quarta-feira, 5 de março de 2014

Big Picture / Small Picture




Céus, como a vida está diferente de há uns anos atrás… mais dura, mais pesada, mais difícil em tantos sentidos…
Enquanto saltávamos alegremente de nenúfar em nenúfar, as coisas foram-se transformando, lenta mas seguramente.

O mundo actual é inóspito e assustador. Tudo parece estar em crise, a economia, a política, o meio ambiente, a sociedade, os valores…
Já não há segurança, certezas, garantias, tudo pode mudar de um momento para o outro, a vida é hoje como um trapézio sem rede. Mais do que nunca, o que tínhamos como certo pode desaparecer de repente, sem pré-aviso.
Já não parece haver grandes regras, grandes princípios, grandes guias, movemo-nos em terreno escorregadio, já não sabemos como agir, com que linhas nos cosermos, com o que contar da parte dos outros.
Não se vêm luzes ao fundo do túnel, reina uma sensação de impotência perante o estado das coisas…
Que raio de tempos estes!!!

A questão no entanto é que, gostemos ou não, são os “nossos tempos”  e bitching about it  não só não resolve absolutamente nada, como nos distrai da nossa própria vida, que é aqui e agora.
As pessoas lamentam-se, queixam-se, indignam-se, revoltam-se, de forma tão envolvente que se esquecem que, enquanto o fazem, os relógios não param. As horas, os dias, as semanas, vão passando, esteja em que estado estiver o mundo à nossa volta.

“…SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR, CORAGEM PARA MUDAR AS QUE POSSO E SABEDORIA PARA PERCEBER A DIFERENÇA...”

Não precisamos de gostar, de apoiar ou aplaudir, o mundo em que vivemos.
Podemos tentar fazer o que estiver ao nosso alcance, esforçar-nos por dar o nosso contributo, seja lá ele qual for, para colaborar na sua melhoria.
Não devemos, sem dúvida, fechar os olhos ou compactuar com que consideramos errado.
Podemos seguir o lema “quem não está bem, muda-se” e procurar pastos mais verdes.
O que não serve garantidamente de nada é desgastarmo-nos, deixarmo-nos consumir pelo o que não podemos mudar.



São as pequenas coisas da vida, os pequenos prazeres, as pequenas alegrias, que nos vão dando força e ânimo para enfrentar as agruras e provações do dia-a-dia. 
O quadro geral pinta no entanto de tal forma o nosso espírito de negro, que nos tolda a visão, fazendo com que não as consigamos ver, o que faz com que nos sintamos a sobreviver, mais do que a viver.

O actual negativismo generalizado mina as relações humanas, faz com que as pessoas não apreciem realmente os momentos que passam juntas. Transforma encontros potencialmente agradáveis em concertos de carpideiras. Em vez de partilhar sensações agradáveis as pessoas trocam queixas e lamurias.

A realidade minha gente é que, pelo menos nesta vida, não vamos voltar a ter oportunidade de reviver os momentos que perdemos hoje.
Tic Tac, Tic Tac, o relógio avança e o tempo escasseia.
Os sorrisos que não distribuímos, os pores do sol que não vemos, as musicas que não trauteamos, por estarmos macambúzios, já eram, já foram, já não voltam.
Se tudo é mau, se tudo é feio, se já nada presta, que razão temos para viver?

Ou redescobrimos as pequenas coisas que nos aquecem o coração, que nos fazem sentir que a vida vale a pena ou, se não tivermos desistido antes, um dia acordamos e damo-nos conta que esta acabou por se transformar num oprimente azedume, ao qual poderemos provavelmente agradecer o cancro, o avc, o enfarte, que nos levará desta espera-se que para melhor.

Be Happy, it’s a choice! ;)

COM MUSICA

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Tempo



Durante a juventude, o tempo não é assunto em que muito pensemos. A partir do momento em que nos damos conta que provavelmente já teremos mais pelas costas do que pela frente, não só ganha bastante importância como passamos a considera-lo de forma totalmente diferente.
Ao tomarmos realmente consciência da nossa própria mortalidade, apercebemo-nos que o tempo que achamos que potencialmente ainda temos é “na melhor das hipóteses”. Passa assim de repente a fazer muito mais sentido o “vive cada dia como se fosse o último” do que quando ainda nos sentíamos imortais.

Quando a malta mais velha diz que já não tem “paciência” para isto ou para aquilo, julgo que o que quer geralmente dizer é que já não está disposta a gastar o seu precioso tempo com isso. Quando um bem se torna escasso tendemos a poupa-lo.
Quando somos novos vamos a todas, queremos fazer tudo, experimentar, testar… ao longo dos anos vamo-nos tornando mais selectivos.

Julgo que qualquer um de nós, a determinada altura, pensou “e se o tempo pudesse voltar para trás, se eu pudesse regressar à minha juventude…”, o que faríamos diferente?
Se soubesse o que sei hoje, teria garantidamente dado outro rumo à minha vida. Teria feito coisas que já não me sinto com ânimo ou sequer vontade de fazer. Teria tomado decisões muito diferentes de algumas que tomei, dado muito mais atenção a determinados aspectos e questões.
Then again, foi exactamente por não o saber que tive a experiência de vida que tive, que me conduziu ao que sou hoje. Somos o resultado das nossas vivências, dos nossos erros, dos nossos sucessos.

Contrariamente ao dinheiro por exemplo, o nosso tempo é finito, nunca cresce só encolhe, conforme vai passando vai restando sempre cada vez menos. É portanto fundamental que saibamos geri-lo, organiza-lo, destina-lo, da melhor forma possível, para que não seja esbanjado.
Também não é elástico, embora às vezes possa não parecer uma hora tem sempre sessenta minutos e um dia vinte e quatro horas … quando afirmamos não ter tempo para alguma coisa é simplesmente porque o utilizámos noutra. É tudo uma questão de escolhas e prioridades, embora nem sempre tenhamos noção disso.

Da mesma maneira que o que decidimos fazer com o nosso tempo é importante, também a forma como nos sentimos ao fazê-lo o é. Se fizermos alguma coisa supostamente agradável com um estado de espírito negativo, dificilmente a poderemos apreciar em pleno.  
Torna-se assim igualmente importante aprender a gerir os sentimentos, no sentido de cultivar e desenvolver os que são positivos, nos fazem sentir bem e afastar os que de alguma forma nos incomodam ou atormentam, para que o tempo de que dispomos seja vivido com qualidade e prazer.

Aos poucos vamos ganhando a noção de que, por muito que as quiséssemos imediatamente resolvidas, há coisas relativamente ás quais é mesmo preciso “dar tempo ao tempo”.
A vida não é um pacote “instantâneo” ao qual basta juntar água, nem uma planta cresce num dia, nem uma ferida se cura.

Por outro lado, há coisas que se desenvolvem e outras que atrofiam, golpes que deixam marcas e outros que desaparecem. O turbilhão de emoções que as vivências às vezes provocam, não nos permite aperceber no presente do verdadeiro impacto que terão na nossa vida, que só com o recuo conseguimos realmente avaliar.
Quantas vezes esquecemos coisas que pareciam na altura de uma importância vital ou pelo contrário continuamos, muitos anos volvidos, a sentir dor ao pensar noutras.

Uma coisa é certa, o tempo não pára nem volta para trás, mal ou bem o que está feito está feito. Quanto ao que não está, quem sabe se ainda haverá tempo de o fazer, mais vale portanto “não deixar para amanhã o que podemos fazer hoje”… ;)




COM MÚSICA

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Quanto mais conheço os homens...


“Quanto mais conheço os homens, mais estimo os animais.”
Por muito que adore os últimos, não consigo subscrever esta afirmação.
A relação com os bichos é sem dúvida mais simples, mais fácil de compreender, mais fácil de gerir. A relação com os homens é no entanto, a meu ver, muito mais rica e vale a pena o esforço.

Uma das coisas de que me apercebi nos últimos tempos, foi da sua real importância na minha vida.
Na fase “da caverna”, por que passei recentemente, senti necessidade de me afastar um pouco de tudo e de todos, de me virar mais para mim própria, de forma a recuperar coesão interior.
Quando comecei a sair dela dei-me conta da enorme falta que me tinha feito o calor humano.

Em tempos “acusaram-me” de ter medo de “ficar sozinha”. É bem verdade, não fora a parte do medo, não quero de forma alguma sentir-me só. Quero manter à minha volta uma rede de amor e carinho, de companheirismo, de partilha de vida, pois é uma enorme fonte de energia positiva.
Não tenho no entanto qualquer medo, pois se há coisa que podemos controlar na vida é a nossa relação com os outros.
Não quer isto dizer que esteja exclusivamente nas nossas mãos manter esta ou aquela pessoa ao nosso lado, há sempre quem nos escape por entre os dedos. É no entanto a nós que cabe gerir as relações humanas em geral e compreender o que delas esperamos.

Dei-me conta, ao fim de quase meio século, de que tinha uma ideia romântica e utópica sobre este assunto. Compreendi que acreditava que as coisas funcionavam só por querermos muito que assim fosse, que julgava que as relações se mantinham só por as pessoas gostarem umas das outras.

Descobri agora, num daqueles clics que se dão de vez em quando, que há muitíssimas mais “gradações de cor” nos seres humanos do que parece à primeira vista.
Há diferenças físicas que saltam à vista, é baixo, é magro, é ruivo, é preto… já outras poderão ser menos evidentes, é daltónico, é canhoto, é diabético.
O mesmo se passa com o “ser interior” de cada um, suspeito que com maior diversidade ainda, dado que intelecto e emotividade são mundos vastíssimos.

Retomando brevemente a ideia com a qual iniciei este post, chego hoje em dia tristemente à conclusão de que há, efectivamente, gente que “não presta”.
Não presta, no sentido em que passa por este mundo e, quando o abandona, faz falta a muito pouca gente. São pessoas com quem o contacto raramente traz algo de positivo, de construtivo, de significativo. É uma pena, mas ninguém pode nada por elas, cada um faz a cama em que se deita.

Dito isto, as relações humanas sendo tão preciosas, não são no entanto fáceis, não senhores, e a tal diversidade não ajuda. Sendo que, curiosamente, parecemos ter mais facilidade não só em identificar, como em aceitar e respeitar as diferenças físicas.
Se na juventude, sendo uma fase de experimentação, “tudo o que vem à rede, é peixe”, a partir de certa altura, tendemos a procurar desenvolver relacionamentos com quem tenha minimamente a ver connosco, o mesmo tipo de postura na vida, de forma a facilitar a harmonia, evitar conflitos e trocar energias positivas.

A questão é que cada ser humano é a soma de uma multitude de pequenas e grandes características em permanente mutação. Assim, as diferenças acabam frequentemente, mais cedo ou mais tarde, por gerar dificuldades de relacionamento.
Ou seja, antiguidade, proximidade, intimidade, não são de forma alguma garantia de sucesso numa relação.

Para conseguirmos manter relacionamentos saudáveis temos de começar por justamente aceitar e respeitar as diferenças.
Por ter a humildade de compreender que a “nossa maneira” não é “a única maneira” de ver e viver a vida.
Temos tendência a julgar os outros pela nossa bitola mas, se pensarmos bem, isso é de uma prepotência incrível, como se nos considerássemos um instrumento de medida infalível.
Na realidade talvez não devamos sequer julgar, mas simplesmente compreender se nos interessa confraternizar com essas diferenças.

Gostos em comum, ideias partilhadas, hábitos semelhantes, capacidades equivalentes, não fazem seres humanos iguais. Há uma quantidade infinita de diferenças entre nós, e ainda bem porque é preciso gente para tudo.
O que me parece realmente importante, aquilo que faz com que valha a pena investirmos numa relação, é que as pessoas se sintam bem umas com as outras, ao perto ou à distância, durante mais ou menos tempo, com maior ou menor frequência.

Pouca coisa chega aos calcanhares de uma boa relação com um bom ser humano.



COM MÚSICA

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Up we go...


Estou de volta, ainda “de muletas” mas com uma que outra ideia para partilhar… ;)

Não sei se há quem passe pela vida sem crises, eu tenho-as ciclicamente, tendo esta provavelmente sido a mais difícil e violenta de todas.
Apesar do sofrimento que provocam, de cada uma saí a sentir-me fortalecida e mais serena. Se calhar precisamos delas para fazermos um ponto da situação com a vida, ajustar e rectificar o que já não está a funcionar.

Peço desculpa a quem preocupei com o meu estado de espírito dos últimos tempos mas, por uma questão de auto-preservação, a partir de certa altura pareceu-me fundamental divulga-lo.
Quando alguém está fisicamente mal, quando está doente ou sofreu um acidente, os outros têm-no em conta na interacção com essa pessoa. Os males da alma não são tão evidentes mas podem ser igualmente incapacitantes.
Ao po-lo a nu estava simplesmente a tentar evitar que esperassem ou pedissem de mim coisas que não me sentia de forma alguma com forças para fazer.

Pela mesma razão, tive durante uns tempos de por muita coisa em standby.
Quando a energia é escassa temos de a reservar para o que é vital, de a poupar para tudo aquilo que não podemos deixar de fazer.
O pouco que sobra servirá para nos voltarmos a por em pé e, se desperdiçarmos forças em coisas triviais, demoraremos muito mais tempo a conseguir fazê-lo.

Conforme ia escorregando lenta mas seguramente para o fundo do poço, cometi o grave erro de menosprezar a força maléfica da menopausa.
A realidade é que, destas 34 maleitas potencialmente relacionadas, eu já me deparei com 22… ah pois… :(
Manda abaixo, acreditem, manda abaixo e de que maneira.
No que diz respeito aos factores físicos, por muito incómodos e desagradáveis que possam ser, há que ter em conta que não passam exactamente disso, de maleitas. Se pensarmos no sofrimento extremo que espreita a cada esquina, só podemos concluir que “todos os males sejam estes”…

Infelizmente, o desequilíbrio hormonal que a desgraçada provoca, tende a bloquear qualquer tipo de pensamento positivo do género. Corrói a auto-estima e a auto-confiança e transforma o mundo num local soturno e aterrador aos nossos olhos.
Ter revisto recentemente “Uma mente brilhante” ajudou-me bastante a esse respeito. Pensei que se o John Nash conseguiu dar a volta á sua esquizofrenia raios me partam se eu não consigo controlar umas reles hormonazinhas aos pulos.
Decidi assim voltar a dar uso a um órgão adormecido durante algum tempo, o cérebro.

Dei-me conta, no meio da tempestade em que tenho vivido, que todos estamos definitivamente interligados, que os seres humanos não passam no fundo de uma gigantesca teia.
O que se passa com a vida dos outros, tudo aquilo que supostamente nem sequer tem nada a ver connosco, a forma como resolvem as suas questões, as decisões que tomam, as opções que fazem, acabam na realidade muitas vezes por nos afectar sim, directa ou indirectamente, com mais ou menos intensidade, de forma positiva ou negativa.
É no entanto importante que compreendamos que não deixa por isso de se tratar da sua vida, sendo eles livres de agir como bem entenderem. Quanto a nós, resta-nos apreciar o que de bom daí advier e protegermo-nos contra o que nos possa eventualmente fazer mal.

Consegui também interiorizar que cada um tem as suas prioridades na vida.
Podemos não compreender as dos outros, não as partilhar, não as subscrever mas, concordemos ou não, não nos cabe a nós valida-las mas simplesmente respeita-las e aceita-las.
Todos vamos evoluindo e eventualmente alterando essas prioridades, o que pode potencialmente gerar uma reciclagem de relações. Não faz qualquer sentido agarrarmo-nos com unhas e dentes ao que foi, há que se adaptar ao que é.

A maior parte de nós, nasceu e cresceu num mundo aparentemente muito mais cor-de-rosa do que o actual. Infelizmente não acredito que seja uma cor que se volte a ver tão cedo…
Bem jogadinho, se o bicho homem souber fazer bem as coisas, talvez os nossos netos ou bisnetos voltem a ter vidas simples e despreocupadas.
Mas para isso não podemos nós enfiar a cabeça na areia como a avestruz, só porque estes tempos são duros de viver. Antes pelo contrário, cabe-nos ir plantando as sementes de um mundo melhor, ir tratando do jardim, mesmo se neste momento não está bonito nem de vivência agradável.

A vida não está fácil para ninguém e facilmente se entra em desespero. Sentimo-nos esmagados pelo peso dos problemas e das dificuldades. Não vemos saídas, não encontramos soluções, o futuro é um gigantesco ponto de interrogação. Tudo isto é muito assustador.
Acredito no entanto que nada de bom nos aconteça enquanto tivermos um espírito negro e negativista.
Primeiro há que levantar o astral e depois arregaçar as mangas.
E sobretudo ter sempre presente que acima das nuvens o céu está azul e o sol brilha.


PS: A Sopa faz hoje 7 aninhos… ieye…
  

COM MÚSICA
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quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Reaprender a andar…



Nos últimos tempos, por circunstâncias da vida diversas, tenho perdido pessoas importantes para mim, mais do que possam imaginar, e sem as quais me custa viver.
Ei de conseguir resolver internamente a questão e ultrapassar a perda. Parece no entanto que o nosso cérebro já está formatado para libertar quem morre, por aceitarmos ser o destino final da vida, mas tem bastante mais dificuldade em deixar ir quem segue um caminho diferente.
Descobri também que relações que julgava serem uma coisa afinal eram outra. Que algumas que gostaria que fossem de certa maneira dificilmente alguma vez o serão. Estou rodeada de relações familiares extremamente complicadas. A minha própria relação esteve por um fio.
Nenhuma destas situações mata mas, sobretudo em conjunto, moem muito.

Há cerca de ano e meio que deixei de fumar (não há um dia em que não me apeteça um cigarrinho) e mais ou menos seis meses que entrei na pré-menopausa.
Esta última mói-me completamente o juízo. Sinto-me, por uma ou outra razão, em permanente mau estar físico. Põe-me também as hormonas aos pulos, descompensando-me emocionalmente.
Para além disso, está a transformar numa tarefa hercúlea perder os dez quilos que ganhei quando deixei de fumar, que me incomodam por demais.

A nossa situação financeira é alarmante. Tenho conseguido aguentar as pontas mas o futuro, o mês que vem, o dia de amanhã, é uma incógnita.
Esta constante luta pela sobrevivência, o estado de alerta permanente , o gigantesco ponto de interrogação que escurece o horizonte, tudo é extremamente angustiante. Tudo está em jogo, de um dia para o outro tudo pode mudar… previsivelmente para pior.
Por outro lado, dar-me sequer ao luxo de me queixar da situação quando, mal ou bem, continuo a conseguir assegurar todos os bens essenciais para a família, até me faz sentir mal. Quando sabemos das histórias de que todos sabemos, da miséria humana que mora em cada esquina, do desespero de certas pessoas, sentimos que não temos o direito de gemer.

Last, but not least, muito daquilo em que acreditava, está actualmente a ser posto em questão. As regras, se é que ainda existem regras, estão a mudar e não estou familiarizada com elas. Os princípios segundo os quais vivia parecem já não estar em vigor, quase ninguém já os pratica. 
Não posso ser prepotente ao ponto de achar que eu estou certa e o resto do mundo está errado, não teria essa arrogância.
Não consigo no entanto deixar de acreditar que determinadas coisas, posturas, atitudes, acções, são positivas e que, se todos as adoptássemos, o mundo seria um sítio melhor.

Tudo isto (e mais alguma coisa) me desgasta enormemente. A minha auto-estima anda pelas ruas da amargura. Já nem comento a auto-confiança, abalada até aos alicerces por tanta provação
Estão a ver aquele plano comum nos filmes… de alguém que está quase a perder os sentidos por alguma razão... do ponto de vista do próprio? Aquelas imagens que começam por ficar desfocadas… depois entre cortadas por piscadelas de olho… até que desaparecem de vez, num fade-out para preto?!
É como me tenho sentido.
Isto é um sentimento muitíssimo perigoso e falo com conhecimento de causa. É imprescindível resistir-lhe. A dormência e a exaustão causadas por um excesso de pressões externas leva à tentação pelo abismo.
A depressão vem quando menos se espera e esta faz o mesmo efeito no salto da vida que um pára-quedas enrolado sobre si próprio.

Tudo tem remédio, é a primeira coisa em que acredito mas que tive de me obrigar a relembrar. Everything will be ok at the end, if it’s not ok, it’s not the end…
Assim, levemos um dia de cada vez, enfrentemos cada dificuldade conforme se nos for apresentando, passo a passo, degrau a degrau, sem olhar para o todo para não nos assustarmos.

Depois… há que reaprender a viver, tal como após uma questão física temos de reaprender a andar.
Há que rever valores e princípios, relações e hábitos de vida.
Há que analisar o mundo em que vivemos e separar o trigo do joio. Aquilo que, apesar de nos custar a habituar, até poderá ser benéfico, daquilo que acreditamos do fundo do coração estar certo e de que nos recusamos terminantemente a abdicar.
Há que por coisas em questão, sem disso fazer um bicho-de-sete-cabeças ou entrar em parafuso.
Roma e Pavia não se fizeram num dia… há que dar tempo ao tempo, ir com calma, com perseverança, com paciência.
Há que nos permitirmos demorar, fraquejar, chorar… sem por isso desistir.
Mudam-se os tempos mudam-se as vontades… parar é morrer.

O mundo está cheio de estropiados.
Esta é a minha história, são as minhas questões, cada um terá as suas.
Acredito no entanto que, a maior parte de nós, esteja a precisar de uma boa dose de adaptação, de revisão de vida.
Temos de estar conscientes que esta está nas nossas mãos, que cada um dorme na cama que faz.

Dizem-me para deixar andar, para não pensar nisso, para não me preocupar que tudo passa… mas eu não quero que passe, não quero que a vida passe por mim.
Quero vivê-la intensamente a cada momento, mesmo os menos intensos, não quero zombificar.
Para isso não posso baixar os braços. Sem stress e dando tempo ao tempo, preciso de me ir moldando aos tempos e à realidade que vivemos.







COM MÚSICA

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Estranhos tempos…



Dias complicadinhos estes, hein?!
Farto-me de pensar na má sina das crianças de hoje, que desde cedo têm de enfrentar uma realidade tão mais pesada do que a que nós vivemos.
Este mundo está um caos!!!

Mais do que financeira ou política vivemos, na minha opinião, uma gravíssima crise humana, de princípios e valores.
Sinto actualmente, socialmente falando, um grande desconforto.
Por um lado, cada vez mais sinto que não domino as regras, se é que ainda existem algumas.
Por outro, sinto o calor humano a ficar cada vez mais ténue, que nem fogueira da qual já só restam brasas.
É uma questão de tal forma generalizada, abrangendo tantos indivíduos, de todas as áreas, que se torna impossível fazer cortes” em nome da “boa onda, que é como quem diz, para fugir a isto, teria de virar eremita.

O politicamente correcto, que não passa, na minha opinião, de um medo absurdo de chamar os bois pelos nomes, transforma os homens em seres sonsos e hipócritas.
Se dantes alguns não tinham o mínimo tento na língua, o mais pequeno respeito pelo próximo, dizendo tudo o que lhes passasse pela cabeça sem pensar duas vezes, temos  hoje em dia de pensar vinte vezes antes de abrir a boca para não nos arriscarmos a ser apedrejados.
O mesmo se passa relativamente aos actos. Se antigamente era o vale tudo, vigora agora o não se pode nada. Noutros tempos os pais davam tareias de cinto ás crianças, hoje, nalguns países, arriscam-se a ficar sem elas se lhes derem uma palmada no rabo.
Passou-se no fundo do oito ao oitenta, de um extremo para o outro, sem passar pelo bom senso.

Os extremismos fazem-se aliás sentir em todos os campos, a moderação não estando nitidamente na ordem do dia. Religião, política, ecologia, sexualidade, são estandartes que se empunham cegamente. As pessoas vestem-lhes as camisolas, de cores de tal forma berrantes, que se torna impossível ver para além delas.
Reinam a intolerância, a intransigência, o fundamentalismo, a ideia de que quem não está connosco está contra nós. Comer um bife ou fumar um cigarro ao ar livre podendo hoje em dia ser considerados actos de agressão.

Os novos canais de comunicação ajudam enormemente este abraçar de causas, de ideias, de ideologias, está ali tudo à mão, à distância de um clic. Tornam muito fácil e acessível a qualquer um a divulgação de tudo e mais alguma coisa. Pena é que haja sempre tanta distância entre a teoria e a prática, que tenhamos entrado nesta era do falar muito e não fazer nada, que no fundo de tão pouco serve. Vivemos tempos de extremo individualismo em que as boas intenções raramente passam disso mesmo.

Assistimos a uma total desresponsabilização do indivíduo. Se fez algum “mal” a culpa é dos pais, da escola, do sistema, dos traumas, do tempo… dele não será certamente. Todos os comportamentos aberrantes são etiquetados de algum nome pomposo e ai de quem lhes aponte o dedo pois são “doença”.
Desapareceram as normas de conduta sólidas e fiáveis para distinção do bem e do mal, do justo e do injusto, as pessoas andam baralhadas, confundidas, perturbadas.
Os pais desresponsabilizam-se do papel de educadores, de guias, de exemplo. Não querem fazer o inevitável papel de “maus da fita”, não querem que o pouco tempo que passam com os filhos seja a implicar com eles. Mais assustador ainda, muitos deles nem saberão provavelmente sequer como fazer, o que dizer, como os dirigir e em que sentido, sentindo-se eles próprios completamente perdidos.

O resultado de tudo isto são homens e mulheres cada vez mais virados para o seu próprio umbigo, que se estão cada vez mais a cagar para o próximo, senão na teoria pelo menos na prática.

Pessoalmente ressinto-me de tal forma deste estado das coisas que frequentemente considero “go with the flow”, desistir de lutar por tudo aquilo que considero correcto e/ou desejável.
É tão difícil e cansativo remar contra a maré…
Felizmente, de cada vez que isso acontece alguém, directa ou indirectamente, me põe na ordem, relembrando que se há coisa que não podemos fazer é baixar os braços e encolher os ombros.
Aqueles que acreditam que, por baixo de toda esta fuligem negra que nos envolve, há ainda esperança para o género humano, para a “humanidade”, têm a obrigação de lutar com todos os meios à sua disposição para que esta vingue.

Se deixarmos de tentar “ser a mudança que queremos ver no mundo” não podemos esperar que ela aconteça.




COM MÚSICA
The Doors - Strange days

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Quanto mais sei mais sei que nada sou



Quando somos pequeninos julgamo-nos o centro do universo.
Bem, alguns continuam a julga-lo ao longo da vida, mas esses vá lá alguém desengana-los. ; )
Enfim… conforme vamos crescendo vamos levando umas porradas da vida, que é para nos por no nosso lugar. Lugar esse que ambicionamos no entanto que seja de relevo. Quem não gostaria de se poder gabar de ter acabado com a escravatura, inventado a vacina contra a raiva ou desenvolvido a teoria da relatividade?! Quem não gostaria de deixar a sua marca na história da humanidade? Aspiramos a fazer de alguma forma a diferença, para que a nossa vida tenha sentido.

Quando estamos em casa somos bairristas, conforme nos vamos afastando sentimos que pertencemos a uma cidade, um país, um continente, um planeta… ainda ninguém se afastou o suficiente para sentir que pertence a uma galáxia mas talvez se lá chegue um dia, quem sabe.
E conforme vamos fazendo zoom out, em sentido próprio ou figurado, vamo-nos reduzindo à nossa insignificância.

Por muito que isso possa custar ao nosso ego engolir, ninguém tem na realidade importância nenhuma, se olharmos para o “big picture”.  As personagens da história vão-se sucedendo e o mundo continua. Vendo com o devido recuo, no espaço e no tempo, ninguém o mudou, ninguém o alterou significativamente, ninguém fez realmente a diferença.
Somos como pequenos grãos de areia numa praia, á distância todos iguais.

O primeiro contacto com esta ideia, com esta noção, é um bocado deprimente e desmoralizante.
Acontece que, da mesma forma que um grão de fina areia branca numa praia de calhaus não a vai tornar mais confortável, um calhau numa praia de fina areia branca não vai incomodar.
Ou seja, o que interessa é o conjunto e o que é realmente importante não é sobressair mas integrar-se.

E aqui entra uma das minhas máximas preferidas; “You must be the change you want to see in the world.
Peço desde já desculpa pela assumida cagonice mas ainda não encontrei (nem consegui fazer) uma tradução que me soasse bem, se alguém tiver dificuldades em perceber pode sempre usar o Google Translate.
Não é na realidade com grandes feitos, que entenda-se não estou de todo a menosprezar, que o mundo vai mudando mas sim com a soma de todos os actos e posturas individuais.

Cada um de nós é responsável pelo destino do mundo através do exemplo que dá, das atitudes que toma, dos princípios que transmite. Não são só aqueles que “ficam para a história” que são importantes, importantes somos todos nós, pequenos grãos de areia. Todos sem excepção contribuímos para o tipo de praia que formamos. Mais importante do que eventuais grandes feitos é esforçarmo-nos por ser aquilo que gostaríamos de ter à nossa volta.

Se vivermos com integridade e coerência, não fazendo aos outros o que não gostaríamos que nos fizessem a nós, agindo o mais possível da forma que consideramos correcta, mesmo que nem sempre seja a mais fácil ou agradável, se transmitirmos estas noções aos nossos filhos, aos nossos amigos, a todos aqueles com quem interagimos, iremos garantidamente mudar o mundo, mesmo não sendo ninguém.





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America - A horse with no name

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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

El condor pasa...

Irina Werning - Back to the Future

Nascer, crescer, envelhecer, morrer… é a sequência natural de qualquer vida.
Estou de acordo com o Woody Allen, que esta seria provavelmente mais simpática vivida ao contrário, envelhecer é sem dúvida chato.
Then again, como dizia The Body, “considerem a alternativa”…

Temos, ou pelo menos eu tinha, a ideia de que tudo isto se passa progressiva e linearmente.
Desde que o meu filho nasceu que tenho vindo a constatar que é uma noção completamente errada, tudo se passa na realidade aos pulos, tanto física como intelectualmente.
Roupa que lhes serviu durante meses fica, de um dia para o outro, uma mão-travessa mais curta. Os gugu dadás parece que passam de repente a frases compostas. Não se nota qualquer progresso durante uma série de tempo e, subitamente, temos de lidar com uma realidade completamente diferente.
Aos poucos vamo-nos apercebendo de que isto se passa relativamente a tudo, eventualmente a um ritmo diferente, mas com o mesmo tipo de degraus.

Ao longo deste último ano, talvez por ter entrado na pré-menopausa, talvez por causa dos muitos quilos de “já não fumo” que penosamente arrasto por aí, ou simplesmente porque o tempo passou sem me avisar, levei nitidamente aquilo a que os franceses chamam “un coup de vieux”… já ando a sentir-me cansadota e um bocado como o condor, com dor aqui, com dor ali…

Um dia destes, na rádio, mencionaram uma “senhora de meia idade”… era mais nova do que eu. lol
A esperança média de vida em Portugal ronda hoje em dia os oitenta anos, para as mulheres. Para os homens cerca de meia dúzia deles a menos, deve ser por causa do que lhes infernizamos o juízo… hehe
Ora oitenta a dividir por dois dando quarenta, se a matemática não me falha que fiz a conta de cabeça, já ultrapassei mesmo a tal meia idade, indo alegremente a caminho da terceira, e não estou a falar da ilha. ;)

Dei no entanto por mim, este verão, vejam lá vocês o disparate, deliciada na observação do fenómeno idade.
Tive a sorte, a  vontade, a capacidade, de aqui chegar rodeada de amigos de longa data, alguns dos quais conheci quando eram ainda jovens adolescentes, da idade do meu filho. 
Este ano, na praia, dei-me conta de que fazíamos já parte dos mais velhos.
Comecei a observar-nos mais atentamente e senti-me enternecida pelas carecas, as brancas, as rugas e as barriguinhas. No nosso grupo já não há boazonas nem garanhões, já só resta gente, que vale o que vale pelo que é, e não pelo que faz ou aparenta.

Já não tenho “pedalada” para muita coisa, ao mais pequeno excesso parece que levei uma tareia e levo infinitamente mais tempo a recuperar, é certo. O corpinho está-se a ir, em mais do que um sentido, lenta mas seguramente.
Perante esta evidência posso revoltar-me ou aceita-la como parte inevitável do percurso e adaptar a vida à nova realidade.

Há tempos, numa comparação de mães, alguém dizia: “não, a minha não se sente velha nem cansada, mas também não faz nada que não sinta que seja adequado á sua idade.”
Sábia senhora…
O erro é pedirmos aos nossos corpos e cérebros que se comportem e reajam como se tivessem não sei quantos anos a menos. Compararmo-nos e querermos ter a mesma vida que a malta mais nova. Recusarmo-nos a aceitar que, da mesma forma que no início “ainda não” podíamos/conseguíamos fazer determinadas coisas, para o fim “já não” vamos podendo fazer outras.
 Isto não quer dizer que não continuemos a ter acesso a mil e uma fontes de alegria e prazer, não são melhores nem piores, como dizia a minha professora de história da arte, são diferentes.

Uns partem na flor da idade, outros arrastam-se por cá até à decrepitude. Nenhum de nós sabe o que irá determinar o seu último suspiro. Podemos só esperar não pesar a ninguém, não sofrer nem fazer sofrer demasiado.
No entanto, minha gente, enquanto as maleitas não forem males, enquanto formos donos e senhores dos nossos corpos, das nossas mentes e das nossas vidas, tiremos proveito do que a experiência dos anos nos trouxe e apreciemos o que é, em vez de carpir sobre o que foi…


COM MÚSICA




domingo, 11 de agosto de 2013

Amar a vida



Que me perdoem aqueles que me estão a ler e que neste momento, por alguma razão, estão em sofrimento.
Que me perdoem os que estão doentes ou têm alguém próximo que esteja, os que perderam um ente querido, por morte ou separação. Que me perdoem os que ficaram sem emprego, os que estão em extrema dificuldade financeira, os que tiveram de abandonar o seu pais e as suas pessoas para lutar pela vida. Que me perdoem aqueles que acham que como o país, o mundo, a espécie humana, estão em crise profunda, temos a obrigação de nos sentir infelizes.
Eu sou feliz e neste momento sinto-me muito bem! :)

Acabei de regressar de férias e volto de barriga cheia.
Passei nos últimos tempos por períodos muito difíceis, muito complicados e é espectável que volte a passar, num futuro mais ou menos próximo. Algumas das pedras do caminho consigo já antever daqui, outras me surpreenderão.
Amar a vida é no entanto exactamente como amar alguém, não podemos esperar que nos esteja sempre a sorrir.

As agruras espreitam a cada esquina, pelo que sou apologista do “enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”.
Acabei de chegar, recauchutada por orgias de sol e amizade, em companhia dos meus mais que tudo. Tenho a pele dourada a expelir calor e os músculos agradavelmente doridos dos passeios na praia. Volto para o meu pequeno paraíso privado, onde tenho o barulho da água a correr e o cheiro a flores como pano de fundo enquanto vos escrevo. Trouxemos recuerdos das férias,  pequenos pedaços da alma das falésias, que vieram ainda mais embelezar o lar que tanto apreciamos.
Começamos agora a combinar os próximos encontros e “brincadeiras” (mentes porcas abstenham-se de pensar), com a família e amigos que também, já ou ainda, por cá vagueiam. A vida, por ser verão, está neste momento a meio gás. O apoio e companhia ao filhote, que se impõem nestas alturas, fazem com que passe uma série de coisas para prioridade dois.
Sinto-me neste momento completamente apaixonada pela vida.

Quase que hesitei no entanto em escrever este post.
Ás vezes sinto uma espécie de “vergonha”, actualmente não é nada bem visto dizermos que nos sentimos bem, é como se entrássemos em pelota num baile de gala, fica tudo a olhar escandalizado.
“As coisas” estão mal, nós também temos de estar. Há outros a sofrer, nós também temos de nos agarrar, de unhas e dentes, a tudo aquilo que possa de alguma forma interferir com a nossa felicidade, para garantir que empatisamos.

Acredito, do fundo da minha alma, que seja necessário um equilíbrio para que o mundo possa continuar. Com toda a merda que anda por aí, se não houver muita energia positiva, acredito que estejamos perante um futuro muito triste, muito sem graça.
Assim, no aqui e agora, que amanhã é um novo dia, acredito em apreciar todos os sorrisos, todas as carícias, todos os abraços que a vida nos queira dar.
Que tristezas não pagam dívidas e a vida é demasiado curta... ;)


Este vai dedicado aos amigos de Porto Covo, que me enchem a vida de sol… ;)

COM MUSICA

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Pertencer



Todos, volta não volta, sentimos que não pertencemos a determinado lugar ou situação…
Eu, por exemplo, vivi cerca de dois anos em França, em Chamonix, lugar de sonho para esquiadores e montanhistas, tendo a nítida noção que, por muitos anos que lá ficasse, nunca me iria conseguir sentir realmente bem.
Mas não tem só a ver com sítios, por exemplo, durante o meu período de Coimbra, fui a uma que outra imposição de insígnias e de cada vez me senti completamente deslocada por entre títulos e doutores.

Há quem tenha espírito nómada, quem vagueie livremente pela vida, sem gostar de criar raízes, ligações fortes a pessoas ou lugares.
Eu gosto muito de “pertencer”, aquece-me o coração, gosto da sensação de conforto e aconchego que advêm de nos sentirmos “em casa”.

Tudo isto é também obviamente válido relativamente às pessoas com quem partilhamos a vida.
O meu “lançador de santolas” gosta muito de afirmar que não alinha em “grupos” (não é esse tipo de grupos…lol) statement que faz com alguma regularidade, fazendo-me pensar no Pinóquio.
A realidade é que a ele (neste caso o nosso grupo de amigos) pertence e se entrega de corpo e alma e o resto é conversa.

Gosto de ter um grupo de amigos, as amizades individuais também são obviamente importantes, mas gosto mesmo de sentir que pertenço a uma matilha.
Os amigos sendo “a família que escolhemos” gosto de ter “aquele” grupo de pessoas com quem vou partilhando tudo ao longo da vida.

Estes grupos vão mudando ao longo do tempo nos indivíduos que os compõem, entrando  uns, saindo outros, voltando alguns, ao sabor dos caminhos que a vida nos apresenta.
Há no entanto normalmente um núcleo duro que se vai mantendo ao longo do tempo, dando estrutura àquele ninho, mantendo-o coeso.

Gosto de continuar a ter ao meu lado aquele careca que conheci de cabeleira afro. De lhe ter conhecido praticamente todas as namoradas,  de poder comentá-las com quem também as conheceu, por exemplo o outro senhor de cabelo ralo que também por cá ainda anda.  
Gosto de ter estado presente quando entraram para a faculdade, quando tiraram a carta, quando se apaixonaram, casaram, tiveram filhos.
Gosto de ter estado lá para os apoiar nos seus momentos mais difíceis e que tivessem estado comigo nos meus. Gosto que tenhamos partilhado ou celebrado juntos todo o tipo de alegrias.
Gosto de rever as mesmas caras nas fotografias, dos casamentos, dos baptizados, dos aniversários, a perder cabelo e ganhar barriga, a acumular rugas e cabelos brancos, mas que para nós, de certa forma, parecem não ter mudado.

Gosto do revirar de olhos geral quando alguém conta pela milésima vez uma história que já todos conhecem. Ou, pelo contrário, quando começamos a completar as histórias uns dos outros, transformando a conversa numa orgia de recordações. Gosto que uns se lembrem de uns detalhes e outros de outros, compondo assim a narrativa. Gosto do facto de nos lembrarmos das mesmas situações, dos mesmos eventos, das mesmas pessoas, quando olhamos para trás.

Gosto que todos conheçam o historial uns dos outros, permitindo assim um relacionamento sem grandes surpresas, em que já se conta com os pontos fracos e fortes de cada um, as suas idiossincrasias, os seus gostos, os seus hábitos.
Gosto que já tenhamos chegado á conclusão daquilo que gostamos de fazer uns com os outros, no nosso caso essencialmente jogar até à exaustão… lol

Gosto que os nossos filhos tenham nascido e crescido juntos.
Gosto de olhar para uma viga de quase dois metros, encartado e com barba, e pensar que ainda ontem estava a mandar bolas para cima do nosso tabuleiro de jogo.
Gosto de ver o meu filho a observar as meninas do grupo já com alguma malícia no olhar.
Gosto de pensar que com a idade de alguns deles, já alguns dos pais se conheciam e acho graça a compara-los.

Gosto de ter um número de pessoas que incluo automaticamente em qualquer convite para “eventos” de grupo, sem ter de pensar, sem ter de escolher, aquele que consta, em qualquer telefone, da lista de speed-dial.
Gosto da noção de que alguns dos “satélites” irão seguir o seu caminho como membros integrantes do grupo, deixando ás tantas de ser a namorada do amigo, o amigo do namorado, o amigo da amiga para passar a ser ele próprio.

Sim, assumo completamente, sofro de um complexo de “Amigos de Alex”…
Mas alguém que já tenha experimentado pertencer a uma destas famílias por opção pode afirmar que não é bom?!
Há quem se importe de se sentir integrado num grupo onde as pessoas se conhecem e aceitam tal qual são?
Quem não dê valor a uma continuidade ao longo dos anos, das décadas, das várias fases da vida?
Quem não aprecie o facto de ter a seu lado um punhado de gente unida, que se preocupa e apoia mutuamente, criando uma rede de segurança emocional?

Sim, há lobos solitários… mas o bicho homem foi na sua maioria feito para viver em matilha, para “pertencer”, ninguém me convence do contrário. ;)





COM MUSICA
The Rembrandts - I'll Be There For You

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