sábado, 23 de janeiro de 2016

A distância, o tempo e o coração




Ao longo da vida vai havendo uma rotatividade de gente à nossa volta. Pelas mais diversas razões, surgem uns, desaparecem outros.
A real importância de cada um, a marca que deixam em nós, só o tempo no lo mostra.

Quem não passou  já pela experiência desconcertante de se lembrar subitamente de ter estado “apaixonado,” na infância ou adolescência, por alguém que já nem se lembrava que existia?! Ou quem não reencontrou alguém que conheceu tempos antes e sentiu  genuína pena de não ter desenvolvido na altura uma relação mais profunda..
No momento, as situações e por arrasto as pessoas, têm um peso que não irão obrigatoriamente manter no futuro.
É um bocado como as feridas. Algumas são muito impressionantes na altura, são grandes, dolorosas e sangram muito, julgamos que irão deixar uma terrível cicatriz e no entanto, anos depois, vemo-nos aflitos para lhes  encontrar sequer o sítio. Pelo contrário, ás vezes damo-nos conta que a nossa pele reteve a marca de pequenos arranhões aparentemente insignificantes.

Quando fiz cinquenta anos, a minha irmã ofereceu-me uma prenda fabulosa, uma ideia genial; uma composição em que, por cima de uma fotografia minha,  montou a cara de mais de trezentas pessoas com as quais me cruzei.
Devo dizer que não me poupou, felizmente, a nada e não é de forma alguma um prazer, antes pelo contrário, lá encontrar algumas. É no entanto, sem dúvida,  um excelente  apanhado das minhas relações, da minha vida.
Sinto-me extremamente  aliviada por alguns deles já não fazerem parte dela. Outros são-me um bocado indiferentes, olhar para eles não provoca qualquer tipo de emoção. A maior parte, encaro com uma enorme ternura e saudade dos que já não tenho por perto.

Costuma dizer-se que conhecidos temos muitos mas que poucos são os amigos verdadeiros... afirmação com a qual só concordo parcialmente. 
As amizades requerem, sem qualquer sombra de dúvida, um enorme investimento, tanto de tempo como de energia, que não é fisicamente possível despender com uma grande quantidade de gente.
Tenho no entanto um sentimento de sincera e recíproca amizade relativamente a uma série de pessoas, com quem não partilho o meu dia a dia, e a sensação que muito facilmente a relação se poderia transformar noutra muito mais profunda.
A realidade é que, efectivamente, relações de estreita amizade não desenvolvemos muitas ao longo da vida. Estas são de uma extrema importância para mim.

Não acredito que quando as relações, sejam elas de que tipo forem, não são saudáveis, se deva insistir nelas.
Não acho que os casais devam continuar juntos por causa das crianças, que a família tenha de se manter por perto por partilhar o mesmo sangue ou que os amigos se devam continuar a dar em nome de um passado em comum.
Qualquer relacionamento passa  por episódios ou até mesmo períodos complicados. Há no entanto a meu ver que apurar se se trata de uma intoxicação pontual que, por muito violenta que possa eventualmente ser, há de passar ou de uma intolerância alimentar que, se insistirmos, nos irá envenenando aos poucos.

Nessa óptica, afastei-me, há já vários anos, de alguém que considerava um grande amigo.
Andei muito tempo a tentar evitar a ruptura,  pois a ideia punha-me doente. A realidade é que de amizade o nosso relacionamento cada vez tinha menos.
O que despoletou tudo,  um clássico; apaixonou-se, arranjou uma namorada.
Nestas alturas, um recolhimento no ninho de amor, com consequente afastamento do resto da malta, é a coisa mais natural do mundo. Não foi no entanto (só) o que aconteceu.

De repente, tudo o que eu era, tudo o que fazia ou dizia “magoava” ou “ofendia”. Parecia que se sentia agredido pela minha simples presença. Às tantas entrei num martírio de contenção, em que perdi toda e qualquer espontaneidade, pensando vinte vezes antes de fazer ou dizer alguma coisa.
Julgo que a gota de água tenha sido uma conversa na qual afirmou, com chispas de ódio a sair-lhe dos olhos, o quanto gostava de mim. Daí ao meu “chega” final, foram dois passos.
Não discutimos, não nos zangámos, simplesmente me pareceu aconselhável ir cada um para o seu lado, enquanto ainda não havia estragos de maior.

Mandar as culpas para cima da sua amada seria fácil, parece ser a conclusão mais obvia; “ela afastou-o de mim”. A realidade é que acredito no livre arbítrio e cada um faz as suas próprias escolhas.
Estou consciente de que há quem considere incompatíveis um grande amor e uma forte relação de amizade com o sexo oposto mas suspeito que possa não ter sido “só” isso.
Este era  um lobo solitário, que às tantas adoptou a nossa alcateia.... pergunto-me até que ponto não terá recalcado uma série de coisas, a bem do convívio, que terão saído nessa altura, por ter encontrado uma companheira com a mesma onda.
A realidade é que, apesar de felizmente não ter pessoalmente nada a apontar-lhe, comecei também eu a não gostar da pessoa em que se foi lenta mas seguramente transformando. Posturas que adoptou, atitudes que tomou,  opiniões que partilhou, transformaram-no num estranho aos meus olhos, que me é desagradável e nada tem a ver com o amigo que guardo no meu coração.

Mas voltando a este último e simultaneamente ao tema deste post... há pessoas que sairam da minha vida em quem penso com alguma frequência, noutras esporadicamentemente, nalgumas praticamente nunca. 
Ao fim deste tempo todo, não passa uma semana sem que ele me venha à cabeça.
Recordo-o constantemente, sem tristeza, porque não morreu; pelo menos parte dele está a viver o amor da sua vida, é pai de família, tem finalmente tudo aquilo com que sempre sonhou. :)
Penso nele com muita ternura, um imenso carinho, uma grande saudade e a perfeita consciência  de ter perdido uma amizade como há poucas.

Não importa o que é agora, o coração não pára de me relembrar inequivocamente o que foi. É isto que o tempo faz, dá-nos a noção da importância das coisas na nossa vida.
Pelo que fomos, pelo que tivemos... tchin, tchin... LuvU PW, estejas lá onde estiveres!

COM MÚSICA