Temos tendência a encarar o passado como sendo uma coisa
estática, imutável, uma sequência de factos
consumados.
Cada vez mais me convenço de que não é bem assim...
A noção que temos de passado é sem dúvida composta pelo que
vivemos, o que foi feito, o que foi dito, o que aconteceu... está no entanto também
estreitamente ligada ao que vamos assimilando ao longo da vida e àquilo que somos
no presente.
A percepção do passado, individual ou colectivo, passa pelo
conhecimento que vamos adquirindo com o
tempo, o evoluir da nossa personalidade, as alterações emocionais por que vamos
passando.
Em suma, o nosso passado, memória factual mas também
emocional, acaba por ser uma coisa muito subjectiva e diferente consoante os
estádios da nossa vida, dado que uma afecta a outra.
Jack Nicholson descobriu, já quase com quarenta anos, que
aquela que julgava ser sua mãe era na realidade sua avó e que a sua mãe era
aquela que julgava ser a sua irmã.
Um Jack de trinta anos recordaria o seu passado como “a
minha mãe isto, a minha irmã aquilo”. O Jack actual atribuirá outros nomes ás
caras e aos papeis que encarnaram na sua vida. De repente o passado mudou...
Uma das minhas irmãs nasceu no dia 10 de Maio de 1968. Até certo ponto da sua vida, a sua data de nascimento não passava de um dia no
calendário, importante para si e para os que lhe eram chegados...
A partir do momento em que tomou conhecimento da questão da
revolta estudantil, esta passou a fazer parte integrante do seu passado, quanto
mais não fosse pela coincidência.
Eu e ela partilhamos o mesmo pai, a mesma mãe, a mesma
infância.
No entanto, ao partilharmos memórias, há coisas de que, uma
ou outra, pura e simplesmente não se lembra. Teoricamente estaríamos as duas
presentes mas, por alguma razão, para uma de nós foi simplesmente apagado da
memória, não existe, não faz aparentemente parte do nosso passado, dado que não
nos lembramos.
Da mesma forma, todos teremos certamente conhecimento de actos
totalmente repudiados por quem os praticou. E não estou a falar em mentiras ou encobrimentos
mas em acções que foram totalmente apagadas da mente de quem as cometeu e para
elas são genuinamente como se nunca tivessem acontecido.
A psicanálise vai muitas vezes repescar memórias
desvanecidas, de actos cometidos ou sofridos, que passam de um momento para o
outro a fazer parte integrante daquilo que somos, daquilo que fomos.
Até no que diz respeito à história universal as opiniões
divergem, coabitam várias versões e interpretações do passado.
Ao fazer uma pequena pesquisa para escrever este post, dei
de caras com este site.
Quem o escreveu (a menos que eu tenha feito uma interpretação completamente errónea
do mesmo) não acredita no holocausto nazi. Se alguém que o leia se
deixar convencer pelos seus argumentos, estará a criar um passado diferente
daquele em que acreditava.
Resumindo, o passado está constantemente a ser reescrito
pois não é uma simples acumulação de factos mas também as sua compreensão e
interiorização. Acrescentamos ou anulamos dados, encaramo-los com diferentes
olhos, julgamo-los pelo que somos no
presente.
Assim, se somos resultado da nossa experiência de vida, a
forma como a encaramos acaba por moldar não só aquilo que somos mas também aquilo que fomos.
"Quando se gosta da vida, gosta-se
do passado, porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória
humana."
Marguerite Yourcenar

2 comments:
Primeiros! ;-)
Resumindo, o passado está constantemente a ser reescrito pois não é uma simples acumulação de factos mas também à sua compreensão e interiorização.
Referes-te concerteza à nossa memória do passado ou a acontecimentos não factuais, pois um facto - pela sua própria definição - não pode sofrer qualquer tipo de interpretação. Simplesmente aconteceu.
A memória do passado, isso é outra conversa... ver: Perceptional Blindness
lol
Bem... este post presta-se sem dúvida a "discussão" interminável... só depois de o escrever me dei conta disso... ;)
Respondendo à tua questão:
Sim e não.
É mais do que evidente de que as coisas, sejam elas quais forem, acontecem ou não acontecem e isso não muda com o tempo.
Tiveste ou não um filho, tiveste ou não um acidente, a bomba antónia foi ou não lançada em Hiroshima...
Os factos não se alteram ao longo do tempo (a não ser nas histórias de ficção cientifica...lol).
Só que a “noção” de passado, não só a memória factual propriamente dita - lembras-te ou não te lembras, estás ou não consciente de certo facto – mas também a sua apreensão, digestão, interiorização, etc... acaba por ser subjectiva.
Pega no exemplo do Jack Nicholson, que para mim é o melhor para exemplificar o que quis dizer.
Aos vinte ele tinha uma mãe e uma irmã, aos quarenta uma avó e uma mãe.
O passado dele, relativo aos dez anos de idade, por exemplo, é sempre igual, claro está, o que fez, o que disse, o que aconteceu...
Mas a “noção” de passado altera-se radicalmente consoante a idade em que esteja a pensar/falar dele.
Isto passa-se evidentemente relativamente a UM individuo, que passa a ter uma memória emocional e uma abordagem ao assunto completamente diferente. Para aquelas duas mulheres, por exemplo, essa faceta do passado é sempre a mesma, dado que tinham conhecimento dos factos.
Agora imagina que ele escrevia a sua biografia (uma biografia é, de certa forma, um apanhado e eventual interpretação do passado, certo?!), esta ia certamente ser completamente diferente consoante a altura em que o fizesse.
A mesma teoria se pode aplicar à história da humanidade, em geral...
Era só isso que queria dizer... os factos não mudam, mas aquilo a que chamamos passado, aquilo que encaramos como sendo o nosso passado, individual ou colectivo, pode mudar, sim... ;)
Enviar um comentário