segunda-feira, 7 de julho de 2008

O fenómeno LF

Faz amanhã três semanas que, por sugestão de um amigo e ex-colega, criei uma Network para os Antigos (alunos e professores) do Liceu Francês de Lisboa…
Neste momento somos quase 600 membros, "vindos" de 37 países!!!
Está a ser um sucesso estrondoso, tanto em termos de adesão como de participação no site …
Desde que sai de lá que não paro de me admirar com este fenómeno…
Quando encontramos alguém que também lá andou, senti-mo-nos como se reencontrássemos um amigo de infância. Perguntamos pelos outros, combinamos coisas, partilhamos histórias “d’anciens combatants”, como dizem os francius. ; )
Tanto pode ser um antigo colega de turma como alguém que só conhecíamos de vista ou de nome, a quem nunca tínhamos sequer dirigido a palavra.
Isto não acontece relativamente a nenhuma das outras “escolas” onde andei (Iade, Arco, etc…) nem nunca sequer ouvi pessoas que frequentaram outros sítios mencionar nada de parecido. Com excepção talvez para o Colégio Militar…
Vários dos meus amigos mais chegados também lá andaram, dou-me com alguns já vai para trinta anos… Aliás, entre os antigos alunos há imensos que continuam a dar-se, a manter contacto regular.
Os que não se dão, não perdem uma ocasião de combinar coisas, de se voltarem a ver…
Ao jantar de comemoração dos 50 anos do Liceu acorreram (se não estou em erro) cerca de 1.500 pessoas… tiveram de alugar uma sala no pavilhão atlântico.
Os que foram adoraram, os que não conseguiram ir tiveram pena…
Os que lá não andaram explicam isto dizendo que somos uma cambada de cagões, que temos a mania que somos especiais, que temos sempre de ser diferentes, que aquilo é uma escola elitista, etc, etc, etc…
Pôr um filho no Liceu Francês é uma decisão de peso, um compromisso com a sua escolaridade.
Opta-se por um tipo de ensino, uma língua, etc.
Há coisas importantes que se decidem em função disso.
Eu, por exemplo, só “fugi” para Sintra porque o meu filho não entrou para lá.
Se ele tivesse entrado eu provavelmente nunca teria saído (de Lisboa, claro… LOL).
Normalmente, quem entra, fica até ao fim.
Claro que há excepções… pessoas que vão pra fora... que são “convidadas a saír” (naquele Liceu ninguém é expulso, parece mal… LOL)... A realidade é que, anos depois, até essas pessoas, algumas delas que odiaram lá andar, sentem carinho por aquela “casa” e pelos que lá andaram…
Acho no fundo que o Liceu Francês funciona como uma grande família… Há irmãos, primos, primos afastados... Que é como quem diz amigos, colegas, pessoas que nos habituámos a ver “por lá”. Até há pais, tios e padrinhos... professores, contínuos, senhoras do bar.
Enquanto lá estávamos isso não parecia ter importância nenhuma, sentia-mo-nos num liceu como outro qualquer.
Quando saímos o espírito de clã vem ao de cima.
Criámos laços que nem sabíamos que existiam e que, cá fora, se tornam evidentes.
Não tenho, pessoalmente, nenhuma simpatia especial pelo povo francês, não mais do que por qualquer outro. Mas a sua cultura está entranhada em mim e os antigos alunos hão de sempre ocupar um lugar muito especial na minha vida.
Penso que isto aconteça com quase todos nós...
É a este espírito, e a mais nada, que se pode agradecer todos os reencontros que se estão a dar neste momento ...

15 comentários:

  1. Puxando a brasa ao meu salmão (que eu não gosto de sardinhas...):

    Antigos Alunos dos Salesianos do Estoril

    Antigos Alunos do Instituto Superior Técnico

    No entanto, o que tu falas é de esprit de corps, e isso é algo diferente do que ir a um jantar de vez em quando.

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  2. Nuno, não sei o que é "esprit de corps"... sou uma inculta... ;)
    Mas fui dar uma vista de olhos (muito rápida, depois volto lá com mais calma...) aos sites que mencionas e, se quiseres dar uma vista de olhos ao nosso (link no blog, não consegues passar da 1ª página mas chega... ;), verás que é tipo o cú e as calças...
    Neste post falo basicamente em relações humanas, não em saudosismo para com uma instituição.
    Temos, de uma forma difícil de explicar para quem não andou lá, uma empatia incrível uns com os outros.

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  3. Sabes, eu comento quer esteja de acordo com o que escreves, quer não esteja de acordo.

    Neste caso estava no fundo a dizer-te (com a referência ao esprit de corps) que era uma onda diferente de simplesmente ir a um jantar anual.

    Esprit de corps é, entre outras coisas, espírito de grupo.
    Uma qualidade intangível de um grupo de pessoas se sentir unida, independentemente do tempo que estão afastadas. (Ring a bell?)

    Isso normalmente nasce de terem partilhado experiências semelhantes (mesmo que nunca se tenha encontrado no tempo). É o que acontece com os veteranos de guerra, por exemplo. (não estou a querer comparar as duas coisas, só o sentimento).

    Pessoalmente, acho interessante esse fenómeno, e penso que acima de tudo é enriquecedor da nossa experiência de vida.

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  4. hmmm dei-me conta que o meu último comentário era algo Bicudesco...

    as minhas desculpas...

    :-)

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  5. Podes crer... um bocado Bicudesco... cospe, cospe... lol
    Vai comer uma santola para te "purificares"...

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  6. Gente fina, fina, mesmo fina é, simultâneamente:

    http://aelfcl.ning.com/

    http://aaa.ist.utl.pt/

    http://portal.fe.unl.pt/portal/page?_pageid=35,20347&_dad=portal&_schema=PORTAL

    A única coisa preocupante é que a intersecção destes três conjuntos sou eu e o bicudesco.

    Chato, não?

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  7. Muito chato, de facto, coitados...

    Eu cá prefiro gente grossa, grossa, mesmo grossa.

    lololololololololol

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  8. Já que estamos a medir grossuras ou finezas, aqui vai o meu percurso (não consegui apanhar o site da minha saudosa Escola Básica n.º 2):

    www.escola-sec-cascais.net/

    www.esec-fonseca-benevides.rcts.pt/

    www.esffranco.edu.pt/

    www.essje.pt/

    http://portal.fe.unl.pt/portal/page?_pageid=35,22124&_dad=portal&_schema=PORTAL

    www.fcee.lisboa.ucp.pt/custom/template/fceetplhome.asp?sspageid=1&lang=1

    Faço notar a total ausência de esprit de corps, associativismo ou de clubes de antigos alunos, em todo este batalhão de escolas que frequentei com alguma assiduidade.

    Faço também notar o perfil público e proletário deste vosso servidor, interrompido mais recentemente com uma conversão ao catolicismo.
    Ao invés de certos e determinados defensores de ideais solidários e colectivistas, que aparentemente tiveram um passado burguês.

    Por isso, sorry lá, mas esta conversa passa-me completamente ao lado. Devo ter vistas curtas e grossas...

    ;-)

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  9. Antes curtas e grossas que compridas e fininhas... digo eu. lol

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  10. Zé Pedro Andrade dos Santosquarta-feira, 23 julho, 2008

    Eu acho que é tudo isso e mais uns trocos.

    Eu acho que do Lycée saíram realmente pessoas diferentes, em grupo, heterogéneo, nivelado por cima, e não por baixo. De uma forma abstracta, a única coisa que poderia ser reprimida seria a mediocridade. Nem sempre com sucesso, infelizmente.
    Vejamos o que isso representa para as gerações menos jovens, isto é, dos que saíram antes da revolução. Dos mais novos que se chegue à frente quem quiser.

    1) O Lycée era misto.
    Quero dizer que, não só era frequentado por meninos e meninas, ao mesmo tempo, como um ou dois outros liceus de Lisboa, mas também, e sobretudo, caso raro e praticamente nunca visto, havia TURMAS MISTAS: meninos e meninas sentados lado a lado, podendo partilhar as mesmas conversas, as mesmas brincadeiras; podendo observar de visu, e na presença, as respectivas diferenças; podendo namorar nas aulas, nos corredores e em mais alguns sítios que me dispenso de comentar para não denunciar a população actual.
    Hoje isto pode parecer uma coisa simples, mas FAZ TODA A DIFERENÇA: saber de experiência feito.
    Quando eu tinha 15, 16 anos, ouvi amigos meus, que andavam no Camões, no Pedro Nunes, dizer coisas como: “Com as namoradas não se fode!”. Aliás, as namoradas eram assexuadas, não menstruavam, não tinham desejos. Um pouco à imagem das mães. Das deles. Ainda se cultivava bastante a iniciação dos meninos no bordel (casas de …tolerância) onde as pulsões eram “taken care of” por profissionais. E não estou a falar do Neolítico, nem da primeira cruzada: os Beatles já se tinham separado, pouco faltava para Woodstock, e para Neil Armstrong caminhar na superfície da lua.
    Essa é a geração que nos tem governado: sexo no casamento, de preferência, só para procriação; a mulher não manifesta, ou mesmo, NÃO TEM prazer na cama, mas é obrigada ao dever conjugal como exutório da líbido do marido. Caricaturando, a vida sexual de um aluno do Camões ou do Pedro Nunes, podia limitar-se ao saudável desporto de polir a calçada à porta do Maria Amália, do Académico ou do Colégio do Parque, na hora da saída das meninas, a quem estava vedado, por exemplo, e por absurdo, atravessar o Parque Eduardo VII a qualquer hora do dia, não fossem escorregar no empedrado polido, e rebolar na relva, para debaixo de algum arbusto. E eles faziam-no na esperança de uma troca de olhares, de um sorriso, de uma ida ao cinema de mãos dadas e uns beijos roubados na última fila do balcão, ou na escada do prédio.
    Felizmente havia excepções, mas eram o segredo mais bem guardado da cidade.
    Imaginem os constrangimentos: os deles e os delas; imaginem a tesão reprimida; imaginem… vejam ou revejam “Esplendor na Relva”, de Elia Kazan, de 1961: dos perigos da tesão reprimida (não sei se desde a assinatura do acordo ortográfico, tesão mudou de género, como lá do outro lado do Atlântico. É o que o corrector ortográfico do Word me está aqui a assinalar!!!!).
    Não quero com isto dizer que o Lycée era uma rebaldaria: só vai quem quer. Mas a simples sensação de que era possível, constituía um clima totalmente diferente. Se isto não ajuda a criar uma relação diferente com as emoções mais íntimas, não sei o que o fará.

    2) O Lycée era uma ilha.
    Oásis, ilha, whatever.
    Não me recordo de alguma vez me ter sentido coibido de falar do que quisesse: sexo, religião, política, música ou qualquer outro tema “tabu”. E sobretudo de livros, filmes e música PROIBIDOS. O Lycée devia ser o único estabelecimento de ensino em Lisboa (e arredores) onde não era especificamente reprimida, ou mesmo proscrita, a Pró-Associação dos Liceus. Não que ignorássemos que também por ali havia bufos, entre pessoal administrativo e estudantes, mas uma espécie de escudo invisível da “nossa superioridade”, ao qual não seria estranho uma espécie de pacto de não agressão entre o Estado policial português e a administração francesa do Lycée (que não depende, nem dependia, do Ministério francês da Educação, mas do Ministério dos Negócios Estrangeiros: a diplomacia, portanto) dava-nos um certa sensação de impunidade, de que o direito de protestar era sagrado. Se mais não fosse, a “educação francesa” ensinou-me a não engolir sapos desnecessários, a manifestar a minha indignação, a defender os meus direitos. Resquícios da Revolução Francesa. Quais brandos costumes, qual carapuça!
    Claro que existia repressão dentro do Lycée: repressão dos impulsos juvenis, repressão de manifestações que pudessem tornar-se contagiosas. Hoje diríamos que é normal. Mas, sempre existiu ”possibilidade de diálogo”: não era uma coisa monolítica. Apesar de, na época, nos parecer excessiva, a disciplina ali praticada não era castradora. Não era preciso ter medo dela: podia-se reconhecê-la e contestá-la, se necessário. Como se sabe, as "expulsões" processavam-se de comum acordo.

    3) O Lycée ensinava a pensar.
    Muitos dos professores que ali ensinavam estavam proibidos de ensinar nos liceus portugueses simplesmente porque se opunham, pelas ideias, ao regime vigente, não concordando com o sistema de ensino oficial. Isso também fazia toda a diferença: diferença nos programas de ensino, diferença na informação partilhada, diferença na abordagem das questões, diferença nas leituras. E mais não fosse. Em francês como em português. Nada ali era proibido “dentro dos limites da decência” (adoro esta frase, e raramente tenho ocasião de a escrever). A Comissão de Censura não metia o bedelho na escolha dos livros disponíveis na biblioteca do Lycée. Quantos estudantes do ensino oficial português conheceriam Giordano Bruno ou estudariam textos de Raul Proença ou Carlos Oliveira, a não ser às escondidas? Era Camões e Gil Vicente; e Eça, nos liceus mais progressistas. É verdade que quem tinha de fazer os exames do ensino oficial português, para acesso ao ensino superior, tinha de empinar, como os outros, os rios do Minho ao Guadiana, do Cabinda ao Cunene, e do Rovuma ao Maputo. Sem esquecer os afluentes, distinguindo os da margem esquerda dos da margem direita. Como se não houvesse mapas; como os copistas nos mosteiros, antes da prensa tipográfica. E Portugal ia do Minho a Timor, lembram-se? Ah, também havia as linhas e ramais de caminhos de ferro: linha do Norte, linha da Beira, Caminho de Ferro de Benguela… Só faltou saber de cor os horários dos comboios. No Lycée era mais como hoje, com o Google: não era preciso saber tudo, era preciso era saber encontrar a informação. Não aprendíamos simplesmente os factos, aprendíamos o que os motivava e o que os relacionava, até ao âmbito planetário. Duvido que, nos liceus portugueses, se relacionasse o bloqueio continental com a fuga da família real portuguesa para o Brasil, já que estamos no ano do bicentenário…

    Muitos dos que passaram pelo Lycée, passaram lá uma enorme fatia das suas jovens vidas. Os núcleos duros das turmas eram coesos anos e anos a fio. O corpo docente era estável. Como não se constituiria um espírito de corpo?
    Não pensávamos todos da mesma maneira, sobretudo em relação a coisas fundamentais. Mas percebíamos a diferença. Havia quem soubesse de antemão que abandonaria o País a seguir ao Bac para não ir malhar com os ossos em África, numa guerra que não nos dizia respeito. Havia quem discordasse dessa posição, mesmo que não concordasse com a guerra. Havia quem não imaginasse sequer a possibilidade de se separar da família, sabendo os riscos que corria. E havia também quem achasse que gostaria de ir dar uns tiros e matar uns negros (voir du pays), já que para isso andavam a ser endoctrinados, aos sábados de manhã, vestidos de parvos, comandados por um parvo vestido de menino. Tínhamos 15, 16 ou 17 anos. E a questão era discutida, entre nós e/ou com professores, e não se extremavam posições. Claro que “il y avait des claques qui se perdaient”.

    15 anos a conviver com outras culturas, a aprender outras línguas e outras realidades fizeram de nós jovens diferentes da maioria dos outros jovens portugueses. Na forma de estar e de pensar. Mais “cidadãos do Mundo”. Disso não resta a menor dúvida. Imagino um jovem de 18 anos, saído do Camões em 1968, com noções insuficientes de francês ou inglês, matemática, física, a ingressar numa universidade francesa, belga, inglesa, a sobreviver sem a sopa da mãe, sem a cama feita pela empregada doméstica (vulgo “sopeira”), sem camisas engomadas, a trabalhar em cafés, livrarias e oficinas, porque o dinheiro da mesada do paizinho não chegou - ou o pai simplesmente não tinha como enviar; ou não enviava para pressionar o jovem a regressar ao seio familiar, lembrando que o exército também é uma grande família com figuras paternais (os oficiais) e maternais (os sargentos); também ali se aprende a respeitar a autoridadezinha e a obedecer sem discutir, e muito menos pensar: 'Não discutimos Deus e a sua virtude, não discutimos a pátria e a sua história, não discutimos a autoridade e seu prestígio, não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.' (Salazar às tropas de Gomes da Costa em parada, no décimo aniversário do golpe fascista de 1926). Disso nos “salvou” o Lycée Français Charles Lepierre de Lisboa e as amizades e cumplicidades ali engendradas, ao possibilitar outras partilhas e outras escolhas, que não eram acessíveis a todos.

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  11. É caso pra dizer: dassssssss!!!
    Ó Zé Pedro, estás-me a envergonhar, pá! Então isso faz-se?! Escrever um comentário que dá dez a zero ao post original?! Tá mali... lolololol

    Gostei muito. E gostei de ser apresentada a um Liceu que já não é do meu tempo, que já não conheci... ou melhor, desse portugal é que pouco ou nada me lembro, era demasiado jovem...

    Parabéns pelo post!
    Sim, que chamar-lhe "comentário" foi bera... lol

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  12. Zé Pedro Andrade dos Santossegunda-feira, 28 julho, 2008

    Não sabia que era uma competição... O mérito está no lançar das propostas de cumbersa. Depois, que apareçam os diversos pontos de vista. É para isso que existem os blogs.

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  13. Heloooo?! I was kidding... lolololol
    ;)

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  14. Cristina,

    Se eu tivesse, há uns dias atrás, sabido deste blog, não teria feito escriturações, sobre o Liceu Francês, no meu...nem teria repetido a dose, tornando a escrever no meu blog; se eu tivesse lido os comentários - que acabo de encontrar - teria alimentado a discussão aqui.

    EStá feito: escrevinhei no meu blog. E, porque achei importante, fiz copy paste do texto, deste blog, sobre o fenómeno liceu francês.

    Está tudo em:

    http://lojadeideias.blogspot.com

    O melhor será juntarmos todos os textos e toda a discussão num único site ...

    Salut!

    Vera Santana

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  15. xiii
    cristina
    vera
    meninas
    depois do poste
    sorry do comentario
    do zp nao leio mais hoje
    fiquei de lagrima no olho
    o que nao é bem o meu genero

    volto amanha
    para ler mais patrazzzzzz

    beijos

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