quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nosferatu


   Por razões que não são de todo relevantes para aquilo sobre o que vou aqui divagar hoje, nos últimos dois meses e tal tenho estado em estreito contacto com uma pessoa cuja postura na vida é diametralmente oposta à minha. Não estou a falar de uma pessoa diferente, que diferentes todos somos, acho que é mesmo de outra espécie
   Em situação normal, mal disso me tivesse apercebido, teria rapidamente dado meia volta. Neste caso não era possível pois tinha assumido um espírito de missão, em parceria com uma série de gente.
   Assim, durante os últimos 66 dias, vi-me envolvida com alguém para quem o copo está sempre meio vazio (desculpa, Mouro, caso me estejas a ler, mas vai-te lixar que a metáfora é boa…lol), que só consegue ver o lado negro de toda a gente, de todas as situações e que, como tal, age em conforme. Não dá mostras da mais pequena gratidão (para com a vida, seja qual for a situação há sempre algo pelo qual podemos estar gratos), da mínima empatia para com o próximo, que exige tudo e não dá nada vá-se lá saber porquê isto levou-a à solidão.
   Este tipo de pessoas é completamente tóxico. Mantendo um contacto regular com elas, vamos sendo envenenados, aos poucos, sem darmos por isso. Vamo-nos sentindo mais fracos, menos positivos, vamos perdendo o ânimo sem saber bem porquê.
   Até que, na semana passada, fiquei muitíssimo mal com uma valentíssima intoxicação alimentar. Notem que ninguém me mandou alarvar uma paelha com quatro dias Estive para morrer durante dois ou três dias e comecei a melhorar ligeiramente. No entanto, durante oito dias, foi havendo uma alternância entre o melhorar e o piorar, e dei-me conta de que piorava sensivelmente quando tinha de lidar com alguma coisa que lhe dissesse respeito.
   Pensei; vais mulêli, se continuas por esse caminho, vais mulêli O meu corpo estava nitidamente a mandar-me um sinal, a querer dizer-me qualquer coisa. Confesso que não foi muito difícil perceber oquê.
   Ontem de manhã peguei no telefone e despedi-me, informei-a de que não queria ter mais nada a ver com ela. Logo a seguir ainda tive um valente ataque de caganeira mas, a partir daí, foi melhorar a olhos vistos.
   Hoje passei o dia todo a sentir-me leve que nem um passarinho. Parecia que me tinham tirado um elefante de cima. Voltei a comunicar descontraidamente com alguns amigos, dei atenção ao meu filho e ao respectivo pai, assistência sem má disposição e com muita paciência à minha mãe, fiz um que outro telefonema para saber de gente que sei estar menos bem, a passar por momentos complicados, para dar dois dedos de conversa, uns miminhos, um apoiozito, a outros propus ajudas para as quais, desde que tudo começou, não tinha qualquer disponibilidade, nem de tempo nem mental, combinei encontros e actividades. Olhei à minha volta e senti-me incrivelmente grata por todas as coisas boas que tenho na minha vida, apesar de também dela constarem bastantes problemas e preocupações. E então, senti-me a voltar à vida. Voltei a ser eu.
   Foi aí que me dei conta de duas coisas. Primeiro, que algumas pessoas são efectivamente vampiros, que nos sugam toda a energia, toda a força de viver. Depois que, se nos mantivermos muito tempo ao seu lado, nos iremos transformando nelas, que nem reles mortal a quem Drácula chupa o pescoço.
   Nestes últimos tempos, estou consciente de não ter estado lá” para ninguém, nem ter feito nada de produtivo. Simplesmente não estava disponível. Foquei toda a minha energia nesta missão, dediquei-me a ela de corpo e alma, e esqueci tudo o resto, passei tudo para segundo plano.
   Nos últimos meses, não estendi a mão a mais ninguém. Eram os outros que me ligavam para saber de mim, para propor ajuda, para dar apoio e toda esta energia que me ofereciam era canalizada para um mesmo ponto, onde era desperdiçada por alguém a quem tudo parece ser devido, nada chega e tudo o que tem na vida é mau, não presta.
   Cheguei assim, mais uma vez, à conclusão de que a vida é feita de dar e receber e de que não podemos fazer uma coisa sem a outra. De que tentar ajudar quem não se ajuda a si próprio é uma tarefa ingrata, inglória, que, na minha humilde opinião, não só não vale a pena como nos faz mal.
   Tenho pena de não ter acordado mais cedo e de ter sido necessária uma semana colada ao trono para me aperceber do que estava a fazer. De ter descuidado tanto as relações humanas à minha volta, aquelas em que vale a pena investir, aquelas nas quais o nosso tempo não é de todo desperdiçado. Mas enfim, mais vale tarde do que nunca. Estou de volta, cheia de boa onda e energia positiva, que bastou largar o lastro para recuperar.
   Im back! ;)

COM MÚSICA

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Pequenos gestos para o homem, grande diferença para a humanidade.



       Ando a ficar pelos cabelos de ouvir a malta a queixar-se constantemente do estado miserável em que está o mundo, sem que a maioria levante um dedo para fazer seja o que for. Sofrer não resolve e reclamar não basta, ok?! A inércia é o pior inimigo da mudança e como tal precisa de ser activamente combatida, arregacemos as mangas, minha gente.
       Há quem se dedique totalmente aos outros, quem se entregue de corpo e alma a alguma causa, quem faça disso a sua vida, o mundo está cheio de gente assim. Infelizmente não bastam, a mudança não surge através de um punhado de pessoas a dar tudo por tudo, é preciso que haja muita gente a fazer qualquer coisa.
       A vida anda difícil para muitos e o tempo não abunda para a maioria. Que isso não sirva de desculpa para sacudir a água do capote, todos temos obrigação de contribuir de alguma forma para um mundo melhor. Como se costuma dizer, quem faz o que pode, a mais não é obrigado. Não podem contribuir com muito?! Contribuam com pouco. Mas contribuam, caramba. Se não nos ajudarmos uns aos outros, se não estendermos a mão ao próximo, está tudo f@%&#...
       Podem começar pelos que vos rodeiam, mantendo-vos simpáticos, atenciosos e disponíveis para quem, de uma forma ou de outra, partilha a vida convosco. Não menosprezem o poder de um sorriso, de um abraço, de uma palavra de apoio, de consolo, de louvor muito facilmente podemos fazer o dia de alguém, sem grande esforço, mantendo-nos simplesmente atentos.
       Partilhem o muito ou pouco que têm. Ofereçam o vosso tempo; ajudem nalguma tarefa, ensinem o que sabem, disponibilizem um ouvido amigo, palavras reconfortantes, tentem colaborar na resolução questões relativamente às quais haja dificuldades. Deem coisas que não vos façam falta a quem delas precise ou proporcione prazer; coisas que tenham a mais, em duplicado, que não usem por alguma razão ou simplesmente que tenham mais utilidade para o outro.   Organizem-se, unam-se a outras pessoas, juntem força de trabalho, bens ou dinheiro, para conseguirem proporcionar aos outros coisas ás quais não chegariam sozinhos. Adoptem o conceito de vaquinha e ponham-no em prática frequentemente. Mantenham-se atentos ás necessidades alheias e tentem ver se há alguma coisa que esteja ao vosso alcance fazer.
       Nas redes sociais, não se limitem a fazer Like aos Posts. O botão de partilha está mesmo ali ao lado, é só andar um bocadinho mais para a direita e clicar nele, dá exactamente o mesmo trabalho. Ajudem, colaborem activamente, na divulgação do que considerarem digno de ser divulgado. Em vez de estarem sempre a cascar nos perigos e malefícios da internet, usem-na de forma útil e positiva. Aproveitem o facto de, através dela, conseguirem projectar muito mais longe a vossa voz, de conseguirem, sem grande esforço, ser ouvidos por muito mais gente, para darem uma mãozinha aos amigos que lancem pedidos de ajuda.  Por outro lado, não sejam hipócritas, não mandem os outros fazer sem se chegarem vocês próprios à frente. Não precisam de ostentar o estandarte da bondade, do gajo porreiro, não precisam de fazer publicidade aos vossos actos, façam o que têm a fazer e vivam com a satisfacção de o ter feito.
        No meu penúltimo post divulguei uma página de Facebook que criei, onde poderão encontrar, diariamente, mil e uma formas de colaborar activamente, na maior parte dos casos sem grande esforço. Entre outras coisas, irão lá encontrar informações sobre objectos à venda e leilões cujo lucro reverte a favor de alguma causa, eventos solidários, como corridas e afins, espectáculos de beneficência, recolhas de fundos ou de alimentos, números de telefone para onde podem ligar ajudando por meia dúzia de tostões Sigam a página, não custa nada. Ir-lhes-ão aparecendo os respectivos posts no feed de páginas e pode ser que, de vez em quando, lhes dê vontade de colaborar em alguma coisa.
       Mas não vivam preocupados com fazer o bem, façam antes disso um hábito. Não dá mesmo para ficar a olhar minha gente, as coisas estão demasiado complicadas, demasiado difíceis, demasiado duras, demasiado feias temos de ser uns para os outros, a união faz a força. Colaborar para a felicidade alheia não rouba bocado à nossa, antes pelo contrário. ;)




COM MÚSICA

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Uma vida muito menos que perfeita



       Quando partilhamos publicamente as nossas ideias sujeitamo-nos, inevitavelmente, ao julgamento alheio. Desde que comecei as minhas divagações sobre o tema da felicidade, primeiro neste blog e mais recentemente no mê livrito, que me tenho dado conta de que algumas pessoas me encaram como se, por isso, tivesse de alguma forma a obrigação de levar uma vida perfeita. Nada podia estar mais longe da verdade.
       Tal como o afirmei na introdução do livro, a felicidade não me está no sangue. Sou feliz porque luto diariamente por isso, pois para mim a vida não faz sentido de outra forma. Sou feliz porque um dia decidi que não queria ser outra coisa, não aceitava ser outra coisa. Não procuro a felicidade, vivo-a no dia a dia, pois dei-me conta, justamente, de que a felicidade não tinha de ser perfeita.
        Tal como qualquer outra pessoa tenho os meus defeitos, as minhas fraquezas, as minhas limitações. As minhas batalhas são contra demónios banais, que assombram o comum dos mortais, e nem sempre saio vitoriosa. A guerra que declarei a tudo o que atrapalhe a minha felicidade está muito longe de estar ganha.
      Tenho um feitio de merda, por exemplo. Quando faço esta afirmação, quem não me conhece bem tende a achar que é exagero meu, os outros reviram os olhos e suspiram. O mau feitio não nos facilita de forma alguma a vida e menos ainda as relações interpessoais. Tendo a ferver em pouca água, a reagir de forma intempestiva, quando não mesmo agressiva, salta-me a tampa com facilidade e reajo mal ás contrariedades. Conclusão, para além de fazer, com alguma frequência, triste figura, tenho depois uma trabalheira a tentar emendar ou compensar as suas consequências. Não imaginam a quantidade de vezes que me sinto impelida a pedir desculpas. O meu feitio é como um cão perigoso que tenho absolutamente de manter à rédea curta. Já vai estando um bocadinho mais dócil, mas nem sempre é fácil, nem sempre consigo ter mão nele
       Há quem seja naturalmente cool, descontraído, eu sei porque tenho dois assim em casa, morro de inveja. Pessoalmente, desde que me lembro de ser gente que luto permanentemente contra a ansiedade. Esta é frequentemente um inimigo invisível, sentimo-nos ansiosos sem sequer saber porquê. Provoca um desconforto, uma inquietação, uma angústia até, por vezes, que nos causam um extremo mal-estar, sem que lhe consigamos identificar a origem. Tenho vindo a descobrir formas de a combater, atormenta-me cada vez menos, não a consegui, no entanto, ainda erradicar. 
       Vivo a vida com uma enorme intensidade, pelo que os meus downs tendem a ser profundos. Não me vou abaixo muitas vezes, mas quando vou, vou até ao fundo do poço e tenho imensa dificuldade em de lá sair. Aprendi a dar-lhes tempo, a esperar que passem, sem lhes atribuir grande importância. Continuo sempre a olhar para cima, para o sol, o céu azul, e as nuvens que passam. Tenho sempre presente que é uma fase, um mau bocado, que cedo ou tarde, seja lá como for, estarei de novo cá fora. Não deixa por isso de me incomodar a escuridão e o cheiro a mofo.
       Tenho uma total incapacidade para gerar dinheiro, o que faz com que viva em permanente aflição financeira. Confesso que é um mistério que ainda não perdi a esperança de vir a compreender e consequentemente resolver. Modéstia à parte, tenho dois dedos de testa, mais do que um skill valioso, uma criatividade transbordante e o trabalho não me assusta. Para além disso, em tudo o que tenho feito me sinto apreciada e valorizada carcanhol que se veja é que é mentira, vá-se lá compreender porquê.
       Estes são só alguns exemplos, da minha vida e do meu ser, muito menos que perfeitos. Se os partilhei convosco, sem qualquer pudor, que é uma cena que a mim não me assiste, foi para que possam compreender que sou efectivamente uma pessoa como qualquer outra, sem superpoderes e a viver uma vida absolutamente banal. Lido com o mesmo tipo de dificuldades, enfrento os mesmos problemas, tenho as mesmas preocupações que qualquer um de vocês.
       São assim as pessoas felizes iguaizinhas às outras, sem tirar nem pôr. Não têm menos chatices ou dificuldades, as coisas não lhes saem com mais facilidade, não erram menos, não levam vidas cor de rosa. São felizes porque decidiram sê-lo e fazem constante e consistentemente por isso.

E vocês, o que vão ser em 2017?!
Bom ano!!! ;)








 COM MÚSICA








sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

O nosso sofrimento não ajuda ninguém…






       Cada vez mais, devido ás novas tecnologias e facilidade de comunicação, os horrores do mundo nos entram pela casa a dentro. Sente-se consequentemente no ar um enorme pesar, quase que diria sentimentos de culpa, da parte daqueles que têm a consciência de ter uma vida tão melhor do que a maioria. Isto torna-se ainda mais nítido nesta época festiva. Como passar um Feliz Natal com tanto sofrimento à nossa volta?!
       Acontece que o nosso sofrimento, só por si, não ajuda ninguém. Não é por sofrermos por empatia que melhoramos a situação daqueles que lamentamos. Abrir mão de uma felicidade de que poderíamos gozar, parece-me assim obsceno, uma heresia, pecado, o que lhe queiram chamar. Faz, a meus olhos, tanto sentido como passar os dias sentados numa cadeira quando temos mobilidade ou num quarto escuro se temos a capacidade de ver, "dá Deus nozes a quem não tem dentes"... Para além disso, fazermos por ser felizes é, já por si, contribuir para um mundo melhor. A felicidade não rouba bocado, antes pelo contrário. As pessoas felizes gostam de partilhar a sua e de contribuir para a dos outros. Têm naturalmente mais genica e tendem a olhar a vida com optimismo, acreditando na mudança e nas melhorias e fazendo activamente por elas.  
Esta última parte é de extrema importância; fazer activamente por… muito se divulgam más notícias e desgraças nas redes sociais, por exemplo, mas quantos arregaçam as mangas e se chegam efectivamente à frente?! Meus amigos, partilhar fotos de filas de cadáveres de crianças alinhados no chão ou filmes de partir o coração a uma estátua, não ajuda ninguém. Mexam-se, colaborem, não fiquem a olhar. Para tal, não é necessário abandonar pátria e família e mudar-se para o meio das bombas, há várias formas de ajudar. Muitos têm a mania de que ou se fazem as coisas em grande ou não vale a pena, mas a realidade é que grão a grão enche a galinha o papo, as melhorias do mundo passam muito mais pela soma de milhares de pequenos actos quase insignificantes do que por atitudes grandiosas.
       Há tempos escrevi um post sobre o Movimento 1 Euro, associação pela qual sinto uma especial simpatia. Na altura tinham para cima de mil e duzentos Likes na sua página do Facebook, mas menos de oitocentos associados. Descobri entretanto que, na maior parte dos casos,  a diferença entre os dois ainda é mais gritante. Parece que está na moda ser solidário, o que infelizmente muitos fazem como quem ostenta o Rolex comprado em Chinatown.
       A realidade é que o bicho homem é tendencialmente calão e muitas vezes não sabe sequer por onde começar a mexer-se, pelo que, originalmente, a minha ideia era deixar-vos aqui links para vos ajudar a ajudar, se estivessem para aí virados. Resolvi no entanto ir mais longe, tendo acabado de criar uma página no Facebook onde irei partilhando causas várias e formas de para elas contribuir. Façam-lhe Like, divulguem-na, visitem-na de vez em quando e contribuam para aquelas ás quais forem mais sensíveis.  Natal é quando um homem quer e ajuda é necessária todo o ano. ;)
       Entretanto, são estejam tristes, não se sintam mal por eventualmente serem mais felizes do que o próximo. Colaborem, com o que poderem, no que estiver ao vosso alcance, para espalhar felicidade, façam a vossa parte  e a mais não são obrigados.
       Os desejos de um Feliz Natal para todos! :)





COM MÚSICA


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O peso dos segredos




       Todos temos os nossos “jardins secretos”, coisas que ninguém precisa de saber porque são só nossas, não têm qualquer implicação na vida dos outros, ninguém tendo assim nada a ver com isso. Podemos, eventualmente, decidir partilha-los, sendo perfeitamente legítimo pedir discrição. Para além destes, tal como os crimes, os segredos, podem ser públicos, semi-públicos ou particulares, assumindo cinquenta sombras de cinzento… 
       Pessoalmente, embora consiga evidentemente considerar questões relativamente ás quais o sigilo seja aconselhável ou até mesmo necessário, sou grande apologista da transparência, cada vez gostando menos de segredos. Estes não passam, a meu ver, na sua grande maioria, de uma recusa de enfrentar, reconhecer, assumir, certos factos da vida. Há quem viva refém dos segredos, gente para quem muito tem de ser dissimulado, escondido, calado, encoberto. Essas pessoas carregam às costas um peso imenso. Dizem os alcoólicos anónimos que “o tamanho do teu segredo é o tamanho da tua dor” …  
       Acredito, tal como defendi neste post, que a nossa qualidade de vida passe enormemente pela coragem com a qual enfrentamos o dia a dia. A maior parte dos segredos revela, a meu ver, cobardia. Servem para tentar tapar o sol com a peneira, como se pelo facto de não se falar sobre determinadas coisas elas não existissem.  São também uma forma de fugir de confrontos, atritos, explicações, justificações. Todos eles fazendo parte integrante da vida, mais vale, a meu ver, enfrentar o touro pelos cornos. 
       Quem não conheceu já o poder libertador de uma confissão?! Quantas vezes o que guardamos dentro de nós não nos consome, nos corrói. Aquilo que calamos pesa-nos frequentemente muito mais  e durante muito mais tempo do que as consequências de o pormos cá para fora. Por outro lado, adiar enfrentar o que muitas vezes é inevitável, olhar de frente certas realidades, acaba por só acentuar o sofrimento. Como se costuma dizer, não mata, mas mói.
       Os segredos criam barreiras entre as pessoas, levam ao isolamento. Se não pudermos falar abertamente sobre as coisas da vida, partilha-las com os outros, esta acaba, inevitavelmente, por se tornar muito solitária. Para além disso, guardar determinados segredos, frequentemente implica mentir, o que talvez não a toda a gente, mas provavelmente à maior parte, provoca incómodo, desconforto. Pior ainda, quando sabemos que alguém é uma  “caixinha de segredos” acabamos por pôr constantemente em questão a sua franqueza, a autenticidade do que nos diz, instalando-se a desconfiança e a insegurança nas relações.
       Mas o pior de tudo são os segredos que nos são impostos, segredos que, por lealdade para com quem connosco os partilhou, nos sentimos compelidos a guardar, quantas vezes sem sequer conseguir compreender porquê. Segredos esses que ás vezes só nos apresentam como tais depois de no los terem já contado. Que nos forçam a ser dissimulados ou até mesmo a mentir, impedindo-nos de ser verdadeiros com outras pessoas por quem temos o mesmo respeito e consideração. Que, inclusivamente, nos chegam a obrigar a ir contra os nossos próprios princípios. Que nos fazem fazer figura de ursos, mantendo conversas absurdas com outros que também eles guardam o mesmo segredo sem que o saibamos. Que, quantas vezes, quando vêm a lume, geram revolta ou ressentimento contra nós, fiéis depositários involuntários dos mesmos.
       A maioria dos segredos, cedo ou tarde chega ao domínio público, seria assim perfeitamente escusado terem essa qualidade. Pedir simplesmente para que não fossem apregoados aos sete ventos, confiando na descrição e sensatez do recipiente, deveria ser mais do que suficiente. 
       Uma coisa vos digo, a mim não me venham contar mais segredos, não quero saber, prefiro viver na ignorância.



COM MÚSICA

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Do que a casa gasta…



     A vida é sem dúvida muito mais agradável quando as coisas correm bem. No entanto, apesar de geralmente preferirmos evita-los, os atritos, as crises, as aflições, as dificuldades,  podem revelar-se extremamente úteis, nomeadamente no conhecimento do próximo.
     Lidar com pessoas educadas e civilizadas é relativamente simples, sendo fácil manter relações cordiais com aquelas por quem sentimos um mínimo de empatia. Não é, no entanto, nos momentos bons que se descobre o barro de que cada um é feito.
     Por exemplo, os relatos dos grandes desastres (naufrágio do Titanic, queda do avião nos Andes, ataque às torres gémeas, etc) estão pejados de exemplos de gente aparentemente fantástica que na hora H virou bicho ou, pelo contrário, de mosquinhas mortas que acabam por se revelar verdadeiros heróis. De forma evidentemente menos drástica, pessoalmente confesso já ter tido grandes surpresas em ambos os sentidos.
     Em situações normais, a bem da harmonia e do entendimento, as pessoas fazem geralmente um esforço por ser simpáticas e agradáveis, escondendo, ou pelo menos refreando, frequentemente o seu verdadeiro eu. Quando as coisas dão para o torto é que geralmente a porca torce o rabo.
     Ora, as relações humanas não sendo pera doce, o conhecimento mútuo é fundamental, não só para compreendermos como lidar com determinado individuo, como para fazermos uma gestão eficaz das espectativas. 
     A forma como lidamos com desentendimentos, maus entendidos, divergências de opinião, conflitos de interesses, etc irá, muito mais do que a partilha de bons momentos, formatar a nossa relação futura. Uma relação amorosa, de amizade, de trabalho, que tenha conseguido ultrapassar positivamente momentos complicados, difíceis, tornar-se-há garantidamente muito mais sólida e valiosa. As coisas podem não ser agradáveis de viver no momento, mas permitem-nos tirar a prova dos nove.
     É nestas alturas que eventualmente caem as mascararas e descobrimos a careca a uma série de características. Quem assume responsabilidade pelos seus actos e quem sacode a água do capote. Quem tem coragem de manter posições que declarou e quem na hora da verdade se acobarda. Quem tenta efectivamente entender os outros e quem se recusa a considerar qualquer ponto de vista que não seja o seu. Quem cumpre com a palavra dada e quem dela se descarta quando lhe é mais conveniente. Quem assume e pede desculpa pelos seus erros e quem tenta virar o bico ao prego, seguindo aquela máxima de que a melhor defesa é o ataque.  Yada, yada, yada
     São as crises que nos permitem separar o trigo do joio, compreender em quem podemos confiar e com quem nos devemos sempre manter de pé atrás. Entender se podemos acreditar no que nos dizem ou se as coisas nem sempre são bem como no las apresentam. Perceber se as relações são equilibradas ou se, na realidade, damos muito mais do que recebemos.
     Ninguém precisa de mostrar o seu verdadeiro eu numa jantarada, numa ida ao cinema ou numa sessão de jogo. No convívio social do dia a dia tudo tende a ser meio cor de rosa, geralmente é em tensão que os homens deixam sair o seu eu mais profundo. Mas nem tudo o que sabe mal faz mal,  há definitivamente males que vêm por bem, neste caso que nos evitam perder tempo, investir nas pessoas erradas, entregar-nos a quem não devemos, partilhar a nossa intimidade com quem não nos merece.
     Sem problemas, podemos demorar anos a descobrir as verdadeiras cores de cada um




COM MÚSICA

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Ás vezes é difícil manter a fé na humanidade…



   Hoje, tal como tantos de vocês suponho, estou em choque.
   Não faço ideia de quais possam efectivamente vir a ser as consequências reais, politicas, financeiras e não só, da presidência de Donald Trump, não tenho capacidade para tentar fazer essa análise, embora suspeite que nada de bom dela possa advir para o mundo.  Aquilo que, no entanto, me parece realmente inquietante e assustador, é o facto de, democraticamente, ter chegado à Casa Branca
   Ontem, milhares de pessoas validaram a intolerância, o preconceito, o racismo, a xenofobia, a misoginia, a homofobia, a agressividade, a superficialidade, a ignorância, o egocentrismo, de um ser humano, a meus olhos pelo menos, absolutamente desprezível. Compreendo que a outra não fosse também grande candidata, mas este homem simboliza tudo aquilo que, a meu ver, está errado com o mundo.
   A bem dizer, o facto de ter chegado tão longe, mesmo que não tivesse ganho, era por si só muitíssimo mau sinal, não restam dúvidas de que o bicho homem é, no geral, muito cretino, raios o partam.
   Não entendo, sinceramente, como pode haver quem ache que nada disto tem a ver connosco, só porque se passa lá longe, nas américas. Céus, como é possível não ver que estamos todos a ir pelo mesmo caminho, que hoje caiu trampa em Washington mas cheira mal um pouco por todo o lado, na Europa, no mundo?!
   Como optimista que sou, acredito sinceramente que tudo se resolva. Quero acreditar que, no longo prazo, haja cura para a estupidez humana. Que, de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, consigamos atingir comummente níveis de sensatez e civismo aceitáveis. A questão é quando e pelo que ainda vamos ter de passar até lá chegarmos
   Entretanto resta-nos, a meu ver, redobrar o esforço individual, não nos deixando desmoralizar pelo estado das coisas, não usando como desculpa as más acções alheias para validar as nossas, não perdendo de vista os nossos princípios e ideais. Continuemos a lutar pela nossa felicidade, a contribuir para a dos que nos rodeiam e a fazer a nossa quota parte por um mundo melhor. Não baixemos os braços, transformemo-nos, cada um de nós, numa vacina anti-trumpismo, vacinemos as nossas crianças, erradiquemos a doença...
   Por muito difícil que seja, mantenhamos a fé na humanidade senão, está realmente tudo f*#%$#!






COM MÚSICA