quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Não sou tua amiga, sou tua mãe...



Educar
[...] Oferecer a alguém o necessário para que consiga desenvolver plenamente a sua personalidade. Propagar ou transmitir conhecimento (instrução) a; oferecer ensino (educação) a; instruir..[...]

De cada vez que vou a uma reunião de pais, pergunto-me qual será o futuro da humanidade nas mãos das crianças de hoje.
Partindo do princípio que as escolas não mencionam as coisas só porque sim mas porque chegaram à conclusão que não são óbvias para toda a gente, bradam aos céus alguns dos conselhos que se ouvem.

Os filhos não vêm com manual de instruções, cada caso é um caso e não tenho qualquer dúvida que vários caminhos levem a Roma. Convém é que exista, para que não reine a lei da selva, pois as crianças não se auto-educam.
Não sou sumidade na matéria, só uma mãe que retira genuíno gozo do papel e se aplica na tarefa. Haverá quem não concorde comigo, quem abrace outras teorias e práticas, o que compreendo e respeito.

Na minha opinião, há duas coisas fundamentais para o sucesso de uma educação; amor infinito e um pulso de ferro.
Não há formulas mágicas nem truques infalíveis e por muito que se possa estudar sobre o assunto, para educar temos de usar o bom senso e tocar de ouvido.
Se funcionarmos por experimentação e formos rectificando os erros, a coisa deverá correr mais ou menos bem. 
Convém no entanto que tenhamos noção que, muitas vezes, educar custa-nos bastante mais a nós do que a eles e que, façamos o que fizermos, iremos inevitavelmente falhar algures, não há pais perfeitos.

Nada me convence que as crianças não se começam a educar desde o dia em que nascem e faz-me alguma confusão o precioso tempo que perdem os pais que acham que só o podem fazer a partir de determinada idade.
A partir do momento em que começa a haver reciprocidade na comunicação verbal, então, passamos a ter mais uma preciosa ferramenta ao nosso serviço.

Uma das coisas que considero importante para que se gere uma sensação de estabilidade, são os horários e as rotinas. As crianças precisam de comer com calma e sem stress, de estudar, de tempo para a brincadeira, das suas horas de sono, etc. Se tudo isto não for devidamente organizado, facilmente as coisas descambam e não acho que as crianças digiram bem o caos.

Outra, são as regras. As sociedades em que vivemos, sejam elas quais forem, estão sempre repletas de regras. É bom que os miúdos percebam desde cedo o que isso quer dizer e aprendam a cumpri-las, a respeita-las, ou até mesmo eventualmente a quebra-las, desde que com a noção de que o estão a fazer.
Só assim se conseguirão integrar.
Haverá alguém melhor do que nós, que temos por eles um amor incondicional, com quem testarem tudo isto?!

Acredito numa educação cuidadosa e firme mas não austera e rígida.
Pessoalmente sou uma mãe brincalhona e informal e considero a cumplicidade e o companheirismo muito importantes e valiosos. Não tolero no entanto qualquer tipo de abusos, sendo bastante implacável relativamente a respostas tortas, insultos ou faltas de respeito. Quanto a este último, não só pelos mais velhos mas por qualquer ser vivo.

Se formos déspotas e prepotentes, só estaremos a mandar, não a educar. Se formos manipuláveis e permissivos, perderemos a autoridade necessária para o fazer. Como em tudo o resto, no meio é que está a virtude.
Não sou assim apologista de porque sins e porque nãos
Na minha opinião, as nossas decisões podem ser contestadas e postas em causa, sim, desde que civilizadamente e não através de birra. 
Caso seja possível devem-lhes ser explicadas e, no caso de contra-argumentarem convincentemente, revistas e eventualmente alteradas. Não tenhamos a presunção de achar que estamos sempre certos.
Da mesma forma, somos humanos, falhamos, metemos a pata na poça, somos injustos, etc… nesses casos não há nada como pedir desculpa, sinceras e humildes desculpas.

Não acredito em tabus e, as crianças tendo uma enorme curiosidade natural, acho óptimo que se sintam à vontade para nos perguntarem tudo que quiserem e que lhes respondamos sem embaraço ou preconceito.
Nem sempre é fácil adaptar as respostas à sua idade e às vezes nem sequer conseguimos arranjar uma que possam efectivamente compreender. Não vejo qualquer inconveniente em explicar-lhes isso mesmo, que são novas demais, que voltaremos eventualmente a falar sobre o assunto mais tarde.
Da mesma forma, acontece nós próprios não as sabermos, em cujo caso reconhecê-lo me parece a melhor solução, ninguém é suposto saber tudo. Todos conhecemos pessoas que, quando não sabem, inventam. Se for alguém em quem confiamos, acreditaremos, assumiremos o embuste como conhecimento. Caso o tema nos interesse e esteja ao alcance da nossa própria compreensão, é até uma excelente oportunidade para aprendermos e de seguida o transmitirmos. 

Quando são bebés temos de fazer absolutamente tudo por eles. Conforme vão crescendo, à medida das suas capacidades e respeitando o seu tempo de ser criança, acho que lhes devemos ir exigindo cada vez mais independência e colaboração.
É bom que se vão habituando lenta e suavemente a que a vida não é um mar de rosas e que nos sai do pelo. Sair tudo do nosso quando já podem participar com a sua quota-parte não me parece, nem justo, nem formativo.

Acho muito importante que estejamos disponíveis, para os ajudar sempre que possível. Ás vezes era sem dúvida mais fácil fazermos nós as coisas por eles, dava-nos menos trabalho, mexia-nos menos com os nervos. No entanto, quem precisa de aprender, de praticar, não somos nós, não devemos assim dar-lhes o peixe mas ensina-los a pescar.

Transmitir-lhes a noção de que, apesar de serem a coisa mais importante da nossa vida, não são a única, também me parece essencial. O ser humano è naturalmente egoísta e, se o deixarmos, tende a ver-se como o centro do universo. Convém cortar esse mal pela raiz desde cedo. Sacrifícios sim senhor, mas os que fazem sentido, os que cumprem algum propósito para além do “querer” da criancinha.

O que nos leva à questão das “liberdades individuais” de que tanto se fala hoje em dia. Sempre ouvi dizer que a nossa liberdade acaba onde começa a dos outros. Seres humanos em fase de formação, que ainda vêem a vida a preto e branco devem, na minha opinião, ter as escolhas reguladas pelo bom senso paternal. Quando forem adultos e independentes, logo poderão fazer o que bem entenderem, até lá, no que me diz respeito, estarão sempre em “liberdade condicional”. lol

Em tudo o que fazem acho que lhes devemos sempre exigir o máximo, não que sejam os melhores mas que dêem o seu melhor. Pouco ou nada se faz sem esforço, sem empenho, sem força de vontade. Na minha opinião todos devemos ser tão bons, em tudo o que fazemos, quanto aquilo que conseguimos ser, nem mais, nem menos.

Acho perfeitamente possível passar-lhes noções que nós próprios só descobrimos tarde na vida e tanto jeito nos teria dado interiorizar precocemente. Não são necessárias palestras, não fazem sentido grandes dissertações, eles compreendem bem melhor os exemplos práticos, as demonstrações com base em exemplos concretos do dia a dia.

Finalmente, como não podia deixar de ser, dar o exemplo é essencial. Haja coerência, se não praticarmos o que apregoamos, como iremos convence-los que lhes possa trazer algum benefício na vida?!




COM MÚSICA

sábado, 4 de outubro de 2014

Sapos




 
Pessoalmente sou acérrima defensora da sinceridade, frontalidade, transparência. Acho a vida muito mais fácil quando percebemos exactamente o que temos à frente, com o que estamos a lidar, sem necessidade de interpretação ou, nalguns casos, de capacidades divinatórias mesmo.
Sou no entanto também grande apologista da utilização do cérebro e consequente controlo dos impulsos.

Todos passamos pontualmente  por situações em que nos sentimos compelidos a "espingardar" quando na realidade, por uma razão ou por outra, o melhor que  temos a fazer é mesmo meter a viola no saco e ficar caladinhos. Passo a exemplificar...

Trato dos pedidos de informação e reservas de uma casa de férias da família, que tem vindo a ser pontualmente arrendada para ajudar a suportar os custos.
Frequentemente as pessoas pedem "favores", que se abram excepções às regras, que se facilite isto ou aquilo. Vai do clássico pedido de desconto, à flexibilidade nos horários de entrada e saída ou à autorização para levarem o cãozinho. 
De cada vez, oiço os seu argumentos, tento pôr-me no seu lugar, compreender as suas razões e, sempre que possível e dentro dos limites do razoável, acedo aos seus pedidos.
Já mais do que uma vez, devido a algum problema ou imprevisto, teria sido agradável ter a mesma simpatia do outro lado. Aquilo com que me tenho deparado nessas alturas é no entanto bem diferente. A compreensão e as cedências parecem ser vias de sentido único.
Sobretudo relativamente àqueles para quem tive alguma atenção especial, esta postura provoca-me um enorme sentimento de revolta.
De que me adiantaria no entanto puxar a brasa à nossa sardinha?! A empatia, ou se sente ou não se sente e a triste realidade è que a maioria  das pessoas só tem em consideração o seu próprio umbigo. 

Outro exemplo, fiz uma vez um trabalho para um amigo, digamos que de feitio um pouco intempestivo... 
Desde o início que não foram propriamente fáceis o diálogo e a comunicação mas houve uma reunião que ultrapassou todos os limites do razoável. A virulência e agressividade foram escalando de tal forma que, de cada vez que precisava de falar, tinha antes de contar até dez, para garantir que não dizia nada de que me fosse arrepender mais tarde. 
Quando se foi embora, chorei de raiva e de seguida mudei de registo e obriguei-me a pensar noutra coisa. Era isso ou partir a loiça toda da nossa relação, o que não estava disposta a fazer, pois na minha forma de estar na vida não se trata ninguém daquela forma.

Finalmente, há tempos, fui injustamente acusada de ter tido uma atitude que, não só não tive, como antes pelo contrário. Fui por isso apelidada de ingénua, de totó, e ainda hoje sou gozada e achincalhada. 
O sentimento de injustiça é, sem dúvida, dos que mais me afectam, pelo que me senti obviamente impelida a repor a verdade dos factos. 
Ao preparar a resposta dei-me no entanto conta de que este era mais um sapo que teria de engolir. Para poder "limpar" o meu nome teria de apontar o dedo a terceiros, "gabar-me" de atitudes louváveis que tinha tido e apontar umas "verdades" inconvenientes... e tudo isto com a convicção de que não iam acreditar de qualquer das formas. 
Mais valeu estar calada. 

Muitas são as situações em que é mesmo a melhor coisa a fazer, calar e engolir em seco.
Temos enraizadas em nós noções de honra, de justiça, de reposição de verdades mas, no fundo, o que realmente interessa é o resultado final das nossas atitudes, das nossas reacções. 
Quando penso em tudo isto vêm-me sempre à cabeça os, na minha opinião ridículos, duelos, a quantidade de gente que limpou a honra perdendo a vida, e pergunto-me como é que alguém pode achar que vale a pena.


COM MÚSICA

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Ó vizinha, dá-me salsa?!




Um destes dias os nossos convidados para o almoço entraram-nos em casa a perguntar; “Como é que vocês se dão com os vossos vizinhos tal tal? É que estamos a pensar fazer uma queixa…”
Depois de lhes assegurarmos que dávamos muito bem obrigados e sugerirmos que estivessem quietinhos, continuaram a refilar. Que não podia ser, que as pessoas não podiam fazer o que lhes dava na real gana, que eles faziam queixa de tudo, eram odiados por todos os vizinhos mas funcionava muito bem.

Primeiro chocou-me a ideia daqueles dois serem odiados por fosse quem fosse. Não conheço sinceramente melhores pessoas, mais atenciosas, disponíveis, prestáveis, sempre dispostos a estender a mão ao próximo. Pessoalmente não conheço ninguém que não os adore.
Depois pus-me no lugar dos vizinhos deles e, se de facto é a postura que adoptam, compreendi que possa haver quem não tenha propriamente a mesma opinião… lol

A conversa transitou entretanto para outro tema qualquer e não voltámos a discutir o assunto. Fiquei no entanto a remoê-lo durante algum tempo, ao ponto de me inspirar este post…

Vivemos num pequeno caracol com trinta casas, das quais dois terços são praticamente iguais, só diferindo em tamanho. Chamo-lhe caracol porque é o que parece visto de cima, tendo de se sair por onde se entrou, o que faz com que seja uma rua muito calma e recatada praticamente só por cá circulando moradores e respectivos colaboradores e visitas.

Se me perguntarem se aquilo que os irritou a eles não me incomoda a mim, tenho de confessar que sim. Como em qualquer outro sítio onde vivesse, há praticas que me chateiam, coisas que agridem o meu sentido estético, episódios pontuais que não me agradam.
Daí a “fazer queixa” dos mesmos…

Quando as nossas visitas juntaram numa mesma frase a afirmação de que eram odiados à de que corria tudo muito bem, confesso que fiquei baralhada, pois a mim parece-me sintoma de que algo corre infelizmente bastante mal.
Eu pelo menos atribuo uma enorme importância ao ambiente em que vivo, acho fundamental sentirmos harmonia à nossa volta e não animosidade.
Gosto de trocar dois dedos de conversa com os vizinhos quando nos cruzamos na rua, de me sentir à vontade para lhes cravar isto ou aquilo e vice-versa, de lhes poder deixar a chave de nossa casa se for necessário, etc…
A minha irmã é muito amiga dos vizinhos do lado, fazem jantaradas, passam férias juntos, confesso que tenho uma pontinha de inveja, gostava de ter uma coisa do género aqui na zona. lol

Se pensarmos bem, todos temos coisas a apontar, todos de alguma forma temos  telhados de vidro (no nosso caso até em sentido próprio…lolololol), duvido que alguém possa afirmar, em consciência, que jamais incomodou o próximo.
Resumindo, acho fundamental esforçarmo-nos por ter para com os outros a paciência e tolerância que gostaríamos e esperamos que tenham para connosco.

Queixas, reservo-as para se surgir alguma questão realmente grave, nos entretantos prefiro uma boa vizinhança… :)







COM MÚSICA
(Sim, sim... mas foi a única música gira 
que encontrei sobre vizinhanças, ok? lol)
Pete Seeger - Little Boxes

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Sem stress…


Na semana passada tive de ir fazer uns exames e aproveitei para a seguir passar no Ikea. Cada vez mais me sinto uma pacóvia quando me desloco à metrópole, percebi finalmente porquê.

No consultório, as senhas de vez encravaram na máquina, o que gerou uma relativa confusão no atendimento. Algumas pessoas desatinaram com a senhora que estava ao balcão, esta reagiu de forma ríspida e desagradável. Num instante se criou ali um ambiente pesado, sem grande razão de ser dado que na realidade ninguém acabou por perder nem tempo nem vez.
Na caixa do Ikea abandonei o carrinho durante uns segundos para ir buscar um saco para as compras e não uma mas duas famílias me passaram à frente. Pressenti que tentar recuperar o meu lugar na fila iria provocar um verdadeiro pé de vento, fiquei-me.
Finalmente, no estacionamento, um senhor por pouco não me abalroou em marcha atrás por ter surgido outro carro, também ele a galar o lugar de onde estava a retirar o meu. Notem que havia outros alguns metros mais à frente. Quando passei por ele ainda vociferou na minha direcção.

No regresso a casa vinha a pensar no assunto e dei-me conta que levo uma vida com muito pouco, para não dizer praticamente nenhum stress.
Tenho problemas e preocupações, lido com dificuldades e contrariedades, sinto dor e tristeza, às vezes ansiedade ou angústia… mas a realidade é que o stress raramente “me assiste”.
Sempre funcionei muitíssimo mal sob pressão, como tal sempre fugi dela como da peste e tento erradica-la da minha vida em tudo o que me é possível. 
Isto não se faz sem custos, sem abdicar de determinadas coisas, muitas delas directamente ligadas ao lado material. Permite-me no entanto, em certa medida, escapar a esta calamidade da vida moderna. 

Durante a vida académica, por exemplo, é comum trabalhos e estudo serem deixados para a última hora. A maior parte dos meus coleguinhas adiava o inevitável até aos limites, alguns deles afirmando inclusivamente ser muito mais produtivos desta forma. Eu sempre tive a atitude contrária, despachando logo o que houvesse a despachar, para poder relaxar a seguir.
O facto de ser naturalmente responsável e organizada permite-me adoptar quase que inconscientemente esta postura. Não deixa no entanto de ser necessário um trabalho consciente, quando as coisas não dependem de nós, no sentido de aprender a evitar tensões desnecessárias.

Assim, quando tenho de estar em algum lado a uma hora certa, por exemplo, dou um desconto para imprevistos e saio um bocado antes do que estimo ser necessário para lá chegar. Quando planeio e organizo o meu dia-a-dia, faço-o de forma realista, não tentando meter o Rossio na Rua da Betesga.
Tenho também vindo a aprender a não assumir os atrasos alheios, se a responsabilidade não é minha, descontraio, relaxo, o mesmo se passando quando fiz ou estou a fazer tudo o que esteja ao meu alcance para tratar de determinada situação, mesmo que ainda não esteja resolvida.
Basicamente cheguei à conclusão que preocupar-me não resolve absolutamente nada e stressar ainda menos. No que me respeita só serve mesmo para me diminuir as capacidades, provocando inevitavelmente desfechos negativos. Para além disso sinto nitidamente que me envenena, me corrói a qualidade de vida de uma forma inaceitável.

Mas, mais uma vez nenhum homem sendo uma ilha, não basta tentarmos cortar no nosso stressezinho pessoal. Se quisermos realmente um mundo melhor, é preciso que também nos coibamos de o mandar para cima dos outros.
É essa nuvem negra, essa tensão, que se sente na rua, no trânsito, no atendimento em geral, que me incomoda quando me desloco hoje em dia a Lisboa e me faz sentir como se vivesse na província. Aqui não se sente de todo com o mesmo peso, e notem que não vivo propriamente no Alentejo profundo, demoro menos tempo da minha casa ao Marquês do que alguém que more nos Olivais…

Já devem conhecer a definição de segundo; o tempo que demora entre o sinal passar para verde e o fdp que está atrás de nós começar a buzinar… ;)
Ouvi sensivelmente as mesmas buzinadelas desde que cá estou, há nove anos, do que num só dia mais complicado na capital. Simplesmente não se usa, não é hábito, não é comum.
Assim, eu que era uma buzinadora de primeira, deixei também de o fazer. Apito para alertar sobre algum perigo e, confesso, volta não volta com uns palavrões à mistura, como sinal de protesto se alguém faz asneira da grossa. Não enterro a mão na buzina para apressar as pessoas.

Na vida profissional,  é sempre tudo “para ontem”. No entanto, quantas vezes não exigem prazos que obrigam a trabalhar à noite, ao fim de semana, para depois ficar tudo não sei quanto tempo em águas de bacalhau… “para ontem”, tirando raras excepções, casos de força maior, é um timming absolutamente obsceno, se era para ontem tratassem do assunto anteontem.
Pessoalmente, tento sempre não pressionar ninguém quando não estou efectivamente com pressa. É muito curioso sentir o misto de espanto e alívio, quando alguém se está a desfazer em desculpas devido a alguma demora, e lhes respondemos sinceramente “não tem problema, esteja à vontade”. Até parece que ouvimos o chiar da descompressão… lol

A vida actual parece uma corrida contra o tempo, andamos sempre a mil. Não tem no entanto de ser sempre assim, muitas vezes fazemo-lo porque não trocamos de mudança, de registo. Corremos e pressionamos os outros a fazê-lo por “defeito”, porque é aquilo a que estamos habituados. 
Basta no entanto que cada um de nós abra os olhos e desacelere um bocado, que lute activa e conscientemente contra este estado das coisas, para que tudo mude. 
Infelizmente, como em tantas outras coisas, a maioria encolhe os ombros e decreta que não há nada a fazer.

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Platters - Sixteen Tons


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quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Here’s looking at you, kid


Não sou daquelas mulheres que se babam com bebés, derreto-me com gatinhos e com cãezinhos, com humanozinhos nem por isso… Começo a achar graça às pessoas quando passam a ser gente, a responder, a dar luta. Mesmo então não gosto de qualquer uma, gosto mais de algumas crianças do que de outras, tal como se passa relativamente aos adultos.
Uma coisa é certa, gosto de pessoas e quando gosto, gosto muito, invisto, entrego-me.

Tive, durante muitos anos, um enorme desgosto… não suportava os filhos de duas das pessoas de quem mais gosto neste mundo, eram invasivos, malcriados, birrentos, intragáveis...
Os pais tinham noção disso mas não conseguiam fazer nada a esse respeito.
Até que um dia, em desespero de causa, decidiram arregaçar as mangas e meter-se num curso de “competências parentais”… Inútil será dizer que foram gozados até à medula por todos nós, que lhes perguntávamos porque tinham de pagar para ouvir o que lhes andávamos a dizer há anos.
Começo, por isso, por fazer aqui um oficial pedido de desculpas, resultou, conseguiram transformar três pequenos monstrinhos em adolescentes encantadores, sem excepções. Tiro-lhes humildemente o chapéu.

Mas a surpresa não se iria ficar por aí… quem havia de dizer que eu, a megera, a aterrorizadora de criancinhas, se iria deixar encantar por um deles?!
Já nem sei bem como tudo começou… foi acontecendo. Quando me apercebi que já não me mexiam com os nervos, passei a conseguir estar descontraidamente na sua presença. Dei-me conta que, em mais do que um sentido, se tinham tornado melhores seres humanos que eu era quando tinha a sua idade. As coisas foram seguindo o seu curso natural e, tendo mandado abaixo a barreira que os separava de mim, fomos começando aos poucos a interagir.

Os putos que nos rodeiam são geralmente os filhos destes ou daqueles, não passam no fundo de apêndices de algum agregado familiar, com quem mantemos uma interacção superficial.
Mas, de vez em quando,  algum  nos dá o privilégio de se transformar, para nós, num indivíduo per se, com quem criamos um relacionamento de um para um, independentemente de tudo o resto. Foi o que aconteceu com uma das miúdas.

Ela não é melhor nem pior do que os outros dois, simplesmente investiu nisso ou talvez seja a mais parecida comigo, a que sente mais empatia. A realidade é que ás tantas demos por nós a ter conversas dignas desse nome, a trocar mails, a partilhar ideias, a fazer coisas juntas…
Céus, como é gratificante fazê-lo com um espírito livre, que ainda não foi moldado pela sociedade, com alguém que ainda não sabendo grande coisa sobre a vida já tem maturidade suficiente para se colocar um montão de perguntas, para por em questão uma série de coisas. Numa idade em que tudo  parece ser a preto e branco acho fascinante introduzi-la aos tons de cinzento, encarar um ser humano em bruto e apresentar-lhe instrumentos para se moldar, para se transformar na obra prima da sua própria vida.

A certa altura falou em modelos, não quero ser modelo de ninguém, não acredito em modelos, acredito em posturas perante a vida. Acredito em vivermos de acordo com os nossos próprios princípios, as nossas convicções, aquilo que para nós faz sentido, interiorizando e aceitando que todos somos diferentes e as nossas escolhas não são mais válidas do que as dos outros. O nosso ser está em permanente evolução, aquilo em que acreditamos hoje pode já não fazer sentido amanhã e quantas vezes não decidimos  que não queremos continuar a percorrer o caminho que seguíamos. Não acredito em seguir as passadas dos outros, cada um de nós deve cometer os seus próprios erros, chegar às suas próprias conclusões.
A amizade, em qualquer idade, ajuda-nos a fazê-lo.

Para a Cat, 
a minha pequena grande amiga






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terça-feira, 12 de agosto de 2014

Coito



Nunca percebi de onde que raio saiu a expressão "estar no coito" que utilizávamos quando jogávamos à apanhada em miúdos... 

Já lá vão dez anos que nos convidam consecutivamente para passar cerca de uma semana em Porto Covo em inícios de Agosto. Acabei de me dar conta que esses dias são o meu coito anual.
(ok, vá, mandem brasa que eu aguento... mas pelo menos sejam originais...) ;)

Todos os anos parto de casa carregando o peso de uma existência complicada, que vou largando pelo caminho. Quando lá chego sinto-me como se de facto, nesse coito, nada de mal me pudesse acontecer, a vida real não me pudesse apanhar.

Ao longo dos tempos tem aumentado a minha capacidade de me distanciar pontualmente de chatices e preocupações. Há muito que cheguei à conclusão que, enquanto fingimos que está tudo bem, tudo parece efectivamente estar bem. Durante aqueles dias, mais do que em qualquer outra altura, ponho em prática esta ideia.

Dir-me-ão que é justamente esse o conceito de férias mas para mim estas são diferentes de quaisquer outras.
Não se trata só de estar de papo para o ar num dolce fare niente, de me afastar de casa, da rotina do dia a dia ou de fazer uma pausa na resolução de problemas.

Em Porto Covo estou geralmente rodeada da maior parte da família e amigos que me são mais queridos, pessoas que vejo regularmente durante o ano. Poder também com eles partilhar os pequenos prazeres das férias  faz-me sentir bafejada pela sorte.
Mas no que toca a gente, reencontro também muitas caras menos frequentes mas não por isso menos agradáveis, que se têm vindo a transformar no núcleo duro da praia dos Aivados...

De ano para ano, vai-se fazendo história, vão-se partilhando memórias de anos anteriores e criando novas. Constatamos o sempre inacreditável crescimento das crianças, divertimo-nos ás custas do envelhecimento dos crescidos, desenvolvemos novos laços com os mesmos seres. Vão surgindo tradições, sentimos que pertencemos a algo, que mesmo não sendo palpável ou traduzível por palavras, não deixa por isso de existir. E quando falta alguém, faz falta.

Sabem-me pela vida os raios de sol que absorvo de manhã à noite, os grãos de areia no corpo, os passeios à beira mar, a visão das "focas" na água ao por do sol, a reinação do caminho para a praia de jipe... mas não há nada que se compare ao calor humano que se faz sentir, ao companheirismo, ao sentido de humor generalizado, à descomplicação daquela gente, num ambiente "amigos de Alex".

Volto revitalizada, cheia de energia positiva para me ajudar a enfrentar o mundo cão. Bem hajam!








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terça-feira, 15 de julho de 2014

Mataspeaks sobre o Livro das Caras, inspirando Sopa de Ideias…


Disclaimer : 
para que conste, esta foto ESTÁ JÁ ONLINE no perfil do blog em questão, 
não devassei a privacidade de ninguém, simplesmente a utilizei com intuitos humorísticos.


Recentemente, um amigo escreveu sobre o livro das caras, no seu blog de linha gráfica mais do que duvidosa… prometi-lhe resposta, aqui vai ela.

Que malta mais “básica” tenha esse tipo de postura,  ainda é como o outro. Agora que uma das pessoas que em maior conta tenho assuma uma visão tão obtusa dos nossos tempos irrita-me, pois irrita… lol
Quer queiramos quer não, quer gostemos quer não, quer aceitemos quer não, a internet chegou para ficar (pelo menos até ao apagão apocalíptico) e grande parte da nossa vida, tanto social como profissional passa já, diria que quase inevitavelmente, por ela!
Perante este facto temos assim à primeira vista duas opções, resistir ou adaptar-nos. À segunda hipótese julgo que costumem chamar evolução…

Nem tudo são rosas no que respeita à Net, tens toda a razão. Dá azo, sim, a abusos e perda de privacidade e não deve de facto estar “acima de toda a suspeita e fora de todo o controlo”. Concordamos nesse ponto.
Daí a dizer que “o Facebook é um planta infestante, uma praga de jacintos-de-água asfixiando valores sociais que demorámos séculos a implantar”… pode ser muito poético mas... vai-te catar, ó meu.

Os utilizadores do Facebook, da Internet em geral, dos telefones, dos automóveis, da roda, são pessoas e como tal utilizam essas mesmas ferramentas de acordo com as suas personalidades. 
Alguns fazem-no de forma duvidosa… culpemos a roda pelo atropelamento.

Certo, tudo tem um lado negro que convém, dentro da medida do possível, minimizar.
No que diz respeito aos automóveis, por exemplo, que concordarás até foram uma invenção fixolas para apareceres por cá de vez em quando, senão tinhas de vir de burro, foi sendo necessário criar regras, aplicar medidas de segurança, etc.

Idiotas, pessoas opinativas e imunes à contra-argumentação, gente frívola, malta que diz uma coisa e faz outra, show-off, sempre houve e sempre há de haver.
Mas não precisamos de comer com elas, sabes… no mundo virtual, tal como no real, há forma de as evitar, só implica darmo-nos ao trabalho de aprender a dominar as ferramentas.
O grande problema, que gera comentários ou posts como o teu, é que poucos se dão realmente ao trabalho de o fazer, acabando por provocar os efeitos de um automobilista ao volante de um carro sem carta de condução. Essa é que é essa… culpem a roda.

Falando concretamente no Facebook, mesmo se, por razões diversas, ás vezes nos sentimos na obrigação de aceitar “amizades” que não nos dizem nem as horas, não temos por isso de levar com o que postam, se chegarmos à conclusão de que não tem geralmente interesse nenhum.
Há um bitãozinho que diz “manda este gajo para o raio que o parta que não estou para o aturar”… e plin, nunca mais nos aparece a trampa que posta e ele nem sequer chega a saber disso.
Fantástico, hein?! Vai lá fazer isso com o telejornal…

A publicidade comes com ela, sim… mas não comes em todo o lado?! Na rua, nos autocarros, nas revistas, nos jornais, na televisão, na radio…
Infelizmente, nesta era de sociedade de consumo temos de aprender a ter visão de raio X, para conseguirmos ver o prédio bonito através do anúncio da Tampax.

Algumas pessoas utilizam mais a internet do que outras. 
Soube de fonte fidedigna que a minha cara metade raramente utilizava o telefone durante a adolescência, a minha mãe teve de por um cadeado no nosso!!!
Verdade, verdadinha… era a password daquela altura e tinha este aspecto.


As “addictions” existem em todos os campos, das drogas aos SMS, da comida ao jogo, do  tabaco ao coleccionismo… Há que tentar geri-las e controla-las com bom senso e, no caso das crianças , com educação.
Não é para isso que servem os pais, para preparar os filhos para o mundo em que vivem?
Alguém está de telefone à mesa?! Se for um adulto, supostamente integrado na sociedade, lamentamo-lo. Se for uma criança, proibimo-lo. Não?!
As regras de boa educação, de respeito e consideração pelo próximo, são coisas boas, coisas importantes. Não são supostas ir para o lixo juntamente com as diskettes velhas só porque agora existem “Clouds”…

Há quem plante quintas virtuais no Facebook. Há quem tire uma tarde para jogar Die Macher. Cada um não é livre de utilizar o seu tempo no que bem entender?
Há quem o perca a cuscar as fotos dos casamentos e das inaugurações, a tentar perceber quem é que “anda com quem”, a engatar virtualmente. Achas que não faziam o mesmo, por outros meios, noutros tempos?!

O Facebook, bem utilizado, não é de todo um entrave ás relações sociais de carne e osso mas sim uma ajuda, uma ferramenta.
Já defendi esta noção num post anterior, a Ana Roque (que, sem ser tão directa, julgo que também te estivesse de certa forma a responder…lol) fá-lo de outra maneira, mas que vai também ao mesmo encontro, neste aqui.

Para além disso tem muitas outras funções…
Tenho imensa pena que não lhe consigas ver nenhum interesse pelo que, para te ajudar, passo de seguida a “partilhar” (faz like!!!) alguns exemplos de coisas que publiquei no meu perfil ao longo dos tempos e que acredito até pudesses apreciar. 
Outros "amigos" teus postarão outras, de outros géneros, noutras ondas, as suas, que também te poderão eventualmente interessar.
É uma questão de seleccionares, como em tudo na vida.

Exposição fotográfica
(alguns partilham as fotos de que se orgulham nos blogs, outros fazem-no no facecoiso...)





Ajuda e/ou divulgação
(própria ou de terceiros, dar uma mãozinha não custa nada...)





Lembretes (como diz a Ana) que considero importantes




Humor
(qual é o interesse da vida sem rir...)
  





E também alguns links...

Fotografias
Questões humanitárias
Publicidade (mas da boa)
Creatividade e tecnologia
Truques
Humor

Eu cá vejo imenso interesse no Facebook, e agora adeus, que tenho de lá ir  fazer share deste post... ;)

Wheels keep turning
Somethin’s burning
Don’t like it but I guess I’m learning

COM MÚSICA





sexta-feira, 27 de junho de 2014

O primeiro a sair


Em tempos que já lá vão, numas férias em grupo, como o são geralmente as nossas, deu-nos para irmos sempre todos ao estacionamento, despedir-nos de lencinho branco de quem estava de partida…
Numa das vezes, estávamos ali todos alinhadinhos abanando os lenços, a ver a miúda de abalada meter consecutivamente a primeira e a marcha atrás, a marcha atrás e a primeira, só me fazendo lembrar a anedocta “Ó Benardooo, o menino ou entra ou sai, mas pare com esse vaivém ridículooo…”
Deixei assim escapar entre dentes um “Chiça, como a gaja guia mal…” ao que sugeriram que esperasse que chegasse pelo menos lá acima ao portão, antes de lhe começar a cortar na casaca…

Isto, no nosso grupo, é o pão nosso de cada dia de cada vez que alguém vira costas, por isso é que ninguém quer ser o primeiro a sair. lol

Lembro-me de outra ocasião, numa passagem de ano bem condimentada, em que uma amiga já acelerada se virou para outro comentando “Ai João Nunooo, a tua camisola… a tua camisolaaa…” – “Oquê que tem a minha camisola?!” – “É horríííveeel!!!”

A diferença entre estas duas situações é que uma das coisas foi dita “na cara” enquanto que a outra foi dita “pelas costas”… nenhuma delas tem obviamente qualquer importância.

Nós fartamo-nos de falar uns dos outros, de criticar, de cagar sentenças sobre o que nos parece bem e o que nos parece mal, de gozar com as idiossincrasias de cada um, etc …
E você, que me está a ler, a não ser que seja marciano, também o faz.
Uns mais, outros menos, mas todos o fazemos, é natural.

Fazê-lo sem a presença do próprio parece no entanto, á primeira vista, um bocado traiçoeiro, desleal… mas será realmente assim?!
Na minha opinião, não obrigatoriamente.

Deixando de parte a fofoca , a maledicência nua e crua ou mesmo nalguns casos mais extremos a calúnia… que mal tem falarmos dos outros?!
A realidade é que, ninguém sendo perfeito, todos temos alguma coisa a “apontar” a terceiros e não vejo qualquer razão para que o tenhamos de fazer “para dentro”.
Partilha-lo tão facilmente nos trás algum gozo trocista, como eventualmente outro ponto de vista sobre a questão.

Pessoalmente, não só sei perfeitamente que falam de mim “nas minhas costas” como até imagino muito bem o que possam dizer… que tenho a mania que sou boa, que tenho um feitio de merda, que fervo em pouca água, que às vezes sou bruta como o raio, que sou maníaca com a organização… etc.
A questão é que é mesmo assim, têm toda a razão, estou bem consciente da maior parte dos meus defeitos, das minhas fraquezas, e todos os dias tento melhorar. Isto não quer dizer que me fosse agradável passar a vida a ouvir dizê-lo.

Na minha opinião, podemos pensar o que bem entendermos sobre os outros, sobre a sua vida, as suas escolhas, as suas atitudes… podemos partilha-lo com terceiros, discuti-lo, critica-lo… no entanto, perante os próprios, só devemos abrir a boca com diplomacia e se acharmos que isso possa ajudar.

Todos temos bugs, fragilidades, incapacidades, defeitos… assim como pontos fortes e qualidades. Acabamos no fundo por ser a soma das nossas características positivas e negativas, o importante sendo o balanço.  
Quanto mais não seja intuitivamente, os outros compreendem e aceitam isso. Por isso falam nas nossas costas, cada vez mais chego à conclusão que, na maior parte dos casos, não é desleal coisa nenhuma, antes pelo contrário, é para nos pouparem.

Ás vezes, temos vontade de dizer umas “verdades”. De vez em quando, o que fazem, o que dizem, o que são, dói-nos de tal forma que nos sentimos impelidos a abrir a boca e deixar sair o que nos vai na alma.
Quanto a mim, sobretudo se gostarmos realmente do indivíduo em questão, devemos tentar resistir ao impulso. Há coisas que as pessoas simplesmente não podem, não conseguem mudar e atira-las à sua cara servirá exclusivamente para as magoar, não para as corrigir.

Nem todas as “verdades” são para ser ditas… pelo menos ao próprio, claro está. lol






COM MÚSICA

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O corte



Hoje vou escrever sobre cortes de cabelo, para a semana sobre unhas de gel e na seguinte discutirei vários métodos de depilação.
Nááá...
lol
Mas o tema de hoje mantém-se. ;)
A vida é feita de pequenas coisas, pelo que preciosas lições se podem retirar de questões aparentemente triviais. Vou portanto aproveitar a minha recente saga capilar para partilhar convosco algumas reflecções. 

Todos temos em casa espelhos deformantes, raramente conseguimos um olhar realmente isento sobre nós próprios. Quando o ego está em alta achamo-nos o máximo, se sofremos de falta de auto-estima começamos a comparar-nos com o Smeagol
A realidade é que as aparências são como os interruptores, umas vezes para baixo, outras vezes para cima. Até as mediáticas beldades têm momentos de fugir, nós é que geralmente não os vemos. 
Dizia Schopenhauer que "a mulher é um animal de cabelos compridos e ideias curtas" o que no meu caso foi uma realidade desde que me lembro de ser gente. 
Bem, pelo menos no que diz respeito aos cabelos. 
Assim, ne me prenant pas pour de la merde (pardon my french) era grosso modo esta a imagem que geralmente o meu espelho reflectia. 



As desgraçadas das maquinas fotográficas começaram no entanto, cada vez mais, a apresentar-me uma realidade bem diferente e bastante menos lisonjeira…


Parece-me fundamental irmos mantendo, ao longo da vida, uma boa noção daquilo que somos, dos nossos atributos, das nossas características, tanto físicas como intelectuais. Essa consciência é essencial para que possamos ir sempre melhorando o que for possível trabalhar. 
Uma das coisas relativamente às quais tendemos a fazer-nos desentendidos é a idade, ninguém gosta de se sentir a envelhecer. Arriscamo-nos no entanto a enfrentar o ridículo se nos recusarmos a assumi-la. 
Uma mulher madura mascarada de Pipi-das-meias-altas é patético. Assim o são aos meus olhos aquelas "Barbies enrugadas" (esta paga direitos de autor) que aparentam ter assaltado o roupeiro das filhas. 
Do mesmo modo, o look Lady Godiva não me parece de forma alguma adequado a aspirantes a velhas. Aliando essa conclusão a uma necessidade de mudança, de perder peso, em sentido próprio e figurado, decidi-me a fazer um corte de cabelo radical. Ou pelo menos julgava eu na altura mas tanta água iria ainda correr... lol
Foi assim com este visual que celebrei o meu quadragésimo nono aniversário. 


Fiquei bastante satisfeita, confesso. O peso que me saiu das costas contribuiu  para me levantar o moral e ajudar a recuperar forças para enfrentar esta vida, que não anda nada fácil. 
Gostei tanto que, pouco tempo depois, toda afoita voltei a cortar...
Foi o primeiro erro. 
Depois de passada a magia do cabeleireiro, o comprimento demasiado curto passou a devolver-me a seguinte imagem, assombrando o meu espírito com visões da tia-bisavó Mariquinhas num dia mau.


Tomei então a segunda decisão idiota do ano, decidindo alisar o cabelo. 
Alisar implicava corte, corte quer dizer encurtar, cabelo curto, como já expliquei, nunca foi a minha praia. Estava assim digamos que um pouco nervosa. 
Fiz então a terceira asneira (vou deixar de as contar porque foram umas atrás das outras) que foi confiar no cabeleireiro e deixar-lhe, até certo ponto, a liberdade do corte.
Tenho duas características que frequentemente não jogam nada a meu favor. A primeira é uma enorme vontade de agradar, a segunda uma dificuldade irracional em resistir a desafios. 
O cabeleireiro em questão sendo meu amigo, mais razões ainda tinha para querer agradar. Por outro lado, desafiou-me a confiar na sua tesoura, com o argumento (perfeitamente válido, convenhamos) de que o cabelo cresce.
Saí assim de lá com este visual. 


Céus, o tamanho do meu nariz, credo. Dizem que nariz, orelhas e pés não param de crescer ao longo da vida, se assim fôr não tarda mudo o nome para Cyrano. Passons...
Não ficou mal, convenhamos que não ficou mal de todo. 
Não tem nada a ver comigo, com a minha personalidade, não sou uma pessoa certinha, arrumadinha, compostinha... sou esgrouviada, selvagem, rebelde, irreverente... mas não ficou mal, acho que conseguia viver uns tempos dentro daquela cabeça. 
Isto, claro está, se fosse gaja...
Fazia a depilação, pintava as unhas, pegava na escova e no secador e montava aquela bolinha impecável à volta do crânio. Acontece que me dá a volta à tripa perder o meu precioso tempo neste tipo de actividades. 
Assim, sem mais trabalho do que lavar o cabelo e deixar secar ao ar, fiquei então com este aspecto. 


Lindaaa... parece que fui lambida por uma vaca!
As coisas não me estavam nitidamente a correr de feição e, para quem tencionava elevar o moral, digamos que o tiro saiu pela culatra. Comecei a ver a minha vida a andar para trás. 
Decidi voltar ao local do crime e pedir-lhe para dar um jeito à coisa. Passei largas horas na net, a estudar cortes, e muni-me de fotografias exemplificativas, tendo o cuidado de lhes apagar as carinhas para não baralhar, pois um coirão como eu nunca poderia ficar com a pinta daquelas brasas. 


Não, não era nada disto em que estava a pensar, não. Ele próprio não ficou satisfeito. Saí de lá em choque, frustrada, revoltada, a considerar como iria fazer para encarar aquela cara de cu de cada vez que lavasse os dentes. 
Estava atordoada, baralhada, as várias senhoras que passaram pelo salão enquanto lá estive saíram com cortes que lhes ficavam a matar. Entrei numa de "porquê eu?!"...
Cheguei então à conclusão que cortar cabelos é como fazer sexo com alguém. Pessoalmente acredito que não há bons nem maus amantes, há química, entendimento, pessoas que se encaixam, que compreendem o que o outro quer, do que gosta... É pessoal e intransmissível e é ridículo zangarmo-nos quando não funciona.
Assim, consciente que daqui para a frente não poderemos ser mais do que amigos (lol) e aproveitando o facto de ter ido para fora, pus-lhe descaradamente os cornos e lá se foram mais uns quantos centímetros de cabelo. 


E pronto, é este o meu new look no fim de toda esta saga…
Sim, parece que acabei de ter alta do asilo, onde andei a levar electro-choques.
Perante os consecutivos ataques da tesoura foi o melhor que se arranjou e pelo menos agora o invólucro tem a ver com o que se passa lá dentro.
As reacções têm sido diversas, à maioria parece agradar, outros fazem um sorriso amarelo e dizem diplomaticamente "estás tão diferente".
"Opinions are like assholes, everyone has one." ;)
Mas o que realmente importa é que me sinta bem na minha pele.

Foi um longo caminho para aqui chegar. Algumas das pessoas que acompanharam este mini-drama não compreendiam porque continuava a insistir, sobretudo porque quem me conhece sabe que não ligo muito a estas coisas. A realidade é que senti nitidamente uma perda de identidade, não me identificava de todo com a imagem que reflectia. Estou agora fisicamente muitíssimo diferente do que sempre fui, mas sinto-me eu, e isso é o que realmente importa não se estou bonita ou feia pois qualquer um de nós vai alternando entre os dois, independentemente do corte de cabelo. 




COM MÚSICA

terça-feira, 20 de maio de 2014

Todos os males sejam estes…



Todos passamos por fases mais complicadas de vez em quando, períodos mais ou menos longos em que parece que tudo está contra nós, momentos em que desmoralizamos, perdemos o fôlego, tendemos a ver o copo meio vazio…
Nessas alturas, mais do que em qualquer outra, é fundamental relativizar.

Costuma dizer-se “partiste uma perna, ainda bem que não partiste as duas…” Apesar de inegável que partir um osso seja menos mau do que partir dois, três ou quatro, a expressão imprime um cunho quantitativo à ideia que não me parece ser realmente o que potencialmente alivia. Aponta no entanto sem dúvida na direcção certa, no sentido de minimizar e relativizar as coisas.

Há tempos fui ao osteopata por andar aflita do braço direito, incomodo que tinha aparentemente origem nas cervicais. Disse-me que tinha também dado um jeito às lombares, que não estavam nada famosas. Quando comentei que não sentia nada a esse nível, respondeu que era devido ao estado lastimável das primeiras, que a dor sendo mais forte, eclipsava a outra mas que se não as tivesse tratado iria começar a senti-la.
Lembrei-me então que quando era miúda e uivava de dores do período, o que me proporcionava algum alívio era pôr uma botija de água a escaldar na barriga, pois as queimaduras tomavam a vez das cãibras. Saltava assim da panela para o lume mas enfim, na altura parecia fazer sentido.

Seja como for, é uma realidade que uma dor mais forte tende a fazer desaparecer ou pelo menos atenuar sensivelmente outra mais fraca.
Assim, empatizar com situações piores do que aquelas que vivemos, ter a noção do que poderia ser para além do que é, pode ajudar-nos enormemente.
Quem apregoa “com o mal dos outros posso eu bem”, nitidamente nunca fez efectivamente esse exercício. Se conseguirmos colocar-nos, nem que seja por breves instantes, na pele de quem sofre intensamente à nossa volta, sentiremos um real alívio relativamente aos nossos males.

Mais do que uma pessoa, no meu círculo de conhecimentos, anda há já algum tempo à luta com gravíssimos problemas de drogas com os filhos.
Só neste último mês morreram quatro pessoas com idades que rondavam a minha. Deixaram mulheres, maridos, filhos e um mar de dor à sua volta.
Um amigo nosso está desaparecido desde o fim do ano passado, foi presumidamente assassinado. A irmã dele foi encontrada morta em casa, esfaqueada, uns meses mais tarde. Ficaram assim os seus pais sem os dois filhos e três crianças órfãs.
Isto para só citar alguns exemplos.

Agora pergunto eu, o que são os meus “problemas” comparados com qualquer uma das coisas que acabei de descrever?!
Não se trata de fazer concursos de sofrimento. É evidente que o facto de termos alguém ao lado com uma perna amputada não impede que sintamos a dor de uma unha encravada.
A noção, no entanto, não só de escala e intensidade como de que daqui a dias estaremos como novos, enquanto que o outro continuará estropiado, não eliminando a dor, gera sem dúvida uma enorme sensação de alívio.

Uma das pessoas a quem contei uma das histórias acima comentou “que horror, prefiro nem saber essas coisas”. A questão é que só conseguimos ter uma noção de escala através da comparação. Certos “males” que nos poderão à partida parecer terríveis, empalidecem à luz de outros. Há que estar conscientes de que existem, de que “andem aí”, para podermos fazer a tal relativização.

Todos tendemos a carpir sobre as nossas aflições, os nossos problemas, as nossas dores. A auto comiseração parece ser uma tendência natural do bicho homem. Esta alimenta-se da observação dos nossos  próprios umbigos, da falta de empatia para com o próximo.
As coisas podem sempre ser bem piores do que são. Se tivermos essa noção bem presente, se olharmos essa eventualidade nos olhos, conseguiremos lidar com o que nos atormenta com muito mais serenidade, muito mais paz. Não quer dizer que não custe, que não doa, somente que deixaremos de o encarar como se fosse o fim do mundo.

Se nos habituarmos a pensar constantemente assim, tudo se torna efectivamente mais fácil.
Se o cancro tinha mesmo de me bater à porta, mil vezes antes na minha cadela do que no meu filho. Por muito que me tenha custado vê-la a sofrer, antes ela a fazer uma mastectomia do que eu. Quando penso nos meus amigos que perderam a irmã, vai agora fazer um ano, vitimada pelo mesmo mal, compreendo que isto não passou de um pequeno incidente na minha vida, que não se lhe pode de forma alguma atribuir mais importância do que isso.

Por todo o planeta, neste preciso momento, pelas razões mais diversas, há quem viva situações de dor atrozes, inimagináveis. Basta que tenhamos consciência de que existem para que a nossa pareça logo muitíssimo mais suportável, é bom olhar para o umbigo do vizinho, a empatia é uma coisa benéfica.
Como disse uma amiga no outro dia, é como acordarmos de um pesadelo e ficarmos aliviados por  não ser real… ;)



COM MÚSICA