Apesar de, durante muito tempo, ter feito um esforço para aqui escrever semanalmente, a realidade é que os posts escritos à pressão não saíam geralmente grande coisa. Assim, a partir de certa altura, passei a só cá vir quando me sentia realmente inspirada.
Hoje decidi passar a inserir neste este blog Sopas Alheias... nem tudo o que partilho tem de ser escrito por mim, verdade?!
A regularidade, essa, continuará a ser a mesma, que é como quem diz quando me der na gana. ;)
Um relacionamento fácil não é condição obrigatória para se gostar de alguém. Pessoalmente, adoro alguns seres com os quais o mesmo é tudo menos evidente.
Dei-me no entanto conta que, cada vez mais, dou não só mais importância como inclusivamente “prioridade”, às pessoas com quem me entendo melhor, com quem me sinto melhor.
Deduzo que seja consequência da minha provecta idade e da tal tomada de consciência, de que me farto de falar aqui, de que o tempo sendo a coisa mais preciosa que temos, o melhor mesmo é passa-lo da forma o mais agradável possível.
Um relacionamento fácil é, na minha opinião, aquele que flui sem grande esforço, proporcionando uma sensação de paz quase constante entre os intervenientes.
A parte do “quase” é importante; qualquer relação encontra pontualmente uma que outra pedra no seu caminho, passa por trilhos mais acidentados, é influenciada pelas companhias, por factores externos, pela forma como nós próprios nos sentimos.
Todos, sem excepção, metemos a pata na poça de vez em quando, pisamos um que outro calo, temos atitudes ou reacções das quais não nos orgulhamos. C’est la vie, ninguém é perfeito.
A realidade é que com alguns, sentimo-nos em permanente aventura de motocross, atravessando poças de lama e galgando calhaus.
Cheguei à conclusão que é imprescindível para as coisas correrem bem a capacidade de cada um se conseguir colocar no lugar do outro. Todos acham que o fazem mas poucos são efectivamente capazes de realmente o fazer.
Compreender os outros é uma tarefa complexa e por vezes difícil.
Para começar, empatizar com algo que não estamos de todo a sentir, vai lá vai…
Coisas como a dor, física ou psicológica, a saudade, o sentimento de perda, o medo, a repulsa, da mesma forma que o amor, a paixão, os gostos e preferências de cada um, são extremamente pessoais. Só raramente estamos no mesmo registo que alguém.
É muito fácil compreender o estado de espírito de um irmão quando ambos perdemos um progenitor, já é menos evidente para nós o do senhor Silva que perdeu o dele.
É o costume; “com o mal dos outros posso eu bem”…
Por outro lado, para compreender é preciso querê-lo mesmo, o que havendo conflitos de interesse não é muito comum. O mais frequente é cada um puxar a brasa à sua sardinha, defendendo as suas razões e pontos de vista com unhas e dentes, falando muito e ouvindo pouco.
Parece-me mais do que natural, quanto mais não seja por instinto de sobrevivência, que defendamos os nossos interesses. Acontece que, se em vez de agirmos como bichos numa postura de “lei da selva”, usarmos aquelas célulazinhas cinzentas tão giras que só nós temos; frequentemente chegaremos à conclusão que, em alguns casos, “valores mais altos (que os nossos) se alevantam”.
Ou seja, de vez em quando, e pelos nossos próprios padrões, se nos dermos ao trabalho de olhar para as questões de forma isenta, concluiremos que a causa do outro “ganha”.
O que nos leva à questão da razão, tanta gente quer à força “ter razão”, quando quantas vezes não existe uma razão mas sim as razões de cada um.
Muitos gostariam de viver num mundo feito à sua medida, com pessoas feitas à sua imagem, não é no entanto a realidade que vivemos. Há de tudo por aí, muita coisa que choca com aquilo que somos; não precisamos de gostar, só de aceitar que cada um é como é.
Contra factos não há argumentos e ninguém pode mudar ninguém. Criticar e combater a diferença, pelo simples facto de ser diferente, só serve mesmo para gerar desconforto e abrir fossos entre as pessoas.
Outra questão importante é a das bitolas, das quais muitos indivíduos utilizam dois modelos distintos, um para “consumo próprio” e outro para todas as outras pessoas, criticando impiedosamente hoje aquilo que no dia seguinte praticam.
Para alguns, há sempre um “sim, mas…” e as suas questões nunca são semelhantes às dos outros, havendo sempre, no seu caso, justificações, desculpas e atenuantes.
A confiança é também um factor fundamental nos relacionamentos; saber que podemos contar com os outros, fiar-nos na sua palavra e acreditar que nos dirão, sem papas na língua, o que tiverem a dizer.
As relações transparentes, pão pão queijo queijo, em que as pessoas são efectivamente o que aparentam, cumprem com o que dizem, agem conforme apregoam, etc, são muito mais descansativas.
Finalmente, não acredito que algum relacionamento tenha qualidade sem uma grande dose de bondade, de amor pelo próximo, de altruísmo.
Retirar genuíno prazer das relações humanas, gostar de fazer pelos outros, de ajudar, de apoiar, não fugir do compromisso ou da entrega, estar na disposição de fazer sacrifícios, é meio caminho andado para adoçar qualquer relação.
Nada disto evita pontuais atritos, mal entendidos, problemas. Todos temos os nossos dias “não”, os nossos bugs.
A questão é que com alguns as coisas dão imenso trabalho, causam um desgaste tremendo, demoram tempo a ultrapassar, enquanto que com outros rapidamente tudo volta a entrar na linha.
Tenho a sorte e o privilégio de ter alguns relacionamentos destes na minha vida, relacionamentos low maintenance, relacionamentos SPA, relacionamentos que dão prazer pela sua simplicidade.
Que bons que são! ;)
Qualquer um se sente pontualmente ao rubro com alguma situação. Nessas alturas, a emoção tende a sobrepor-se à razão e frequentemente dizemos e/ou fazemos coisas de que nos arrependemos mais tarde.
Quando nos sentimos agredidos, atraiçoados, injustiçados, o primeiro impulso é ripostar tentando infligir a mesma dor ao outro.
É comummente aceite, tolerado, que nos “portemos mal” nestes casos, que tenhamos atitudes meio disparatadas, que não teríamos em situações normais. À nossa volta, uns instigam-nas, outros compreendem-nas, a maioria desculpa-no-las.
Enquanto o sangue nos ferve nas veias, partimos a loiça toda, agimos por impulso, sem pensar que mais tarde, quando arrefecerem os ânimos, teremos de viver com as respectivas consequências.
Qualquer situação acaba por se resolver, de uma maneira ou de outra, quanto mais não seja com o tempo. Tal como as tempestades, todas as crises passam. Os momentos difíceis dão, cedo ou tarde, lugar a outros mais calmos, mais pacíficos, mais serenos.
A forma como os iremos viver dependerá de como nos comportarmos durante a tormenta. Aquilo que formos, aquilo que fizermos, irá definir-nos, marcar-nos, ditar a postura dos outros no futuro.
Não interessa se a situação era obviamente complicada, difícil, se tínhamos “razão” para estarmos transtornados ou se muitos no nosso lugar fariam o mesmo; os actos ficam com quem os pratica.
As pessoas gostam de apurar responsabilidades, de atribuir culpas, de encarnar papeis... aos olhos de cada um há geralmente o bom e o mau da fita.
A vida real não é no entanto um filme de índios e cowboys, de polícias e ladrões, as coisas não funcionam assim, não são a preto e branco, ninguém é completamente culpado ou inocente, todos temos alguma culpa no cartório, alguma coisa a apontar.
As más acções dos outros não justificam as nossas. Como dizia o Gandhi; “olho por olho e o mundo ficará cego”. Portarem-se mal connosco não valida fazermos o mesmo.
A meu ver, a melhor forma de conseguirmos ultrapassar as situações de forma positiva, saudável, efectiva, é com consciência e integridade. Agindo relativamente aos outros como gostaríamos e esperamos que o façam connosco. Tentando sempre compreender e ter em consideração o outro lado.
O nosso primeiro grande crítico sendo nós próprios, não há nada que traga mais paz do que uma consciência tranquila.
A noção de que “apesar de” fomos correctos, não nos descontrolámos, não fizemos nenhuma baixaria, é muito reconfortante mais tarde, mesmo que no momento nos saia do pelo, nos obrigue a fazer das tripas coração.
Por muito que consigamos encontrar justificações e atenuantes para a merda que fazemos, não há como não a fazermos de todo. ;)
Por outro lado, deixar que o facto de estarmos de cabeça perdida dite as nossas acções, tantas vezes com “colateral damage” para quem nos rodeia, para aqueles que afirmamos amar é, no mínimo, extremamente egoísta.
Manter as atitudes correctas e assumir uma postura sensata e inteligente, não é muitas vezes fácil e menos ainda o que nos apetece fazer. No entanto, quem partilha a nossa vida merece pelo menos o esforço e o nosso eu de amanhã irá garantidamente agradecê-lo.
Ao longo da vida vai
havendo uma rotatividade de gente à nossa volta. Pelas mais diversas razões,
surgem uns, desaparecem outros.
A real importância de
cada um, a marca que deixam em nós, só o tempo no lo mostra.
Quem não passou já pela experiência desconcertante de se
lembrar subitamente de ter estado “apaixonado,” na infância ou adolescência,
por alguém que já nem se lembrava que existia?! Ou quem não reencontrou alguém que
conheceu tempos antes e sentiu genuína
pena de não ter desenvolvido na altura uma relação mais profunda..
No momento, as situações
e por arrasto as pessoas, têm um peso que não irão obrigatoriamente manter no
futuro.
É um bocado como as
feridas. Algumas são muito impressionantes na altura, são grandes, dolorosas e
sangram muito, julgamos que irão deixar uma terrível cicatriz e no entanto,
anos depois, vemo-nos aflitos para lhes encontrar
sequer o sítio. Pelo contrário, ás vezes damo-nos conta que a nossa pele reteve
a marca de pequenos arranhões aparentemente insignificantes.
Quando fiz cinquenta anos,
a minha irmã ofereceu-me uma prenda fabulosa, uma ideia genial; uma composição em
que, por cima de uma fotografia minha, montou a cara de mais de trezentas pessoas com
as quais me cruzei.
Devo dizer que não me
poupou, felizmente, a nada e não é de forma alguma um prazer, antes pelo contrário,
lá encontrar algumas. É no entanto, sem dúvida, um excelente
apanhado das minhas relações, da minha vida.
Sinto-me extremamente aliviada por alguns deles já não fazerem parte
dela. Outros são-me um bocado indiferentes, olhar para eles não provoca
qualquer tipo de emoção. A maior parte, encaro com uma enorme ternura e saudade
dos que já não tenho por perto.
Costuma dizer-se que conhecidos
temos muitos mas que poucos são os amigos verdadeiros... afirmação com a qual
só concordo parcialmente.
As amizades requerem, sem
qualquer sombra de dúvida, um enorme investimento, tanto de tempo como de
energia, que não é fisicamente possível despender com uma grande quantidade de
gente.
Tenho no entanto um
sentimento de sincera e recíproca amizade relativamente a uma série de pessoas,
com quem não partilho o meu dia a dia, e a sensação que muito facilmente a
relação se poderia transformar noutra muito mais profunda.
A realidade é que,
efectivamente, relações de estreita amizade não desenvolvemos muitas ao longo
da vida. Estas são de uma extrema importância para mim.
Não acredito que quando
as relações, sejam elas de que tipo forem, não são saudáveis, se deva insistir
nelas.
Não acho que os casais
devam continuar juntos por causa das crianças, que a família tenha de se manter
por perto por partilhar o mesmo sangue ou que os amigos se devam continuar a dar
em nome de um passado em comum.
Qualquer relacionamento
passa por episódios ou até mesmo
períodos complicados. Há no entanto a meu ver que apurar se se trata de uma
intoxicação pontual que, por muito violenta que possa eventualmente ser, há de
passar ou de uma intolerância alimentar que, se insistirmos, nos irá envenenando
aos poucos.
Nessa óptica, afastei-me,
há já vários anos, de alguém que considerava um grande amigo.
Andei muito tempo a
tentar evitar a ruptura, pois a ideia
punha-me doente. A realidade é que de amizade o nosso relacionamento cada vez
tinha menos.
O que despoletou tudo, um clássico; apaixonou-se, arranjou uma
namorada.
Nestas alturas, um recolhimento
no ninho de amor, com consequente afastamento do resto da malta, é a coisa mais
natural do mundo. Não foi no entanto (só) o que aconteceu.
De repente, tudo o que eu
era, tudo o que fazia ou dizia “magoava” ou “ofendia”. Parecia que se sentia
agredido pela minha simples presença. Às tantas entrei num martírio de
contenção, em que perdi toda e qualquer espontaneidade, pensando vinte vezes
antes de fazer ou dizer alguma coisa.
Julgo que a gota de água
tenha sido uma conversa na qual afirmou, com chispas de ódio a sair-lhe dos olhos, o quanto gostava de mim. Daí ao meu “chega” final, foram dois passos.
Não discutimos, não nos
zangámos, simplesmente me pareceu aconselhável ir cada um para o seu lado,
enquanto ainda não havia estragos de maior.
Mandar as culpas para
cima da sua amada seria fácil, parece ser a conclusão mais obvia; “ela
afastou-o de mim”. A realidade é que acredito no livre arbítrio e cada um faz
as suas próprias escolhas.
Estou consciente de que há quem
considere incompatíveis um grande amor e uma forte relação de amizade com o
sexo oposto mas suspeito que possa não ter sido “só” isso.
Este era um lobo solitário, que às tantas adoptou a
nossa alcateia.... pergunto-me até que ponto não terá recalcado uma série de
coisas, a bem do convívio, que terão saído nessa altura, por ter encontrado uma
companheira com a mesma onda.
A realidade é que, apesar
de felizmente não ter pessoalmente nada a apontar-lhe, comecei também eu a não
gostar da pessoa em que se foi lenta mas seguramente transformando. Posturas
que adoptou, atitudes que tomou, opiniões que partilhou, transformaram-no num
estranho aos meus olhos, que me é desagradável e nada tem a ver com o amigo que guardo no meu
coração.
Mas voltando a este
último e simultaneamente ao tema deste post... há pessoas que sairam da
minha vida em quem penso com alguma frequência, noutras esporadicamentemente, nalgumas
praticamente nunca.
Ao fim deste tempo todo, não passa uma semana sem que ele
me venha à cabeça.
Recordo-o constantemente,
sem tristeza, porque não morreu; pelo menos parte dele está
a viver o amor da sua vida, é pai de família, tem finalmente tudo aquilo com
que sempre sonhou. :)
Penso nele com muita ternura,
um imenso carinho, uma grande saudade e a perfeita consciência de ter perdido uma amizade como há poucas.
Não importa o que é agora, o coração não pára de me relembrar inequivocamente o que foi. É isto que o tempo faz,
dá-nos a noção da importância das coisas na nossa vida.
Pelo que fomos, pelo que
tivemos... tchin, tchin... LuvU PW, estejas lá onde estiveres!
Eu tinha dito que voltava… um excelente 2016 para todos! ;)
Cada vez mais me convenço que o ser humano é incrivelmente megalómano
o que, na minha humilde opinião, em nada contribui para a felicidade.
Da mesma forma que o nosso corpo é essencialmente composto
por água, as nossas vidas são a soma de uma infinidade de pequenas coisas
simples.
Os grandes eventos, os grandes marcos, são acontecimentos
esporádicos, pontuais, não é com eles que convivemos no dia-a-dia.
Há tempos uma amiga confessou-me ter chorado de emoção da
primeira vez que voltou a tomar um banho no mar, depois de uma mastectomia.
Quantas vezes só quando as perdemos atribuímos real valor a
determinadas coisas…
Degustar um bom vinho pode ser um deleite para o paladar, qualquer um conhece no entanto o prazer supremo de beber um copo
de água quando se está com muita sede.
Não estou de forma alguma a desprezar os grandes acontecimentos das nossas vidas.
É certo que o momento em que acabamos o curso, casamos
ou temos um filho têm peso, são marcantes, são importantes. Não o são no
entanto a meu ver, nem mais nem menos do que as aulas, o namoro ou a gravidez.
A nossa vida são todos os dias, é a soma dos mesmos, são as
pequenas e as grandes coisas.
Um por do sol ou um arco-íris podem proporcionar tanto ou
mais prazer ao olhar do que um Picasso ou um Michelangelo.
Tendemos no entanto a atribuir uma importância exacerbada à
raridade, àquilo que não é frequente ou comum, e a minimizar o que vivemos regularmente.
Peguem na metáfora do frasco de maionese e substituam o que lá cabe por pequenos e grandes eventos. Só com as bolas de
golf o frasco não estaria garantidamente cheio, não.
Da mesma forma, tendemos a valorizar desmesuradamente os
grandes actos, as grandes acções, e a desprezar as pequenas interacções com os
outros.
As pessoas entusiasmam-se imenso na preparação de grandes acções
de apoio, surpresas ou declarações de amor mas esquecem-se muitas
vezes das pequenas atenções do dia a dia, tão ou mais importantes do que as
primeiras.
É importante dizermos e mostrarmos frequentemente aos outros
o quanto gostamos deles, como são importantes para nós.
Quantas vezes já ouvi um “mas ele/ela sabe”… pois até pode
saber… mas saber e sentir são coisas completamente diferentes. Um sorriso
caloroso, um abraço apertado, uma palavrinha amável, fazem milagres.
Há palavras e expressões difíceis, se não mesmo impossíveis,
de traduzir para outras línguas, uma delas sendo, a meu ver, o “care” inglês.
Tem a ver com cuidado, carinho, interesse, preocupação,
assistência, apoio. O “care” não é uma palavra sonante, pomposa, grandiosa. É no entanto sem dúvida uma atribuição de importância e ás vezes sentir que importamos faz sem dúvida toda a diferença.
As pequenas
coisas são as grandes coisas; just keep it simple and show that you care… ;)
Este blog faz hoje nove aninhos… Yei… parabéns, blog!
As opiniões divergem enormemente no que respeita a tatuagens.
Há quem as abomine, as considere tremendamente ordinárias, não consiga sequer entender como é que alguém, voluntariamente, se marca assim para a vida. Há quem as adore, as considere uma forma de arte, faça umas atrás das outras até cobrir o corpo com elas. Entre uns e outros, mais de cinquenta tons de cinza... ;)
Pessoalmente gosto muito e andei anos a considerar fazer uma.
A primeira coisa que tatuei foi a assinatura do meu pai, na nuca. Achei original e gostei da ideia de ser “uma obra assinada”. lol
Demorei tanto tempo a decidir-me que, apesar de ter chegado a falar disso com ele, só a fiz cinco anos depois da sua morte.
Tenho pena, ele teria achado graça…
A escolha do sítio não foi no entanto fantástica, dado que uso geralmente o cabelo relativamente comprido, ficando portanto tapada, e que pessoalmente só a consigo ver ao espelho e ainda assim com dificuldade.
Fiquei portanto, muito rapidamente, com vontade de fazer outra.
Fazem-se tatuagens de todos os géneros e em todos os sítios do corpo.
Há quem opte por desenhos humorísticos (o meu pai costumava dizer, na brincadeira, que se fizesse uma tatuagem seria uma mosca debaixo do dedo grande do pé…lol), quem faça escolhas mais "artísticas" e quem prefira citações ou dizeres… Há quem se tatue para disfarçar cicatrizes, para homenagear alguém ou para se lembrar de algo. Há quem escolha sítios bem visíveis e quem se tatue onde não chega o sol.
Todas as opções relativamente a uma tatuagem são “pessoais e intransmissíveis”…
Aquilo que geralmente mais confusão faz às pessoas é o seu carácter permanente, nunca ouvi ninguém criticar a colocação de uma tatuagem provisória. E como são no entanto potencialmente perigosas…
É uma ideia que não me intimida, tenho várias outras marcas indeléveis, mais conhecidas por cicatrizes, cuja localização e forma não tive sequer a liberdade de escolher e que não me incomodam minimamente.
O “para sempre” é, para além disso, hoje em dia relativo, dado já se apagam tatuagens com bastante sucesso. Se bem que apesar de ser reconfortante a noção de que no limite é possível, fazer uma considerando apaga-la é como casar-se já a pensar no divórcio. ;)
Não encaro no entanto o assunto de ânimo leve, o que não falta por aí é gente arrependida das tatuagens que fez, não me imagino a fazer uma tatuagem de impulso.
Assim, durante seis anos, pensei e repensei os seguintes factores.
Localização
Para mim, uma tatuagem tem de ser “escondível”, tenho de ter a possibilidade de não a mostrar se não quiser. Para além disso, tem de ser num sítio em que não fique horrenda com as inevitáveis transformações do corpo ao longo dos anos.
Estética
Uma tatuagem é para mim um “adereço fixo”, é suposta embelezar harmoniosamente a parte do corpo quem que é colocada, como se de uma peça de bijutaria se tratasse.
Significado
Fartei-me de rir, com um Calimero a […] à abelha Maia, que vi no portfolio da casa de tatuagens onde fiz as minhas. No entanto, por muito que aprecie o sentido de humor, era incapaz de fazer algo do género, para mim é necessário que tenha um forte significado.
Tive grandes hesitações relativamente ao sítio, passei muito tempo na net à procura de inspiração, fiz esboços e mais esboços com variadíssimas hipóteses, até que um dia acordei com a certeza do que queria. Desenhei toscamente a coisa, cravei a mana para fazer um desenho decente e marquei para logo que possível.
Eis o seu significado para mim:
Espirais – símbolos aquáticos, representando os ciclos de vida, o crescimento/desenvolvimento/evolução, a mudança permanente. A consciência de que a nossa vontade tem a força das ondas. Um lembrete de que muitas vezes temos de persistir, de insistir, de repetir vezes sem conta até chegarmos ao resultado pretendido. O caminho da consciência exterior para o nosso eu interior, a essência do que somos.
Simbolo do infinito – de novo o ciclo da vida. A ausência de limites, uma infinidade de possibilidades, escolhas e decisões. “What goes around, comes around”, na vida recebemos o que damos. A consciência da nossa pequenez e total falta de importância no “grande cenário”. A noção de que existem “universos paralelos”, de que há pessoas que vivem realidades completamente diferentes da nossa.
As relações humanas são provavelmente, para mim pelo menos, a coisa mais importante na vida.
Não me imagino a viver sem amor e carinho, sem humor, sem apoio e entreajuda, sem troca de ideias ou partilha de experiências…
Tenho, talvez por isso, uma memória emocional de elefante.
As datas e os factos, os porquês e os detalhes, esfumam-se-me na mente mas dificilmente me esqueço de como alguém me fez sentir.
O instinto de sobrevivência e o absoluto prazer em ser feliz, levam-me a afastar de tudo o que me faz mal, atirando para trás das costas aqueles que me fizeram essencialmente sofrer.
Os outros, independentemente de eventuais quezílias que possa ter havido pelo caminho, transporto-os para sempre no coração, quer tenham sido namorados ou amigos, colegas ou professores, colaboradores ou vizinhos…
Assim, quando reencontro alguém que, de alguma forma, fez parte da minha vida, sinto-me como se o tempo não tivesse passado.
Se de um “mau” se tratar, afasto-me prudente e discretamente, reduzindo a interacção ao inevitável.
Se, pelo contrário, se tratar de alguém que tenha deixado uma marca positiva na minha vida, continuo a sentir a mesma empatia, a mesma cumplicidade, a mesma intimidade.
É aqui que a porca torce o rabo, pois raramente sou correspondida.
Neste tipo de situações sinto-me como um cachorrito acolhendo o dono depois de uma longa ausência, salto, gano e dou ao rabo, numa excitação, à espera de festas, à cata de reconhecimento e afecto, recebendo no entanto geralmente em troca um distanciamento reservado, uma indiferença polida.
O expoente máximo desta sensação foram os meus 50 anos, durante uns tempos hesitei entre não fazer absolutamente nada, deixando passar a ocasião em branco ou celebra-los, de alguma forma diferente do habitual.
Cinquenta anos, meio século, bodas de ouro da vida… se há data gira para se festejar, na minha opinião, é mesmo essa e achei que se não o fizesse me iria arrepender.
Decidi assim seleccionar as 50 pessoas que, de alguma forma, em algum momento, cruzaram a minha vida, com quem me apetecia realmente partilhar esse marco.
Foi um exercício engraçado, mais difícil do que estava à espera… 50 pessoas é muito e é pouco, são demasiadas para o núcleo duro mas é extremamente limitativo quando alargamos o horizonte da escolha...
Adivinhem então quem esteve presente?! Grosso modo, aqueles com quem partilho actualmente a minha vida, os que são, hoje em dia, convidados para qualquer evento de relevo.
Os que tentei ir buscar ao passado baldaram-se ou, pior ainda, nem sequer se deram ao trabalho de responder ao convite.
Apesar da postura “cool” que tentei ostentar para o exterior, se vos dissesse que não doeu, estaria a mentir. As inúmeras ausências fizeram-me sentir pequenina, insignificante. Fizeram-me acima de tudo pensar que não tinha tido qualquer peso, qualquer importância, qualquer relevância, nas suas vidas.
Acredito que a auto comiseração seja uma tendência natural do ser humano, somos todos instintivamente Calimeros, se não lutarmos contra isso. Assim, de cada vez que me deparo com uma destas situações de afastamento emocional, penso que o “problema” é meu. Sinto que não deixo senão marcas d’água no coração dos outros, marcas que desaparecem com o tempo, não ficando senão uma muito ténue lembrança do que existiu entre nós.
A realidade é que a própria vida não passa de uma marca d'água, tudo é efémero, a vida é hoje, é aqui, é agora e consciente ou inconscientemente é no que as pessoas investem, é ao presente e a tudo o que dele faz parte que se entregam.
Qualquer um de nós tem muito menos importância do que gosta de acreditar e as marcas que eventualmente deixamos nos outros têm muito mais a ver com eles próprios do que connosco.
Alguns putos não querem os pais
como “amigos” no facebook.
Muita gente acha isso
normalíssimo… eu não, acho que é sinal que algo está errado.
Todos, na minha opinião, temos
direito aos nossos “jardins secretos”, acontece que o facebook é um “jardim
público”.
Já aqui falei várias vezes sobre
as redes sociais e afins, que continuo e continuarei a defender por considerar
que trazem, apesar de tudo, mais coisas positivas do que negativas.
Há entanto, sem dúvida, muita
gente completamente baralhada sobre o assunto.
A “barreira do computador” faz
com que muitos tenham online comportamentos idiotas, imprudentes, inadequados, etc,
esquecendo ou ignorando as regras básicas do convívio em sociedade.
Tendem, por outro lado, a esquecer-se
que estar online é mais ou menos como estar no meio da rua e que tudo o que “postarem”
pode, potencialmente, ser visto por qualquer um.
Dito isto, o que leva um filho a
não querer que os pais tenham acesso à sua página?! Das duas uma, ou o seu
comportamento ou o deles.
Ou seja, ou não querem que os
pais vejam o que lá põem, por terem noção que poderá, na sua opinião, ser
criticável, ou têm medo do que os próprios pais lá possam deixar.
No primeiro caso, ou têm pais particularmente
rígidos ou postam de facto coisas que não deveriam, com os pais “a ver” ou sem
eles.
Parece-me fundamental que tanto miúdos
como graúdos, compreendam que as regras comportamentais da vida virtual são exactamente
as mesmas que as da vida real e que não devemos fazer na nossa página nada que
não fizéssemos noutro lado qualquer.
É mais do que evidente que a
atitude de cada um muda consoante a pessoa que tem à frente ou o grupo onde
está inserido no momento. Não falamos da mesma forma com avós e amigos, com
professores e colegas, crianças e adultos, etc…
As redes sociais não são no
entanto equiparáveis ao nosso quarto ou ao canto do recreio da escola, são “via
pública”, é preciso ter noção disso.
Para uma audiência selecta
existem os chats, as mensagens privadas, os emails… ou inclusivamente as próprias ferramentas de selecção do Facebook, que a maior parte desconhece ou não domina.
Suspeito no entanto que a segunda
razão tenha em muitos casos tanto ou mais força do que a primeira. Há pais que não
têm noção de como pode ser embaraçante para os filhos o seu comportamento
online. Quem não foi já parar a uma página de exemplos disso?!
Teoricamente, se tem têm conta no
Facebook, estes já não serão propriamente crianças pequenas e, como todos
sabemos, não há quem se embarace com mais facilidade do que os adolescentes.
Se acharem que os pais possam vir
a ter uma presença invasiva, mais facilmente farão um pacto com o
diabo do que aceitarão a sua amizade.
Fazer like a tudo o que colocam
online ou encher-lhes a página de merdas não é ok, fá-los parecer meninos da
mamã (ou do papá). Dar-lhes descascas públicas relativamente a algum post, também
raramente é boa ideia, se temos alguma coisa a dizer, façamo-lo em privado sem
os humilhar. Ir cuscar quem são os seus amigos e tentar sacar nabos da púcara ou,
pior ainda, pedir-lhes amizade, é no mínimo controlador.
Enfim… não são só os filhos que se "portam mal”, há mil e uma coisas que os pais podem fazer que justificam que
eles nos queiram à distância.
Voltamos assim à mesma conversa
de sempre, a vida online não é diferente da vida real, as regras são as mesmas,
o bom senso deve imperar e cá estamos para aprender uns com os outros. É nisto
que se baseiam os relacionamentos saudáveis. ;)
Há pessoas que são naturalmente “cool”, que parecem saltar levemente de nenúfar em nenúfar, sem aparentemente se preocuparem com grande coisa. Confesso que tenho uma certa inveja, a maior parte de nós tende a preocupar-se com alguma regularidade.
Preocupamo-nos connosco e com os outros, com o mundo que nos rodeia e com o estado do mundo em geral, com questões de dinheiro, de trabalho, de saúde, de relacionamentos… motivos para preocupação geralmente não faltam.
Esta não passa no fundo de uma espécie de medo, preocuparmo-nos com algo é temer um potencial desfecho negativo da questão.
Consome-nos, gera angústia, ansiedade, mau estar, sofremos por antecipação, frequentemente com coisas que nem sequer chegam a acontecer. Como se costuma dizer “até ao lavar dos cestos é vindima” e quantas vezes as situações não têm desfechos bem diferentes dos previstos.
Por outro lado, dá ideia que as pessoas acham que preocuparem-se é sinónimo de gostar, demonstrar empatia, interesse pelos outros ou pelas situações. Como se o facto de sofrermos, só por si, mudasse alguma coisa, como se fosse de alguma forma ajudar.
A realidade é que, relativamente a grande parte das coisas que normalmente nos preocupam, não há geralmente grande coisa que possamos fazer.
Não deveríamos deixar que as preocupações passassem de sinais de alerta, sendo rapidamente descartadas.
Das duas uma, ou está ao nosso alcance fazer alguma coisa, em cujo caso devemos arregaçar as mangas cruzando os dedos para que corra tudo bem, ou foge completamente ao nosso controle e a nossa preocupação não servirá absolutamente para nada.
Basta pensarmos para concluirmos que preocuparmo-nos é das ocupações da mente mais inúteis e contraproducentes.
Tal como tantas outras coisas na vida, é sem dúvida muito mais fácil dizer do que fazer.
Não só consideramos as preocupações naturais, estando completamente habituados a tê-las e a que os outros as tenham à nossa volta como, se não a demonstrarmos perante determinadas situações, seremos considerados insensíveis, inconscientes, etc…
Sou pessoalmente uma pessoa tendencialmente preocupada sofrendo imenso com isso.
Sou, felizmente, por outro lado, extremamente aberta à lógica e à razão, acreditando que está nas nossas mãos mudar, até o que “sempre foi assim”, e que o devemos fazer ao longo de toda a vida, por forma a ir ganhando cada vez mais serenidade e paz de espírito.
Quando me apercebi que as preocupações nos tiram qualidade de vida, em troca de absolutamente nada, comecei uma árdua campanha. A luta não tem sido fácil mas tenho ganho várias batalhas e tenho fé de poder ganhar a guerra.
Que nem testemunhas de Jeová, continuam a bater-me à porta, como sempre fizeram, mas agora já aprendi que é ok dizer não, que não preciso de as ouvir, de lhes prestar atenção, de gastar com elas o meu precioso tempo.
Comecei por tentar banir a palavra do meu vocabulário, é um truque que uso frequentemente como guia para aquilo em que acredito. Fiz o mesmo com as palavras “sempre” e “nunca”, por exemplo, ou com a afirmação “tens que…”. Se modelarmos o nosso discurso estaremos simultaneamente a moldar a nossa mente.
Funciona igualmente bem substituir “preocupação” por “miúfa” ou equivalente... lol ... é muito mais nobre, muito mais digno, estar-se preocupado do que completamente acagaçado, ninguém gosta de se assumir como mariquinhas, para além de que põe logo as coisas em perspectiva.
Depois, quando alguma preocupação me assalta, tento sempre compreender se está nas minhas mãos fazer alguma coisa.
Como em tudo, o grande desafio está na “sabedoria para perceber a diferença”.
Se chego à conclusão que não, compenetro-me de que o meu sofrimento não servindo qualquer propósito o melhor mesmo é po-lo para trás das costas.
Senão, meto mãos à obra, “esperando o melhor e preparando-me para o pior”.
A questão do tempo é também essencial, a maior parte das coisas não se resolvendo do pé para a mão, estando sujeitas a timings e compassos de espera.
Há assim que viver o aqui e agora, tirar folga do que nos preocupa e respirar fundo. Mudar a cabeça para outro lado, naqueles momentos em que não há nada a fazer, por forma a poupar forças.
Preocuparmo-nos com dinheiro não nos torna ricos, preocuparmo-nos com a saúde não nos torna saudáveis… só infelizes.