quarta-feira, 5 de junho de 2013

Kékeu le digo?!





Por muito defensora da “verdade acima de tudo” que seja, também eu evidentemente pratico pontualmente, como julgo que todos nós, aquilo a que os anglo-saxónicos chamam “white lies”.
Estas são geralmente pequenas mentiras piedosas, destinadas a poupar os sentimentos alheios.
Ás vezes nem chegam a ser tecnicamente mentiras mas mais uma ocultação de parte da verdade.

Este tipo de mentiras, ou de “meias verdades” se preferirem, pode inclusivamente provocar uma espécie de efeito placebo em certos casos.
Se uma amiga à dieta nos perguntar toda contente o que achamos da roupa que acabou de comprar, dizer-lhe que parece uma vaca, mesmo que seja o que nos passa pela cabeça, não me parece que vá propriamente estimular a sua auto-estima. Se quisermos realmente apoia-la, será muito mais eficaz ocultar a nossa opinião negativa, dizendo por exemplo que já se começa a notar o esforço. O mais provável é que uma que outra grama a mais já tenha efectivamente desaparecido de qualquer maneira. ;)

Reparo no entanto que as pequenas mentiras, na maior parte das vezes inconsequentes, são incrivelmente naturais para muita gente.
Frequentemente, quando me deparo com alguma situação embaraçosa, delicada, chata, difícil de lidar, alguém sugere “diz que”…
Uma amiga faz anos e escolheu um restaurante demasiado caro para o meu bolso: diz que já tinhas outra coisa marcada.
Esqueci-me de responder a um mail: diz que não o recebeste.
Não me apetece aderir a um programa qualquer: diz que não te estás a sentir bem.
Etc, etc, etc…

Uma mentira raramente vem só, na maior parte das vezes implica outra e mais outra para justificar as anteriores, ás tantas dificilmente se lhes conseguindo manter o rasto. Invariavelmente alguma incoerência acaba por surgir na história denunciando o aldrabão.
Se o aldrabado for um desconhecido poderemos simplesmente passar por desonestos. Se for alguém mais próximo, bem… como se costuma dizer “a confiança é como o papel, uma vez amachucado…”

Contas feitas, na esmagadora maioria das vezes a situação ficaria muito melhor resolvida enfrentando o touro pelos cornos.
Imaginemos, por exemplo, que inventámos uma qualquer desculpa para não comer algo que nos serviram e que não apreciamos. O mais provável é que, cedo ou tarde, a questão se apresente de novo. Não seria muito mais inteligente e proveitoso por logo as coisas em pratos limpos?! (salve seja)

O que tem mais piada é que, embora as pessoas com esse hábito normalmente não se dêem conta disso, as mentiras inventadas não são geralmente nem mais nobres, nem mais validas ou compreensíveis do que a realidade das coisas e, se expostas, não contribuem em nada para a nossa credibilidade e fiabilidade.

Posicionarmo-nos como seres humanos falíveis, com fraquezas, peculiaridades, manias, pode não ser evidente. 
Chego no entanto cada vez mais à conclusão de que  rectidão, transparência, e  humildade nos facilitam imensamente a vida e que estas não são compatíveis com aldrabices, sejam elas pequenas ou grandes.



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terça-feira, 28 de maio de 2013

Não me quites, pá…



Recentemente, ao navegar à deriva pela net, dei de caras com a clássica notícia do cão que se deixa morrer em cima da campa do dono e, claro está, os típicos comentários de uma série de gente a enaltecer a atitude.
Pessoalmente, sempre me fizeram muita confusão as posturas do tipo “se não te puder ter mato-te /morro”… ser dependente de alguém ao ponto da própria vida deixar de fazer sentido é uma coisa que me ultrapassa completamente.

Mas não precisando de ir tão longe, muitos parecem efectivamente confundir dependência com prova de amor.
Se consigo compreender e aceitar um romantismo exacerbado como movimento artístico este já não faz para mim qualquer sentido na vida real.

Exemplificando, há tempos fomos para fora uns dias e tive de arranjar quem ficasse com a nossa cãzinha.
Isto ainda não tinha acontecido, dado que raramente saímos de casa mais do que algumas  horas e que das poucas vezes em que o fizemos a pudemos sempre levar connosco.
Não sabendo como iria reagir, sendo uma criaturinha tão meiga e agarrada a nós, preveni a tia a quem a deixei relativamente à possibilidade de uma certa “neura”.
No meu regresso e para minha grande satisfação deparei-me com uma realidade bem diferente, basicamente esteve-se bem nas tintas para a minha partida.

E porque fiquei eu contente com isso, perguntar-me-ão vocês…
Ora bem, para começar, não a abandonei, não a deixei num canil duvidoso, como disse deixei-a com uma tia, pessoa da maior confiança, com anos de experiência e grande amor pelos animais. Sabia que iria simultaneamente ser bem tratada, com respeito pelas minhas instruções, e mimada até mais não.
Recebo por outro lado diariamente provas do seu afecto por mim, da sua devoção, da sua lealdade.
Que ganhava alguma de nós com a sua aflição, com a sua tristeza, com o seu desespero?!
Há cães que nestas situações deixam de comer, ficam deitados à porta à espera do regresso do dono, etc… era o que temia que acontecesse.
O facto de ter ficado como se em casa estivesse, encheu-me de alegria e paz de alma pois fiquei a saber que se alguma coisa me acontecer ela conseguirá ser feliz de outra forma.
Isso não me tira bocado, não faz com que goste menos de mim. Quando cheguei fez-me uma enorme “festa” não deixando qualquer dúvida de que estava radiante por me ver e voltar para casa.

Falo em cães mas com as pessoas passa-se o mesmo.
Pessoalmente não quero que ninguém precise de mim para viver. Quero que gostem de mim, que me dêem valor, que me queiram por perto mas que continuem a ser felizes se alguma vez lhes faltar. Quero ser uma escolha e não uma fatalidade.

Não me parece de todo saudável a exaltação do sofrimento, aquele espírito do fado que enobrece a dor, a desgraça, ninguém nasceu para sofrer. A ideia não é carpir as mágoas mas seguir em frente, continuando a fazer pela vida e pela felicidade. A ideia não é estar com alguém porque dela se depende mas porque é isso que queremos fazer.

Na canção que escolhi para este post, que por sinal adoro, a certa altura Brel diz:
Laisse-moi devenir / Deixa-me tornar-me
L´ombre de ton ombre / A sombra da tua sombra
L´ombre de ta main / A sombra da tua mão
L´ombre de ton chien / A sombra do teu cão


Eu cá não quero ser a sombra de ninguém, não gosto de sombras, gosto de luz, de muita luz, de sol, de calor… ;)


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sexta-feira, 17 de maio de 2013

No fundo, andam os submarinos…




Já todos ouvimos certamente dizer de alguém que “tem bom fundo”  ou que “ele/ela no fundo é boa pessoa” … vem geralmente antecedido por um “sim, mas…”.
O que isto quer dizer é que, embora a pessoa em questão se comporte geralmente como uma besta, tem na realidade bom âmago, bom coração.

A questão é que isso não chega, de todo.
Para se ser efectivamente boa pessoa não basta sê-lo “no fundo”, é preciso pô-lo cá para fora, pôr em pratica as boas acções que esse “fundo” nos sugere, agir em conforme, passar da teoria à prática.

Que importa que alguém divulgue boas causas se nelas não participar de alguma forma ele próprio? Que importa que se emocione com histórias comoventes se não se comover com os sentimentos daqueles a quem supostamente quer bem? Que importa que afirme amar do fundo do coração, se não tiver respeito ou consideração pelo ser amado? Que importa que apregoe ideias nobres se não as conseguir seguir?

Ser boa pessoa não se limita à capacidade de sentir, de sofrer, de amar, de se emocionar. Os fdp também têm sentimentos, são até capazes de sentir empatia ou compaixão. Não fazem é nada a esse respeito.
Não se limita também a compreender e transmitir teorias da vida, bons princípios, é preciso agir em conforme. Não chega ter discernimento para atingir o que é moralmente certo ou errado, é preciso escolher a opção correcta e viver em conforme. Não se pode ter uma bitola para os outros e outra para nós próprios.

Ninguém é sempre “bom”, nem sempre “mau”… somos humanos, logo falíveis.
Ninguém consegue ser totalmente coerente, embora seja uma coisa a almejar, é sem dúvida uma utopia.
Mas, os “bons fundos” só servem para baralhar, para confundir, para iludir, para que os outros ajam como se estivessem efectivamente a lidar com “boas pessoas”. No entanto, entre a teoria e a prática, entre as intenções e a concretização, vai um mundo, e sensibilidade não é de todo sinónimo de bondade.

Uma coisa é certa, o que fica no fundo, o que não sobe à superfície, não nos serve de nada.
De boas intenções está o inferno cheio.


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quarta-feira, 8 de maio de 2013

Ensinemo-los a pescar…



Ser mãe (ou pai) é uma responsabilidade tremenda, uma tarefa que não deveria de forma alguma, na minha opinião (lol), ser encarada de ânimo leve.
Criar um filho, prepara-lo para a vida, requer muito mais do que alimenta-lo, mantê-lo saudável e manda-lo para a escola, educa-los é imprescindível.

Educar não é fácil e ser educado também não, é no entanto extremamente importante para que consigamos viver em sociedade, as regras aprendem-se. Infelizmente parece que muitos lhe atribuem cada vez menos importância descartando-se, por razões várias, dessa “obrigação” parental.

Li uma vez algures que, se não nos odiarem um pouco de vez em quando, não estaremos a fazer as coisas como deve de ser e parece-me bem verdade.
Muitos pais tentam ser amiguinhos dos filhos, buddy buddys, mas não é esse o nosso papel e, se for o que desempenhamos, outro faltará na vida deles.

Costuma-se referir às crianças como sendo “anjinhos” mas  a realidade é que, na sua maioria, parecem antes estafermos cruéis e impiedosos que, se lhes for dada rédea solta, se transformarão rapidamente em monstrinhos insuportáveis.

Cabe-nos ensiná-los, desde pequeninos, a gerir e controlar as suas emoções, conhecer limites, enfrentar as contrariedades, lidar com a frustração, assumir responsabilidades, esforçarem-se pelo que desejam, adquirir noções de justiça, etc, etc, etc…

Assim, temos de ser porto seguro, pilares da sua segurança e estabilidade emocional mas também juízes e carrascos quando necessário. Têm de compreender que o amor pode ser incondicional mas os benefícios não o são. Têm de aprender a assumir as consequências dos seus actos e fazer por merecer o que de bom recebem da vida.

Amor é uma coisa, passividade e permissividade são outra, que garantidamente não os ajudam.
Muitas vezes somos tentados a deixar passar certas coisas em prol de um bem estar imediato mas iremos quase sempre paga-lo bem caro mais tarde e o pior é que eles também.

Não há receitas milagrosas, não há livros de instruções, educar não é de forma alguma uma ciência exacta e todos sem excepção cometem erros. Cada caso é um caso e cada criança é única, felizmente muitos caminhos vão dar a Roma… Grave não é meter a pata na poça de vez em quando, grave é ficar de braços cruzados.

Finalmente ter filhos é, sem sombra de dúvida, uma grande aventura.
No entanto, se compreendermos que não é possível ensinar sem dar o exemplo, acaba por ser também uma grande ajuda pessoal, obrigando-nos a rectificar aquilo que não nos agrada em nós próprios. ;) 






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quarta-feira, 24 de abril de 2013

Que seja feliz…


No Sábado passado, empoleirei-me para cortar uns ramos altos da nossa árvore e, pela terceira vez na vida que me lembre, vi-me frente a frente com a morte, ou pior…
O escadote partiu-se e vim por ali abaixo, de tesoura de podar na mão, estatelando-me no chão com a cabeça a poucos centímetros de dois pedregulhos.

Aos doze anos, por altura das marés vivas, ignorei o sinal de “não passar” no pontão do Tamariz e fui arrastada para o mar por uma onda que o varreu. Engoli água e areia e respirei quando as ondas fizeram o favor de me trazer á tona e depois finalmente de me atirarem para a praia.

Já perto dos trinta estive num acidente de automóvel. Partiu-se subitamente a suspensão, fizemos uns quantos peões, capotámos por uma ribanceira abaixo e, quando o carro finalmente parou, percebemos que estávamos dentro de água a afundarmo-nos.

Qualquer uma destas situações poderia ter sido fatal. Consigo, com imensa facilidade, imaginar várias coisas que poderiam ter corrido muitíssimo mal em qualquer uma delas. Entre a morte e as eventuais terríveis consequências que qualquer um destes acidentes poderia ter tido, venha o diabo e escolha.
Mas nada aconteceu, safei-me incólume de todos eles, nitidamente não era a minha hora.

Estas coisas fazem-nos no entanto pensar, pensar naquilo de que nos safámos e nas pessoas que não tiveram a mesma sorte.
Pensar na efemeridade da vida e consequente importância de viver o aqui e agora.
Pensar, desta vez, no meu filho, que não existia ainda das anteriores…

No meio do chuto de adrenalina do cagaço á posteriori, dei por mim a perguntar-me o que gostaria de lhe transmitir, que mensagem gostaria de lhe deixar se de repente lhe faltasse, no que lhe poderia dizer que o pudesse ajudar na vida.
E o que me ocorreu de imediato foi “sê feliz, sê realmente e genuinamente feliz”…

Eu sei que parece uma lapalissade sem grande sentido, é evidente que todas as mães desejam a felicidade para os seus filhos. A realidade é que nem toda a gente tem a noção de que está nas suas mãos sê-lo e que, ao fazer por isso, tudo o que de resto é importante vem naturalmente.

Acredito, do fundo do coração, que não se consiga ser verdadeiramente feliz sozinho. Assim, a conquista da felicidade passa pelo domínio dos skills sociais.
Não conheço nenhum filho da mãe que pareça viver em paz consigo próprio e com os outros. Assim, ser boa pessoa parece-me ser condição sine qua non para se ser feliz.
A felicidade não cai do céu, tem de ser desejada, conquistada, conservada. Assim, aprende-se a fazer pela vida, a trabalhar pelo que é realmente importante.
Um grande desequilíbrio entre a emoção e a razão, a incoherência, não nos permite viver em paz de espírito. Assim, a harmonia entre as duas coisas torna-se essencial para podermos ter serenidade.
And so on…

Dei por mim a compreender que ao “mandar” alguém ser feliz, ao desejar que o consiga, está-se simultaneamente a desejar que consiga resolver todas as questões que o irão permitir. Que o “objectivo” de ser feliz resolve todas as outras coisas que irão surgir pelo caminho. Que não é possível atingir a felicidade sem que uma série de condições sejam cumpridas e que aqueles que lá chegam as compreendam e resolvam.
Logo, desejar que alguém seja feliz, pedir-lhe, aconselha-lo a sê-lo, é dar-lhe ao mesmo tempo todos os conselhos realmente importantes que se podem dar na vida, mesmo que essa pessoa tenha de lá chegar sozinha.
Se conseguir ser feliz é porque, mal ou bem, conseguiu tudo o resto.



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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Cuidar




No outro dia, quando estava a tratar do micro-laguinho que construí para poder ter nenúfares, peixes e barulhinho de água corrente, dei por mim a pensar que passo a vida a arranjar sarna para me coçar.

A partir do momento em que tive a minha própria casa, “vinguei-me” do facto da minha mãe não ser grande apreciadora de bichos, povoando-a dos mesmos de tal forma que, ao fim de uns tempos, demorava mais de uma hora por dia a tratar deles. Ia dando em doida… lol
Com a experiência fui aprendendo a gerir melhor o equilíbrio entre trabalheira e gozo e a evitar as relações de alta manutenção e retorno dúbio.

Quando se fala em animais, plantas, ás vezes até em crianças, muita gente refere que “dão muito trabalho”. É verdade que dão…
Cada vez mais me convenço no entanto que esse “trabalho” é não só o que nos liga intimamente a eles, como um requisito essencial para os conseguirmos verdadeiramente apreciar.
Quem cuida envolve-se.

Há quem não goste de se envolver, quem seja desprendido, independente, quem não tolere amarras, preferindo a liberdade de movimentos, a leveza de não ter responsabilidades deste tipo.
É verdade que o hábito, o gosto de cuidar, nos sujeita frequentemente a uma que outra dor de cabeça ou preocupação. É verdade que às vezes nos prende, pesa e limita. Para além disso nem sempre implica tarefas fáceis ou especialmente agradáveis.

Cuidar é no entanto oferecer parte de nós, partilhar o nosso ser e como tal usufruir do que nos rodeia de uma forma muito mais completa, mais rica, mais intensa. Cuidar é estar atento, criar laços, alimentar relações, envolver-se profundamente com o mundo à nossa volta. Cuidar é preocupar-se, no bom sentido da palavra, com aquilo ou aqueles que nos rodeiam e fazer o que estiver ao nosso alcance pelo seu bem-estar.

Julgo que dificilmente uma mãe conseguirá ter uma relação muito forte ou próxima com o filho se este for criado por uma ama, sendo com esta que ele tenderá a criar a sua relação afectiva privilegiada. Para gerar afecto, amor, envolvimento emocional, é preciso que haja partilha, contacto, entrega, não bastam laços de sangue e tomadas de decisão.
Da mesma forma, apesar de não haver retorno activo da parte das plantas (lol) não acredito, por exemplo, que quem tem jardineiro consiga dar tanto valor ao seu jardim como quem trate dele com as suas próprias mãos. Quem rega, aduba, corta, poda, planta, acaba por senti-lo, tanto quanto o vê, é uma relação que ultrapassa de longe o aspecto estético.  

Passo, gasto, sem dúvida, muito do meu tempo a cuidar de pessoas, animais e plantas… acredito no entanto que sem isso não seria garantidamente a mesma, nem apreciaria a vida de forma tão profunda e intensa.


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segunda-feira, 1 de abril de 2013

I quit!




Nos momentos de crise profunda, seja de que ordem for, é extraordinariamente importante que nos consciencializemos de que tudo tem solução e de que as dificuldades, as preocupações, as angústias, as tristezas... são sempre sensações passageiras.

A vida é feita de ups & downs e não há nada a fazer quanto a isso. 
Teremos no entanto muito mais probabilidade de ultrapassar os downs se os encararmos como naturais e não "fatalidades do destino". Não há postura mais contraproducente do que entrar numa onda de "que fiz eu para merecer isto". 
Até porque, na maior parte das vezes, chegamos à conclusão de que não fizemos nada e assalta-nos, para além de tudo o resto, uma sensação revoltante de profunda injustiça.  

É mesmo assim, faz parte, acontece a toda a gente.
Não há ninguém que, mais tarde ou mais cedo, não se depare com a sensação desesperante de "isto é demasiada areia para a minha camioneta, parem o mundo que eu quero sair", ninguém.
E para tal não é obrigatoriamente necessário que tenhamos tomado decisões erradas ou tido atitudes incorrectas.  As coisas não acontecem por castigo divino mas como parte integrante do percurso normal de qualquer ser humano: 
Shit happens!

A forma como lidarmos com o assunto irá decidir das eventuais sequelas ou até às vezes da nossa própria sobrevivência!  
Sim, o suicídio é uma saída… é uma saída para o nada, mas é uma saída.
Tenho-me confrontado muitas vezes com ele nos últimos tempos.
Não com a vontade de o cometer mas com o facto de outros o terem feito ou exprimam vontade de o fazer.  Nos tempos que correm não é de admirar.

A ideia de uma mãe/pai sequer considerar a hipótese, é coisa que me ultrapassa e muito mais ainda desde que tive um filho. Parece-me simplesmente impossível conseguir abandona-lo(s) seja de que forma for.
A realidade é que as histórias que vamos ouvindo nos vão provando que não... e quem somos nós para julgar se gostamos mais dos nossos do que eles dos deles. 
Assim, apesar de há relativamente pouco tempo ter pensado em escrever um post, que nunca chegou a ver a luz do dia (felizmente, assim não me contradigo... hehe), a defender exactamente o oposto, chego hoje em dia á conclusão de que o desespero pode ultrapassar tudo, até o amor. 
O desespero é um super-vilão e a tentação de desistir a nossa kriptonite.

Pouca coisa nos conseguirá aliviar o sofrimento em determinadas situações. Infelizmente ainda não conseguiram inventar epidurais para a vida.
Não há remédio senão enfrenta-lo com força e coragem, como uns homenzinhos.
Se tomarmos as coisas em mãos e as resolvermos com calma e inteligência, mais fácil e eficazmente sairemos do buraco. Senão, sairemos dele de qualquer forma, porque não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe.
Este último é, na realidade, o ponto verdadeiramente importante!

A vida é como o vento... ás vezes uma calmaria, outras vezes somos acariciados por uma suave brisa e de vez em quando fustigados por ventos fortes, tornados e furacões.
Quer sejamos experientes e competentes velejadores ou nos amarremos ao mastro para não ir borda fora, o importante é conseguirmo-nos manter à tona durante a tormenta, porque cedo ou tarde as coisas irão garantidamente acalmar.

Já dizia o arquitecto: Aguenta! ;)
E a seu tempo tudo voltará a entrar nos eixos… desistir é que não!

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sexta-feira, 15 de março de 2013

Querido CV



(Auto-retrato... lol)


Faz hoje nove anos (!!!) que o meu pai nos deixou…
Desde então tenho sido muito mais feliz.
Ahhh, mas suponho que não tenha nada a ver uma coisa com a outra?! - perguntar-me-ão vocês, num misto de espanto e choque.
Tem, tem! ;)

Então?! Que raio de afirmação é essa?!
Odiava o meu pai? Tínhamos uma relação péssima? Estou bem melhor sem ele?
Nada disso, antes pelo contrário, tive o “melhor pai do mundo”.
Dificilmente consigo imaginar uma relação que pudesse ter sido mais forte, com mais amor, companheirismo, cumplicidade. Sempre adorei o meu pai.
Estava longe de ser perfeito mas era, sem qualquer sombra de dúvida, um excelente ser humano.
Talvez justamente por tudo isto a sua morte me tenha permitido aprender tanto.

Através dela descobri que a mais profunda dor, não só não mata, como acaba eventualmente por passar. Nos primeiros tempos é-nos difícil acreditar nisto, ficamos de tal forma destroçados, que não conseguimos sequer vislumbrar uma hipótese de alívio. Sentimo-nos condenados a continuar a viver com um coração que não pára de sangrar.
No entanto, um dia, damo-nos conta que na realidade já não dói, que já só resta uma imensa saudade e que até é possível viver bem com ela.

Por outro lado, essa mesma dor que nos corrói, permite-nos relativizar tudo e dar valor ao que realmente importa. Uma vez passada, basta que não larguemos mão dessa noção para que passemos a realmente apreciar o que de bom temos na vida. Se, quando nos sentirmos a descarrilar, a permitir que questões acessórias nos perturbem por aí além, nos relembrarmos disso, todas as dificuldades do caminho nos pesarão menos.

Grande parte da minha vida, julgo que da de todos nós, se rege por aquilo em que acredito, que não preciso de forma alguma de ver provado.
Quando me confrontei com aquele corpo inerte, tive a certeza absoluta de que não passava de um invólucro, que ele já não estava lá.
Não tendo qualquer tipo de crença religiosa, não tenho nenhuma teoria sobre para onde possa ter ido, só sei que aquilo que ali estava não era garantidamente o meu pai.
Por outro lado, apesar de já não poder comunicar com ele, continuo a senti-lo como se estivesse ao meu lado, acredito portanto que continue a existir algures.

Só sonhei com ele uma única vez desde que se foi, sonhei que me telefonava. Eu perguntava-lhe se afinal não tinha morrido e ele respondia que sim, mas que tinha decidido ligar só para me dizer que estava tudo bem.
Todos os dias passo por ele, pela fotografia que tenho no meu quarto, de onde sorri para mim e me “diz” que a morte não tem importância nenhuma.

Se me faz falta? Se a sua ausência me custa? Se preferia tê-lo comigo?
Sem sombra de dúvida.
No entanto, através da sua partida, interiorizei o ciclo da vida e aceitei, do fundo do meu ser, o fim da mesma tal como a conhecemos.
Tomando, por outro lado, real consciência da sua efemeridade, passei a gozar cada segundo que por cá andamos e a dar realmente valor ao tempo que partilhamos com os outros. 
Ao  aceitar a morte ganhei uma imensa paz e serenidade e passei garantidamente a apreciar muito mais a vida.


COM MÚSICA

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Les uns et les autres…

COM MÚSICA



A palavra “amigo” é frequentemente utilizada de forma demasiado abrangente.
É natural… ás vezes não sabemos o que chamar ás pessoas… não é fácil arranjar palavras que definam certo tipo de relações.
Eu, por exemplo, mais do que uma vez me referi à minha cara metade como “o meu marido".
Que lhe ei de eu chamar?! O pai do meu filho, o meu companheiro, o gajo com quem partilho a cama? Nada parece ás vezes apropriado e também não há razão para preciosismos.
Da mesma forma, que havemos nós de chamar a certas pessoas com quem lidamos numa base regular, com quem partilhamos parte da nossa vida social?!
Não são família, não são colegas… vamos apresenta-los como?
 “Já conheces a Asdrubalina? É uma conhecida minha…” Foleirote, não?

Ser-se verdadeiramente Amigo, com A grande, é uma coisa muito restrita, rara e preciosa. Qualquer desconhecido pode no entanto, potencialmente, vir a ser um Amigo.
As pessoas conhecem-se através de outras pessoas, amigos, namorados, família, relações de trabalho.
Muitos daqueles com quem nos cruzamos na vida não passarão nunca de “conhecidos”. Volta não volta, no entanto, sentimos algum tipo de empatia por alguém, o que nos leva a querer aprofundar a relação. Às tantas damo-nos conta que já nos damos sem intermédio de quem nos apresentou, que já temos um relacionamento autónomo e independente.

É nesta fase que os adjectivos se costumam frequentemente baralhar, não só na sua verbalização mas também nas nossas cabeças.
Há pessoas que, não tendo ainda direito ao título de amigo, fazem parte das nossas vidas, em termos presenciais, em termos de regularidade e até de intimidade relacional.
Se assim não fosse, nenhum de nós chegaria a ter amigos, pois a amizade não é como a pescada, que antes de o ser já o era… lol

Nas "amizades", tal como no amor, há que distinguir as que são “póquéquié” das que são para casar. Ás vezes, cegos pela atracção, pela novidade, baralhamos um bocado as coisas, mas geralmente tudo acaba por entrar nos eixos, mais tarde ou mais cedo.

A realidade é que há testes para a amizade, há sempre testes.
São eles que nos irão permitir separar o trigo do joio.
A parte chata é que não são exames, testes americanos de cruz, não temos controle sobre o como e quando, caem-nos em cima quando menos esperamos.
Ás vezes poderíamos poupar muito tempo e dissabores se inventassem um método de análise, tipo faça xixi para este frasquinho… e depois dava um resultado positivo ou negativo. Mas não…

Passar bons momentos com alguém… espectáculos, jantaradas, fins de semana, férias e jogatinas… nunca serviu de teste para nada. Infelizmente são necessários momentos menos agradáveis para podermos realmente perceber do que a casa gasta.
Há muitas formas de percebermos se existe uma verdadeira amizade. Pela forma como se resolvem os problemas e/ou atritos que vão inevitavelmente surgindo entre seres humanos. Pelas acções mútuas de apoio e/ou ajuda. Pelas demonstrações, mais ou menos abertas, mais ou menos directas, de carinho e afecto. Pelo respeito e consideração pelo outro. Enfim…
E às vezes, ao fim de um tempo, que pode ser mais ou menos longo, mais ou menos intenso, chegamos à conclusão de que aquela pessoa não passará nunca de uma “conhecida”.
Se um dia nos faltarem, deixarem de fazer parte das nossas vidas é-nos um bocado indiferente, pela pouca importância que têm para nós.

Mas depois há os outros, aqueles que fazem com que compensem todas as esfoladelas do caminho, as provas vivas de que vale a pena investir de corpo e alma em todas as potenciais amizades porque estas, sendo autênticas, valem ouro, são das coisas mais preciosas que podemos ter na vida.
Estes, temo-los, erradamente, muitas vezes por garantidos. Também eles nos podem faltar, em todos os sentidos da palavra. Seja por terem partido para pastagens mais verdes ou simplesmente por terem deixado de viver a vida à nossa maneira, de partilhar os nossos princípios, os nossos valores, os nossos interesses.
As pessoas evoluem, são moldadas pela vida, pelo que fazem e querem dela, e nem sempre os caminhos são paralelos.

As pessoas mudam às vezes de tal forma que já não as reconhecemos. Tentamos procurar dentro do novo ser o que costumávamos conhecer e já não encontramos lá nada. Em termos emocionais, é assim como os zombies do “The walking dead”, aquele de quem gostamos já não existe, já não está lá, por muito que queiramos revê-lo.
Por outro lado, começam a chumbar a todos os testes da amizade. Sim, porque estes são para sempre, ninguém tem direito a diploma, é um curso prá vida, aprender e provar que se assimilou, e cada amizade é uma faculdade.

Este fenómeno, pelo qual já todos possivelmente passámos, se calhar até mais do que uma vez, é das coisas mais dilacerantes que já me aconteceram na vida. Aceito-o com a “serenidade de aceitar o que não posso mudar”, de compreender que há coisas que são para ser como são e não há nada a fazer, mas não consigo deixar de sentir uma enorme dor e saudade.
Este último fim de semana, em modo “Amigos de Alex”, reavivou uma ferida que deixou um sabor amargo doce, mas provou também mais uma vez o valor do calor das verdadeiras amizades.

Para todos os meus amigos, passados, presentes e futuros...























quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

E se um desconhecido lhe oferecer flores…


COM MÚSICA



Li recentemente o livro do Salvador Mendes de Almeida, Ser feliz Assim.
Dizer que este homem não teve (tem) uma vida fácil será no mínimo um understatement.
No entanto olhem para ele, para a sua atitude perante a vida, a sua postura, os seus feitos, o seu sorriso…
E mencionar este último fez-me pensar noutro grande homem, de sorriso encantador, que muitos devem também já conhecer, Nick Vujicic.
Se eles, com todas as suas dificuldades e limitações, podem ser felizes, porque não o conseguiríamos nós?!

A mim, pessoalmente, as suas histórias inspiram-me de forma inacreditável. Quando descubro um destes seres de energia positiva superior, investigo-o até à medula. Leio/vejo/oiço tudo o que têm para nos dizer, para nos transmitir, devoro as suas palavras, delicio-me com o brilho dos seus olhares. Vão-se acumulando as suas experiências no meu subconsciente, para ressurgirem quando menos espero, para me dar força para alguma coisa que me está a custar.

Para vos dar um exemplo de uma forma curiosa destas coisas me ajudarem:
Não há nada a fazer, vou alegremente a caminho do meio século, já experimentei um pouco de tudo, do mergulho á escalada, do motocross à vela, do ski aos patins em linha, da yoga ao paraquedismo, não é portanto por falta de tentar, e não há nenhum tipo de exercício físico que me proporcione verdadeiro prazer…
( ...isso não conta, you perverts!!! )
A realidade é que, para mim, o desporto favorito é espojar-me no sofá e duvido que alguma vez isso vá mudar. Cada um é como cada qual, prefiro exercitar as células cinzentas, prontes…
Infelizmente, estas últimas obrigam-me a “mexer o rabo” porque é importante para a saúde e consequentemente para a nossa felicidade. 
Como gostaria de ter vivido numa época em que os seres humanos ainda não tinham consciência deste facto [suspiro].
Recomecei portanto recentemente, depois de um intervalo de uns anos, a fazer ginástica. E como estou também a precisar de me livrar de oito quilos de “já não fumo”, fui para uma ginástica da pesada (a turma deve ter uma idade média de 65 anos… a maioria já deve ter direito a redução no preço). Ok, falando sério, custa-me para caramba…
Li então o livro do Salvador. E, desde então, deixei de me atribuir o direito de me queixar por poder mexer-me como mexo e ter o privilégio de me conseguir exercitar sem precisar de ajuda externa. Acabou, sou um homenzinho agora, fico ali de bofes de fora mas agora já sem lamentações.
É uma coisa pequenina?! 
Pois é… mas a vida é feita de mais coisas pequeninas do que grandes, e grão a grão enche a galinha o papo.

Dito isto, os dois homens que mencionei, para além de uma força e alegria de viver extraordinárias, têm em comum a vontade, ousaria quase dizer necessidade, de usar a sua experiência pessoal para ajudar os outros. E muitos outros haverá por aí, felizmente, a fazer o mesmo trabalho, cada um(a) com a sua história de vida, com as suas questões pessoais, partilhando a sua força de viver com os que dela precisam.
Fazem missão da sua vida melhorar a de perfeitos desconhecidos.
Perante as suas histórias podemos concluir que com o mal dos outros posso eu bem ou aceitar as flores que nos oferecem.

E aceita-las, conseguir aprecia-las, quer dizer compreender e aceitar com serenidade que sozinhos não vamos a lado nenhum, que temos de nos amparar mutuamente, quer física quer emocionalmente, para conseguirmos ser felizes. 
O Nick Vujicic (raios que este homem tem um apelido impronunciável!!! Irra) tem um texto muito giro sobre esta ideia. Nós, os comuns dos mortais, que enfrentamos o dia a dia sem dificuldades de maior, olhamos para estes “monstros sagrados” como nossa inspiração. A realidade é que também eles têm os seus exemplos inspiradores, todos temos, perto ou longe.

Isto é um círculo vicioso, o que “custa” é começar a olhar para os outros com olhos de ver. Separar o trigo do joio e perceber quais é que se nos apresentam como efectivamente felizes, realizados, seja qual fôr a sua condição. A partir daí começamos a sorver a sua experiência para nos ajudar com a nossa. E se esta nos chegar oferecida com todo o prazer, amor e carinho, mais eficaz será ainda.

Se todos partilharmos esta atitude, então meus amigos, the sky is the limit, não há nada que o ser humano não consiga. ;)