Tenho vindo a ser, cada vez mais frequentemente, assolada
por memórias antigas. Deve ser um prenúncio de velhice. lol
Recentemente lembrei-me de uma história, no mínimo curiosa:
Há muitos, muitos anos, enganei-me a discar (os putos já nem
sabem o que isso quer dizer...lol) o número de telefone de um amigo.
Atendeu-me uma velha, do mais ordinário que se possa
imaginar, que me desancou de cima a baixo, sem qualquer razão aparente.
Comentei o facto com os meus amigos e, azar dos azares para
ela, lembrava-me do algarismo que tinha marcado errado. Como
adolescentes parvos que éramos, ligámos então outra vez e a velha vai de voltar
a cuspir um chorrilho de impropérios.
Chatear “a velha do Álvaro” (o tal amigo para quem queríamos
ligar originalmente), como lhe chamávamos, transformou-se então num hobbie, ao qual nos dedicávamos com bastante regularidade.
Mal ouvia a nossa voz, desatava a vomitar insultos,
fazendo-nos rir a bandeiras despregadas.
Passada a novidade, os telefonemas foram-se espaçando, até acabarem por completo. Até que um dia alguém se lembrou de que há muito tempo não
chateávamos a velha...
Voltámos então a ligar mas, dessa vez, não nos insultou. Atendeu
com voz cansada e sofredora e contou que tinha sido operada, que não estava
nada bem.
Ficámos cheios de pena dela e roídos de remorços por lhe termos
moído o juízo durante tanto tempo.
Ligámos para as informações e pedimos a morada associada
áquele número de telefone. Depois, passámos por uma florista, comprámos uma
rosa cada um e fomos, que nem Egas Moniz de corda ao pescoço, bater à porta da senhora.
Não sei do que estávamos à espera, mas garantidamente não do
que aconteceu...
Quando percebeu quem éramos, ficou emocionadíssima, de
lágrimas nos olhos. Perguntou-nos porque não ligávamos há tanto tempo, que
julgava que já nos tínhamos esquecido dela. Contou-nos que éramos a sua única
companhia. Abraçou-nos e disse que gostava muito de nós.
A minha memória acaba aqui e, estranhamente, não faço a mais
pequena ideia se lhe voltámos ou não a ligar...
Outra história antiga, que me farto de contar:
Por alturas do pós 25/4, período de ânimos exaltados, na
fabrica onde o meu pai trabalhava como administrador, um empregado pediu para
falar com ele.
- Então o que se passa?!
- Sr. R, queria perguntar-lhe porquê que o Sr. R não gosta
de mim...
- Não gosto de ti oquê, homem?! Que disparate, porquê que
dizes isso?!
- Não gosta não, Sr. R... Aos outros trata-os por “idiota”, “sacana”,
“maricas”... a mim é sempre o “Sr. X...”
E era verdade... o meu pai não gostava mesmo dele. E era
efectivamente por isso que o tratava com a maior das cerimónias. Sempre teve um
excelente relacionamento com os trabalhadores mas só se permitia “insultar”
aqueles com quem tinha confiança, que apreciava, de quem gostava e que sabia
que gostavam dele.
Devo ter herdado isto... só sou “a bitch” para as pessoas
que são de alguma forma importantes para mim. Só a elas mando bocas, provoco, pico, chamo “nomes”.
Aqueles de quem não gosto ou que me são indiferentes, não
têm direito a esse tratamento.
No nosso grupo de amigos, ninguém quer ser “o primeiro a
sair”, sabendo de antemão que vai ser
alvo de “corte e costura”...
Uma vez fomos todos à rua despedir-nos de uma amiga, que fez
vinte manobras para retirar o carro, quando bastavam duas ou três.
Estávamos todos de lencinho branco na mão a abanar (gracinha
que tínhamos decidido fazer) quando alguém murmura entre dentes “Chiça, que não
sabe mesmo conduzir...” Ao que outro responde “Bolas... pelo menos deixa-a
chegar lá acima ao portão, antes de começar a cascar...” lol
É assim, quem não está, fica quase sempre com as orelhas
quentes... ;)
Também não “perdoamos” as idiossincrasias de cada um,
gozando-o, tanto pela frente, como pelas costas, à primeira ocasião.
Um porque grunfa, outro porque lança santolas, é
hipocondríaco, tem mau feitio ou a mania da arrumação... Those last two would be me. ;)
Os “#$%”## chegavam a deslocar um qualquer objecto na sala,
quando eu virava costas, pondo-se de relógio em punho a contar quantos segundos
demorava a dar por isso e a repôr a coisa no sítio.
Onde estou a querer chegar é a que love moves in mysterious
ways...
“A velha” percebeu que lhe ligávamos para ouvir os disparates
que nos gritava ás orelhas, fazendo-nos portanto a vontade em troca da “companhia”
que lhe faltava.
Uma expressão/palavra teoricamente insultuosa pode na
realidade ser afectuosa, carinhosa, dependendo do contexto e tom de voz.
Um “vai à merda” pode até ser sensual. ;)
Um “vai à merda” pode até ser sensual. ;)
As crianças testam os seus limites com os pais pois contam
com o seu amor incondícional. É sem dúvida com as pessoas de quem nos sentimos
mais próximos que estamos mais à vontade. É com elas que brincamos, sem medo de
ser mal interpretados, podendo dar-nos ao luxo de ser “mauzinhos, porque sabem
que gostamos delas. Todos temos um lado pirralho traquinas dentro de nós, parece-me saudável deixá-lo sair de vez em quando.
Sem dúvida que ás vezes, sem dar por isso, se podem passar os
limites. Mas se realmente há amizade/amor, um queixa-se, o outro desculpa-se e
amigos como dantes. ;)

5 comments:
Hipocondríaco o #%&?»*! É mesmo doente.
Como nunca me insultas, já percebi que não gostas de mim...
Ó CR, &#**%! e vai dar uma volta que está um muito bom dia!
C: Não é doente, é muito doente... (mental...lol)
Parabéns pelo aniversário do "enforcamento". ;)
M: Calma, também não passo a vida a "insultar" aqueles de quem gosto... lol... a "regra" é mais ao contrário... lolololol
Não deu direito a passeio, apesar do dia bonito... Para além da família em peso ter decidido visitar-nos mandei uma "$%&## de uma joelhada na esquina da porta da rua e estou completamente coxa. :(
...com este post passaste as marcas e estás mesmo a pedi-las .....é só um gajo virar as costas por um segundo e zás "%$###&!!!"...já estou a imaginar o esgoto de impropérios....pois "#!!!#&#&" também para ti !!!
lol
Também gosto de ti... ;)
"#$%##!!!
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