quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Here’s looking at you, kid


Não sou daquelas mulheres que se babam com bebés, derreto-me com gatinhos e com cãezinhos, com humanozinhos nem por isso… Começo a achar graça às pessoas quando passam a ser gente, a responder, a dar luta. Mesmo então não gosto de qualquer uma, gosto mais de algumas crianças do que de outras, tal como se passa relativamente aos adultos.
Uma coisa é certa, gosto de pessoas e quando gosto, gosto muito, invisto, entrego-me.

Tive, durante muitos anos, um enorme desgosto… não suportava os filhos de duas das pessoas de quem mais gosto neste mundo, eram invasivos, malcriados, birrentos, intragáveis...
Os pais tinham noção disso mas não conseguiam fazer nada a esse respeito.
Até que um dia, em desespero de causa, decidiram arregaçar as mangas e meter-se num curso de “competências parentais”… Inútil será dizer que foram gozados até à medula por todos nós, que lhes perguntávamos porque tinham de pagar para ouvir o que lhes andávamos a dizer há anos.
Começo, por isso, por fazer aqui um oficial pedido de desculpas, resultou, conseguiram transformar três pequenos monstrinhos em adolescentes encantadores, sem excepções. Tiro-lhes humildemente o chapéu.

Mas a surpresa não se iria ficar por aí… quem havia de dizer que eu, a megera, a aterrorizadora de criancinhas, se iria deixar encantar por um deles?!
Já nem sei bem como tudo começou… foi acontecendo. Quando me apercebi que já não me mexiam com os nervos, passei a conseguir estar descontraidamente na sua presença. Dei-me conta que, em mais do que um sentido, se tinham tornado melhores seres humanos que eu era quando tinha a sua idade. As coisas foram seguindo o seu curso natural e, tendo mandado abaixo a barreira que os separava de mim, fomos começando aos poucos a interagir.

Os putos que nos rodeiam são geralmente os filhos destes ou daqueles, não passam no fundo de apêndices de algum agregado familiar, com quem mantemos uma interacção superficial.
Mas, de vez em quando,  algum  nos dá o privilégio de se transformar, para nós, num indivíduo per se, com quem criamos um relacionamento de um para um, independentemente de tudo o resto. Foi o que aconteceu com uma das miúdas.

Ela não é melhor nem pior do que os outros dois, simplesmente investiu nisso ou talvez seja a mais parecida comigo, a que sente mais empatia. A realidade é que ás tantas demos por nós a ter conversas dignas desse nome, a trocar mails, a partilhar ideias, a fazer coisas juntas…
Céus, como é gratificante fazê-lo com um espírito livre, que ainda não foi moldado pela sociedade, com alguém que ainda não sabendo grande coisa sobre a vida já tem maturidade suficiente para se colocar um montão de perguntas, para por em questão uma série de coisas. Numa idade em que tudo  parece ser a preto e branco acho fascinante introduzi-la aos tons de cinzento, encarar um ser humano em bruto e apresentar-lhe instrumentos para se moldar, para se transformar na obra prima da sua própria vida.

A certa altura falou em modelos, não quero ser modelo de ninguém, não acredito em modelos, acredito em posturas perante a vida. Acredito em vivermos de acordo com os nossos próprios princípios, as nossas convicções, aquilo que para nós faz sentido, interiorizando e aceitando que todos somos diferentes e as nossas escolhas não são mais válidas do que as dos outros. O nosso ser está em permanente evolução, aquilo em que acreditamos hoje pode já não fazer sentido amanhã e quantas vezes não decidimos  que não queremos continuar a percorrer o caminho que seguíamos. Não acredito em seguir as passadas dos outros, cada um de nós deve cometer os seus próprios erros, chegar às suas próprias conclusões.
A amizade, em qualquer idade, ajuda-nos a fazê-lo.

Para a Cat, 
a minha pequena grande amiga






COM MÚSICA

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Coito



Nunca percebi de onde que raio saiu a expressão "estar no coito" que utilizávamos quando jogávamos à apanhada em miúdos... 

Já lá vão dez anos que nos convidam consecutivamente para passar cerca de uma semana em Porto Covo em inícios de Agosto. Acabei de me dar conta que esses dias são o meu coito anual.
(ok, vá, mandem brasa que eu aguento... mas pelo menos sejam originais...) ;)

Todos os anos parto de casa carregando o peso de uma existência complicada, que vou largando pelo caminho. Quando lá chego sinto-me como se de facto, nesse coito, nada de mal me pudesse acontecer, a vida real não me pudesse apanhar.

Ao longo dos tempos tem aumentado a minha capacidade de me distanciar pontualmente de chatices e preocupações. Há muito que cheguei à conclusão que, enquanto fingimos que está tudo bem, tudo parece efectivamente estar bem. Durante aqueles dias, mais do que em qualquer outra altura, ponho em prática esta ideia.

Dir-me-ão que é justamente esse o conceito de férias mas para mim estas são diferentes de quaisquer outras.
Não se trata só de estar de papo para o ar num dolce fare niente, de me afastar de casa, da rotina do dia a dia ou de fazer uma pausa na resolução de problemas.

Em Porto Covo estou geralmente rodeada da maior parte da família e amigos que me são mais queridos, pessoas que vejo regularmente durante o ano. Poder também com eles partilhar os pequenos prazeres das férias  faz-me sentir bafejada pela sorte.
Mas no que toca a gente, reencontro também muitas caras menos frequentes mas não por isso menos agradáveis, que se têm vindo a transformar no núcleo duro da praia dos Aivados...

De ano para ano, vai-se fazendo história, vão-se partilhando memórias de anos anteriores e criando novas. Constatamos o sempre inacreditável crescimento das crianças, divertimo-nos ás custas do envelhecimento dos crescidos, desenvolvemos novos laços com os mesmos seres. Vão surgindo tradições, sentimos que pertencemos a algo, que mesmo não sendo palpável ou traduzível por palavras, não deixa por isso de existir. E quando falta alguém, faz falta.

Sabem-me pela vida os raios de sol que absorvo de manhã à noite, os grãos de areia no corpo, os passeios à beira mar, a visão das "focas" na água ao por do sol, a reinação do caminho para a praia de jipe... mas não há nada que se compare ao calor humano que se faz sentir, ao companheirismo, ao sentido de humor generalizado, à descomplicação daquela gente, num ambiente "amigos de Alex".

Volto revitalizada, cheia de energia positiva para me ajudar a enfrentar o mundo cão. Bem hajam!








COM MÚSICA

terça-feira, 15 de julho de 2014

Mataspeaks sobre o Livro das Caras, inspirando Sopa de Ideias…


Disclaimer : 
para que conste, esta foto ESTÁ JÁ ONLINE no perfil do blog em questão, 
não devassei a privacidade de ninguém, simplesmente a utilizei com intuitos humorísticos.


Recentemente, um amigo escreveu sobre o livro das caras, no seu blog de linha gráfica mais do que duvidosa… prometi-lhe resposta, aqui vai ela.

Que malta mais “básica” tenha esse tipo de postura,  ainda é como o outro. Agora que uma das pessoas que em maior conta tenho assuma uma visão tão obtusa dos nossos tempos irrita-me, pois irrita… lol
Quer queiramos quer não, quer gostemos quer não, quer aceitemos quer não, a internet chegou para ficar (pelo menos até ao apagão apocalíptico) e grande parte da nossa vida, tanto social como profissional passa já, diria que quase inevitavelmente, por ela!
Perante este facto temos assim à primeira vista duas opções, resistir ou adaptar-nos. À segunda hipótese julgo que costumem chamar evolução…

Nem tudo são rosas no que respeita à Net, tens toda a razão. Dá azo, sim, a abusos e perda de privacidade e não deve de facto estar “acima de toda a suspeita e fora de todo o controlo”. Concordamos nesse ponto.
Daí a dizer que “o Facebook é um planta infestante, uma praga de jacintos-de-água asfixiando valores sociais que demorámos séculos a implantar”… pode ser muito poético mas... vai-te catar, ó meu.

Os utilizadores do Facebook, da Internet em geral, dos telefones, dos automóveis, da roda, são pessoas e como tal utilizam essas mesmas ferramentas de acordo com as suas personalidades. 
Alguns fazem-no de forma duvidosa… culpemos a roda pelo atropelamento.

Certo, tudo tem um lado negro que convém, dentro da medida do possível, minimizar.
No que diz respeito aos automóveis, por exemplo, que concordarás até foram uma invenção fixolas para apareceres por cá de vez em quando, senão tinhas de vir de burro, foi sendo necessário criar regras, aplicar medidas de segurança, etc.

Idiotas, pessoas opinativas e imunes à contra-argumentação, gente frívola, malta que diz uma coisa e faz outra, show-off, sempre houve e sempre há de haver.
Mas não precisamos de comer com elas, sabes… no mundo virtual, tal como no real, há forma de as evitar, só implica darmo-nos ao trabalho de aprender a dominar as ferramentas.
O grande problema, que gera comentários ou posts como o teu, é que poucos se dão realmente ao trabalho de o fazer, acabando por provocar os efeitos de um automobilista ao volante de um carro sem carta de condução. Essa é que é essa… culpem a roda.

Falando concretamente no Facebook, mesmo se, por razões diversas, ás vezes nos sentimos na obrigação de aceitar “amizades” que não nos dizem nem as horas, não temos por isso de levar com o que postam, se chegarmos à conclusão de que não tem geralmente interesse nenhum.
Há um bitãozinho que diz “manda este gajo para o raio que o parta que não estou para o aturar”… e plin, nunca mais nos aparece a trampa que posta e ele nem sequer chega a saber disso.
Fantástico, hein?! Vai lá fazer isso com o telejornal…

A publicidade comes com ela, sim… mas não comes em todo o lado?! Na rua, nos autocarros, nas revistas, nos jornais, na televisão, na radio…
Infelizmente, nesta era de sociedade de consumo temos de aprender a ter visão de raio X, para conseguirmos ver o prédio bonito através do anúncio da Tampax.

Algumas pessoas utilizam mais a internet do que outras. 
Soube de fonte fidedigna que a minha cara metade raramente utilizava o telefone durante a adolescência, a minha mãe teve de por um cadeado no nosso!!!
Verdade, verdadinha… era a password daquela altura e tinha este aspecto.


As “addictions” existem em todos os campos, das drogas aos SMS, da comida ao jogo, do  tabaco ao coleccionismo… Há que tentar geri-las e controla-las com bom senso e, no caso das crianças , com educação.
Não é para isso que servem os pais, para preparar os filhos para o mundo em que vivem?
Alguém está de telefone à mesa?! Se for um adulto, supostamente integrado na sociedade, lamentamo-lo. Se for uma criança, proibimo-lo. Não?!
As regras de boa educação, de respeito e consideração pelo próximo, são coisas boas, coisas importantes. Não são supostas ir para o lixo juntamente com as diskettes velhas só porque agora existem “Clouds”…

Há quem plante quintas virtuais no Facebook. Há quem tire uma tarde para jogar Die Macher. Cada um não é livre de utilizar o seu tempo no que bem entender?
Há quem o perca a cuscar as fotos dos casamentos e das inaugurações, a tentar perceber quem é que “anda com quem”, a engatar virtualmente. Achas que não faziam o mesmo, por outros meios, noutros tempos?!

O Facebook, bem utilizado, não é de todo um entrave ás relações sociais de carne e osso mas sim uma ajuda, uma ferramenta.
Já defendi esta noção num post anterior, a Ana Roque (que, sem ser tão directa, julgo que também te estivesse de certa forma a responder…lol) fá-lo de outra maneira, mas que vai também ao mesmo encontro, neste aqui.

Para além disso tem muitas outras funções…
Tenho imensa pena que não lhe consigas ver nenhum interesse pelo que, para te ajudar, passo de seguida a “partilhar” (faz like!!!) alguns exemplos de coisas que publiquei no meu perfil ao longo dos tempos e que acredito até pudesses apreciar. 
Outros "amigos" teus postarão outras, de outros géneros, noutras ondas, as suas, que também te poderão eventualmente interessar.
É uma questão de seleccionares, como em tudo na vida.

Exposição fotográfica
(alguns partilham as fotos de que se orgulham nos blogs, outros fazem-no no facecoiso...)





Ajuda e/ou divulgação
(própria ou de terceiros, dar uma mãozinha não custa nada...)





Lembretes (como diz a Ana) que considero importantes




Humor
(qual é o interesse da vida sem rir...)
  





E também alguns links...

Fotografias
Questões humanitárias
Publicidade (mas da boa)
Creatividade e tecnologia
Truques
Humor

Eu cá vejo imenso interesse no Facebook, e agora adeus, que tenho de lá ir  fazer share deste post... ;)

Wheels keep turning
Somethin’s burning
Don’t like it but I guess I’m learning

COM MÚSICA





sexta-feira, 27 de junho de 2014

O primeiro a sair


Em tempos que já lá vão, numas férias em grupo, como o são geralmente as nossas, deu-nos para irmos sempre todos ao estacionamento, despedir-nos de lencinho branco de quem estava de partida…
Numa das vezes, estávamos ali todos alinhadinhos abanando os lenços, a ver a miúda de abalada meter consecutivamente a primeira e a marcha atrás, a marcha atrás e a primeira, só me fazendo lembrar a anedocta “Ó Benardooo, o menino ou entra ou sai, mas pare com esse vaivém ridículooo…”
Deixei assim escapar entre dentes um “Chiça, como a gaja guia mal…” ao que sugeriram que esperasse que chegasse pelo menos lá acima ao portão, antes de lhe começar a cortar na casaca…

Isto, no nosso grupo, é o pão nosso de cada dia de cada vez que alguém vira costas, por isso é que ninguém quer ser o primeiro a sair. lol

Lembro-me de outra ocasião, numa passagem de ano bem condimentada, em que uma amiga já acelerada se virou para outro comentando “Ai João Nunooo, a tua camisola… a tua camisolaaa…” – “Oquê que tem a minha camisola?!” – “É horríííveeel!!!”

A diferença entre estas duas situações é que uma das coisas foi dita “na cara” enquanto que a outra foi dita “pelas costas”… nenhuma delas tem obviamente qualquer importância.

Nós fartamo-nos de falar uns dos outros, de criticar, de cagar sentenças sobre o que nos parece bem e o que nos parece mal, de gozar com as idiossincrasias de cada um, etc …
E você, que me está a ler, a não ser que seja marciano, também o faz.
Uns mais, outros menos, mas todos o fazemos, é natural.

Fazê-lo sem a presença do próprio parece no entanto, á primeira vista, um bocado traiçoeiro, desleal… mas será realmente assim?!
Na minha opinião, não obrigatoriamente.

Deixando de parte a fofoca , a maledicência nua e crua ou mesmo nalguns casos mais extremos a calúnia… que mal tem falarmos dos outros?!
A realidade é que, ninguém sendo perfeito, todos temos alguma coisa a “apontar” a terceiros e não vejo qualquer razão para que o tenhamos de fazer “para dentro”.
Partilha-lo tão facilmente nos trás algum gozo trocista, como eventualmente outro ponto de vista sobre a questão.

Pessoalmente, não só sei perfeitamente que falam de mim “nas minhas costas” como até imagino muito bem o que possam dizer… que tenho a mania que sou boa, que tenho um feitio de merda, que fervo em pouca água, que às vezes sou bruta como o raio, que sou maníaca com a organização… etc.
A questão é que é mesmo assim, têm toda a razão, estou bem consciente da maior parte dos meus defeitos, das minhas fraquezas, e todos os dias tento melhorar. Isto não quer dizer que me fosse agradável passar a vida a ouvir dizê-lo.

Na minha opinião, podemos pensar o que bem entendermos sobre os outros, sobre a sua vida, as suas escolhas, as suas atitudes… podemos partilha-lo com terceiros, discuti-lo, critica-lo… no entanto, perante os próprios, só devemos abrir a boca com diplomacia e se acharmos que isso possa ajudar.

Todos temos bugs, fragilidades, incapacidades, defeitos… assim como pontos fortes e qualidades. Acabamos no fundo por ser a soma das nossas características positivas e negativas, o importante sendo o balanço.  
Quanto mais não seja intuitivamente, os outros compreendem e aceitam isso. Por isso falam nas nossas costas, cada vez mais chego à conclusão que, na maior parte dos casos, não é desleal coisa nenhuma, antes pelo contrário, é para nos pouparem.

Ás vezes, temos vontade de dizer umas “verdades”. De vez em quando, o que fazem, o que dizem, o que são, dói-nos de tal forma que nos sentimos impelidos a abrir a boca e deixar sair o que nos vai na alma.
Quanto a mim, sobretudo se gostarmos realmente do indivíduo em questão, devemos tentar resistir ao impulso. Há coisas que as pessoas simplesmente não podem, não conseguem mudar e atira-las à sua cara servirá exclusivamente para as magoar, não para as corrigir.

Nem todas as “verdades” são para ser ditas… pelo menos ao próprio, claro está. lol






COM MÚSICA

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O corte



Hoje vou escrever sobre cortes de cabelo, para a semana sobre unhas de gel e na seguinte discutirei vários métodos de depilação.
Nááá...
lol
Mas o tema de hoje mantém-se. ;)
A vida é feita de pequenas coisas, pelo que preciosas lições se podem retirar de questões aparentemente triviais. Vou portanto aproveitar a minha recente saga capilar para partilhar convosco algumas reflecções. 

Todos temos em casa espelhos deformantes, raramente conseguimos um olhar realmente isento sobre nós próprios. Quando o ego está em alta achamo-nos o máximo, se sofremos de falta de auto-estima começamos a comparar-nos com o Smeagol
A realidade é que as aparências são como os interruptores, umas vezes para baixo, outras vezes para cima. Até as mediáticas beldades têm momentos de fugir, nós é que geralmente não os vemos. 
Dizia Schopenhauer que "a mulher é um animal de cabelos compridos e ideias curtas" o que no meu caso foi uma realidade desde que me lembro de ser gente. 
Bem, pelo menos no que diz respeito aos cabelos. 
Assim, ne me prenant pas pour de la merde (pardon my french) era grosso modo esta a imagem que geralmente o meu espelho reflectia. 



As desgraçadas das maquinas fotográficas começaram no entanto, cada vez mais, a apresentar-me uma realidade bem diferente e bastante menos lisonjeira…


Parece-me fundamental irmos mantendo, ao longo da vida, uma boa noção daquilo que somos, dos nossos atributos, das nossas características, tanto físicas como intelectuais. Essa consciência é essencial para que possamos ir sempre melhorando o que for possível trabalhar. 
Uma das coisas relativamente às quais tendemos a fazer-nos desentendidos é a idade, ninguém gosta de se sentir a envelhecer. Arriscamo-nos no entanto a enfrentar o ridículo se nos recusarmos a assumi-la. 
Uma mulher madura mascarada de Pipi-das-meias-altas é patético. Assim o são aos meus olhos aquelas "Barbies enrugadas" (esta paga direitos de autor) que aparentam ter assaltado o roupeiro das filhas. 
Do mesmo modo, o look Lady Godiva não me parece de forma alguma adequado a aspirantes a velhas. Aliando essa conclusão a uma necessidade de mudança, de perder peso, em sentido próprio e figurado, decidi-me a fazer um corte de cabelo radical. Ou pelo menos julgava eu na altura mas tanta água iria ainda correr... lol
Foi assim com este visual que celebrei o meu quadragésimo nono aniversário. 


Fiquei bastante satisfeita, confesso. O peso que me saiu das costas contribuiu  para me levantar o moral e ajudar a recuperar forças para enfrentar esta vida, que não anda nada fácil. 
Gostei tanto que, pouco tempo depois, toda afoita voltei a cortar...
Foi o primeiro erro. 
Depois de passada a magia do cabeleireiro, o comprimento demasiado curto passou a devolver-me a seguinte imagem, assombrando o meu espírito com visões da tia-bisavó Mariquinhas num dia mau.


Tomei então a segunda decisão idiota do ano, decidindo alisar o cabelo. 
Alisar implicava corte, corte quer dizer encurtar, cabelo curto, como já expliquei, nunca foi a minha praia. Estava assim digamos que um pouco nervosa. 
Fiz então a terceira asneira (vou deixar de as contar porque foram umas atrás das outras) que foi confiar no cabeleireiro e deixar-lhe, até certo ponto, a liberdade do corte.
Tenho duas características que frequentemente não jogam nada a meu favor. A primeira é uma enorme vontade de agradar, a segunda uma dificuldade irracional em resistir a desafios. 
O cabeleireiro em questão sendo meu amigo, mais razões ainda tinha para querer agradar. Por outro lado, desafiou-me a confiar na sua tesoura, com o argumento (perfeitamente válido, convenhamos) de que o cabelo cresce.
Saí assim de lá com este visual. 


Céus, o tamanho do meu nariz, credo. Dizem que nariz, orelhas e pés não param de crescer ao longo da vida, se assim fôr não tarda mudo o nome para Cyrano. Passons...
Não ficou mal, convenhamos que não ficou mal de todo. 
Não tem nada a ver comigo, com a minha personalidade, não sou uma pessoa certinha, arrumadinha, compostinha... sou esgrouviada, selvagem, rebelde, irreverente... mas não ficou mal, acho que conseguia viver uns tempos dentro daquela cabeça. 
Isto, claro está, se fosse gaja...
Fazia a depilação, pintava as unhas, pegava na escova e no secador e montava aquela bolinha impecável à volta do crânio. Acontece que me dá a volta à tripa perder o meu precioso tempo neste tipo de actividades. 
Assim, sem mais trabalho do que lavar o cabelo e deixar secar ao ar, fiquei então com este aspecto. 


Lindaaa... parece que fui lambida por uma vaca!
As coisas não me estavam nitidamente a correr de feição e, para quem tencionava elevar o moral, digamos que o tiro saiu pela culatra. Comecei a ver a minha vida a andar para trás. 
Decidi voltar ao local do crime e pedir-lhe para dar um jeito à coisa. Passei largas horas na net, a estudar cortes, e muni-me de fotografias exemplificativas, tendo o cuidado de lhes apagar as carinhas para não baralhar, pois um coirão como eu nunca poderia ficar com a pinta daquelas brasas. 


Não, não era nada disto em que estava a pensar, não. Ele próprio não ficou satisfeito. Saí de lá em choque, frustrada, revoltada, a considerar como iria fazer para encarar aquela cara de cu de cada vez que lavasse os dentes. 
Estava atordoada, baralhada, as várias senhoras que passaram pelo salão enquanto lá estive saíram com cortes que lhes ficavam a matar. Entrei numa de "porquê eu?!"...
Cheguei então à conclusão que cortar cabelos é como fazer sexo com alguém. Pessoalmente acredito que não há bons nem maus amantes, há química, entendimento, pessoas que se encaixam, que compreendem o que o outro quer, do que gosta... É pessoal e intransmissível e é ridículo zangarmo-nos quando não funciona.
Assim, consciente que daqui para a frente não poderemos ser mais do que amigos (lol) e aproveitando o facto de ter ido para fora, pus-lhe descaradamente os cornos e lá se foram mais uns quantos centímetros de cabelo. 


E pronto, é este o meu new look no fim de toda esta saga…
Sim, parece que acabei de ter alta do asilo, onde andei a levar electro-choques.
Perante os consecutivos ataques da tesoura foi o melhor que se arranjou e pelo menos agora o invólucro tem a ver com o que se passa lá dentro.
As reacções têm sido diversas, à maioria parece agradar, outros fazem um sorriso amarelo e dizem diplomaticamente "estás tão diferente".
"Opinions are like assholes, everyone has one." ;)
Mas o que realmente importa é que me sinta bem na minha pele.

Foi um longo caminho para aqui chegar. Algumas das pessoas que acompanharam este mini-drama não compreendiam porque continuava a insistir, sobretudo porque quem me conhece sabe que não ligo muito a estas coisas. A realidade é que senti nitidamente uma perda de identidade, não me identificava de todo com a imagem que reflectia. Estou agora fisicamente muitíssimo diferente do que sempre fui, mas sinto-me eu, e isso é o que realmente importa não se estou bonita ou feia pois qualquer um de nós vai alternando entre os dois, independentemente do corte de cabelo. 




COM MÚSICA

terça-feira, 20 de maio de 2014

Todos os males sejam estes…



Todos passamos por fases mais complicadas de vez em quando, períodos mais ou menos longos em que parece que tudo está contra nós, momentos em que desmoralizamos, perdemos o fôlego, tendemos a ver o copo meio vazio…
Nessas alturas, mais do que em qualquer outra, é fundamental relativizar.

Costuma dizer-se “partiste uma perna, ainda bem que não partiste as duas…” Apesar de inegável que partir um osso seja menos mau do que partir dois, três ou quatro, a expressão imprime um cunho quantitativo à ideia que não me parece ser realmente o que potencialmente alivia. Aponta no entanto sem dúvida na direcção certa, no sentido de minimizar e relativizar as coisas.

Há tempos fui ao osteopata por andar aflita do braço direito, incomodo que tinha aparentemente origem nas cervicais. Disse-me que tinha também dado um jeito às lombares, que não estavam nada famosas. Quando comentei que não sentia nada a esse nível, respondeu que era devido ao estado lastimável das primeiras, que a dor sendo mais forte, eclipsava a outra mas que se não as tivesse tratado iria começar a senti-la.
Lembrei-me então que quando era miúda e uivava de dores do período, o que me proporcionava algum alívio era pôr uma botija de água a escaldar na barriga, pois as queimaduras tomavam a vez das cãibras. Saltava assim da panela para o lume mas enfim, na altura parecia fazer sentido.

Seja como for, é uma realidade que uma dor mais forte tende a fazer desaparecer ou pelo menos atenuar sensivelmente outra mais fraca.
Assim, empatizar com situações piores do que aquelas que vivemos, ter a noção do que poderia ser para além do que é, pode ajudar-nos enormemente.
Quem apregoa “com o mal dos outros posso eu bem”, nitidamente nunca fez efectivamente esse exercício. Se conseguirmos colocar-nos, nem que seja por breves instantes, na pele de quem sofre intensamente à nossa volta, sentiremos um real alívio relativamente aos nossos males.

Mais do que uma pessoa, no meu círculo de conhecimentos, anda há já algum tempo à luta com gravíssimos problemas de drogas com os filhos.
Só neste último mês morreram quatro pessoas com idades que rondavam a minha. Deixaram mulheres, maridos, filhos e um mar de dor à sua volta.
Um amigo nosso está desaparecido desde o fim do ano passado, foi presumidamente assassinado. A irmã dele foi encontrada morta em casa, esfaqueada, uns meses mais tarde. Ficaram assim os seus pais sem os dois filhos e três crianças órfãs.
Isto para só citar alguns exemplos.

Agora pergunto eu, o que são os meus “problemas” comparados com qualquer uma das coisas que acabei de descrever?!
Não se trata de fazer concursos de sofrimento. É evidente que o facto de termos alguém ao lado com uma perna amputada não impede que sintamos a dor de uma unha encravada.
A noção, no entanto, não só de escala e intensidade como de que daqui a dias estaremos como novos, enquanto que o outro continuará estropiado, não eliminando a dor, gera sem dúvida uma enorme sensação de alívio.

Uma das pessoas a quem contei uma das histórias acima comentou “que horror, prefiro nem saber essas coisas”. A questão é que só conseguimos ter uma noção de escala através da comparação. Certos “males” que nos poderão à partida parecer terríveis, empalidecem à luz de outros. Há que estar conscientes de que existem, de que “andem aí”, para podermos fazer a tal relativização.

Todos tendemos a carpir sobre as nossas aflições, os nossos problemas, as nossas dores. A auto comiseração parece ser uma tendência natural do bicho homem. Esta alimenta-se da observação dos nossos  próprios umbigos, da falta de empatia para com o próximo.
As coisas podem sempre ser bem piores do que são. Se tivermos essa noção bem presente, se olharmos essa eventualidade nos olhos, conseguiremos lidar com o que nos atormenta com muito mais serenidade, muito mais paz. Não quer dizer que não custe, que não doa, somente que deixaremos de o encarar como se fosse o fim do mundo.

Se nos habituarmos a pensar constantemente assim, tudo se torna efectivamente mais fácil.
Se o cancro tinha mesmo de me bater à porta, mil vezes antes na minha cadela do que no meu filho. Por muito que me tenha custado vê-la a sofrer, antes ela a fazer uma mastectomia do que eu. Quando penso nos meus amigos que perderam a irmã, vai agora fazer um ano, vitimada pelo mesmo mal, compreendo que isto não passou de um pequeno incidente na minha vida, que não se lhe pode de forma alguma atribuir mais importância do que isso.

Por todo o planeta, neste preciso momento, pelas razões mais diversas, há quem viva situações de dor atrozes, inimagináveis. Basta que tenhamos consciência de que existem para que a nossa pareça logo muitíssimo mais suportável, é bom olhar para o umbigo do vizinho, a empatia é uma coisa benéfica.
Como disse uma amiga no outro dia, é como acordarmos de um pesadelo e ficarmos aliviados por  não ser real… ;)



COM MÚSICA

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Fez o que pode…


“Fez o que pode…” é uma afirmação que ouço recorrentemente da mesma pessoa e que me costumava eriçar os pelos dos braços.
Punha-me inicialmente nesse estado porque surgia sempre que alguém, de alguma forma, tinha falhado a outra pessoa soando sempre a “boa desculpa”.
Depois porque me começou a parecer demasiado redutora, uma verdade de La Palisse. Se alguém prometer ajudar outra pessoa com alguma coisa e, em vez disso, decidir ir ao cinema… fez o que pode, baldou-se, lol. Não é no entanto como se fosse a sua única opção, se acreditarmos no livre-arbítrio.
Tive no entanto de acabar por dar o braço a torcer, sendo evidente que, no limite, cada um age efectivamente consoante aquilo de que é capaz no momento.

Cheguei então à conclusão que o mal estava, não na expressão em si mas na forma conformista como é encarada e que até é uma noção que nos pode efectivamente ser bastante útil.
Pessoalmente não entendo as posturas de “sou assim, sou assim”. Acredito que todos podemos melhorar ao longo da vida, limar arestas, evoluir, adaptar-nos, trabalharmos para vivermos melhor com nós próprios e com os outros.
Acontece que, embora algumas com força de vontade e determinação possam ser ultrapassadas, cada um de nós tem as suas limitações, da mesma forma que temos pontos fortes, coisas nas quais somos bons, para as quais temos jeito.

Há muitos anos contratei uma empregada para cinco horas por semana. No primeiro (e último) dia passou cinco camisas nesse tempo e ficou toda empertigada quando lho apontei. Acredito que tenha feito “o que pode”, acredito que tenha perdido tempo para me impressionar, para as coisas ficarem impecáveis, a realidade é que, mesmo dando o devido desconto, a celeridade do seu trabalho não era de forma alguma viável.

Cada um de nós se confronta constantemente não só com as suas próprias características, como com as dos outros. Com atributos e acções relativamente aos quais faz julgamentos de valor, rotula de positivos ou negativos.
Cada um terá assim a sua noção do que considera um mau empregado, um mau patrão, um mau pai, um mau filho, um mau marido, um mau amigo…
No caso dos “maus” pontuais, dos "foste" em oposição ao "és", a coisa resolve-se por si, bastando que tenhamos consciência de que errar sendo humano, todos o fazemos.
Pode no entanto tratar-se de um “mau” intrínseco, há quem simplesmente “não sirva”, quanto mais não seja aos nossos olhos, para determinada função.

Uma coisa é certa, já dizia o “Parafuso” que “cada um é como cada qual, mas ninguém é como evidentemente”, não podemos sem dúvida esperar que os outros reajam ou tenham as atitudes que gostaríamos, como consideramos que deveria ser. 
Se olharmos a questão por este prisma a coisa parece logo mais aceitável, sim, fez o que pode, não o que tu farias ou desejavas que tivesse feito, é um facto.
Chegarmos a essa conclusão ajuda-nos sem dúvida a “aceitar o que não podemos mudar”, permite-nos eventualmente dar-lhes a abébia, deixar passar uma que outra coisa, como também no las deixam passar a nós. Não faz no entanto sempre com que seja suficiente.

O “que pode”, infelizmente, ás vezes não chega, ás vezes não serve.
Ou seja, permite-nos sem dúvida aceitar e reconhecer as diferenças e limitações de certas pessoas mas não as qualifica por isso para manter ou assumir determinadas funções nas nossas vidas.

Sometimes it is not enough to do our best; we must do what is required.  Winston Churchill


COM MÚSICA

terça-feira, 8 de abril de 2014

Someone to chase…



Pessoalmente simpatizo com o Matthew McConaughey, tanto quanto é possível simpatizar com alguém que não conheço de lado nenhum…

Gostei bastante do seu discurso de aceitação do Oscar.
[…] someone to look up to, something to look forward to and someone to chase […]
Passando à frente dos dois primeiros, afirmou que esse “someone to chase”, o seu herói, era ele próprio, daqui a dez anos. Que sabia que nunca iria realmente chegar a ser o seu herói mas que não desistiria de o perseguir e tomar como exemplo.

Interpretei as suas palavras como estando consciente de que não é perfeito, sabendo que tem ainda muitas arestas por limar, muito trabalho pela frente, mas estando decidido a não desistir de perseguir um ideal de si próprio, mesmo sabendo que nunca lá chegará. 
Não podia sentir mais empatia por esta postura.

Qual não é o meu espanto quando, nos dias que se seguiram, não só nos media como nas minhas próprias relações, o homem foi crucificado, apelidado de narcisista,  cagão,  convencido e de sei lá mais o quê.

Certo, estamos a falar de gente que na sua maioria não conhece provavelmente o senhor de parte nenhuma e neste caso o julga por meia dúzia de palavras que proferiu em público.
Acontece que é o que se passa com todos nós, não precisamos de ser figuras públicas.
Somos constantemente avaliados, julgados, etiquetados, por aqueles com quem, de alguma forma nos relacionamos, directa ou indirectamente.
Tudo o que dizemos ou fazemos é visto à luz dos olhos de cada um e interpretado por si.

Os nossos actos e palavras têm um sentido para cada um daqueles com quem interagimos.
A forma como nos vêem depende daquilo que são, daquilo em que acreditam, do que pensam, da forma como os fazemos sentir.
Mais, nem são só as nossas acções que acabam por nos definir mas o filme que fazem das mesmas, a sua  própria versão. As pessoas vêm o que querem ver e isso depende maioritariamente delas, não de nós.

Embora só agora esta questão me tenha inspirado um post, já muitas vezes tenho divagado interiormente sobre o tema. 
Quando leio sobre figuras públicas, por exemplo, pergunto-me sempre até que ponto serão  ou terão sido realmente tal como as apresentam.
As afirmações categóricas sempre me irritaram de sobremaneira. Não me refiro a factos, mas sim a intenções, posturas, ideias, sentimentos…

Mas “irritation is futile”, é mesmo assim que as coisas funcionam, todos vemos os outros através dos nossos próprios olhos. 
Não só analisamos e interpretamos o que de facto dizem e fazem como, que nem verdadeiros Hercules Poirots, colmatamos as lacunas do que não sabemos com assunções geradas pelo nosso próprio cérebro.
Cada um de nós acaba assim por ser a soma das várias versões que os outros criam.

Sobre parte disto temos algum controle, podemos medir as palavras que proferimos, ponderar os nossos actos, gerir a imagem que queremos transmitir. A etiquetagem final não está no entanto nas nossas mãos e as conclusões serão sempre e inevitavelmente subjectivas.

Figura pública ou privada, haverá sempre a nosso respeito opiniões mais e menos lisonjeiras, empatias e antipatias, posições mais obtusas ou radicais, em ambos os sentidos.
Mesmo aqueles que são considerados simpáticos pela maioria, têm os seus antagonistas, “haters gonna hate”, e até os seres mais odiados da historia do universo tiveram quem os amasse.

A opinião dos outros a nosso respeito, sobretudo se, tal como o Matthew McConaughey, tivermos pretensões a ir sempre melhorando ao longo da vida (hehe), é importante porque nos serve de bitola. Podemos ir ajustando o nosso comportamento, a nossa postura, consoante as suas reacções. Dado que a nossa maior interacção é com outros seres humanos, eu diria que ter uma relação agradável com os mesmos é uma prioridade.

É um erro no entanto querer agradar a Gregos e a Troianos, sob pena de perdermos a nossa coluna vertebral.
A opinião dos outros não nos deve servir de guia mas de referência. A sua reacção deve ser encarada como um espelho e não como um tribunal, e sem nos esquecermos de que alguns espelhos deformam.
Façamos o que fizermos, digamos o que dissermos, há-de sempre haver quem nos interprete mal, quem acredite no que lhe dizem a nosso respeito, quem nos atribua actos ou intenções que nunca existiram e perante tudo isto reaja em conforme, viciando assim a sua apreciação.

A única pessoa para quem realmente "somos" consistentemente, somos nós próprios, para todos os outros não passamos da ideia que fazem de nós.
É portanto a nós próprios, acima de todos, que devemos agradar, orgulhar, prestar contas e prometer melhorar. ;)


COM MÚSICA
Gloria Gaynor - I Am What I Am

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terça-feira, 18 de março de 2014

Aceitar a mudança



Aspiro a ter serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso e sabedoria para perceber a diferença...

A parte frequentemente mais difícil de concretizar na afirmação acima é sem dúvida a última. Sendo, no meu entender, por causa dela que muitos têm dificuldade em compreender o significado da primeira.
Dado que considero esta máxima uma das descobertas mais importantes da minha vida, que mudou radicalmente desde que comecei a tentar pô-la em prática, recorrentemente a menciono.

É comum haver quem comenta que há coisas que simplesmente não se podem aceitar.
Fazem-no como quem diz que não podemos concordar com elas, apoia-las ou conformar-nos. Como se a sua revolta, o seu desgosto, a sua raiva fossem mudar alguma coisa.
Em teoria, todos sabemos que há coisas relativamente ás quais não há nada que possamos fazer. Na pratica continuamos muitas vezes na ilusão de que, se não as aceitarmos, isso irá fazer alguma diferença.
É no entanto tão ridículo como dizer que não podemos aceitar a morte de alguém.

Ultimamente, para conseguir dar a volta por cima à minha vida, tenho matutado muito. Tenho-me trabalhado para conseguir adaptar-me  a várias realidades que me estavam a empecilhar a felicidade. 
Há alturas em que sentimos necessidade de fazer pontos da situação, é natural.
Não sendo eremita, parte desse trabalho diz respeito à minha relação com os outros, evidentemente.

Mais uma vez, em teoria, todos sabemos que cada um de nós está em permanente evolução e mudança. Mudamos porque queremos, porque decidimos que é melhor para nós, por sermos influenciados pelos outros, pela experiência de vida.
Na pratica temos no entanto ás vezes dificuldade em aceitar as mudanças dos outros, sobretudo quando não vão ao encontro das nossas.

As mudanças são geralmente progressivas mas muitas vezes bastante radicais. Se estivermos próximos da pessoa em questão podemos não dar realmente por elas, da mesma forma que não damos pelo crescimento dos nossos filhos. Depois, um dia, as calças já não servem, têm uma mão travessa a menos e perguntamo-nos como puderam crescer tanto de um dia para o outro.

Muitos são aqueles que, ao longo da vida, se transformam em pessoas totalmente diferentes. 
Se essas mudanças são para melhor ou para pior, é subjectivo e cada um julgará por si. Importante mesmo sendo, no fundo, como se sente o indivíduo em questão.
O mesmo irá acontecer com a sua relação com os outros que se irá inevitavelmente alterar.

Quando um casal se separa poderá ou não continuar a manter uma relação. Ou seja, o tipo de relacionamento entre essas duas pessoas ou se transforma ou acaba.
Acaba quando não se consegue aceitar, lidar, conviver, com a nova situação. Quando não acaba, aquilo em que se torna não tem nada a ver com aquilo que era.
Curiosamente, parecemos ter mais dificuldade em primeiro compreender e depois lidar com transformações noutro tipo de relações, nomeadamente de amizade. O apego a momentos, partilhas, cumplicidades aparentemente perdidos para sempre, fazendo com que surja uma sensação de perda irreversível.

Quando as relações são decididamente incomportáveis para nós o melhor é sem dúvida, na minha opinião, o corte radical. No momento em que compreendemos que uma situação não trás nada de positivo, insistir ou é cobardia ou teimosia.
Mas desistir, com mágoa, de algo que pode ainda dar sumo é sem dúvida desperdício.

Quando deixamos de lutar contra o que não está nas nossas mãos mudar e conseguirmos aceitar o possível em vez de ambicionarmos pelo desejável, temos mais disponibilidade mental e energia para aproveitar tudo o que estiver efectivamente ao nosso alcance.
As pessoas mudam, os sentimentos mudam, as coisas mudam... mas se dermos valor ao que temos, em vez de chorarmos pelo que tivemos ou poderíamos ter, poderão até surgir agradáveis surpresas na descoberta de novas formas de relacionamento.



COM MUSICA
Keane - Everybody's Changing

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quarta-feira, 5 de março de 2014

Big Picture / Small Picture




Céus, como a vida está diferente de há uns anos atrás… mais dura, mais pesada, mais difícil em tantos sentidos…
Enquanto saltávamos alegremente de nenúfar em nenúfar, as coisas foram-se transformando, lenta mas seguramente.

O mundo actual é inóspito e assustador. Tudo parece estar em crise, a economia, a política, o meio ambiente, a sociedade, os valores…
Já não há segurança, certezas, garantias, tudo pode mudar de um momento para o outro, a vida é hoje como um trapézio sem rede. Mais do que nunca, o que tínhamos como certo pode desaparecer de repente, sem pré-aviso.
Já não parece haver grandes regras, grandes princípios, grandes guias, movemo-nos em terreno escorregadio, já não sabemos como agir, com que linhas nos cosermos, com o que contar da parte dos outros.
Não se vêm luzes ao fundo do túnel, reina uma sensação de impotência perante o estado das coisas…
Que raio de tempos estes!!!

A questão no entanto é que, gostemos ou não, são os “nossos tempos”  e bitching about it  não só não resolve absolutamente nada, como nos distrai da nossa própria vida, que é aqui e agora.
As pessoas lamentam-se, queixam-se, indignam-se, revoltam-se, de forma tão envolvente que se esquecem que, enquanto o fazem, os relógios não param. As horas, os dias, as semanas, vão passando, esteja em que estado estiver o mundo à nossa volta.

“…SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR, CORAGEM PARA MUDAR AS QUE POSSO E SABEDORIA PARA PERCEBER A DIFERENÇA...”

Não precisamos de gostar, de apoiar ou aplaudir, o mundo em que vivemos.
Podemos tentar fazer o que estiver ao nosso alcance, esforçar-nos por dar o nosso contributo, seja lá ele qual for, para colaborar na sua melhoria.
Não devemos, sem dúvida, fechar os olhos ou compactuar com que consideramos errado.
Podemos seguir o lema “quem não está bem, muda-se” e procurar pastos mais verdes.
O que não serve garantidamente de nada é desgastarmo-nos, deixarmo-nos consumir pelo o que não podemos mudar.



São as pequenas coisas da vida, os pequenos prazeres, as pequenas alegrias, que nos vão dando força e ânimo para enfrentar as agruras e provações do dia-a-dia. 
O quadro geral pinta no entanto de tal forma o nosso espírito de negro, que nos tolda a visão, fazendo com que não as consigamos ver, o que faz com que nos sintamos a sobreviver, mais do que a viver.

O actual negativismo generalizado mina as relações humanas, faz com que as pessoas não apreciem realmente os momentos que passam juntas. Transforma encontros potencialmente agradáveis em concertos de carpideiras. Em vez de partilhar sensações agradáveis as pessoas trocam queixas e lamurias.

A realidade minha gente é que, pelo menos nesta vida, não vamos voltar a ter oportunidade de reviver os momentos que perdemos hoje.
Tic Tac, Tic Tac, o relógio avança e o tempo escasseia.
Os sorrisos que não distribuímos, os pores do sol que não vemos, as musicas que não trauteamos, por estarmos macambúzios, já eram, já foram, já não voltam.
Se tudo é mau, se tudo é feio, se já nada presta, que razão temos para viver?

Ou redescobrimos as pequenas coisas que nos aquecem o coração, que nos fazem sentir que a vida vale a pena ou, se não tivermos desistido antes, um dia acordamos e damo-nos conta que esta acabou por se transformar num oprimente azedume, ao qual poderemos provavelmente agradecer o cancro, o avc, o enfarte, que nos levará desta espera-se que para melhor.

Be Happy, it’s a choice! ;)

COM MUSICA