à légua, na vida real não costumam ter feições diabólicas nem pontuar os seus actos com um“muhahaha” maléfico, tornando-se assim mais difíceis de identificar.

O contacto continuado com estes indivíduos comporta dois grandes perigos; o risco latente de a qualquer momento nos podermos transformar em alvo e o de, por mimetismo, nos virmos a portar da mesma forma que eles.
Quanto ao primeiro ponto, não há grande coisa a dizer, relativamente ao segundo precisamos de ter muito cuidado.

Como me disse certa vez uma pessoa, no seguimento de uma separação: “Ele fazia vir ao de cima o que de pior há em mim”.
O ditado popular afirma que quem anda com um coxo, fica coxo. E notem que o “andar” não implica uma relação amorosa, bastando qualquer tipo de proximidade.
Nem todos tendo os genes da madre Teresa, portarmo-nos “bem” não sai naturalmente, requer trabalho, esforço, empenho e como toda a gente (sobretudo os que são pais) sabe, os maus hábitos adquirem-se com muito mais facilidade. A questão é que estas pessoas adoptam más atitudes com tanta naturalidade que estas às tantas já quase que nos parecem “ok”.

Não acredito que consigam ser realmente felizes, pois a felicidade passa, na minha opinião e entre outras coisas, por uma boa integração social. Concebo que tenham momentos, picos de felicidade, mas não que consigam atingi-la de forma estável e duradoira.
Problema deles, não fora minarem também a nossa.

Assim, uma vez identificados, o afastamento, tão rápido e tão grande quanto possível, destas criaturas das trevas e tudo o que lhes diga respeito, contribui enormemente para o nosso bem-estar. Uma “dieta” livre destes seres que nos fazem mal à alma sendo tão importante como deixar de consumir alimentos aos quais sejamos alérgicos.





domingo, 16 de setembro de 2012

A morrer…

COM MÚSICA


O único rapaz que alguma vez me “pediu namoro” está a morrer, foi-lhe diagnosticada uma esclerose lateral amiotrófica, tem entre 2 a 5 anos de vida.
A primeira coisa que senti ao saber foram remorsos, por ter gozado com ele há mais de trinta anos, aquando do caricato episódio. Depois tive vontade de o ver, de estar com ele. Finalmente, dei-me conta do ridículo de tudo isto.
A realidade é que, apesar de gostar dele, mal conheço o Miguel. É filho de amigos da minha família, que conheço desde que nasci é certo, mas com os quais pouco contacto tive ao longo da vida.
Por razões que não me recordo, houve um verão em que nos demos bastante mas, como já devem ter percebido, não houve namoro nenhum nem qualquer outro tipo de convívio posterior, a nossa relação tendo começado e acabado ali.
Voltei a encontra-lo há meia dúzia de anos. Não me pareceu lembrar-se de mim quanto mais do embaraçante pedido.

Perante esta morte anunciada pus-me então a pensar em quantos não nos irão deixar antes dele… ou mesmo se eu própria estarei por cá nessa altura para o acompanhar à sua última morada.
É que não ter data marcada não é de todo sinónimo de imortalidade, embora às vezes pareçamos esquecer-nos disso. No outro dia a minha mãe começou uma frase por “Se eu morrer…” e é assim que vivemos, a confundir o “se” com o “quando”.
Acontece que estamos todos “a morrer”, desde que nascemos.

O morto no caixão parece transformar-se imediatamente num “gajo porreiro”, quer o tenha efectivamente sido em vida ou não. Suponho que se deva ao facto de só querermos guardar como recordação o lado positivo de cada um.
Da mesma forma aqueles que, em vez de nos serem arrancados de repente, têm ocasião de olhar a morte nos olhos, gozam de estatuto privilegiado.
Na antecipação da sua perda, tendemos a perdoar-lhes coisas que não tínhamos perdoado, a dizer o que estava por dizer, a demonstrar sentimentos que até então esperávamos que adivinhassem. Ou seja, como bons humanos que somos, só começamos realmente a tratar dos assuntos quando se aproxima a “deadline”.

As pessoas não são melhores nem piores, mais ou menos relevantes nas nossas vidas, por estarem perante uma morte iminente e a nossa relação com as mesmas não deveria mudar em função disso.
O meu avô lutou com o cancro durante quinze anos tendo-nos todos preparado para a sua morte, incluindo a minha avó… que morreu atropelada dois ou três anos antes dele.

Meus amigos, a vida é aqui e agora. Se gostam de alguém digam-lhe, mostrem-lhe. Se têm assuntos inacabados, tratem deles. Se estão coisas por dizer, digam-nas. Acima de tudo, não só não percam a oportunidade como façam por passar tempo com aqueles que são importantes para vocês, porque não é preciso um diagnóstico negro para que eventualmente já não estejam por cá amanhã. E a realidade é que aquilo por que acabamos sempre por nos arrepender, não é dos erros que cometemos pelo caminho mas das coisas que deixámos por fazer.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

.................

COM MÚSICA


Pela primeira vez na história deste blog apaguei um post... 
Era um post nhéééééé, quem eventualmente o tenha chegado a ler estará certamente de acordo comigo.
Não o fiz para desdizer o que tinha dito mas simplesmente porque, desde que o publiquei, que andava a remoer o facto deste ter sido um mau recomeço, um mau post.

O que é um "bom" post?!
Simplesmente um que acabe de escrever e pense "este saiu-me bem"... só isso.
Se depois vocês concordam ou não comigo já é problema vosso... lol


No fim do mês passado anunciei o meu regresso (fiz mal, voltava e pronto...), desde esse momento que voltei  a sentir a pressão da tal "obrigatoriedade" de publicação, que não existe senão na minha cabeça. 

Escrevi um post que não cheguei a publicar, porque não era dos mais positivos e não queria recomeçar nesse tom. Escrevi depois o tal outro, que saiu a ferros, depois de muito penar (nestes meses de pausa aparentemente perdi a fluidez na escrita) e no qual acabei por me baralhar toda, tendo virado não sei quantas vezes de direcção pelo caminho.

Como se prova, com a maior facilidade (e apesar das nossas afirmações em contrário), voltamos a cair nos mesmos erros. Pouco mais de uma semana depois de apregoar que as coisas iam mudar, já estava tudo na mesma outra vez. ;)

Mas não faz mal, o que é preciso é estar atento e fazer rapidamente marcha atrás. 
Assim, quando me sair alguma coisa de jeito  logo a partilharei convosco. ;)




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

I'm back!!! :)))

COM MÚSICA




Olá cá estou eu, depois da maior pausa que alguma vez fiz neste blog.  ;)
Parei basicamente por duas razões…

Primeiro porque, sentindo-me (vá-se lá saber porquê, dado que não tenho nenhum contrato a cumprir…lol) na “obrigação” de escrever com uma certa regularidade, o que fazia geralmente todas as semanas tirando raras excepções, o empenho e gozo na escrita e consequente qualidade dos posts variavam muito.
Assim, alguns escrevi mesmo só para “encher chouriço” o que nunca foi o objectivo, se é que existe algum, deste blog.
Por outro lado, mesmo em momentos de inspiração, a verdade é que isto me dava um trabalho do caraças e era terrivelmente time consuming.
Não fazem ideia das horas que passava ás vezes à procura da música “certa” para um post, frequentemente até mais do que a escrevê-lo, o mesmo se passando com a(s) imagen(s).
Ou da quantidade de vezes que relia o que escrevia, que o refraseava, tentando não ofender ninguém ou deixar grande margem para mal entendidos.
Resumindo, andava-me a pesar e a “roubar” demasiado tempo.

Concluí no entanto, durante estes meses de pausa, que não era forçoso que as coisas assim fossem.
Logo, a partir de agora, só haverá Sopa quando me der na real gana, podendo esta ser uma consistente Sopa da Pedra ou um ligeiro Consomé. ;)
Vou passar a ser (ainda) menos politicamente correcta, se não gostarem não leiam, que cada vez estou mais avessa a papas na língua.
Quanto aos mal entendidos, paciência, por muito cuidado que tenha sempre hão de acontecer. É também para isso que os “comentários” existem e, se se manifestarem, posso sempre tentar clarifica-los.
Finalmente, se me surgirem espontaneamente ideias de músicas e/ou imagens óptimo, senão sempre  poderei eventualmente acrescenta-los mais tarde ou nem por isso.  lol

Nota: A música, quando existir, deixará de passar automaticamente, para evitar a cacofonia assustadora que nos assalta quando clicamos numa “etiqueta” desatando todas a tocar ao mesmo tempo.
Assim, se a quiserem ouvir, terão de passar a carregar no “plei” lá em baixo. ;)
Prometo, quando arranjar um bocadinho, tratar do assunto nos posts antigos.

Mas houve outra razão que me levou a parar: estava zangada com o género humano.
Pois…
Sabem aquelas afirmações do género “quanto mais conheço os homens, mais gosto dos animais”?! 
Deu-me uma coisa dentro desse género.
Acontece que acredito, do fundo do meu ser, que a “salvação” do bicho homem passe por muitos dos princípios e ideias que por aqui vou transmitindo.
Notem que não inventei a pólvora, estando eles presentes, julgo eu, em qualquer religião e tendo vindo a ser defendidos por todo o tipo de gente, desde o princípio dos tempos.
Constatar que não são nem pouco mais ou menos postos em prática pela esmagadora maioria das pessoas, embora muitas delas não se coíbam de os apregoar, dá-me a volta ao estômago.
Desmoralizei, entrei numa fase derrotista em que achei que não valia a pena continuar a “pregar”.

Já recuperei no entanto forças e não só quero como preciso de voltar a escrever, senão por vocês queridos leitores, pelo menos por mim.
Dei-me subitamente conta de que estava a abandalhar, a dar menos atenção ao meu eu, àquilo que quero ser.
Estão a ver a diferença entre quando estamos sozinhos em casa e quando recebemos visitas?! É uma coisa do género mas relativa à  psique… lol
Assim percebi que, por uma questão de coerência, me sinto comprometida a viver segundo aquilo que aqui apregoo e que, se não escrever, também me torno preguiçosa e badalhoca a pensar e entro numa de deixa andar.
Ora, como toda a gente sabe (ou talvez não), a felicidade não cai do céu, é preciso querer muito tê-la e dá muito trabalhinho, on a daily  basis, a manter. 
Se a descurarmos, vai-se embora.

E nós não queremos isso, pois nãããooo?!
Bem vindos então a esta nova panela de sopa. ;)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Cada coisa a seu tempo...

COM MÚSICA


No fim-de-semana passado houve a festa anual da escolinha do mê filhote…pré-primária e primeiro ciclo no Sábado, Sarau dos mais crescidos na Sexta à noite.
Da mesma forma que não acho graça a bebés (sim, sou um monstro…), confesso que nunca achei grande piada a este tipo de espectáculos, que acabo por suportar mais do que apreciar. Maternidade a quanto obrigas… lol

O Pedro ainda só estando no 4º ano, não tinha nenhuma “obrigação” de presença nesse dia, decidi no entanto também ir na Sexta-feira, pois o meu sobrinho querido do meu coração, já “mais grande”, ia tocar.
Preparei-me portanto para uma seca com putos com uns centímetros a mais do que os outros.

Pois que fui agradavelmente surpreendida e adorei! ;)
Foi, na realidade, um espectáculo de “variedades” bastante bem apresentado, em que os miúdos tocaram, cantaram, dançaram, tudo isto com um guarda-roupa e umas coreografias giros e música à maneira.
Não foi comparável àquelas apresentações fantásticas que estamos habituados a ver nas séries e filmes americanos, mas também não envergonhou ninguém.

Mas o que mais me empolgou, para dizer a verdade, foi o ambiente que por ali reinava. Não sei se terei olhado mais para o palco ou, feita mirone, para aquela fauna que me rodeava.
De repente senti-me transportada para o passado, como que numa maquina do tempo. Tal como o Pierre de “Les choses de la vie”  revivi mentalmente a minha própria adolescência, voltando-me à memória pessoas e situações, há muito abandonadas no sótão das recordações.

Aquela ilusão de que já sabemos/percebemos tudo, a rebeldia e irreverência naturais da idade, os primeiros passos a caminho da independência. A quase absoluta falta de responsabilidades, de reais preocupações, de encargos. As festas “de garagem”, os primeiros copos, as primeiras bebedeiras. Os grupos, a “melhor amiga”, os flirts, as paixões. O despontar da sexualidade, o primeiro beijo, a curiosidade, a intensidade, a experimentação, a consumação. A firmeza das carnes, a lisura da pele, a inesgotável energia. Aquela fantástica sensação de estarmos ainda a começar o resto da nossa vida…
Tudo isto voltei a sentir na pele naquela noite.
E tive saudades, muitas saudades…

Mas depois, alguma coisa me chamou de volta à terra e senti também o reverso da medalha.
Os ups and downs de emoções, com picos fantásticos mas também terríveis buracos negros. A sensação de que tudo é a preto e branco, as pessoas ou são boas ou más, as situações maravilhosas ou absolutamente terríveis, os sentimentos extremos, em que tão depressa adoramos como odiamos. Os medos, as inseguranças, as depressões. A noção de que não temos a vida nas mãos, de que muitas das decisões que nos dizem respeito não são tomadas por nós. Aquele mal estar de nos sentirmos desadaptados, de já não sermos crianças mas também ainda não sermos adultos, sem que saibamos bem onde nos enquadramos.

Tive então a nítida noção de que, se pudesse, não voltaria atrás.
Como dizia o José Mário Branco, “eu vim de longe, de muito longe, o que eu andei para aqui chegar…” ;)
Sim, tenho cabelos brancos, rugas e as peles flácidas e volta não volta começo a parecer-me com o Condor… com dor aqui, com dor ali… A idade não perdoa. lol
Sim, já tenho muito provavelmente menos tempo de vida pela frente do que pelas costas e, fisicamente, a sua qualidade só tenderá a decair.
Mas céus, como me sinto melhor do que naquela altura!!!

Não consigo sequer imaginar-me a passar outra vez por tudo aquilo por que tive de passar para conseguir chegar onde estou. Não é de todo fácil, ou pelo menos para mim não foi, atingir a paz de espírito que sinto hoje em dia. Bati muito com a cabeça nas paredes, cai e levantei-me várias vezes, sofri, fiz sofrer, e foi tudo isto, sentido na pele, que me permitiu aprender.
Repetir?! Não, obrigada.
Já dei para as montanhas russas, agora quero é sossego… lol