A morte do Steve Jobs mexeu mais comigo do que alguma vez
poderia ter imaginado...
Poderá talvez dever-se ao facto de ter acontecido numa
altura do mês em que estou sempre especialmente sensível ou simplesmente á
descoberta, instigada pela curiosidade, do grande homem que aparenta ter sido,
em mais do que um sentido.
Bem, o certo é que, entre outras coisas, me pôs a pensar
sobre o assunto.
Há quem se sinta desconfortável com o tema da morte. Quem
não goste de falar ou sequer de pensar nela. Há pessoas a quem a simples noção
angustia e gera ansiedade, tal como a mim o faz a de infinito (um dia conto-vos).
O pior de tudo parece ser encarar a própria. Se alguns
conseguem enfrentar a dos outros com uma certa coragem, a ideia da sua é-lhes
intolerável.
A mim, esse medo é uma cena que não me assiste. lol
Desde que me lembro, sempre encarei a morte como a coisa mais
natural da vida.
Talvez por isso tenha tido aquela ”ideia de génio” aos quatorze anos...
simplesmente não tinha medo.
Não digo de forma alguma que, se amanhã me anunciassem que tinha X
tempo de vida, fosse ficar descontraída, feliz e contente.
Deve ser absolutamente
aterrador e não invejo quem já teve de passar por isso.
Quero aliás deixar aqui um grande beijinho a alguns, que sei
que me leem de vez em quando, e que já passaram pela experiência de lhes ser
dada uma notícia do género.
O que quero dizer é que, para mim, tendo perfeita
consciência de que é uma coisa inevitável, aceito-a com a mesma naturalidade
com que aceito o meu nascimento. Não lhe resisto. Basicamente, todos lá iremos parar (em sentido
próprio).
Em grande parte graças ao amigo Steve, consegui então, de certa
forma, racionalizar e compreender tudo isto... tive uma epifania na parte do discurso em Stanford em que
ele relata que o médico o aconselhou a “pôr os assuntos em ordem”.
Pus-me a pensar no que faria se me dissessem isso...
pensei... pensei... e nada me ocorreu que precisasse de ser
posto em ordem. lol
Deu-se então a tal epifania... eu tenho mantenho sempre tudo "em ordem"!!!
Isto não quer dizer que já tenha dito tudo o que tinha a
dizer, feito tudo o que tinha a fazer, dado tudo o que tenho a dar.
Não quer
dizer que esteja pronta a entregar a alma ao criador.
Não quer dizer que não
tenha muita coisa por resolver, muitos assuntos para tratar.
Seriam no entanto exactamente os mesmos, se me lessem uma
sentença de morte.
Julgo que não faria nada diferente.
Não tenho nada por resolver que pudesse já ter resolvido ou
resolver agora, de repente, só porque tinha uma deadline.
Dou constantemente a entender àqueles de quem gosto, por
actos, por palavras, como as valorizo, como as aprecio, como são importantes
para mim.
Gozo da sua companhia sempre que é possível e oportuno.
Logo que dou por um erro da minha parte, uma atitude que assuma
como menos correcta, uma injustiça que tenha cometido, tento retratar-me, peço
desculpa.
Não há nada que gostasse de dizer a alguém que não tenha já
dito.
Não me arrependo de nada que alguma vez tenha feito e ainda
pudesse de alguma forma corrigir.
Não acho que conseguisse transmitir, nuns meses, nuns anos, tudo
aquilo que gostaria de transmitir numa vida aos que me rodeiam. Não dá para “compactar”...
a vida é para ser vivida e partilhada, não resumida.
Também não me parece que pudesse dar-me melhor a conhecer, “para
mais tarde recordarem”. What you see, is what you get, tem sido o meu lema. Tenho
também largado muito lastro por aí, como aliás qualquer um de nós. As nossas
pegadas ficam.
Não há nada que gostasse de fazer, nenhum sítio onde
gostasse de ir e tivesse oportunidade/pudesse/quisesse/conseguisse agora, lá porque “as condições de vida” tinham passado
de vitalícias para contrato a prazo.
Finalmente, não acredito em “últimas vontades”, tenho
experiência suficiente do que lhes acontece. Que o diga a minha pobre avó, que jaz ao lado da sogra que não
gramava, quando sempre gritou aos quatro
ventos que queria ir “para a terra”.
A brilhante conclusão a que cheguei então, foi a de que para
que a morte não nos assuste, dado que é tão inevitável como encher os pulmões
de ar quando nascemos, ajuda muito
vivermos com as coisas permanentemente em dia.
Meus amigos, não se assustem, nem levem isto no mau sentido, mas... ponham os vossos assuntos em ordem! ;)

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