Era bom que todos os seres humanos conseguissem viver em paz
e harmonia uns com os outros. Infelizmente, por mil e duas razões, esta não é
uma realidade no nosso mundo.
As pessoas desentendem-se, chateiam-se, zangam-se, desiludem-se...
Quanto mais alto tiver sido colocado aos nossos olhos aquele
com quem nos incompatibilizamos, maior será obviamente a queda.
Qualquer rotura provoca dor, mágoa, ressentimento...
Tenho vindo a reparar, não só por observação dos que me
rodeiam, como inclusivamente por auto-análise que, nessas situações, temos
tendência a tornar-nos extremistas.
A imagem do outro vai-se rapidamente denegrindo aos nossos
olhos, assomando-se-nos o seu lado menos agradativo. Vamos-lhe progressivamente
retirando valor... até que um dia damos por nós a considera-lo uma perfeita
besta.
Não tenho conhecimentos de psicologia que me permitam fazer
interpretações sobre a razão de ser deste fenómeno. Arrisco-me talvez a sugerir
que possa ter alguma coisa a ver com o instinto de auto-protecção, com o facto de
serem mais fáceis de suportar os sentimentos nefastos que a situação envolve,
se o outro fôr efectivamente uma cavalgadura.
Não sei...
Salta no entanto à vista que dar redea solta a este impulso,
aparentemente natural no bicho homem é, por razões várias, muito indesejável, tornando-se imprescindível controla-lo.
Senão vejamos...
Se com a pessoa em questão nos relacionámos anteriormente
com algum prazer, por alguma razão há de ter sido.
Podem entretanto ter acontecido variadíssimas coisas que
tenham gerado sentimentos negativos e até se podem inclusivamente ter
descoberto facetas que não se suspeitavam, mas algo de positivo há de ter.
Parece-me importante que o consigamos continuar a ver.
Notem que não estou de todo a sugerir que viremos Madres
Teresas... parecem-me perfeitamente legítimos sentimentos de raiva, de traição,
de injustiça, de revolta, de desilusão, de desprezo, etc, relativamente a
certas situações.
São aliás, na minha opinião, tão importantes nas nossas
vidas como os outros, os que nos dão prazer. Mas isto é conversa para outro
post...
Parece-me simplesmente fundamental que, em qualquer processo,
mantenhamos a capacidade de ver a cores.
Se não o fizermos, isso irá afectar o nosso passado (*), presente
e futuro...
PASSADO:
Se encararmos o outro, no presente, como sendo uma perfeita
besta, isso irá reflectir-se na nossa noção de passado.
Chuta-lo do pedestal para a sarjeta, sem passar pela
casa partida e sem receber os dois contos, começa por não abonar grande coisa a
favor do nosso discernimento.
Por outro lado, de repente passamos a atribuir-lhe atitudes,
posturas, pensamentos e intenções com retro-activos, que possivelmente não existiram.
Vamos
aos poucos apagando da mente os bons momentos, até só quase restarem os desagradáveis. Interiorizamos o que significou para nós, à luz da forma como o vemos hoje, o passado perdendo qualquer peso.
Assim, passamos a encarar um caso de amor como um erro
crasso, uma proposta de emprego como uma oferta envenenada, uma amizade como
uma ilusão.
Há coisas que acabam e ás vezes, infelizmente, acabam mal.
Não devemos no entanto deixar que o fel do presente envenene
a memória do passado.
PRESENTE:
Encarar o outro como se fosse o pai de todos os males,
também não traz bem nenhum ao presente, pois deixamos de conseguir ver com
clareza.
É um clássico, por exemplo, atribuirmos todos os “males” à
persona non grata, isentando à partida quem a rodeia.
Ora se alguém tomar o seu partido, se assinar por baixo das
suas ideias, se subscrever a sua postura, se apoiar a sua atitude, não será uma
falta de consideração pelo mesmo, partir do princípio que está, de alguma forma, a ser manipulado?
Não será uma visão demasiado simplista?! Onde colocar então o livre arbítrio?
Outra coisa recorrente é a mania da perseguição. O outro
pode não estar nem aí mas, como é mau como as cobras, uiiiii, o mais certo é que tudo o
que faça seja para lixar alguém em geral e provavelmente nós, em particular.
É a visão que os filmes nos dão do “mau da fita”, das Glenn Closes,
que se imiscuem nas nossas vidas.
No mundo real, há muito menos gente a congeminar para f... o
próximo do que possa parecer. Não é, que não possa acontecer, mas a maior parte
das coisas, na realidade, acontece por acaso e não por premeditação.
FUTURO:
Ás vezes temos a sorte de nos incompatibilizarmos com
pessoas que podemos descartar das nossas vidas. Pomos um ponto final, damos um
passo em frente e seguimos caminhos separados.
Infelizmente nem sempre é assim. A pessoa em questão pode,
por exemplo, trabalhar no mesmo sítio que nós ou, pior ainda, ser o/a pai/mãe
dos nossos filhos.
Se não conseguirmos ver neles nada de positivo, como irão
ser as relações que obrigatoriamente iremos continuar a ter? O que iremos
transmitir ás pessoas que convivem com ambos? Que ambiente iremos gerar, se
reinar a desconfiança, a falta de crédito, a constante presunção de más
intenções?
Ninguém é completamente bom, nem completamente mau. É importante que consigamos ver alguma coisa em cada prato da balança.
Senão, citando o Capitão Blight (private joke, sorry) "a nossa vida é um inferno".
Concluindo, o outro, seja lá ele quem fôr, mesmo que a
nossos olhos se tenha portado mal, mesmo que tenhamos descoberto a seu respeito
traços de carácter que não se coadunam connosco, mesmo que nos tenha de alguma forma
magoado, merece o benefício da dúvida.
Talvez não o mereça por ele, mas merece-o
garantidamente por nós, pela nossa paz de espírito. ;)
(*) O post de hoje era para ter sido escrito na semana
passada, mas esta história do passado pareceu-me demasiado “grande” para caber
dentro de outro post. Decidi assim escrever o outro primeiro. ;)

0 comments:
Enviar um comentário