terça-feira, 10 de abril de 2018

História de um processo criativo



Várias pessoas me têm perguntado como é que  “funciono”, como me vêm as ideias, se sei há partida o que quero fazer, se as coisas saem sempre como as imaginei, etc… para esses, decidi escrever este post. ;)
Para a minha exposição, decidi fazer um quadro onde constassem todas as técnicas que utilizo. Como poderão imaginar, não é fácil…
Nota: Isto sendo uma história, se saltarem já para o fim do post, para verem o dito cujo, é como se fossem ler o fim do livro… tsss tsss
Comecei por pensar no macramé, talvez o mais difícil de misturar com tudo o resto, e vieram-me imediatamente à cabeça cortinas vermelhas. Confesso que foi no mínimo estranho, dado não apreciar grandemente o macramé colorido, preferindo-o sempre naquele branco sujo clássico. Atribuo-o assim a uma qualquer inspiração divina. lol
Cortinas vermelhas, cortinas vermelhas… Teatro!!! Teatro, de caras… uma boca de cena… um palco de madeira tosca… um cenário naif qualquer ao fundo, uma(s) figura(s) em primeiro plano…  Teatro, que fez tão intensamente parte do fim da minha adolescência, o ambiente dos camarins, o público a chegar, o trac antes do espectáculo… sim, que mesmo só tendo feito parte da equipa dos cenários e guarda roupa, também sentia trac antes da estreia… Está decidido, vai ser uma boca de cena!
Notem que esta decisão demorou várias semanas, muitas noites passei sem conseguir adormecer, a matutar sobre o assunto…
Já tinha decidido o tamanho do quadro, 50x40, antes de saber o que lá iria montar, pelo que meti logo mãos à obra sem fazer, nesse momento, a mais pequena ideia do que iria representar no palco, logo se veria.
Comecei então com um crochézinho para a cortina superior, achei que iria lindamente com o macramé nas laterais. Fiz assim uma tira rectangular.


Apesar de lhe ter feito umas ondas em baixo, achei que estava pobre… Queria um teatro majestoso... Pronto, estava definido o rumo, estava criado o ambiente, podia começar, enquanto ia adiantando serviço, a pensar no que lá iria pôr. Para embelezar a cortina superior, decidi assim fazer-lhe umas franjas e um cordão em frioleira… Cortei centenas de bocadinhos de fio para fazer as micro-franjas.



Depois, foi preciso coloca-las, uma a uma, para não dar um aspecto tosco, cerca de 6 a 8 fios em cada buraco da agulha. Nesta altura andava com o trabalho para todo o lado. Aqui estou eu na lavandaria… lol





A seguir fiz o cordão. A frioleira, em Portugal, faz-se tradicionalmente com uma navete. Nunca consegui utilizar aquele utensílio do demo. Tive ataques de raiva quando me tentaram ensinar, só me apetecia pegar na tesoura e cortar aquilo tudo… Só que gostava do efeito, pelo que fui pesquisar na Net se não haveria alguma forma de o simular. Então não é que também se faz frioleira com agulha?! Mandei logo vir umas quantas do eBay.



Depois de acabado o cordão foi cose-lo à parte de baixo da cortina, o que não só a embelezava mas também servia para tapar a base das franjas.



Para acabar, cortei as franjas.



Preparei então os “cabos” (lol) para o macramé. Como não sou, nem pouco mais ou menos, experiente nesta técnica, liguei à minha professora (hehe), a perguntar de que tamanho os cortar. Expliquei-lhe os nós que estava a pensar utilizar e ela disse-me a multiplicação. Depois perguntou de que tamanho era o projecto. Notem que estive a trabalhar para ela há uns tempos, na execução de peças para uma feira, que tinham seis metros de altura…  Quarenta centímetros, respondi. Nunca fiz nada tão grande, brincou ela. ;)




Só nesta altura me ocorreu um probleminha técnico; como que raio ia eu prender isto tudo à tela sem se ver?! Decidi assim cozer velcro à parte de cima da tela e ao crochet, o que iria também tapar a fixação das laterais em macramé.



Depois fiz mais uns cordões de frioleira e umas borlas, para prender as cortinas.



Neste ponto do campeonato já tinha uma ideia de como prosseguir. Primeiro pensei numa Columbina, com uma saia de balão, aos losangos de cores retro… Mas queria à força utilizar todas as técnicas e estava a faltar-me a tecelagem, que queria redonda. Pensei numa foca com uma bola mas cheirava-me demasiado a circo e eu detesto circo. Tive então a segunda inspiração divina… lol… Um alvo de atirador de facas. Veio-me à cabeça, por associação de ideias, quando estava a ver um filme sobre mágicos. Esqueci-me de tirar fotografias a todo este processo, às vezes acontece, quando me entusiasmo a trabalhar, depois fico furiosa porque me falta a documentação de parte do processo.  O resultado foi este.



Até aqui tinha sido trabalhoso, agora começava a ser difícil… A menina, como que raio vou eu fazer a menina...? O processo escolhido foi a feltragem com agulha, o mais versátil para este tipo de coisas. Mas como que raio se faz uma forma humana?! Lá fui eu à Net ver imagens de meninas várias... Na feltragem com agulha, tal como na pintura, começa-se com um “esboço” rápido e parte-se depois para o detalhe. Decidi meter mãos à obra sem a mais pequena noção de se ia conseguir produzir algo que se assemelhasse remotamente a um ser humano.






Nesta altura já lhe tinha espetado com a cabeça, que feltrei à parte. A rapariga mais parecia uma aranha com falta de patas… Ainda inspirada pelo filme de mágicos, serrei-a ao meio para lhe acrescentar o tronco.



                Fiz os pezinhos e as mãozinhas, juntei-os ao corpo e dei forma ao conjunto.




A menina estava nitidamente indecente, pelo que lhe tricotei um vestidinho.





Parecia a Sinead o'Connor, coitadinha. Bolas, o cabelo, a mulher precisa de cabelo, como é que não me lembrei antes?! Como que raio lhe vou eu fazer um capachinho? Fiz outra cabeça, para testes, e espetei-lhe com uns fios. Ficou horrível!!! (também me esqueci de fotografar…) Decidi assim pôr lã cardada, mais uma experiência falhada, parecia uma bruxa…  Surge  então outra ideia iluminada; se entrançar a lã, já fica com um ar arranjadinho. É isso, vai ser uma índia.







E pimba, com isto está definido o cenário. É um número de saloon, é só chutar-lhe com umas nuvens e um cacto. Ataquei-me então à feltragem molhada, que consiste em espalhar várias camadas de lã cardada, muito fininha, como base.



Depois faz-se o desenho com as cores por cima, fica assim com um ar esborratado.



A seguir tapa-se com uma rede, molha-se com água com sabão, e acaricia-se e esfrega-se com jeitinho, durante uma hora e tal, duas horas.



Depois enrola-se num rolo de piscina (há variantes) e fazem-se quatro sessões de meia hora a rola-lo para trás e para a frente, mudando de direcção entre cada uma. Passa-se por água quente, por água fria com vinagre, para cortar o sabão, espreme-se bem numa toalha... tudo isto sem fotos… ups...  e deixa-se secar.



Depois disto  estava pronto, era “só” montar, cozer tudo à tela.





Ups, faltam as facas… fazem-se umas com palitos pintados de preto, cartolina e papel de alumínio…




Depois de pronto, o quadro só me fazia pensar no Ritz Club, no Ritz Club da minha adolescência, antes de ser comprado pelo Vitorino e pelo Janita, nem sei se ainda existe. Muito gostava eu daquela grandeza decadente, do ambiente um bocado bas fond, da stripper velha e gorda, do malabarista que deixava cair os pratos, do galã com pinta de Rudolfo Valentino que cantava mal… nunca lá vi um atirador de facas, mas pode ter havido… Nomeei assim o  quadro, em homenagem.



Apresento-vos o RITZ CLUB



 Técnicas utilizadas:
  • Macramé
  • Crochet
  • Tricot
  • Tecelagem
  • Frioleira
  • Feltragem com agulha
  • Feltragem molhada












terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Mais vale tarde...



   Hoje este blogue faz 11 anos, yééé, parabéns Sopa! ;)
   Amanhã faço eu 53 e, tal como o pato da canção, também venho cantando alegremente, quá,quá... ;)
   Se olhasse friamente para a minha vida actual, encontraria mais razões para chorar do que para cantar... mas estou apaixonada, e a paixão é cega. Ultrapassado o meio século descobri a minha verdadeira vocação e ando completamente de cabeça perdida.
   Acabei o liceu sem a mais pequena ideia do que queria ser, agora que já era grande. Fui para fotografia, mas rapidamente me dei conta da minha mediocridade nessa area. Segui então para design de moda, esquecendo-me de um pequeno detalhe; não sei desenhar. Assim, ao fim de cerca de sete anos de estudos, tinha regressado ao ponto de partida; que raio vou eu fazer com a minha vida?!
   A partir daí improvisei, atirando-me literalmente a tudo – não vos passa pela cabeça a secaaa de trabalhos que tive de fazer ao longo da vida - o que me permitisse ir mantendo a cabeça fora da água. Com autodidatismo, movi-me por várias áreas, chegando a dominar várias delas com bastante competência. Colaborei também em vários projectos com outras pessoas, abracei alguns sozinha, tive ideias, tive sonhos, tive esperança, tentei, dei o litro, falhei.
                                                     

      A realidade é que, mal ou bem (geralmente mal…lol), fui conseguindo ganhar o suficiente para viver. Mas uma coisa nunca tinha retirado do meu trabalho até hoje; genuíno prazer!
   A idade é uma coisa curiosa, vamos perdendo em termos físicos, mas ganhando em termos intelectuais e emocionais. Não gostaria de voltar à adolescência nem que me pagassem. A não ser a saber o que sei hoje, claro, isso é que era…    Dito isto, ali à roda do meio século - provavelmente não exactamente no dia dos meus anos, estilo bactéria do iogurte que, como toda a gente sabe, ataca à meia noite do dia do fim do prazo de validade - mas mais ano, menos ano, entrei numa crisezinha existencial. Às tantas dei por mim a perguntar-me se realmente iria passar o resto da vida a trabalhar para aquecer (quase em sentido próprio… lol).
   A decisão de escrever o livro foi já um sintoma disto. Nunca tive, no entanto, grandes ilusões – e agora que conheço um bocadinho melhor o meio livreiro não tenho nenhumas mesmo – de vir a fazer algum dinheiro que se visse com ele. Só alguns eleitos se safam financeiramente partilhando as suas palavras. Dediquei-me assim a ele mais para fazer o gostinho ao dente do que na esperança de algum dia vir a conseguir viver da escrita.
   Para além desta, a que desde de miúda me entrego, o meu outro grande prazer, descoberto já bastante mais tarde, são as manualidades. Não aprendi a fazer tricot e crochet em menina, ensinada pela mãe a avó ou a tia, fui aprendendo sozinha, na net, já muito depois de atingida a idade adulta.
   Costuma dizer-se que “a necessidade faz o engenho” e é bem verdade. Debatendo-me há anos com enormes dificuldades financeiras, em que comprar, seja o que for, não é propriamente opção, não me deixei atrapalhar e, o que não consigo comprar, faço-o eu. E foi assim que tudo começou, obrigada crise, que fizeste desabrochar a engenhocas que há em mim. Fiz, luvas, vestidos, camisolas, casacos, meias, remendos para cobrir os buracos nos ténis, malas, candeeiros, vide poches, tampas de açucareiro, armários, hortas, e sei lá mais o quê…
   Nesta luta para pôr comida à mesa, lembrei-me então de fazer coisas para vender. Um dia chegou uma amiga cá a casa, entusiasmadíssima, a dizer que tinha visto um colete em crochet giríssimo, na Zara. Mostrou-me a foto e perguntou se não queria fazer-lhe um igual, que preferia dar-me o dinheiro a mim do que a eles. O dito cujo estava à venda por 20 ou  30 euros, eu demoraria, no mínimo, uma semana a fazê-lo. Dei-me assim conta de que por esse trilho não iria a lado nenhum. Com tanta coisa gira à venda nas lojas, por meia dúzia de tostões, o artesanato não é, infelizmente, valorizado hoje em dia. Fiquei assim  com um montão de prendas giríssimas em casa. lolololol
   Por entre os afazeres de quem não tem dinheiro para gastar mas tempo tem de sobra, decidi cobrir de crochet e frioleira endurecidos umas bolas de bilhar antigas, que andavam aqui por casa.


    Foi então que tive uma epifania; ia dedicar-me à Arte Têxtil!
   Isto passou-se antes do último verão e estive até Setembro a produzir freneticamente, em segredo total. Para além da parte manual propriamente dita, passei horas e horas à frente do computador a estudar como se faz isto ou aquilo. Santo YouTube!!! Quando não existia (ou era demasiado cara) a “ferramenta” para fazer o que eu queria, inventava-a e construia-a eu. Assim, improvisei um tear com a estrutura de uma tela, fiz lançadeiras, um utensílio para malha circular em Fimo e inventei um tear circular utilizando um bastidor e molas de escritório. Deste estou mesmo muito orgulhosa porque foi uma ideia de génio – modéstia à parte, lol – que tem sido incrivelmente gabada por quem entende do oficio.


    Até que me ocorreu que talvez não fosse má ideia perguntar às pessoas o que achavam pois, se o meu trabalho não tivesse aceitação, talvez mais valesse dedicar-me à pesca…
   Muito insegura e receosa das reacções, fui mostrando as minhas obras a alguns eleitos por entre as minhas relações próximas. Todos afirmaram gostar muito, mas apesar de tudo eram suspeitos, quem gosta de nós tende a dar-nos palmadinhas nas costas, mesmo que sejam palmadinhas piedosas.
   Resolvi então criar a página do Facebook, para testar com malta teoricamente mais isenta. Comecei logo a receber elogios incríveis, mais, e mais entusiásticos, confesso, do que estava à espera.
   Passei também a utilizar a conta do Instagram, que tinha aberto quando este apareceu, mas onde nunca mais tinha voltado a pôr os pés. Os seguidores têm vindo a crescer de dia para dia, entre os quais alguns que são, para mim, verdadeiros “monstros sagrados” deste tipo de artes. Imaginem como se sentiriam se fossem pintores, por exemplo, e recebessem notificações a dizer “Picasso começou a seguir-te”, “Salvador Dali fez-te um gosto”… (e se tivermos em conta que ambos estão mortos, então, seria mesmo do além… lololol) O meu coração disparou.
   A partir daí foi a lócura. As coisas começaram a desenvolver-se a uma velocidade verdadeiramente alucinante. Recebi encomendas, vendi quadros, fui convidada para expor numa feira, candidatei-me a um concurso internacional de Arte Têxtil, fui mencionada num blog,  estou a preparar workshops e fui convidada por uma galeria para fazer uma exposição individual em Abril.


    É tão, tão, tão, verdade, que até parece um sino!!! Neste momento trabalho 7 dias por semana, dia e noite. Noite?! Sim, trabalho durante o sono, resolvo questões técnicas, tenho ideias luminosas, acordo a meio da noite e tomo notas. Levo o trabalho para todo o lado - olhem aí a sorte de não fazer pintura a óleo ou esculturas em pedra, hehe – feltro na lavandaria, teço nos consultórios, tricoto no carro enquanto espero por alguma coisa. Ando exausta, toda partida, tive tendinites, contraturas musculares, dores nas costas, vista cansada... Se quiserem ter uma pequena noção do trabalhão que tudo isto dá, vejam alguns dos “Making Of” no separador “fotos” da minha página do Facebook.
   Como lá digo; “tenho o cérebro a mil e as mãos inquietas”! Tudo isto, movida pela tal paixão que me faz minimizar todos os problemas e na esperança de nunca mais ter de voltar a trabalhar com sacrifício, de não ter de voltar às “coisas chatas” como diz uma amiga minha, porque, depois de ter experimentado esta sensação, ia ser imensamente duro.
   Se julgam, no entanto, que está a ser fácil, que tudo são rosas, desenganem-se. Para além de uma série de outros problemas que nos assombram a vida, neste momento o agregado familiar está basicamente sem rendimento, estamos a viver da ajuda dos nossos pais e de um pé-de-meia que felizmente temos. Mas não julguem que é uma meia daquelas gigantes que se põem ao pé da lareira no Natal. Não, é uma meiazinha pequenina que, de mês para mês, se vai desfiando até que, mais dia, menos dia, não vai sobrar nada.
   Manter-me neste rumo requer de mim uma coragem que não pensei ter, acreditem. Quantas vezes não me passou já pela cabeça desistir e ir trabalhar para uma caixa de supermercado (forma de expressão, sem qualquer intenção depreciativa para quem cumpre essa função) para ter um mínimo de segurança, para poder contar com um dinheirinho fixo ao fim do mês. Para além disso, apostar tudo por tudo nesta minha nova actividade, implica não só não procurar outro tipo de trabalho como, inclusivamente, não o aceitar se me vier bater à porta. O dia só tem 24 horas, não consigo dar uma no cravo e outra na ferradura.
   A parte mais maravilhosa de tudo isto é que, mais uma vez se prova, não somos nada uns sem os outros. Acreditem, pois é a mais pura verdade, que sem todo o apoio que tenho recebido já teria desistido há muito tempo. Não fazem ideia da quantidade de vezes que já fraquejei, dos ataques de ansiedade que me assomam regularmente, da insegurança que antecede a apresentação pública de cada peça… aos outros, a todos aqueles que me têm apoiado, alguns com uma tenacidade férrea, uma presença constante, devo o facto de me manter na perseguição deste sonho.
   Parece-me assim da máxima importância nomeá-los, reconhecer-lhes o valor, atribuir-lhes a importância vital que têm neste momento para mim. Compreendi finalmente aquela lista interminável de nomes que eles leem na entrega dos Oscares, e dou graças por não me poderem mandar calar com a musiqueta. ;)



   Quero assim agradecer, antes do mais, aos da casa, evidentemente. Ao meu filhote e cara-metade, pela paciência para me aturarem nesta fase em que ando meio alucinada. Pelos “já vou, dá-me só mais cinco minutos” que acabam sistematicamente por se transformar em horas, pelas refeições tardias e às vezes já meio queimadas, pelas frequentes secas que levam no carro quando vou comprar materiais. Ao Zé, especificamente, pelos pequenos favores que lhe estou sempre a pedir, pela ajuda extra nas tarefas caseiras, por aguentar as pontas quando é necessário.

   Depois, à minha família, começando pela minha mãe, que gaba o meu trabalho a toda a gente nitidamente a rebentar de orgulho. Sempre pronta a ajudar no que pode, quer física quer financeiramente, que me passa roupa a ferro para me libertar o tempo e me compra reconstituintes quando estou a cair par o lado de cansaço.
   Aos meus irmãos, meus fãs incondicionais, que não se cansam de me gabar o talento e de dizer que acreditam  que foi desta que acertei de vez.
   A uma das minhas tias que, de cada vez que fala comigo, seja por que razão for, aproveita sempre para me dar os parabéns pelo meu trabalho, que segue de perto, e acreditem que esta não é público fácil, é do mais exigente que há.

   Aos que se deram ao trabalho de me telefonar ou enviar mensagens pessoais de incentivo, tentando incutir-me confiança, tecendo elogios que me puseram a lagrima ao canto do olho.

   Aos que me compraram ou encomendaram peças, com especial relevo para uma que diariamente me apoia, manda força quando sente que me estou a ir abaixo, gaba e divulga regularmente as minhas obras.

   À Diana, por me ter contratado para a ajudar num projecto da Oficina 166, proporcionando-me uma bolhinha de ar financeira a fazer aquilo que gosto durante o mês de Novembro e por agora me ter convidado a lá fazer workshops. Já sem falar da sorte que tive em conhecer uma pessoa extraordinária como ela.

   Á Sofia, pelo magnífico elogio no Passei e Gostei, que me fez sentir que o ano começava em beleza. Bem hajas, Sofia!

   Às MAO, genericamente, o grupo mais incrível e dinâmico ao qual já me adicionaram no Facebook (obrigada, Madalena), pelos tão importantes Likes à página e às peças, e mais especificamente a todas aquelas que se deram, para além disso, ao trabalho de me enviar mensagens privadas.

   À Isabel pela oportunidade de fazer uma mini-reportagem sobre o meu trabalho para o De outra maneira.

   À Clara, por me ter convidado a expor na Galeria 36. Bolas, estou a rebentar de contente!

   E estou agora para aqui a tremer, perguntando-me se terei deixado algum agradecimento importante de fora… Enfim, agradeço a todos os que de alguma forma, por alguma via, me têm apoiado e ajudado. Podem ter a certeza absoluta que, se alguma vez for alguém, a vocês o devo, sem a mais pequena sombra de dúvida. Bem hajam!!!

   Amanhã faço 53 anos e, de certa forma, tenho a sensação de estar agora a começar a minha vida… sensação estranhamente empolgante, confesso.    





COM MÚSICA

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Trinta anos...

Foto da esquerda de Pedro Ferreira - Foto da direita de Miguel Gago

   Não sou uma pessoa fotogénica, sou demasiado expressiva, nos instantâneos costumo geralmente ficar com um olho meio fechado ou a boca à banda, raramente gosto de me ver. No entanto, nos meus tempos do ARCO, costumávamos fotografar-nos uns aos outros e fiz muitas sessões, tanto atrás como à frente da câmara, tendo aprendido a não me deixar intimidar por ela.
   Recebi, recentemente, uma série de fotos minhas de há trinta anos, algumas das quais não conhecia, ou pelo menos não me lembro de ter visto. Inútil será dizer que foi um prazer reencontrar aquela que fui há tanto tempo atrás, ainda para mais captada pela lente de um fotografo fantástico. Estão todas muito giras e tecnicamente boas, mas a que aqui publico tocou-me profundamente, pois nela o Pedro conseguiu retratar-me a alma. Ao olhar para ela revejo, com uma nitidez incrível, a miúda que era aos vinte e dois anos.
   Esta foto parece retirada de um film noir. A primeira coisa que me saltou à vista foi a melancolia do olhar, não retrata nitidamente uma pessoa feliz. Por esta altura tinha já uma boa dose de vida complicada pelas costas. Aos dezanove anos, num acto de rebeldia, saí de casa e fui viver com o meu professor de filosofia e encenador do grupo de teatro do liceu, que me fez a vida num inferno durante três anos e tal, tendo, já no fim da relação, acabado por enviuvar. Juro que não fui eu que o matei.  Nela vejo uma miúda sofrida, mas não quebrada, cansada, mas não derreada. Naquele olhar sinto uma estranha mistura de dureza e doçura. A postura é quase desafiadora, como se perguntasse à vida com o que me iria presentear a seguir. Estava no auge da minha sexualidade, da minha sensualidade o que transpirou evidentemente para a foto, no entanto, na minha opinião, de forma discreta e pouco agressiva. Numa imagem em que me apresento num body de renda preta é, curiosamente, a cara que mais me chama a atenção.
   Há muitos anos que não fazia uma sessão fotográfica e dei por mim a pensar no que apareceria agora no papel. Lembrei-me daquelas fotos, muito em voga hoje em dia no Facebook, que recriam imagens antigas, e decidi desafiar o Miguel para esta brincadeira, para captar a pessoa que sou com trinta anos de vida em cima. O Miguel não me conhece como o Pedro conhecia, mas escolhi-o porque é, sem qualquer sombra de dúvida, um excelente caçador de almas. Nos últimos tempos tem fotografado muitos eventos, muitos encontros, e quase sempre consegue magnificamente captar a essência de cada um.  
   Foi uma tarde muito divertida, em que tirámos, evidentemente, muitíssimas mais fotos do que a que aqui apresento. Ambos considerámos que esta era a que mais ia ao encontro do objectivo, a que melhor transmitia aquilo que sou hoje. Tal como esperava, acho que também o Miguel me conseguiu aqui capturar a essência.
   Ao ver estas novas fotos veio-me imediatamente à cabeça a musica que escolhi para este post; La femme qui est dans mon lit, na plus vingt ans depuis longtemps…” O tempo passou, gastou, deixou marcas. Gosto, no entanto, sem a mínima sombra de dúvida, muito mais do ser agora retratado. Encaro a outra com alguma saudade da juventude, como é natural, mas sem nostalgia e dou graças por aquela pessoa ter ficado para trás.
   Através das fotos antigas, que agora recebi, descobri que afinal, em tempos, até tinha sido uma gaja boa, embora na altura não me apercebesse disso. Um clássico, tendemos a nunca estar satisfeitos com o que temos, só lhe dando valor quando o perdemos, vá-se lá saber porquê. No entanto, hoje em dia, estou perfeitamente contente com o meu corpo, com os seus refegos, rugas e flacidezes, consciente de que são absolutamente normais para a idade. Já dizia a Elle Macpherson, quando lhe perguntaram se não a incomodava estar a envelhecer; não, já pensou na alternativa?! Esta mulher madura (eu, não a Elle lol) não é, decididamente, uma pessoa atormentada nem amargurada. É, bem pelo contrário, bastante mais leve e descontraída do que a anterior, alguém que se sente bem consigo e com os outros. O caminho pode nem sempre ter sido fácil, mas fui apanhando todas as pedras para contruir um castelo. A serenidade e paz de espírito que transparecem desta última foto enchem-me de orgulho, não azedei, não quebrei, cresci e continuo a crescer, com prazer e alegria.

Venham mais trinta ;)

COM MÚSICA