sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O mê livrito…



[…] Recentemente, senti-me impelida a escrever o livro que agora têm à frente. Foi despontando na minha cabeça muito antes de passar para o papel. Durante cerca de um ano, dei por mim com uma frenética actividade de tricô, croché, bricolage e afins, pois era o que me permitia ir pensando, estruturando, alinhavando.
Inconscientemente, pus a minha outra escrita, o meu blogue, em pausa, e em banho-maria a maior parte das minhas relações sociais, descurando família e amigos, não fazendo grande esforço em prol do convívio.
Sentia que tinha de o por cá para fora, nem que fosse para o atirar de seguida para o fundo de uma gaveta. Digamos que fui acometida de uma espécie de terrível «bloqueio de escritor» mas ao contrário. […]
Excerto da Introdução


Pois é… escrevi um livro… e não vai ficar na gaveta. ;)

Escrever um livro é, em muitos aspectos, semelhante a ter um filho…
Começa por não passar de uma ideia na nossa cabeça, um desejo, uma vontade crescente, até que nos decidimos a efectivamente arregaçar as mangas (bem, no caso dos filhos não são bem as mangas…) e a meter as mãos (sem comentários!) à obra. ;)
No início não dizemos nada a ninguém, não sabemos ainda se a coisa vai realmente para a frente, não nos apetece sequer falar sobre o assunto, não vá "agoirar". A partir de certa altura não resistimos a partilhar o nosso entusiasmo, quanto mais não seja com quem está mais próximo.
Durante a "gestação" só nós o sentimos. Vai crescendo lentamente dentro de nós, tomando forma, ganhando peso. Conforme se vai desenvolvendo vamos-lhe ganhando carinho, vai tendo para nós cada vez mais importância.
Até que um dia o mandamos cá para fora, onde irá ganhar vida própria. A partir de então existirá por si, sem controlo da nossa parte, sendo encarado e interpretado como cada um entender.
Estou neste momento em trabalho de parto. O nascimento, se tudo correr bem, irá dar-se em meados de Setembro. A tia já lhe "tricotou" uma capa linda, para vestir quando nascer. A equipa está a postos para o fazer ver a luz.

Este livro nada mais é, no fundo, do que um resumo deste blog que, vai para dez anos, venho escrevendo. Já me apetece, no entanto, tocar-lhe, cheira-lo, que se transforme numa coisa real (por oposição a virtual) e palpável.
Várias pessoas, ao longo do tempo, me têm incentivado a escrever um livro, algumas insistentemente. Anne, Cat, a vocês, em grande parte, se deve esta "obra", foi o vosso voto de confiança que me deu coragem para abraçar esta aventura.
Não tenho a presunção de me considerar nem mais feliz, nem mais sábia do que ninguém… tenho no entanto a consciência de que sou efectivamente boa a explicar coisas e a esperança de conseguir, graças a esse dom, ajudar o próximo. 
Do alto no meu meio século, cheguei à conclusão de que, na realidade, nada me faz mais feliz.

O percurso para aqui chegar não foi fácil.
Levei um ano inteiro a escrever o dito cujo, que (só) tem sensivelmente cem páginas. Escrever um livro com X capítulos não tem nada a ver com escrever o mesmo número de posts. Um livro tem de ter uma estrutura sólida, seguimento nas ideias, princípio meio e fim, um discurso coerente e não repetitivo. Enfim, dá muito mais trabalho e ocupa muito mais tempo.
Depois veio a saga das editoras. Estava mais do que preparada para a rejeição (afinal de contas a J.K. também teve de ir bater a montes de portas… hehehe), não o estava de todo para aquilo que pelos vistos é considerado normalíssimo; a total falta de resposta. Assim, de todos os meus contactos, saíram duas negas e uma proposta de publicação mediante o compromisso de compra de N exemplares.
Não foi, no entanto, nada que me incomodasse por aí além, só me ia (vai) dar mais trabalho pois a divulgação fica por minha conta. Optei então por uma publicação POD (print on demand), ideia que cada vez me agrada mais. O sucesso de um livro não se mede pelo número de exemplares impressos, mas sim pelo número de exemplares vendidos, e assim não há desperdício de papel.
Uma vez isto assente, passou-se aos finalmentes; revisão profissional, pedido de opinião isenta a alguém que não me conhece pessoalmente, opinião essa que por sinal nunca veio (é verdade, estou-me atirar de cabeça sem que uma única alminha tenha ainda passado os olhos pela "obra"… gosto quando os editores lhe chamam "obra", faz-me sentir importante… lololololol) e, finalmente, sobrecarregar a desgraçada da mana, que obviamente não tem mais nada que fazer, com toda a parte gráfica. Também ninguém a manda ser tão boa no que faz…

Como devem supor, não tenho qualquer ilusão de ficar rica com este livro. Tenho Santos no meu nome mas falta-me o Rodrigues.  Estou perfeitamente consciente de que a escrita a muito poucos dá algum dinheiro. Deu-me no entanto muito gozo, pois se há coisa que gosto de fazer é de escrever.
Curiosamente, para além disso, também me ajudou enormemente. Por razões várias, a minha vida não tem andado nada fácil nos últimos tempos e conseguir ser feliz não tem sido nada evidente. Seguir as minhas próprias ideias e "conselhos" foi uma espécie de "test drive" extremamente útil.
Não sou de forma alguma apologista do "faz o que eu digo, não faças o que eu faço", acho que devemos praticar o que apregoamos. Como tal, seria desonesto da minha parte cagar sentença sem conhecimento de causa.
Assim, deu-se um efeito de pescadinha de rabo na boca; o livro ajudou-me a ultrapassar as minhas provações e o facto de as enfrentar ajudou-me a escrevê-lo. :)

Espero ter o prazer da vossa presença no lançamento do mesmo. Prometo tentar não acertar em ninguém. E, no caso de realmente vos dizer alguma coisa, conto com a vossa ajuda para a sua divulgação, pois vou realmente precisar dela.

Mas deixemos tudo isso para mais tarde. Por enquanto queria só mesmo que soubessem que estou numa excitação com mais este "filho" que aí vem. :)


COM MÚSICA

domingo, 31 de julho de 2016

Para o infinito e mais além




Podemos, grosso modo, assumir dois tipos de postura na vida; aceitar-nos como somos ou tentar mudar para melhor.
A primeira é indiscutivelmente mais fácil e, mal ou bem, nitidamente a mais adoptada. A segunda faz para mim bastante mais sentido e dá sobretudo, na minha opinião, muitíssimo mais gozo.

O facto de todos estarmos perfeitamente conscientes de que ninguém é perfeito, parece ser desmotivante para alguns. Como se, assim sendo, não valesse a pena o esforço.
A própria noção de perfeição não podia no entanto ser mais subjectiva. Cada um de nós tem o seu ideal relativamente a tudo e há-os para todos os gostos.

Assim, muitos parecem considerar que, já que têm de aturar as imperfeições alheias, os outros que aturem também as suas.
Por outro lado, o “toda a gente faz” parece ser justificação para muita gente agir de uma forma que até poderá eventualmente não considerar correcta, mas que adopta na mesma por ser prática corrente.

Moldar, ou não, a nossa personalidade, a nossa postura perante a vida, os nossos hábitos parece, de qualquer forma, estar geralmente muito centrado nos outros.
Ora parece-me a mim que os principais interessados numa eventual melhoria somos antes do mais nós próprios e que tudo o resto vem por acréscimo.
A realidade é que, mudar não sendo nada fácil, todas as desculpas são boas para nos baldarmos a fazê-lo.
É um pouco como fazer exercício, ter uma alimentação saudável, etc… sabemos que devíamos, mas arregaçarmos efectivamente as mangas é outra história.

Mas então o que podemos, e na minha opinião devemos, nós tentar mudar?!
A vida é composta por acções e reacções, causas e consequências, e quantas vezes não se deve a nós próprios um mau resultado?!
Talvez não sempre, mas muitas vezes, nos damos conta de que metemos o pé na argola, a pata na poça, de que a responsabilidade de algum desfecho indesejado nos pode ser atribuída.
Apesar de geralmente não gostarmos de o reconhecer, nem para nós próprios, há um grilinho na nossa cabeça que nos diz que se tivéssemos agido de outra forma a coisa talvez tivesse corrido melhor.

Quantas vezes o que ele nos critica não é o que criticamos nós aos outros?!
Quantas vezes, ao olharmos para o espelho, não nos espantamos de reconhecer pessoas a quem apontamos o dedo. Quem não pensou já; céus, estou-me a transformar neste ou naquele.
É sem dúvida mais fácil identificar os defeitos alheios, por termos o necessário recuo para os conseguirmos ver com mais clareza, quem sabe até senti-los na pele.

Fisicamente, ao longo da vida, vamos aprendendo a lidar com o mundo que nos rodeia de forma cada vez mais controlada e eficiente. Vamos ganhando competências, dominando e aperfeiçoando técnicas. Vamos tomando consciência dos nossos pontos fracos e das nossas habilidades e trabalhando aquilo que mais precisa de ser trabalhado.
Porque não havíamos de fazer o mesmo com a nossa mente?!

O problema é que, mesmo quando fazemos um esforço genuíno para levar a vida de outra forma, não vamos com certeza conseguir mudar hábitos, muitas vezes enraizados, do dia para a noite.
Para além de difíceis, as mudanças são geralmente lentas, muito lentas, e parece-me a mim que se perdeu um bocadinho a paciência para a lentidão, quer-se tudo “aqui e agora”.

Lá vamos nós então falhar, e voltar a falhar, e falhar outra vez, e obter repetidamente os mesmos (maus) resultados, e voltar a ouvir a tal vozinha irritante… tão irritante que muitos preferem fazer ouvidos de mercador.
Quem quer mudar, tem de ter muita paciência, muita insistência, muita perseverança.
E quando alguma coisa se consegue, há sempre outra a trabalhar, mais arestas a limar, melhorias a fazer, é um trabalho que nunca está concluido.

A parte inglória é que raramente o nosso esforço é reconhecido pelos outros. Os que nos rodeiam têm geralmente uma ideia feita de nós e não se dão conta, quem não nos conhecia antes não tem termo de comparação.
O sentimento de injustiça poderá levar a algumas desistências. Fazer um grande esforço e continuar a ser tratado da mesma forma, como se nada tivesse mudado, não é grande incentivo e pode até gerar alguma revolta.

Não nos esqueçamos no entanto que não é pelos outros que mudamos.
Fazemo-lo para nos sentirmos melhor com nós próprios, para calar a tal critica interior, para tentar atingir melhores resultados na vida e, no que respeita a terceiros, a bem do entendimento e da harmonia, que em caso de sucesso existirão, quer sejam reconhecidos quer não.






COM MÚSICA

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Say cheese…



Estou cada vez mais viciada no Pinterest, onde me inscrevi há séculos, mas do qual só à relativamente pouco tempo compreendi realmente a utilidade.
Criei recentemente um board terapêutico de sorrisos.

«Terapêutico» parece-vos uma definição inadequada?!
Desenganem-se, é isso mesmo que ele é.
A vida para estes lados tem andado barra pesada. Há dias em que sinto dificuldade em consciencializar que acima das nuvens o céu está azul e o sol brilha.
Nesses dias, vou ao meu boardzinho, passeio-me um pouco por aquelas centenas de sorrisos, de novos e velhos, pretos e brancos, ricos e pobres, e sinto-me imediatamente outra.

Os sorrisos são contagiosos, é raro que não sejam retribuídos. E rir, sorrir, vá-se lá saber porquê, faz bem à alma.
Quem não se sentiu já absolutamente recauchutado depois de uma boa risota?!
A capacidade de nos rirmos das situações, dos outros, de nós próprios, alivia tensões, aligeira o peso da maioria das coisas.
Por alguma razão se inventaram as anedotas. Já diziam as Selecções do Readers Digest que «rir é o melhor remédio». O sentido de humor é uma característica extremamente saudável e, a meu ver, desejável.

Já todos devemos ter utilizado a expressão “só tu é que me fazias rir hoje”; exceptuando os eventuais casos em que seja utilizada com sarcasmo, trata-se geralmente quase que de um agradecimento.
Todos gostamos de rir, de sorrir, quem no-lo provoque está de certa forma a fazer-nos um mimo, a transmitir boas vibrações, sensações agradáveis.

No mundo cão em que vivemos, estas são cada vez mais raras e consequentemente preciosas. Somos diariamente bombardeados, em todas as frentes, com más notícias, tristes, deprimentes. O bicho homem está a conseguir lixar-se a si próprio e ao nosso lindo planeta azul de todas as formas e feitios. Raios, como somos estúpidos.

Assim, embora compreenda e subscreva a importância da partilha das nossas reclamações, da nossa revolta, da nossa indignação, do nosso apoio, relativamente a causas várias… acima de tudo parece-me fundamental partilharmos e provocarmos sorrisos. :)
Um sorriso faz milagres, consegue as vezes que nos sintamos felizes durante horas. É importante passar este vírus, empenharmo-nos na sua propagação. As pessoas “agem melhor” quando se sentem bem.

Distribuamo-los pelas pessoas que vamos encontrando durante o dia, ofereçamo-los regularmente àqueles com quem partilhamos a vida, provoquemo-los nas redes sociais… Façamos deles o nosso estandarte, a nossa causa, o nosso objectivo. Espalhemos o bom humor em vez de sentimentos negativos, que só nos fazem sentir, tanto a nós próprios como aos outros, ainda pior.

Para além disso, como dizia a Marilyn, é a melhor maquilhagem que podemos usar. ;)











COM MÚSICA

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Eu nem sequer gosto de futebol…





Não consigo entender a importância que assume o futebol na vida de algumas pessoas, confesso, o fanatismo clubista mexe-me um bocadinho com os nervos.
Não gosto de futebol mas AMO o meu país, o meu povo, de corpo e alma, do fundo do coração, com todos os seus defeitos e qualidades!!!
Como tal, não perco um jogo da nossa selecção. ;)

Este Euro despertou o melhor e o pior que há em mim…
Comecei por lhe assistir de uma forma cool, sentadinha no sofá a fazer tricô, levantando os olhos quando começava a haver agitação à minha volta.
A postura dégueulasse dos franceses em relação a nós, durante todo o campeonato, arrancou-me ao meu torpor e pôs-me a torcer fervorosamente, não só para ganharmos, como sobretudo para eles perderem. Desejei que nos encontrássemos na final, para lhes enfiarmos a arrogância num sítio que eu cá sei, de preferência sem vaselina.

A França fez parte da minha vida desde muito cedo. Vivi lá, fiz os meus estudos no Charles Lepierre, estive “casada” com um francês…
Sei a marselhesa de ponta a ponta (o que não é nitidamente o caso dos jogadores deles…), que considero um dos hinos mais bonitos do mundo e não consigo deixar de me emocionar de cada vez que a oiço cantada no bar do Casablanca. Os meus cantores preferidos são franceses (ou pelo menos francófonos); o Georges Brassens, o Jacques Brel, o Serge Gainsbourg, entre outros. A minha BD favorita é a franco-belga. Adoro os seus queijos, as suas saladas, a sua culinária em geral. Paris é uma cidade magnífica de que gosto muito.
Enfim, era perfeitamente menina para também ficar contente com uma vitória deles; “que ganhe o melhor”…

Demonstraram no entanto de tal arrogância, imodéstia, ordinarice, má fé, mau perder, que não sei sequer como é possível alguém estar do seu lado.
Já tinham um autocarro todo preparadinho para a vitória?! Ohhhh, que penaaa… lá vai ele com o tubinho de escape entre as rodas, tadinho...

Nós por cá festejamos, felizes e unidos.
Foi um jogo bonito, emocionante, até para quem não gosta de futebol.
Cometemos uma que outra infracção e tivemos alguns golpes de sorte?! Pois naturalmente que sim, apontem-me um jogo sem eles.
Ganhámos no entanto sem jogo sujo (contrariamente ao de alguns), sem o nosso menino de ouro e sabemos fazê-lo com humanidade e elegância.



Ganda galo, hein, ó francius?! :)



Obrigada «irredutiveis gauleses» (hahaha) por unirem desta forma a nossa nação valente, uma victória contra a Alemanha não teria garantidamente o mesmo sabor!!!



COM MUSICA

segunda-feira, 4 de julho de 2016

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Homem não chora

Homem não chora…
Mentira!
Apesar de muitos animais terem formas várias de exprimir as suas emoções, ao que apurei, o bicho homem é o único que efectivamente chora.
Se bem que há quem defenda que elefantes, cães e primatas também têm capacidade de o fazer…

A nossa sociedade não é no entanto grande apreciadora do choro, que encara geralmente como um embaraçoso sinal de fraqueza, que desde a infância tenta reprimir.
Do carinhoso “sê corajoso meu querido, não chores” ao mais violento chavão “um homem não chora, pá!”, tenta-se incutir nas crianças a ideia que devem tentar evitar chorar, noção essa que nos vai acompanhando ao longo da vida.

Choramos pelas mais variadas razões.
A dor, física ou psicológica, será talvez a mais comum. No entanto, muitas outras emoções nos podem fazer chorar; a aflição, a tensão, a revolta, a frustração, a vergonha e até mesmo algumas positivas como a sensação de alívio, por exemplo.

Tanta gente fica genuinamente perturbada com o choro alheio, que há quem disso se aproveite, usando-o para tentar levar a água ao seu moinho.
É um estratagema comum das crianças e um clássico muito usado por algumas fêmeas manhosas. 

É sabido que o choro é uma ferramenta de comunicação, um sinal de aflição que transmite uma necessidade de apoio, de ajuda.
É no entanto também uma valiosíssima válvula de escape, na minha opinião de má fama e terrivelmente subvalorizada.

Quantas vezes não nos sentimos francamente melhor depois de uma boa crise de choro?! Como se as lágrimas e os soluços expelissem cá para fora algo que nos estava a sufocar…
Aliás, parece que estudos sugerem que chorar limpa realmente químicos negativos do nosso sistema.
Para além disso parece que nos clarifica a visão. Depois de nos acalmarmos, ganhamos frequentemente nova perspectiva sobre as questões, como se a tensão nos estivesse a turvar o pensamento.

Por outro lado, chorar à frente de terceiros não é vergonha nenhuma.
É frequentemente o que despoleta desabafos que retínhamos dentro de nós, nos permite largar lastro e às vezes até conseguir a ajuda que, no nosso estado “controlado”, não queríamos pedir.
Quanto mais não seja, gera empatia, estimula o contacto físico, a oferta daquele ombro, quantas vezes mais do que suficiente para nos sentirmos logo melhor.

Ninguém consegue ser forte o tempo todo, todos temos momentos de fraqueza, de desalento.
Às vezes são pontuais mas outras vezes são fases. Há travessias do deserto muito longas, muito cansativas, muito duras.
Por muito optimistas que sejamos, por muito que mantenhamos, no geral, um espírito positivo, não é espectável que nos sintamos sempre bem, é normal vacilarmos de vez em quando.

Alturas há, inclusivamente, em que tudo nos põe de lagriminha ao canto do olho. Parece que tudo o que nos acontece, tudo o que nos fazem, nos dizem, bate com mais força.
Há mil razões pelas quais isto pode acontecer, desde alterações hormonais (na gravidez ou na menopausa, por exemplo) a problemas de saúde, cansaço, períodos da vida mais conturbados, etc…
Isto não é no entanto um sinal de fraqueza mas de fragilidade. É um sinal de alerta, mas não obrigatoriamente de alarme, que nos diz que estamos a passar por um período mais sensível e como tal nos devemos proteger, não nos expor desnecessariamente.

Há que desdramatizar os picos negativos dos electrocardiogramas, eles fazem parte da vida, tanto como os altos.
Há que interiorizar e aceitar que, quer queiremos quer não, temos de passar por eles.
Há que continuar a ser felizes por detrás das lágrimas, mesmo que no momento não consigamos sentir o calor dessa felicidade. Todos sabemos que por cima das nuvens o céu está azul e o sol brilha.

O que não é saudável, é perigoso mesmo, é abandonarmo-nos a estados de espírito negativos, acomodarmo-nos neles, por risco de cairmos em depressão ou de entrarmos em desespero, estados dos quais o retorno é muitíssimo difícil.
Há que saber não só aceitar os downs como parte integrante da vida como também reagir-lhes, tal como o cavaleiro que cai do cavalo deve voltar o mais rapidamente possível para a sela.





A capacidade de chorar pode aliás salvar-nos a vida… quem não se lembra do fabuloso Breakdown do Alfred Hitchcock?! ;)



COM MÚSICA

quinta-feira, 9 de junho de 2016

De cavalo para burro



Não vivemos tempos nada fáceis, raios os partam…

Pessoalmente não me lembro de nenhum período em que tanta gente, de todas as camadas sociais, tivesse de fazer downgrade ao seu estilo de vida.
Passar de cavalo para burro, como se costuma dizer, é terrivelmente penoso.

Há tempos falavam-me de alguém que, coitadinho, tinha descido de tal forma na vida, que hoje em dia já só tinha X€ por mês para viver.
Afluíram-me imediatamente à cabeça palavras começadas por F… bips de censura e ###s... pois com essa “miséria” nós cá em casa aguentávamo-nos mais de seis meses!!!

No entanto, depois de recuperada do meu ataquezinho de inveja polvilhado de self-pitty, conhecendo a pessoa em questão e aquilo a que estava habituada, dei-me conta que deve de facto ser lixado.
De onde partimos, neste caso, não altera em nada a situação, é o sentimento de perda que custa. A morte de um filho tanto dói a quem tenha dez, como a quem tenha um…

O que nos agrada, nos atrai, e não temos; encanta-nos, faz-nos sonhar, motiva-nos até. Aquilo que apreciamos e sem o qual ficamos; dói.
Estou absolutamente convencida que seja muito mais duro perder a visão do que nascer cego, perder um grande amor do que nunca o ter vivido, viver debaixo da ponte quando já se teve uma casa… o termo de comparação é que dá cabo de nós.

Dito isto, a vida são dois dias, pelo que é bom que os aproveitemos (ambos…lol) da melhor forma possível. Para além disso, não há dúvida que estas situações são excelentes oportunidades de crescimento interior.
Não sendo de forma alguma fáceis, não precisam também, a menos de casos extremos, de se transformar em dramas. O sofrimento não vai melhorar a nossa situação, antes pelo contrário, há portanto que tentar atenua-lo na medida do que nos for possível.
Para além disso, realidade é que se consegue viver, e bem, com muito menos do que aquilo que julgamos.

O truque começa por nos habituarmos a olhar tendencialmente para baixo e não para cima. Se é verdade que há quem tenha muito mais do que nós, há também quem tenha francamente menos e é preciso ter essa noção para conseguirmos pôr as coisas em perspectiva.
Matutar sobre o que nos faz falta, provoca sentimentos de frustração, de revolta, azeda-nos a alma. Dar valor às coisas boas que  temos, gera uma sensação de reconfortante gratidão.
Se para além disso interiorizarmos que há coisas muito mais graves do que as questões materiais, que há quem se debata com problemas de saúde, quem tenha de lidar com a morte de entes queridos, etc… ver o copo meio cheio tornar-se-há mais fácil ainda.

Assumir a nossa situação, a meu ver, também ajuda bastante. Não estou a sugerir que ponhamos um anúncio no jornal mas passar por dificuldades, ainda para mais numa altura em que isso é o pão nosso de cada dia para tanta gente, não é vergonha nenhuma.
Parece-me importante sobretudo para que não esperem de nós aquilo que não podemos dar.

Estou a rever o Friends com o meu filhote. Nem a propósito, o episódio de ontem era justamente sobre o tema das dificuldades financeiras.  Três deles ganham bem, enquanto que os outros três contam tostões, não conseguindo acompanhar o estilo de vida dos primeiros, criando-se assim um fosso que divide o grupo.
Inútil será dizer, spoilerrr, que tudo acaba por se resolver.

Nesse sentido, estas alturas até são fixes para separar o trigo do joio; um verdadeiro amigo não se chateia por não conseguirmos acompanha-lo ao restaurante da berra, aparece-nos em casa e traz o jantar… ;)
Meter o orgulho no saco (para não dizer noutro sítio) e aprender a aceitar a ajuda alheia e a apreciar genuinamente os miminhos que nos queiram fazer, ajuda muito a aguentar o barco.
Tudo custa sempre mais quando nos sentimos sozinhos, desamparados. Se nos isolarmos sentiremos muito mais o peso da nossa condição.

Mudam-se os tempos, há que  mudar de vida.
Tentar manter os padrões aos quais estávamos habituados só nos levará ainda mais ao buraco.
Há que encarar o facto que quando não há guito, não há palhaço mas, se nos deixarmos de vergonhas, podemos perfeitamente manter uma vida socialmente activa e gratificante.
Não podemos ir ao restaurante? Jantemos em casa, cada um traz qualquer coisa.
Não dá para ir ao cinema? Combinemos uma noite de jogo.
Não temos dinheiro para oferecer uma prenda decente? Organizemos uma vaquinha.
Há sempre soluções alternativas.

Se vos dissesse que estou satisfeitíssima com a minha condição actual, estaria a mentir, custa-me, custa-me para caramba, sobretudo porque já conheci outro tipo de vida, lá está.
Agora não posso negar que, a necessidade fazendo o engenho, muitas coisas positivas nasceram deste apertar de cinto.

Organizo regularmente aquilo a que chamamos “Chás das trocas”, simpáticos convívios em que cada um trás coisas que já não quer e leva para casa o que lhe apetecer. Fazemo-los temáticos; de roupas e acessórios, de livros, de coisas para a casa. São sempre muito concorridos e animados, com a enorme vantagem de o que sobra ser entregue a causas de solidariedade.

Passei a fazer eu montes de coisas em vez de as comprar; roupas, bijutaria, sacos, malas, almofadas, candeeiros, objectos vários, prendas para os amigos… na maior parte dos casos reutilizando materiais que já tinha em casa ou que me dão. Não imaginam o gozo supremo que me proporcionam estas manualidades.

Desenvolvi jeito e gosto pela jardinagem. Trago pés e rebentos de casa dos amigos, apanho-os na rua, no “lixo” da jardinagem da zona e planto-os em casa. Reproduzo as plantas, seco folhas e flores, aproveito-as para decoração, ofereço-as.

Isto só para dar os exemplos mais flagrantes do lado positivo da coisa.


Não consigo olhar com rancor ou azedume para belos corcéis, sinto-me feliz por eu própria já ter montado uma pileca e dou graças pelo meu burrito, que há quem ande toda a vida a pé. ;)



COM MÚSICA